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sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Versos antigos de um sentimento morto


Hoje te vi atravessando a rua e não gritei teu nome, não forcei os olhos para te enxergar melhor, não acompanhei teus passos quando você saiu do meu campo de visão. Seria isso te deixar ir? Depois de todas as despedidas mal sucedidas, das tentativas em vão de apagar seu número da minha agenda telefônica, depois de ser clichê até não ser mais nada além de uma personagem simples e vulgar... Será o fim algo banal como um caminhar cotidiano, veloz como o seu transpassar de pernas? Não achei que fosse ser plateia do fim quando ele chegasse, mas para contragosto do meu orgulho eu estou aqui, de mãos atadas e coração idem, engolindo a seco o ardor da despedida sem me manifestar... Sem reticências. 

Ridículo como, por muito tempo, eu fiz sala ao fim, o convidei inúmeras vezes para uma visita, deixei a porta aberta, estendi tapete vermelho, comprei-lhe rosas. Quando chegou, porém, fui incapaz de sequer estender-lhe a mão, de dizer "demorou, mas (en)fim"; fui incapaz de deixar claro que o fim, para mim, era mais definitivo que o começo. Quando o fim chegou, foi mesmo como um último dia de carnaval: um porre de doer a alma e uma lembrança de dias que parece que nem existiram. Quando o fim chegou e foi embora com você, o lapso de um milésimo de segundo entre a partida e um novo começo foi o mesmo que meu piscar de olhos; se eu não estivesse atenta, se eu não soubesse que em breve ele fosse chegar, se eu estive esperando mais um capítulo dessa história que só por utopia iria se estender infinitamente... Se o fim não fosse tão previsível como sempre defendi que o é, ele partido sem que eu o tivesse visto. 

Eu sei que sempre nos falta atenção. Sei que muitos de nós carregam nas costas "histórias mal resolvidas" como se essas se estendessem infinitamente pela memória; a verdade é que essas não passam de um fim não visto, de um encerramento tão brevemente substituído por um novo começo que foi impossível de notar. Não, não existe qualquer lapso temporal entre o fim e um novo começo. É tudo imediato, quase inconcluso, um tanto desorganizado. Se você é do tipo que diz piscar os olhos para não admitir que fechou-os a verdade, como eu, muito dificilmente vai ver o novo começo, que vem de carona com o velho fim. E depois nos queixamos que não sabemos por onde "começar" - nós, que dormimos no ponto, perdemos a linha, nos atrasamos na caminhada. 

Nós, que sempre teimosos achamos que a vida tem um botão de pause, que nunca aprendemos que o tempo de um suspiro já nos rende um atraso na nova história que se inicia com presa, com sede, desesperadamente fugindo do seu fim que vem logo atrás. Sei que fugimos do fim como se. 

Ps.: Achei esse texto, escrito em outubro do ano passado, no fundo de uma gaveta velha e pensei que ele não deveria ser esquecido – nunca fui boa em menosprezar e ignorar sentimentos, por mais antigos e ultrapassados que eles sejam. É incrível como eu sou eu a qualquer tempo. 

Ps².: Eu deveria, mas não vou declarar que o blog está morto ou que as palavras não me servem mais – elas sempre vão me servir. Acontece que, ultimamente, o silêncio tem sido uma companhia mais agradável. Quem sabe um dia, “por descuido ou poesia”, eu não volte a aparecer?

