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domingo, 30 de setembro de 2012

Nada é maior que o meu amor

Não sei quanto tempo se passou entre o momento que eu li aquele bilhete e a minha primeira reação diante dele. Só acordei da espécie de transe em que entrei no momento em que senti o meu estômago afundar e as coisas ao meu redor de repente pareceram estranhamente irreais – aliás, o que de “real” vinha acontecendo nos últimos tempos? A verdade é que eu sabia que não dava para parar e refletir sobre essa e tantas outras questões que rondavam na minha mente; a verdade, aliás, era uma só: eu perderia para o tempo se continuasse onde estava, fingindo que além das paredes daquele hospital não havia uma série de coisas erradas a serem consertadas. 
Não pensei na minha saúde, na minha disposição ou muito menos se seria pega; levantei-me da cama, vesti minhas roupas que estavam guardadas no armário do quarto e abri a porta. Sempre soube que isso de quando as pessoas querem fugir de hospitais os corredores estão absolutamente vazios era história de filme, por isso não me surpreendi quando coloquei a cabeça para fora do quarto e vi enfermeiros e médicos andando por todos os lados. Indignada, fechei a porta, olhei ao redor e a solução se iluminou à minha frente, além da janela de vidro oposta à porta: meu quarto era no primeiro andar. 
Pulei pela janela, segui por um corredor estreito e dei de cara com os fundos do hospital. Por lá estava lotado de funcionários trabalhando absortos nas mais diversas funções, de modo que eu consegui me misturar sem muita dificuldade. Quando consegui cruzar o portal de entrada do hospital, me dei conta de que não sabia para onde seguir – mas foi um instante breve de incompreensão. Óbvio que não existia outra saída, nunca houve; a resposta para todos os problemas que surgiram estava tão estampada à minha frente desde a primeira vez que a vi que era até difícil acreditar que eu tinha sido tão trouxa. 

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O prédio parecia abandonado, como se qualquer preocupação em vigiá-lo houvesse desaparecido. Perguntei-me a razão daquilo, mas não me ative muitos nesses detalhes. Segui diretamente para o terceiro andar, como se minha intuição me guiasse até onde eu precisava ir. Não pensei no caminho, sequer tracei-o – apenas segui a passos firmes em direção ao terceiro andar e, chegando lá, diretamente até aquela porta, cuja sala eu já conhecia bem melhor do que eu gostaria. 
- Você é tão previsível. Claro que seria essa sala. – eu disparei sem me conter, assim que entrei. 
Camila, que estava parada no centro da dala, virou para me encarar, sorrindo de orelha a orelha. Ela estava linda, como se um raio de luz a tivesse atingido desde a última vez que nos vimos. Mas o meu olhar não demorou muito nela, porque instantaneamente disparou para o lado oposto da sala, em uma cama isolada, onde Alex estava estendido. Vi o seu peito inflar de longe – ele respirava. E não tinha nenhum fio eletrônico ligado a si, o que me fez concluir automaticamente aquilo pelo quê eu torci todos esses dias: finalmente ele estava bem. 
- Não queria complicar muito as coisas para você. – ela respondeu de ombros, como se fosse aquilo o previsível de se dizer - Não me parece muito inteligente. 
- E o seu prédio me parece muito abandonado. – eu tentava provocar para ganhar tempo enquanto pensava no que fazer. Por que diabos a gente tem essa mania fazer as coisas sem pensar no que fazer em seguida? - Não está subestimando quem está fora dos muros? 
- Não existe ninguém para ser subestimado. – ela fez uma cara de nojo enquanto me encarava – A única pessoa que já foi insolente o suficiente para me enfrentar foi você. Mas isso acaba hoje. Você está aqui. Aliás, quanta demora, hein? 
- Se me queria logo aqui, por que postergou tanto esse encontro? – eu falava calmamente, tentando não demonstrar que dentro de mim algo estava prestes a explodir - Não acha que a ideia de clonar o Alex é um pouco absurda demais, mesmo vindo de você? 
- Eu precisava de tempo. – o marasmo da voz dela me irritava - Você quase o matou, sabia? – perguntou, com ar de superior, virando-se um segundo para olhar para o Alex - É muito cinismo da sua parte ainda insistir em bancar a heroína quando você mesmo o destrói mais e mais a cada dia... 
- Não sei como pude acreditar em você, com essa conversa de irmãzinha abandonada que queria ajudar aquele que foi criado de você. – eu não queria dizer isso, não queria bancar a ingênua enganada, mas nada me parecia ser o certo a dizer naquele momento - Estava escrito no jeito que você se portava, na maneira com que falava comigo... 
- Você é mesmo muito fácil de enganar. – ela me interrompeu, agora com um ar divertido, como se fosse uma grande surpresa o fato de ela estar por trás de tudo - Todos vocês, aliás. 
- Você não sabe do que está falando. – minha voz tremia de forma involuntária, porque estava mesmo impossível de me conter - Não sabe o que é amar alguém sem exigências, sem limites... 
- Sem exigências? Você acha mesmo que não exige nada dele? – ela sibilou as frases com visível escárnio – Quase matá-lo não é exigência suficiente? Isso já não é ultrapassar todos os limites humanamente aceitáveis? Entenda de uma vez, Diana: não importa o quanto você negue, nós duas sabemos que você nunca será a mulher que ele merece. 
- Do que você está falando? – eu começava a ficar histérica com tantos disparates sendo repetidos sem contenção – Quem você sugere que fique ao lado dele, então? Você?- e nessa hora eu só conseguia sorrir, um riso de deboche. 
- Você é tão obtusa que não consegue perceber o que está cristalino, não é? – ela sorriu de volta, como se a lunática da situação fosse eu. 
- Ele não ama você! – eu gritei o melhor dos meus argumentos, o mais inviolável, o que ninguém poderia mudar. 
- É EXATAMENTE POR ISSO! – ela berrou de volta, como se sentisse raiva por eu ainda não ter compreendido o que quer que ela tenha concluído – O fato de ele não me amar o faz forte! Eu posso dedicar o meus dias a amá-lo o quanto mais ele precisar e o seu saldo será sempre positivo, ele será sempre o homem que foi criado para ser. Eu não sou egoísta como você, uma mera humana ridícula que acha que só porque dá amor merece o mesmo de volta. Entenda, Diana: humano nenhum nasceu para ser amado em menor medida e você, querida, não é exceção à essa regra. 
Então eu me encolhi a essa verdade. Calei-me porque sabia que era verdade; no fundo, abaixo do meu orgulho e de toda a minha esperança, eu sabia que Camila estava certa. Sabia que se existia alguém naquela sala que faria bem ao Alex, esse alguém com certeza não era eu. Depois de todas as tentativas, de todos os sufocos pelos quais havíamos passado... Nada adiantava; sempre acabávamos naquela sala branca, onde as coisas tinham o mesmo início e fim. Não conseguia compreender porque ela havia me trazido até lá, afinal – talvez para me exterminar, talvez para me transformar novamente em Zumbot, talvez simplesmente para me fazer enxergar o óbvio. Eu só sei que diante do meu silêncio, ela sorria estonteante. Saboreava tanto a vitória que essa mesma pose de vencedora trouxe o seu fracasso. 
Camila estava tão distraída em fitar-me enquanto em me encolhia em tristeza que sequer percebeu ele entrando furtivamente por uma porta que surgiu em meio a parede branca. Eu quis gritar, mas me faltou voz. A agilidade dele me assustou e em um piscar de olhos, a seringa que ele trazia em mãos foi aplicada diretamente no coração de Alex. Imediatamente, Camila virou-se para encarar os dois, como se a picada que Alex sofreu a tivesse atingido também – ele permanecia imóvel, mas algo nela já começava a mudar. Rapidamente, Camila foi ficando envelhecida, sua pele enrugando em uma velocidade inacreditável e, em um segundo, ela me encarava com aqueles olhos miúdos, quase fechados, tempo suficiente para demonstrar aquilo que ela não tinha tido tempo de dizer. Ela me odiava, eu sabia, mas de nada isso adiantava. O corpo de Camila endureceu e caiu ao chão, espatifando-se como vidro. 