sábado, 8 de setembro de 2012

Tão logo me lembrei de você

Eu queria te dizer uma coisa, um monte delas, na verdade, mas não tenho certeza que o meu sentimento vá durar até o fim dessas linhas. Ainda assim, queria mergulhar nesse passeio suicida em que eu acho que digo alguma coisa que façam seus sentimentos se renovarem e você, em contra partida e sempre, pega a minha sinceridade e a deixa escorrer ralo abaixo. Você nunca foi muito bom em acreditar em mim. Nem quando minhas verdades saíam pelos olhos, escorriam pelo meu rosto e molhavam minhas roupas; nem quando a verdade arrancada de mim me fazia sangrar a noite inteira, nem quando eu sofria feito o diabo por cada vez que te fiz amargar o meu nome... Nem assim, nem com tudo, nem quando não tínhamos nada... Nem assim.  
Com o tempo, eu fui cansando de ser tachada de mentirosa, de falsa, de hipócrita, inclusive; ou, ao menos, passei a lhe dar razão para tais títulos que sempre atribuiu a mim sem vacilar. Nós entramos num círculo de automutilação de sentimentos; não sei por que, criamos ódio pelo nosso amor. Nunca vi duas pessoas se detestarem tanto justamente porque se gostavam em excesso. Esse sempre foi o pecado pelo qual nós nunca nos perdoamos: por você ser insubstituível para mim e eu ser a única no mundo para você. 
Certa vez você me disse que algumas relações que temos não se repetem na vida. Não, não se repetem mesmo, e eu venho aprendendo isso a cada dia decepção, a cada golpe no estômago, a cada encontro com uma alma vazia. Ou você acha que vai encontrar em outra, o que encontrou em mim? Eu sei que você nem chega a procurar, porque eu aqui, do outro lado, a quilômetros de distância, em um número desconhecido, em um endereço que você nunca saberá... Eu também não procuro. Cada vez que sinto sua falta o máximo que faço é ler uma carta sua, velha como o nosso caso, e choro como se tivesse acabado de te perder. Porque acabei: te perco todos os dias para a vida, para outra, para o passado, para o esquecimento. Te perco todos os dias dentro de mim e dói muito quando lhe procuro e custo lhe encontrar. 
Queria muito, queria sempre poder te ligar quando nada dá certo e soltar o meu coração nas suas mãos – você sempre o segurou com mais firmeza que qualquer outro e o apertava até eu entender que sempre poderia doer mais quando já doía muito. Mas acontece que desde a última vez que tive notícias suas, você já deve ter mudado de telefone umas mil vezes, mudado de endereço outras tantas e posto uma venda no seu coração. Sei que nem faz questão de mim e, na maior parte do tempo, eu também não faço muito caso de você. Mas acontece que a gente sempre cansa de ser fria e durona o tempo todo e é nessas horas que eu venho aqui, com o orgulho aos meus pés, te dizer que sinto tremendamente a sua falta – das nossas conversas à calçada, da sua inclinação de fazer piadas impróprias, do seu jeito torto como o meu em demonstrar afeto. 
Vez ou outra eu pego uma página em branco como essa era, olho para ela e penso em por pra fora tudo aquilo que eu jamais fui capaz de lhe dizer – e nunca serei, pelo visto. Eis aqui a verdade: nós estamos mesmo destinados a uma dessas histórias que acabam no meio – porque terminaríamos com um fim, se nunca tivemos um começo? É, amigo. Nós estamos mesmos direcionados a.


Sempre acaba com um de nós fugindo... Mas e dessa vez, quem foi?

sábado, 21 de abril de 2012

Um momento distante

para ouvir: Sweet disposition - The Temper Trap



song of desperation,
I played then for you...

a moment, a love,
a dream, a laugh,
a kiss, a cry,
our rights, our wrongs... 



Nos últimos tempos, o único que não me traiu foi o mar. Aquele vai e vem de ondas nunca me deixou esperando, nunca me deixou só, nunca me decepcionou: sempre haveria volta. À beira mar eu me sentia em uma espécie de solidão acompanhada – existe isso, solidão sem estar só? Olhei para os lados pensando se haveria alguém que valesse a pena, que eu pudesse chamar de companheiro, pra quem eu pudesse dar abrigo, quem pudesse me oferecer um ombro, um abraço ou uma verdade, ainda que dolorida. Não havia. Pensei, então: estou acompanhada pela solidão. Estaria também em paz, se a música da última noite não tivesse ecoado em minha mente. Como se ninguém estivesse te observando, ecoava em meus ouvidos, me importunada a paciência, me deixava contrariada. Eu sei, eu sinto cada passo sendo monitorado – tive que admitir. Sinto o desapontamento, também. Cada vez que nos cruzamos no corredor e os olhares perigosamente e sem querer se encontram, eu sinto exatamente isso: uma necessidade tremenda de um momento que nunca mais aconteceu. Um sonho, uma risada, uma combinação de pensamentos... Como dois anos podem mudar tanto em dois meses? Como pode haver tanto desencontro entre duas pessoas separadas por uma avenida, alguns carros, muitas coisas não ditas e tanto sentimento oculto? A nova circunstância entre nós é o silêncio – logo ele, que nunca foi nosso companheiro, é o único que ainda torna tudo isso suportável. O silêncio é aquilo que adia mais um pouco o fim que se torna cada vez mais nítido. Eu consigo enxergar, você não? Já posso até prever e tenho ensaiado em frente ao espelho um “oi, como você está?” sem nenhuma pretensão que minha pergunta casual seja de alguma forma respondida. Eu sei que ainda posso te ligar. Sei que a qualquer momento isso será ridiculamente superado e seguiremos as nossas vidas com uma expressão rude no rosto e o pensamento de “o que mais se poderia fazer?”. Mas eu não quero, porque ouvir sua voz só por uma linha telefônica é incômodo demais para quem queria mesmo era as palavras de um silêncio presente, daqueles que parecia fazer carinhos em nós quando, sem dizermos absolutamente nada, já havíamos dito tudo. Nunca fui dessas que superam facilmente as dores como se no dia anterior não estivesse com o peito dilacerado e abraçado a decepção. Nada me incomoda mais que o excesso de coisas não ditas. Nunca fiz questão de coisas facilmente ou falsamente perdoáveis. Tenho, sim, vontade de bater mais uma vez à sua porta e sem descaminhos, indagar que porra é acha que estamos fazendo. Assim mesmo: sem orgulho ou vergonha alguma, eu renunciaria inclusive a essa minha sensação de que só eu estou tentando ver as coisas pelo lado bom. Mas eu tenho medo de algo mais terrível acontecer: que não haja nada a ser dito. Que não tenha remédio e que o fim já tenha chegado sem eu me dar conta. Sei que somos jovens e irritantemente parecidas – sei que temos outros problemas e outras vidas e outros abraços. Mas não me peça apenas para ficar aqui, esperando você chegar; não me peça para ver ir embora todos os momentos em que precisei de você até só ficar aquilo no que você é absolutamente dispensável. Não me peça para esquecer, nem que seja por pouco dias, porque minha memória ainda não aprendeu com o mar. Porque nada é mim é tal como uma onda. Porque nem tudo que vai, volta - mesmo que volte, não há garantia de que seja como um dia foi. Isso de fato soa como uma canção de desespero para você. Cante-a, se quiser. E não pare até que tudo isso tenha um fim.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Rasgo à meia-noite