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Nós dois estávamos sentados à beira da cama de Alex, que parecia bem, mas ainda não tinha acordado – eu estava calma, porém, porque ele havia me garantido que isso aconteceria em breve. Eu ainda não tinha dito nada e não sabia como começar, de modo que agradeci em pensamento quando ele começou a falar. 
- Eu sabia que você ia aparecer. – ele disse, a voz arrastada, dando de ombros - Desde o dia em que vi o Alex e soube que ele não era aquele clone maldito... Eu soube que um dia você iria aparecer. E nesse dia eu estaria pronto para lhe ajudar. 
- Eu não compreendo, Dr. Oliver. – eu não sabia explicar metade das coisas que eu sentia naquele momento – Eu o conheci e não posso dizer que foi a experiência mais agradável da minha vida... 
- Você nunca me conheceu, Diana. Desde que o Alex começou a namorar você, a Camila mudou drasticamente. Quando eu soube que o maior dos meus projetos estava tomando rumos próprios eu decidi que já era hora de avançar um pouco mais na minha pesquisa... Decidi que era a hora de descobrir como torná-lo humano. – ele respirou fundo, como quando se pensa em um sonho – Claro que a Camila foi contra, porque tornar o Alex humano significaria o fim para a Camila. Ela sobrevivia porque parte dela era a parte Zumbot que era o Alex, mas com o fim disso... Escute, não me entenda mal, não ache que eu queria o fim de Camila. Não era a morte dela que estava em jogo, mas sim a vida do Alex. A vida dele ao seu lado. 
Era tanta informação que o meu cérebro não conseguia processar. Eu não tinha capacidade sequer de formular perguntar, porque as dúvidas surgiam em minha mente de forma desordenada – exatamente como a bagunça que foram os últimos tempos. 
- Eu consegui fugir daqui e Camila, achando que eu não lhe faria nenhum mal, simplesmente me substituiu, sem pretensão de me exterminar. Mas eu me dediquei nos estudos, esperando que quando o momento certo surgisse, eu estivesse pronto. Não existia oportunidade melhor que essa que surgiu hoje: você estava aqui e o prédio estava vazio. Camila foi inocente demais ao me esquecer. Enquanto ela se preocupava exclusivamente com você, eu tive tempo suficiente para desenvolver aquilo que Alex e você precisavam para serem felizes. 
Eu tinha medo de perguntar. Mas eu precisava saber. Respirei fundo e encarei a única questão que, após isso tudo, importava de fato. 
- E você acha que conseguiu? Acha que quando o Alex acordar será humano? 
O Dr. Oliver sorriu levemente e pôs uma das mãos em meu ombro. 
- Eu não tenho dúvidas quanto a isso. 
Eu encarei o meu Alex, estendido naquela cama, respirando suavemente. Sua expressão era serena, a cor de sua pele parecia natural – enfim, ele poderia estar simplesmente dormindo e ninguém saberia a diferença. Tão logo olhei para os seus olhos fechados, suas pálpebras começaram a se mover levemente. E como que acorda com um susto, Alex abriu os seus olhos, que saltavam de tanto brilho, esbanjando vida. Ele segurou a minha mão mais próxima de si de maneira forte e a apertou. Então eu senti: algo era diferente. Ele era mais quente, mais macio, mais forte. Os seus olhos encontraram os meus e percebi que um misto de felicidade e alívio inundou-os. E, por fim, seus lábios se moveram para formar o nome que eu conseguia achar lindo quando dito em sua voz. 
- Diana. 



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Esse conto celebra o primeiro aniversário da Máfia. Ele começou com a Rafaella, passou por mais 27 pares de mãos e hoje acaba comigo, a 29ª pessoa a contar essa história - cujo final ficou enorme, aliás, mas espero que digno da ideia maravilhosa que foi compartilhar o mesmo pensamento com essas meninas que eu tanto amo. Máfia, parabéns por mais essa - nós merecemos!

domingo, 16 de setembro de 2012

Doces rodopios



Ela nasceu em setembro, sob a proteção da primavera. Colecionava corujas de pelúcia, canecas e abraços. Quando sorria, não era só com os lábios, mas com o corpo inteiro. Gostava de fotografar o céu e guardar na lembrança aquilo que por vezes esquecia por traição da memória. Morava em uma casa no fim da rua; na frente, grama verdinha e com cheiro de chuva. Uma cerca verde separava o gramado da calça e na entrada, à beira da porta, jarros com flores coloridas. 
Naquele dia 16, fazia sol e um céu era de um azul que parecia pintado. Ela acordou sem conseguir viver entre quatro paredes; se levantou de um pulo, se vestiu e rumou para fora de casa, descendo a rua enquanto cantarolava que “temos nosso próprio tempo”. Seu vestido lilás rodopiava a cada salto sincronizado que ela dava à ponta dos pés, calçados com sapatilhas de bailarina. Estava tão feliz que seus olhos se esverdeavam. Seus cabelos longos, à altura de seus cotovelos, brincavam com o vento enquanto ela corria pelas calçadas, tirando para si uma flor de cada jardim. Antes de chegar à esquina já tinha um buquê em suas mãos. 
Olhou para todas aquelas flores em suas mãos e sentiu que a cor delas refletiam em sua íris. Eram tão lindas – tanto, que ela não conseguia pensar em um lugar merecedor suficiente daquele pequeno maço de beleza. Continuou a andar, sem guiar-se pra onde, e quando se distraiu para olhar para o céu e os pássaros que lá voavam – e foi só um segundo – tropeçou em uma pedra, lançando o pequeno buquê diretamente em uma poça d’água. As flores ficaram lá, machucadas, contorcidas e a formosura ardente que antes traziam estava apagada pela água gelada. 
Isso a fez chorar como se junto com as flores tivesse perdido a alegria. Chorou porque a vida às vezes te derruba; chorou porque quase sempre se perde o que se ama, porque um obstáculo teima em aparecer, porque nem tudo tem graça. Poderia ter chorado pela vida inteira, mas sempre preferia respirar fundo, andar mais um pouco e colher nova flores. Dessa vez, assim que levantou o olhar, percebeu que ele vinha em sua direção. Ao chegar próximo o suficiente, ele estendeu a mão a ela e ajudou-a a se levantar. Encararam-se por um breve momento e sorriram um para o outro. Pediu que ela fechasse os olhos; em seguida, ele pôs as mãos no céu, segurou o sol e colocou-o sob o olhar de Taryne. E quando ela abriu os olhos, pode seguir iluminando o mundo.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Isabel, que não era Carolina

Teria sido mais fácil se ela tivesse recusado o convite, feito uma xícara de chá e sentado no sofá da sala para assistir Grey’s Anatomy – justo aquele episódio cruel em que a little Grey e o Mark se separam. Nada mais fim de romance que nem começou do que isso. Hoje, mais do que nunca, se sentia incapaz de carregar a força de ser Carolina. Preferia ser Isabel, aquela sem significado algum para alguém cética como ela. O seu plano de solidão teria sido perfeito se ele, o da noite anterior, não tivesse feito o telefonema em busca de outra dose de wisky e de paixão – não, nada de café dessa vez, nada de coisas mornas que facilmente ficam frias e desgostosas. Naquele bar e naquele encontro só tinha tido espaço para uma ou duas palavras de identificação, muitos abraços e pretensão alguma – ao menos era o que ela achava. O telefone chamou uma, duas, três vezes até eu ela resolvesse dar resposta àquilo que em duas frases bem ensaiadas poria fim ao seu indestrutível faro para um canalha bem vestido e com bom gosto para cigarros. Acabou cedendo, mesmo tendo plena consciência que no fim só caberia a acusação a sim mesma, a autopiedade e a condenação por ter sido a única culpada de romper suas verdades e aderir as mentiras alheias. Isabel, venha comigo – era impossível de denegar o convite. Juntou o necessário em uma bolsa pequena e partiu – não fez questão de salto alto, de maquiagem pesada e nem de um vestido escuro. Para quê máscaras? Era tão simples aquela complexidade. Ele falava uma ou duas palavras que no seu conceito seriam engraçadas ou convidativas – ela fingia rir enquanto se lembrava do quanto odiava Mark por ter deixado a little Grey partir. Ele expunha suas façanhas das últimas horas, apresentava o carro novo, listava diversas opções de locais para onde poderiam ir – ela concordava com a cabeça enquanto tentava lembrar se havia desligado o fogo do chá e guardado o que sobrara na geladeira. Para quê mais que isso? Era extremamente dispensável dividir contas, ter filhos para cuidar ou mesmo trocar confidências sobre como a relação estava evoluindo – quando na verdade só afundava de forma irremediável naquele abismo. Isabel, mais do que nunca, só queria por fim àquela sensação de estar só e seguir sozinha. Queria estar acompanhada, se pertinente, e depois três beijinhos, até logo, se me ligar novamente, que seja na só na semana que vem. Não que estivesse com medo – apenas não queria, por enquanto, tentar nada novo. Ali, onde os românticos não ousavam transitar e as putas ou mulheres bem resolvidas viviam sem menor pudor, era onde Carolina se perdia para ser Isabel no sentido vago que aquilo representava. Aquilo entre eles dois era alguma coisa quando tinha que ser e depois, simplesmente, não era mais nada – exatamente como deveria. Era assim que ela poderia ser absolutamente ninguém – um número na lista do telefone para as horas vagas e só. E quem poderá culpá-la por isso? Naquele momento, era pesado demais tomar conta de si próprio e também de alguém – naquele momento, o melhor era ser o mínimo que pudesse.

sábado, 5 de maio de 2012

Enlouquecida(mente)




Driving in your car 
I never never want to go home 
Because I haven't got one 
Anymore 


Me leve para fugir essa noite. Cale minhas reclamações e as transforme em sorriso. Me leve para algum lugar onde as luzes brilhem tanto que doa aos olhos de quem não quiser enxergar o colorido da avenida. Me ponha em movimento dentro de um carro, dentro de um abraço, dentro de uma roda de música e pessoas cantando alto, soltando a alma em um ritmo que não me faça querer parar. Me cerque do rock britânico dos anos 80 e do balaio dos violões com suas cordas quase rompendo de tanta euforia. Você sabe, eu nunca quis sair do meu mundo, mas, de qualquer forma, me apresente o seu. Me dê a chance de escolher algo diferente que me faça querer sair de casa e correr pelas ruas da cidade. Me leve para fugir essa noite porque eu quero ver o que de tão fabuloso e ao mesmo tempo cruel existe por trás das janelas do seu carro. Me leve para ver pessoas de verdade. Me apresente lágrimas e risadas. Faça com que eu sinta coisas boas. Faça com que eu sinta alguma coisa. Me leve para beber até perder o bom senso e me deixe sentada ao meu fio, cantando enlouquecidamente alguma cantiga que acabei de aprender. Não, não me deixe em casa. Não me ponha na cama, estenda o cobertor e me faça dormir. Eu não quero dormir essa noite; eu quero enlouquecer sem motivo algum e acordar amanhã com uma dor de cabeça que tenha valido a pena. Pensando bem, não me deixe voltar. Não quero ser mais benvinda no meu mundo, eu quero ser parte do seu. Quero pegar a sua mão e correr pelo meio das ruas, desviando de motos e ônibus, colidindo apenas com você. Esperar amanhecer ao seu lado é uma forma linda de uma noite chegar ao seu fim. E se a noite não acabar, e se o delírio permanecer, e se a realidade jamais retornar, bem, o prazer e o privilégio de viver essa loucura opcional ao seu lado terá sido todo meu. Mas me leve para fugir essa noite. Me leve para qualquer lugar, não precisa me dizer para onde, não precisa me dizer com quem, não precisa haver hora para voltar. Me transporte por meio de suas passagens secretas até chegar a um lugar que me faça pensar: esperei tanto para estar aqui. E se um medo inaceitável for aparente em meu rosto, novamente: cale minhas reclamações e as transforme em sorriso. Não deixe que nada nos detenha. Me leve para fugir essa noite e juro como nada mais me importa. Me leve para fugir essa noite e não me traga de volta. Me leve para fugir essa noite e se perca comigo em algum lugar. Me leve para fugir essa noite com você.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

É esse o fim?


Eu não sou a heroína
Dessa história 
E tão pouco você 
Mas acho que chegou a hora 
De salvarmos um ao outro. 

Há tempestade lá fora e também aqui dentro de mim, mas ele nunca percebeu a minha chegada berrante pela porta de entrada ou pela dos fundos. Para ele, nunca fez muita diferente – experimentei passar noites fora, sumir como todas as roupas do armário, não me alimentar bem. Passei noites em claro tentando me manter acordada enquanto escrevia uma palavra ou outra que fizesse algum sentido, que pudesse explicar algo no momento em que o silêncio não bastava. Não adiantou. Nada chamaria a sua intenção, eu deveria saber antes de ter dado início a esse circo patético lotado de palhaços e de nenhuma mágica. Acho isso errado de tantas formas que desconheço se existe um jeito certo de ao menos te dizer que já basta. Gostaria de ter o poder de ao menos terminar um pensamento por mim só, mas cada tentativa fica mais distante até chega nesse ponto que é o vazio de sempre. Não acho que estamos conseguindo alguma coisa; estamos nos ferindo e cometendo o pecado de esmagar os sonhos um do outro. Não, eu não sou inocente. É claro que eu já fingi um beijo ou um abraço que queria prender só para mim e não deixar feito pássaro livre para ser preso por outra pessoa. É claro que eu já menti, e muitas vezes – ou ele achou mesmo que ia entregar tão facilmente o meu coração? Tanto cuidado para apenas ter uma pilha de acusações na consciência e alguma canção triste para compor. Você consegue sentir? Eu sinto – o frio, a TV chiando, uma gota caindo na pia da cozinha, a janela da sala rangendo. Você vê? É o fim?

domingo, 1 de abril de 2012

O tempo passa, mas não passa

Você passou pela porta e eu fiquei acenando da janela, você ficando menor e menor a cada passo, minha mão indo para lá e para cá mais e mais lentamente. Ao cruzar o portão, virou o rosto para me encarar mais uma vez; eu já ia abrir a boca para dizer as palavras mais duras que guardei, mas antes disso você sorri de canto, pisca o olho e me priva de fazer tudo aquilo que já há muito tempo eu deveria ter feito.