Eu sinto muito se vou decepcionar mais uma vez, mas é que aqui dentro o vento entra gelado e não houve whisky nenhum que conseguisse me acalentar. Se servir de algum consolo, não há muito mais para ser dito. Entre nós já houve choro, já houve mágoa e infinitas cartas tais como essa. Me pergunto se alguma delas surtiu efeito e eu finjo que não sei a resposta – como se eu não soubesse que você sempre fez questão mostra aquilo que tem escrito na sua alma. Você sempre refletiu na sua íris esse gosto peculiar pelas coisas mais erradas e disso eu não posso me queixar – nunca fui ingênua. Nem você. Fomos juvenis com mentes desvairadas, dois descontrolados com vontades desmedidas, duas almas perdidas sem possibilidade de encontro – fomos tudo, inclusive o que nunca seremos. Mas inocentes? Jamais. Lembra daquela vez que varramos a noite em busca de algo que tivesse algum impacto sobre nós? Não havia mais álcool, cigarros e alucinógenos que surtisse efeito. A loucura sempre foi o nosso maior antídoto. Tenho pensado nessa época com um forte peso nos ombros e uma vontade tímida de voltar a não me importar nem comigo mesma. Até que eu retorno à realidade. Sai ano e entra ano e essa minha vontade de não só fingir ser feliz só aumenta. Sabe aquele sorriso forçado? Não tenho mais. E lembra como eu costumava dizer “a gente enfrenta que eu não tenho problema com o desperdício”? Ou não era essa a frase? Nem me lembro mais. Talvez seja por isso que eu nunca posso deixar de te escrever. Você foi a minha maior toxina, mas eu sempre achei interessante o fato da cura poder ser produzida a partir daquilo que causa o envenenamento. Eu me encho de você para ter forças de te evitar. Essa minha satisfação repentina pode até soar falsa para alguns – nesse momento você gargalha e pensa: “ainda bem que você sabe”. Sei e até entendo. Quem me percebe ausente desses buracos e fundos de poço comuns que todo mundo vez ou outra se enclausura até pode pensar: “essa aí não dura até semana que vem. Ninguém brinca de ser contente de verdade por muito tempo”. É impossível apagar os dias tresloucados e únicos que passei ao seu lado... Acontece que muitas outras coisas me são tão únicas e doloridas e também não pretendo recorrer a elas quando essa minha fantasia tiver fim. Quando for necessário, eu pinto, bordo e saio dessa numa melhor do que eu estava quando te deixei. Qualquer coisa. Só não te dou mais o meu amor. E agora que chegamos ao momento de ofensas e despedidas, eu só quero engolir o antídoto que você me é como se tivesse tomando aquele vinho que você me ensinou a gostar. Quem me viu há algum tempo atrás, andando com você, não seria capaz de imaginar que eu cheguei a essa limite de lucidez em que eu me encontro agora. Mas ao contrário do que torcem, não perdi a loucura que me faz ser clichê com coisas bobas ou gritar quando tenho vontade. Pelo contrário: ando falando alto até com as paredes, choro assistindo novela e assisto o pôr-do-sol todos os dias com braços fortes me abraçando. Consegue ver a loucura aí? Não me perco mais em você, mas continuo me perdendo em mim.