Quando não consegui mais te ver, saí da janela e peguei o telefone – talvez você me ligasse. Logo o tic tac do relógio começou a caçoar de mim, mais e mais alto, mas o meu orgulho foi superior e virei a cara sem olhar uma única vez, como se não fosse comigo. Talvez não fosse comigo. Comecei a andar pela casa, liguei e desliguei o rádio para ver se esquecia. Não esqueci. Vaguei até a cozinha, passei um café, passei dias, passei semanas. A gente esquece que o tempo faz essa coisa engraçada com o estômago, essa coisa que não me deixa engolir o café sem você. Encaro o telefone sabendo que não sou corajosa o suficiente para te ligar e admitir o que quer que seja. Um olhar de relance no espelho e a verdade omitida explode no meu rosto: aqui dentro existe uma vontade de te deixar ir embora, te deixar ir para fora de mim – e isso seria culpa sua, completamente sua. É você que parte sem deixar bilhetes nem abraços nem adeus – é você que, entre tudo que poderia me oferecer, escolhe deixar apenas saudade. O problema é que você sempre teve um cuidado muito grande em não me deixar te esquecer. Você que me ensinou a me embriagar de ti até as suas palavras me soarem como arranhões melódicos e o teu cheiro ficar impregnado no travesseiro, nas minhas roupas e na minha memória. Quanto mais eu corro, mas eu te encontro nas esquinas, nos comerciais de TV, na roupa suja espalhada pelo chão do quarto. Vez ou outra alguém me recomenda: pare de cultivar as más lembranças. Como se apenas as más lembranças doessem. Deito no sofá e fecho os olhos. Penso em tudo e em nada, em todas as coisas e em coisa alguma. Acho que cochilo – ou hiberno. Acordo, antes de a vida me dar uma daquelas lições em forma de sonho, querendo saber que ano é hoje. Que ano é hoje e se o café ainda está quente. Que ano é hoje e quando é que você volta. Já não passou da hora de anoitecer?

Abro e fecho um livro. Resolvo que é melhor começar pelas orelhas. Não tenho tempo de ler uma frase inteira, o portão te denuncia. Olho para a porta como uma criança olha um presente. Você entra com o pacote de pão fresco pedindo desculpas pela demora, respondo que não tem problema, que nem percebi. Mas você já sabe que é uma mentira e sorri para ela e para mim.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A moça sensível

Era preciso mais que uma chuva de fevereiro para lhe obrigar a refazer os planos. Dia a dia, sentava sempre à mesma mesa, o mesmo livro velho embaixo do braço, o mesmo pedido de um café forte e com pouco açúcar, por favor. Não era nada comum, mas não chegava a ser obscura; era de uma estranheza agradabilíssima, dessas que se canta nas letras do rock de pubs ingleses. É normal se sentir assim, em uma solitária perdição, ela diria. Chega a ser inspirador, outros achariam. Alguns lhe destinavam sussurros baixos e reprovadores, destilando o vírus da hipocrisia social. Muitos tinham pena dela e expressavam essa compaixão oculta achando que sabem a receita para a satisfação plena – a alheia, mas jamais a própria. Eu já senti muito isso – essa vontade de socorrer alguém de si mesmo. Não sinto mais. Percebi que não sou nada além de mais uma pessoa que precisa ser resgatada, portanto, não ouso sentir nada além da própria falta de sentido. Mas ela não. Quem a via triste, jurava que não sabia sambar, mas em seu íntimo a música sempre soava; o riso de canto e o pensamento secreto: estou me guardando para o carnaval. Ela era tão diferente que incomodava. Não desejava bom dia a ninguém – costumava dizer que a maior parte das pessoas não valia sequer um “até logo”, então economizava também as palavras que sempre doem mais em quem as diz do que em quem as ouve: “adeus, até nunca mais”. Difícil mesmo, e ela nunca tinha conhecido alguém assim, era quem valesse um “para sempre” ou “foi bom estar com você”. Usava um all star sempre sujo e suas camisetas traziam frases de músicas que não estava na moda. Se chamava Carolina, mas preferia quando se referiam à ela como Isabel. Não fazia a menor questão de soar coerente. Era preciso intensidade para trocar com ela ao menos um olhar e, principalmente, coragem para enxergar o que a transparência de sua íris era capaz de revelar. Suas anotações eram seus segredos.
É carnaval, não conto de fadas. É frustrante demais só esperar que a sorte apareça na nossa vida – dê uma chance à falta de oportunidade e não formule certeza alguma, porque qualquer verdade é mais frágil que um mar de dúvidas. Se for para escolher um só bom companheiro, escolha um que saiba fazer massagem nos seus pés e que queira conhecer Paris. Desconfie dos que preferem frio a calor e também dos que não sabem fazer compras no supermercado – esses serão os primeiros a partir. Apaixone-se por literatura, por violino, por fotografia, pelos sons das folhas das árvores em outubro e também por moços de olhos castanhos e sensíveis. Tenha você olhos sensíveis – verdes, azuis, castanhos ou da cor da escuridão. Sente próxima à lareira e conte uma história engraçada – guarde algumas outras histórias só para você. Use jeans surrado e se vista como se estivesse em Londres ou Bruxelas ou Amsterdã. Escreva frases curtas todos os dias – ao fim da vida, todas juntas valerão a mais importante lição que se pode ter. Não se sinta mal por ser sábado à noite e não haver companhia ou bebidas disponíveis. Ache o prazer dentro de si mesma. Repita as roupas, os livros e os discos. Peça perdão constantemente. Perdoe sempre. Ame inclusive quem não sente a menor afeição por você - são esses os que mais precisam de afeto. A melhor resposta para tudo é sempre a serenidade e a compreensão. Não se preocupe em comer pizza gelada no café da manhã, mas diminua o açúcar. Tudo bem rir de bobagens. Tudo bem rir de si mesma.



E assim contava suas percepções sobre a vida, a verdade e a falsa máscara que colocamos no rosto todos os dias antes de sair de casa ou nos mostrarmos para alguém. Uma única vez, pediu que alguém sentasse ao seu lado, mas a moça escolhida murmurou algumas palavras inaudíveis e sentou-se em uma mesa oposta. Carolina, ou Isabel, não insistiu. Eu também não insistiria – não sou muito boa em pedir algo e tão pouco em insistir, argumentar contra alguém em favor de mim mesma. A ouvi repetir: tudo bem, tudo bem, não há mal nenhum em escolher ser sozinho. Seria patético não ser capaz de admitir que todos sonham em ser Carolina ou Isabel, ao menos que por um dia, nem que seja por um relance de segundo em que você se esvazia dos pesos desnecessários e se carrega de toda a força que precisa para encarar o caminho com compaixão e justiça. Ela sabe – percebo isso na forma com que segura a xícara de café – que dentro de si carrega uma força enorme que falta das esquinas da cidade: a força de, sem hesitar ou carregar como arrependimento, tomar as maiores decisões possíveis. Não era por acaso que aquela garota estava naquela mesa, com aquelas roupas, lendo aquele livro, escrevendo aquelas palavras e tomando aquele café. Não era à toa que estava sozinha, não era por coincidência que chamou quem quis para sentar-se com ela e aceitou sem relutar a escolha da outra pessoa. Sobra nela o que não existe na maioria de nós: força para decidir quem você quer para si, o que você quer para si e o que você vai fazer com tudo isso.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A cidade nos venceu

Hoje se tornou impossível ser feliz nessa cidade. Não há uma esquina sequer que me faça sentir algo que valha a pena. Acredito que as coisas tenham saído do eixo tão logo se iniciaram – como já poderiam prever, não duraria tempo suficiente nem para que pudesse acabar. Os dias parecem durar cada vez menos e o momento que o sol se põe sempre foi o mais dramaticamente dispensável para mim, porque quando a noite chega, as pessoas parecem perder o juízo, porque os sentimentos se maximizam ao ponto de fugir do falso controle sob qual eram mantidos, porque as razões se perdem e só resta uma vontade desenfreada de, se escondendo pelas sombras, ser algo que a luz do dia revelaria como insuportável e repugnante. Tudo continua o mesmo, o lixo ainda é recolhido à meia-noite, os carros atravessam os sinais e cortam as avenidas a 120 quilômetros por hora e meu vizinho continua ouvindo aquelas músicas terríveis que só me deixa ainda mais descrente em relação à humanidade. Nada mudou, exceto a mim, que desaprendi a lidar com aquilo que não suporto. E te ver envolto em meio a tudo isso sem apresentar nenhum descontento foi como inspirar fundo a fumaça preta que sai do ônibus lotado. Não sabia o que dizer ou como agir, mas no instante que te vi, pensei: “foi-se o último que valia a pena”. Eu vi que precisava me conter, porque nem você nem eu precisávamos de mais um daqueles meus discursos alargados de como você deixou a vida te vencer com uma vantagem esmagadora. Tentei evitar, porque era algo forte demais para se conviver, mas não marcante o suficiente para ser inesquecível. Mas agora, que estou em uma casa nova onde não há poluição ou buzinas de carros ou telefones tocando o tempo todo, eu penso que nunca me senti tão culpada por estar sem você e ainda assim ser capaz de coisas que eu nunca fui quando estava ao seu lado. Me sinto mal por me sentir bem mesmo sabendo que a vida te consome de fora para dentro e que você continua sendo sufocado por aquilo que é incapaz de enfrentar. Sentir-me bem nunca pareceu tão egoísta, quando eu me sinto covarde por ter seguido em frente. Acontece que por mais que seja dura a impressão pessimista das coisas, onde mais parece que eu te abandonei com uma promessa de retorno que não cumprirei, eu prefiro encarar com a coragem que me resta que você e eu estamos protagonizando histórias distintas, mas com enredo semelhante. Você deixou a cidade te vencer e eu corri para longe do medo que senti dela. Eu fugi, você permaneceu. Ela ganhou de mim no primeiro round, ela continua destroçando você e se consagrando vitoriosa. Nenhum de nós foi mais nobre que o outro, por isso eu te digo: deixe quem quiser cantar vitória que o faça, porque ter para si as próprias derrotas é o primeiro passo para não mais ser vencido. Quanto a mim, prefiro acreditar que a partida ainda tem volta e que nenhum adeus é permanente; sei que a cidade foi cruel, mas também admito que não fui muito justa quando ela quis me estender uma oportunidade de belas fotos e nascer do sol à beira mar. Talvez um dia eu seja capaz de voltar e, sorrindo, deixar o vento levar os motivos pelos quais um dia eu parti. Hoje se tornou impossível ser feliz nessa cidade, mas quem sabe amanhã os problemas se tornem passado e para o futuro reste a esperança de um dia cravar os pés de novo na terra do parque e pensar: voltei para ficar.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Dois dedos de café frio

Eu sei de uma coisa que vai te fazer esquecer a última briga e me ligar, eu queria tanto que o pedido que faço peito adentro não fosse em vão e, por favor, você poderia me ligar? Porque eu sei de uma coisa que te faria pedir desculpas, ainda que fosse bem baixinho para depois dizer que não foi aquilo que queria falar e eu continuar achando que você é mesmo esse poço todo de resistência e de sentimentos eu nunca são revelados, mas eu queria tanto que você soubesse de uma coisa que chego a sentir as minhas mãos pulsarem sob o telefone, praticamente pedindo para eu discar o seu número, mas o que eu queria mesmo era que você me ligasse para provar que mesmo com a distância os nossos pensamentos ainda estão conectados e mesmo com palavras duras, o muro de proteção onde guardamos o carinho é tão forte quanto ele precisa ser e, por Deus, será que você pode me ligar? Isso me faz lembrar aquela vez que fomos a Paris e marcamos de nos encontrar em um café cujo nome não me lembro, mas de gosto e cheiro memorável, e foi quando eu me dei conta de que não sabia o seu número de telefone e não tinha como saber o endereço do local. Estava quase chorando ao pensar que não seria dessa vez que eu seria uma personagem do Woody Allen quando você de repente me liga e diz: o que eu preciso fazer para te trazer até mim? E agora eu só consigo pensar: sinta Paris no seu coração e me ligue outra vez, porque eu sei de uma coisa que você precisa saber, algo que mudaria o seu jeito de olhar a ordem dos astros e que poderia até gerar a descoberta de uma nova constelação. Eu sei de uma coisa que parece boba, hoje em dia banal, mas uma coisa que eu nunca disse, que você nunca disse, que nós nunca ouvimos e por isso mesmo eu sei que você gostaria de saber de uma coisa que eu tenho para te dizer. Não queria simplesmente te escrever e mandar mais uma carta para ficar envelhecendo na tua gaveta e você nunca gostou muito da minha letra, mesmo, mas sempre elogiou minha voz e eu sinto que precisarei de toda a ajuda que puder quando você me ligar e eu puder te dizer uma coisa que eu sei que você precisa saber, mas não sei se quer e paro agora para pensar o quanto você odeia surpresas e sempre me disse que preferia que eu esquecesse o seu aniversário a lhe preparar uma daquelas festas na área comum do condomínio e por isso agora eu deixo o telefone de canto e passo a me perguntar se eu quero mesmo que você me ligue e, pensando bem, eu tinha tanta coisa pra te dizer, mas acho que são dessas coisas que ficam engasgadas no coração até que o tempo dissolva essa vontade de expurgar aquilo que nunca deverá ser descoberto. Deito no meu lado da cama – preciso para de achar que você é o dono do outro lado – e tiro o telefone do gancho, porque eu não quero que você me ligue, não quero que você me pergunte e eu sei que tem uma coisa que eu queria ter te tido, mas agora não faz mais sentido, nós não fazemos sentido e o esforço pra entender é a vontade de ser vencido pela falta de compreensão. E tudo o que eu queria agora era saber de algo que evitasse todas as outras descobertas inúteis e as vontades em vão, porque está frio aqui no quarto, porque fevereiro é sempre muito injusto e porque amanhã ainda é terça-feira e eu já estou cansada de todos os dias e semanas e meses e anos sempre achando que minhas palavras podem salvar algo que está perdido antes mesmo de eu começar a achar que eu sei de uma coisa que.

domingo, 2 de outubro de 2011

Esbravejo essa necessidade de entender


Eu ainda tinha muito a fazer, mas o modo com que me atirei ao sofá anunciava que eu estava me entregando por hoje. Ainda era dia, mas a taça de vinho nas minhas mãos já indicava a preparação para outro momento, algo mais estrelado e misterioso. Porque eu gosto de me esconder no sombrio. Gosto de ficar por trás da luz, sem revelar nada, só esperando as coisas serem mostradas. Talvez por isso me incomode tanto quando eu não consigo enxergar nada além de mim – quando somos só eu e não eu e o resto do mundo, entende? É quase uma necessidade boa de sempre ter companhias, mesmo que elas não lhe notem. Fucei algumas fotografias velhas, assisti 500 days of Summer, pus The Smiths para tocar, tudo a espera de algo que me indicasse o caminho. Mas ninguém nunca vai lhe indicar o caminho, essa é que a verdade. Você sempre fica sentada ao sofá, esperando que a noite chegue e você possa finalmente fazer tudo aquilo que não tem coragem quando a luz brilha no seu rosto. É à noite que nos esquecemos de nós mesmos e nos permitimos ser quem nos quisermos. Aí eu ponho a cara na rua e grito como sou hipócrita, como o mundo é hipócrita e como somos uns tolos por aceitarmos ser assim. Ninguém me olha e mesmo se olhassem, não ouviriam, porque estão todos preocupados demais com os seus demônios internos e seu vinho e sua boa música. Como eu disse: hipocrisia. Esse é meu ciclo de vida, mas eu acho que estou preparada para algo mais... Grandioso. Algo que me choque, me pegue de surpresa. É, acho que essa é a palavra: novidade. Tudo que eu tenho é muito bonito e foi conquistado na maior dureza, sob tapas e choros, de verdade; mas nada é bom o suficiente ao ponto de você nunca mais sentir vontade de despertar com aquele cheio de novo inebriando sua cabeça, invadindo todo o apartamento, o seu coração, sua vida. Acho que sou viciada numa boa novidade, nem que seja em um livro recém descoberto ou então em uma banda que, sinceramente eu não sei como passei a vida inteira sem ouvi-la. Coisas bobas, mas que me tiram dessa rotina enlouquecedora. E quando eu acabo de gritar à varanda todos os meus desafetos, olho para o lado e vejo me vizinho me encarando da varanda dele. “E qual o sentido disso?”, ele pergunta, enquanto me oferece um cigarro. Eu aceito (e essa nossa necessidade de estarmos sempre anestesiados da vida, como se explica?) e retribuo lhe oferecendo a minha taça de vinho. “Eu não tenho feito muito sentido ultimamente”, respondo. A minha certeza é que o vinho quente lhe rasgou a garganta assim como a fumaça do cigarro me tirou o ar. Que bom que ainda somos capazes de sentir alguma coisa, embora ele faça uma careta e não pareça tão feliz. Me devolve a taça (eu não devolvo o cigarro) e entra no seu apartamento, na sua vida de faz de conta, me deixando sozinha outra vez. Hipocrisia, eu sussurro, é disso que estou morrendo. Volto à minha sala e me atiro novamente ao sofá. Eu tenho medo de fechar os olhos, tenho medo que tudo se acabe ao meu redor e eu não possa sequer ver a última cara de desespero daqueles que passaram a vida se enganando ao achar que tudo isso era para sempre. Nada é para sempre, seus grandes otários. Nem eu, nem você, nem toda essa bobagem que você chamam de vida ou qualquer outra coisa que acreditem. Sinto vontade de sorrir ao pensar em toda aquela fortaleza desmoronando e fecho os olhos, me entregando em pensamentos. Quem sabe até eu não consigo sonhar.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Remoendo algo sem fim



Posso estar só
Mas, sou de todo mundo
Por eu ser só um
Ah, nem! Ah, não! Ah, nem dá!
Solidão, foge que eu te encontro
Que eu já tenho asa
Isso lá é bom, doce solidão?
[Doce solidão - Marcelo Camelo]

Não era um sorriso forçado, não era uma avenca murcha. Não era um coração partido, não era uma saudade doída. Não era frio, não era agosto: era verão, sábado de julho e sonhos infantis. Não era solidão, não era abandono e muito menos desprezo: era segurança, mais para os outros que para si. Era medo, de vez em quando. Era insegurança, todo o tempo. Era querer acreditar. Não era palavra ou um verso rimado; não era frase feita ou soluções mágicas. Não era tão perto, mas nem tão distante. Não era meio-termo, mas também nenhum extremo. Não era ódio – era indiferença. Não era paixão, não era amor – era mais. Não era guerra nem paz: era trégua, tragédia, comédia. Drama. Não era pra sempre nem nunca mais. Era pouco, às vezes muito, quase sempre nada. Era algo que não quer dizer coisa alguma. Era sofrimento à toa. Era descobrir coisas importantes já muito tarde. Era não descobrir jamais. Não era enganação – era vencer o desimportante, viver o útil e congelar ambos. Era chorar pelo que não se sente, sentir por quem não se conhece, conhecer muito o quê lhe faz chorar. Era culpada de tudo. Não era culpa de ninguém.

sexta-feira, 18 de março de 2011

And we still together...

São Luís, 17 de março de 2011, 4 anos de namoro.

Eu não estava preparada pra qualquer grande confissão ou algo do tipo – só as velhas palavras de sempre merecem ser ditas, creio eu, porque embora repetitivas, são as que ainda valem. Por isso, não poupo uma vírgula sempre que vou lhe agradecer por tudo que você se tornou pra mim. Sei que não sou fácil e não adianta dizer que não é assim: sou chata assumida, complicação em pessoa, um conjunto de pensamentos nada simples e uma penca de vontades insaciáveis. E, ainda assim, você aceitou o desafio. Aceitou o jogo mesmo sem conhecer as regras e eu tenho certeza que muitas vezes pelo caminho eu lhe surpreendi – mas como você é duro na queda, hein? Com esse meu instinto de destruir as coisas boas que me acontecem, de propósito ou não, eu fui lhe impondo os obstáculos mais difíceis que eu consegui formular – e você foi quebrando todos, um a um, até que um dia parou de fazer sentido tantas jogatinas sem objetivo... Porque você ainda estava aqui. Porque você sempre estaria aqui. E não importava quanto a minha inclinação à autodestruição teimasse, já que eu havia encontrado algo mais forte que a minha má vontade; algo que me impedia de continuar a ser o monstrinho sentimental que eu era; algo que me mostrou que há outro caminho além da desilusão. E, no mais, estava você aqui, pronto para me provar que sonhos não são bobagens, que quando se quer, se consegue e que tentar o máximo que se pode é sempre a única opção. Você me ensinou a não desistir e por mais que às vezes você esqueça a sua própria lição, está gravado em mim o quando você foi insistente – o quanto batalhou por nós dois – e essa memória nunca vai se apagar. Eu sei que eu não facilito – muito pelo contrário. E, talvez, seja apenas uma forma de não lhe deixar esquecer aquilo que faz de você quem você é – não deixar a sua esperança morrer nunca, não permitir jamais que você desista dos nossos planos, um tanto clichê, mas que no fundo é o que toda pessoa realmente quer. Sei que acabo negativizando tudo no fim das contas e que pode parecer que não acredito nunca em nada, inclusive em nós, mas é que ainda vou ter que treinar muito até me tornar ao menos mestre naquilo que você já é doutor. Mas, de qualquer forma e acima de tudo, obrigada por continuar me amando – e você faz isso perfeitamente bem.

Parabéns, meu Amor.
Muita paciência para construirmos a nossa história sem fim.


- Você acha que isso, que a gente... É para sempre?
- Acho que ''eu te amo'' é uma dessas coisas que você só tem a chance de dizer uma vez na vida.
- Eu já usei a minha chance.
- É por isso que é para sempre.

-

No mais, mil desculpas pelo sumiço nos blogs de todas vocês, mas quem estuda vai entender meu sofrimento só em eu dizer que me encontro em semana se provas. Juro que assim que eu terminar com as obrigações universitárias, corro para matar a saudade que estou de lê-las. Beijo grande!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Ainda não passou (mas vai passar)

- Então, acho que é isso... Acho que acabou.

- Eu concordo. Acabou.

- Você vai ficar bem?

Não, nem um pouco, e assim está bom para mim. Se quiser mesmo saber, me sinto plenamente satisfeita em me enterrar no mais profundo desgosto, pela primeira vez sem culpa alguma por minhas reclamações – sem medo de ser julgada de pessimista ou mesmo de fraca, eu me entrego às minhas dores e dedico a elas todo o respeito que merecem. Cansei de subjugar o meu sofrimento como se ele fosse indigno, porque no fim das contas, não são os sorrisos que me oferecem lições de verdade; não são palavras bonitas as que deixam cicatrizes mais profundas e, surpreendentemente, não há uma alegria em minha vida que não carregue em seu passado um punhado de lágrimas e sofrimento. Então não, eu não estou bem e não me sinto nem um pouco culpada por me deixar levar por sentimentos efêmeros – talvez assim eu aprenda que cada dia que eu passo sofrendo me faz acumular um valor imensurável a ser convertido em felicidade.
E eu sempre vou agradecer a cada dia que passei afundada em pessimismo e reflexões; vou agradecer a Caio Fernando Abreu, por chorar minhas perdas; vou dizer ''muito obrigada, Martha Medeiros'' por cada tapa na cara que levei ao ler suas pilhas de verdades; e vou chorar ao som de Oasis, sentindo o meu peito rasgar e sangrar ao cantar don't go away e saber que você não pode me ouvir – e não quero que me ouça: vou lamentar escondido, miudinho, porque eu posso perder tudo, mas a minha dignidade de fachada permanece intocada. Vou sofrer por você, meu bem, com tudo que uma boa decepção amorosa merece.

E se quiser realmente saber, mas eu duvido que queira, eu não estou bem. Mas estou assim porque, quando eu resolver levantar, vou estar muito melhor que antes.

- Ah, vou. Ficarei ótima.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Para quem nunca viu tesouro descoberto

Está ali, à mostra até para quem não quiser ver. Ali, no meio da sujeira do resto do jantar de ontem à noite, que compartilhávamos enquanto passava uma besteira qualquer na televisão – e ríamos, como quando sempre fazemos em momentos banais e dignos de tédio para muitos, mas que é um dos nossos instantes mais íntimos. Ali, ainda não vê? Entre as folhas de papel dobradas que formam uma pilha no canto do quarto, nas entrelinhas dos textos de livros comprados e jamais lidos, mas que tem o seu cheiro, a linha do teu rosto em cada verso dito por quem parecia prever um caso como nosso – nossas complexidades, descompassos, reencontros e resoluções fantásticas, todas narradas em páginas intermináveis de Caio Fernando ou no canto das letras de Nando Reis, que entoam como ninguém as nossas necessidades mais urgentes ou as mais profundas e prolongadas presenças. Ali, no pinguim de pelúcia que ocupa agora metade da minha cama, em todo o seu significado – parece me olhar com a sua mesma face de menino contente, de gente completa ao extremo de ainda sobrar para me completar também. Se ainda não consegue ver, te aponto mais aquém disso tudo, nas marcas que vem deixado em toda a minha história – das razões que em mim existem, das conquistas que adquiri ou das felicidades que coleciono: tudo com uma pitada da sua vontade, atingido pela interferência daquilo que me apresenta. E, mais ainda, está aqui no presente, na tua marca que carrego em meu dedo, na tua proteção presa ao meu pescoço – está recente na risada estampada na minha face de menina boba, nos meus olhos que enxergam longe, focados em um futuro onde você pode encontrar, também, aquilo que lhe mostro: encontrar na vida que quero pra mim e que aos poucos alcanço, encontrar no limites que ainda vou enfrentar – e superar – e, bem mais, encontrar na família que vou estabelecer e no pouco de mim que quero guardar quando já não for mais possível me fazer presente – mesmo e principalmente ali, você pode encontrar e ver que cabe muito de mim no pouco de ti que conservo aqui, no interior. E é aí, onde por último e mais forte, que você encontra o amor, meu querido, cheio de marcas, cheio de nós, cheio de coisas extintas que demos vida novamente – eternidade, encaixe perfeito e sentimentos sem dimensão. Amor, marcando cada centímetro de vida que eu posso chamar de minha. Amor, o meu ligado ao teu – e não precisamos de nada mais.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Diminutivo de mulher, aumentativo de interrogações

Ela era desses tipos cheios de interiores; labirintos internos onde se perdem razões, consequências, palavras e sentidos. Tinha esse processo contínuo de auto-entendimento – e, porque não, auto-atendimento de quem nunca chegava a lugar nenhum, por mais que refletisse sobre questões do tipo ''o quê, exatamente, eu penso que estou fazendo?''. Típico, eu diria. Mulherzinha assumida; não à vulgaridade, mas sim à pequenez que por si só a rotulava como caixa de Pandora – surpresa ambulante para quem achava que em pequeno corpo só cabiam pequenos problemas, esquecendo que é na diminuição das causas que nascem os maiores equívocos irremediáveis.
Ela tinha o mundo; não em suas mãos, como lhe parecia ser mais útil, mas em seus olhos: duas pequenas esferas, nem sempre brilhantes como deveriam. Por ali e por onde mais lhe fosse possível, fazia a medição de ponta a ponta de cada um que lhe passava; o pobre coitado que pensava lhe atravessar despercebido mal poderia imaginar a leitura de vida que ela lhe fazia. E mesmo com tanta força em julgamentos – porque se tinha algo que ela fazia bem era em apontar o dedo minúsculo a uma face e enumerar erros – jamais foi capaz de voltar para si, de encarar um espelho e perceber algo além daquela expressão que nunca queria dizer nada.
Mistérios à parte, ela sabia tudo o que precisava: inútil era a tentativa (e apenas isso: ten-ta-ti-va) de entendê-la, porque para o tipo dela ainda não inventaram explicação.

segunda-feira, 8 de março de 2010

O peito que sangra é o mesmo que ergue

Era como se fosse um desses instantes de êxtase, em que se está tão entorpecida de sensações boas que nada de negativo chegava a realmente lhe atingir. Não que a obscuridade não existisse; sabia que estava ali, logo ao seu lado, esperando a primeira oportunidade de mostrar que não, a vida – isso, esse carrossel de emoções, essa montanha-russa de perdas e ganhos – não era nem de longe tão boa como ela pensava. Mas ela? Ela ria dessa possibilidade; via o perigo sobranceiro, um esboço de complicação parado logo a sua frente; encarava-o e ria, como se a possibilidade de sua destruição nada mais fosse que uma hipótese cômica. Descrevia para si os dias seguintes como se os esperasse há muito tempo – e ora, não é que esperava mesmo? Essa chance de colocar tudo em seu devido lugar, em planejar o futuro que já existia, em equilibrar os pormenores que a incomodavam.
Não, ela não tinha medo. Era mulher, era voraz, era impetuosa. Sobre seus ombros carregava as mais fortes armas que conseguira ao longo de todos os anos e sofrimentos que tinha atrás de si: a experiência de quem sabe a diferença entre desistir e lutar até o fim. Não era mais a garotinha que caía se corresse rápido demais, não era aquele pequeno ser humano de argumentos frágeis, não era mais a adolescente assustada com as mudanças bruscas de rotinas – era mulher-sei-quem-sou, era duas-faculdades, era família-brigas-intermináveis-mas-unidos-até-o-fim, era amor-paixão-sexo-e-eternidade. Ela era ela e todas as outras – as que desistiram sem tentar, as que tentaram e não conseguiram, as que tentaram, conseguiram e hoje estão aí, vitoriosas, donas de sua história.
Ela não desanimava – não hoje. Hoje, ela inflava o peito com o ar calmo, e erguia, ainda que a muito custo, o rosto e a coragem que lhe cabia e ia em frente – ia, porque ela não era só ela; ela era todas elas, juntas, unidas de quem sabe que não luta só por si, mas por todos.

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E às portadoras de progesterona de plantão, um Feliz dia Internacional das Mulheres. Não que não sejamos dignas de honra todos os dias, mas hoje temos mais um motivo para lembrar o quanto somos fortes, capazes, singulares... O quanto somos MULHERES. Parabéns para nós, garotas!

segunda-feira, 1 de março de 2010

Da minha essência - que voltou, que está

Estava sentada no sofá da sala, distraída em reflexões rasas, quando dispara correndo para o quarto ao ouvir o celular tocar. Olha o identificador de chamadas e sua intuição lhe revela a certeza que já tinha; ela expõe no rosto o tal sorriso de quem se acostumou com coisas boas como aquelas conversas quase diárias e duradouras noite adentro, tão convencionadas desde o início.

- Andei pensando que mesmo havendo nada mais que poucos minutos de distância um do outro, traçamos caminhos tão diferentes, tão distantes que eu, do meu percurso, mal consigo enxergar você no seu.

- E sabe que eu penso? Imagino então que sejamos dois rios – águas, nomes e margens diferentes. Mas acontece que mesmo com esse ''porém'', tais rios ainda podem ter não só mesma nascente, bem como uma mesma foz. Então, é algo assim: muito importa, primeiramente, de onde viemos e onde vamos chegar; o que acontece no caminho, bom, para isso dar-se um jeito.

''Dar-se um jeito''. Frases tais quais ela passou tanto tempo remoendo e analisando com um olhar acusador, assume por consequência de fim maior não esse ar pesado, mas uma visão mais suave – caricatura do otimismo que ela decidiu, que ele deveria decidir jamais voltar a perder.

Essa entre tantas outras manias que resgatava não sabe bem de onde – uma dessas coisas que se perde, mas não se tem ideia de onde se pôs; sentimentos, pequenos detalhes, sensações – das quais só se percebe que sentiu falta quando retornam. E ela pensa: ''porque, exatamente, fugi de algo que me faz tanto bem?''. E está certa que sim, problemas maiores encobrem coisas pequenas, ainda que maravilhosas, mas quando ela se empenha em resolver todos essas causas que abalam sua base, percebe que ela também pode ser feliz na simplicidade.
Não que já tenham chegado ao clichê, ao piegas e, porque não, ao tão desejado ''na saúde e na doença, até que a morte nos separe'' que ela insiste em acreditar que existe em algum lugar no meio de tanto desapego e indiferença que hoje em dia se instala em nos corpos além deles. Aconteceu um dia que ele decidiram não seguir o mesmo caminho que os levaram a tantos erros e dramas; qual a superioridade de uma relação rotulada? Existe realmente alguma estima de assumir uma relação aos outros, quando na verdade você só precisa reconhecê-la dentro de si? Não que ele, que ela – que ambos – tenham decidido viver em um comodismo substancial, que diminui importâncias. Apenas, e veja dessa forma, se dizem que a vida é breve, eles respondem com o seguinte: se nossa pressa faz de instantes dias inteiros, o - nosso – ''nós'', o esmero e os planos em longo prazo tornam cada momento de nossa curta e perecível existência mais um capítulo a ser contado por aqueles que disseminam a história de fé que é crer em um amor eterno.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Dos nossos momentos - que revivem, que retornam

Ela vira de lado para olhar aquela feição que ele produz de quem está ao lado por um grandioso motivo, mesmo tendo tantos outros para faltar. E, sabe, gratidão e respeito às lembranças é algo que poucos aceitam e dão o valor como em tal caso: foram noites ao telefone, as mesmas frases ditas ao mesmo tempo, as reflexões absurdas e planos traçados detalhadamente sentados à calçada... Seria de tamanho anarquismo ignorar tais fatos em virtude de um erro aqui e outro mais atrás – em função de vilões, de distância, de tempos que merecem ser superados. Ela olha e pensa: ''E no meio dessa face concentrada, dessa postura armada... Onde ficou o sentimento?''. E, como quem sabe que não pode mais ignorar e fingir que não sente o peso de um pensamento, ele a olha de volta; ele olha, porque já não agüenta mais segurar as ações, por muito instintivas, que cada um deles tentava impedir com a força de vontade que não tinham.

- Não acho que seja pedir demais... Apenas não faça isso comigo.

- Pois eu te digo que pode me pedir qualquer coisa, que tentarei; eu tentarei, porque essa vida de quem desiste antes de começar já me está fatigada. Só não me peça para ficar longe.

- Mas nesse caso, se ignora o peso das palavras? Logo elas, que dizem tudo?

- E quem nesse mundo há de se prender em coisas leves e perecíveis como as palavras? Ainda mais quando nos esbarramos em sensações como essa, de ficar assim, só você e eu. Palavras... Se esse for o preço a pagar, esqueço tudo o que me foi dito.

- E eu? Esqueço o que não me foi dito?

- Não vejo motivo para lembrar o que faltou diante da ânsia de tudo aquilo que ainda pode vir.

- O tempo, talvez. O tempo.

- Eu espero... Eu te espero.

Continua...

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Da tua mudez - que me dói, me dói

- Na hipótese de dúvida, eu estou aqui.
- Não que eu não veja: te olho, te sinto, te abraço e te... E me estanco no ímpeto do beijo. Somente, e não que seja pouco, não acredito mais em você.
- Ainda assim, vale a observação que tanto me tortura: ainda precisa de mim?
- Acontece que se fosse entrar nessa pergunta, diria que sim. Então, foi hoje que decidi não atravessar mais a linha. É nesse momento que chego partindo, que ouço sem te escutar... Que não falo.
- E fica de fora, sem nada sentir?
- E fico calado, embora sentindo.

Continua...

domingo, 5 de julho de 2009

Projeto de fuga - fugir para o mesmo lugar?

- Quer saber? Deixa rolar. Põe em baixo do tapete, balança as mãos e dá as costas. Para mim, chega. – eu disse e saí, sem medo algum de voltar atrás. Saí, sem medo de errar ao tentar consertar um erro que nem existia ainda. E saí, sem medo de me arrepender. Porque eu sabia, dessa vez eu sabia, que não teria volta – não naquele momento surreal em que eu despontei de mim e fui só mente.

(''No entanto, para dizer a verdade, hoje em dia a razão e o amor quase não andam mais juntos'').

E eu sabia, acima de tudo, que eu não me deixaria voltar, porque apesar de atingir com crueldade cada célula do meu corpo, era o que eu precisava fazer. Eu sabia que era o correto; às vezes, você só entende que está fazendo certo porque ser sensato trás a dor instantânea que os erros só nos causam com o passar do tempo.

(Mas eu sabia, de forma indiscutível, que eu estava perdendo o medo das coisas erradas).

- Certo, desista. Mas, veja bem: você pode desistir do que quiser, mas não pode pedir o mesmo dos outros. Tá no seu olhar, na forma com que você segurou as minhas mãos... Está na sua postura, no seu tom de voz... Você não nasceu para perder. Não porque você não tente, mas porque você não consegue. Mas se quiser arriscar, vá em frente; sofrer e viver são sempre escolhas nossas. - E me mandaram criar vergonha na cara, exatamente com essas palavras. Quem eu acho que eu sou para desistir de sonhos que não pertencem exclusivamente a mim? Eu posso desistir de tomar o café da manhã, de ver um filme na tevê aberta, de dormir a tarde toda... Mas eu não posso desistir da minha faculdade, dos meus projetos e, principalmente, eu não posso desistir das pessoas. Porque está todo mundo, todo mundo, acreditando em mim. E eu não posso decepcionar ninguém, não só porque isso machucaria os outros... Mas porque aí não seria eu.

(Posso. Sei. Desisto. Insisto. Prossigo. Invisto. Cansei. Acredito. Duvido).

Às vezes você engana. Mente, desmente, omite, corrompe, interpreta, reescreve, teima, acha. Mas você sente. Você sempre sente.

(''Culpa, a pobre mulher sente, e mais: sente medo. Nem sabe de quê, mas sente. Medo de não merecê-lo, medo de perdê-lo, medo do dia seguinte, medo das estatísticas, medo dos exemplos das outras mulheres (...) essa criatura feliz e apaixonada, é ao mesmo tempo infeliz e temerosa porque teve a sorte de ser premiada com aquilo que tanta gente busca e pouco encontra: o tal amor como se sonha'').

Eu sinto que eu escolho viver, com todas as implicações e complicações que isso pode me trazer.

(Você não vive para fazer sentido hoje. Você vive para poder ter um amanhã).