Lembre-se sempre de mim.
Quando precisar, eu lembrarei de você.


Eu nunca aceitei a simplicidade do sentimento. Eu sempre quis entender de onde vinha tanta loucura, tanta emoção. Eu nunca respeitei sua banalidade, nunca entendi como pude ser tão escrava de uma vida que não me dizia nada, não me aquietava em nada, não me preenchia, não me planejava, não me findava.
Nós éramos sem começo, sem meio, sem fim, sem solução, sem motivo.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A minha verdade sobre você

Tem muita coisa que ainda precisa ser superada por aqui, inclusive, essa minha vontade de falar de você o tempo todo, como se houvesse amor, carinho ou pelo menos saudade. Não há. O que restou foi só essa vontade de que tudo fique no passado. Essa vergonha mútua por nunca termos dito o que precisava ser dito. E essa chance de recomeçar algo mais bonito e mais sincero bem longe daqui, com outros corpos e outras almas que não sejam tão individualmente desprezíveis como as nossas, quando juntas. Você é o pior de mim, coração, sempre foi. Com você, eu me entreguei a noites sem rumo e sem preocupação, pelas partes mais sombrias da cidade. Você me fez esquecer família, os amigos, os outros amores que tive; me tapou os olhos para os sentimentos das outras pessoas e fez com minha visão fosse focada num único objeto: você, você, você. Eu fui afogada no teu veneno e você jorrou sobre mim as mais fingidas e dramaticamente sentimentais ameaças, como se o que me prendesse a você fosse essa sua falsidade de quem nunca sentiu nada por ninguém; como se eu não soubesse que o que você fazia comigo era um jogo bobo de idas e vindas, esperando o momento que eu ia me render de vez. E depois, o que aconteceria? Você ia por a minha paixão-ou-o-que-quer-que-fosse ladeira abaixo e não dizer nenhum adeus? 
Lembra como eu sempre te chamei? “Coração”, sempre lhe faltou um no lugar dessa pedra fria que tem no peito. E aqui eu te julgo e condeno cada instante que você me iludiu com suas promessas de libertinagem porque, acredite, eu também já me julguei demais. Talvez por isso eu nunca tenha conseguido te esquecer: porque eu também não consigo esquecer quem eu fui, com você. Não houve chance para auto-perdão aqui. Todos os dias, aquela figura me atormenta. Acordo pela manhã com o raio de sol no meu rosto e penso: que bom que hoje há luz. Peço todo dia que aquela escuridão não retorne e que eu continue assim, capaz de sentir alguma coisa, nem que seja pena pela vida que um dia nós levamos juntos.
Fernando Pessoa um dia disse que cartas de amor são ridículas e antes que o poeta encarne em ti, quero dizer que o ridículo das minhas palavras não é fruto de qualquer sentimento bom. Talvez seja uma mera condenação que eu me destinei, isso de ficar remoendo o passado como forma de jamais esquecer o desprezo que eu devo sentir por ele. Nada tira da minha cabeça que muita coisa ali foi inútil, e não me venha com esse discurso de “tudo o que você foi ajudou a construir quem você é”. Eu dispenso. Eu teria sido muito mais grata de tivesse chegado ao mesmo ponto por um caminho diferente. Por isso, não me permito esquecer você para não esquecer quem eu jamais devo retornar a ser. E por mais masoquista ou sádico que isso pareça, espero que você, aí do outro lado de onde quer que esteja, faça o mesmo em relação a mim: lembre da garota da all star usado e camisa de filme que sentava ao seu lado na mesa do bar e repita com fé – “não quero sentir aquilo outra vez, nunca mais”.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Fix you


And high up above or down below
When you're too in love to let it go
But if you never try, you'll never know
Just what you're worth

Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try, to fix you.

[Fix you - Coldplay]

Há muito tempo eu não falo de amor, porque ele próprio tem dito tudo por mim. Vez ou outra na vida, eu esperei que alguém me provasse alguma coisa. Que algo de maravilhoso acontecesse. Que a vida finalmente fosse justa comigo. Passei muito tempo reconstruindo a mim mesma, somando os pedaços que foram destruídos e separados por cada tempestade que por aqui passou – um trabalho muito duro para quem tem somente gotas de força de vontade. Fiz tanto o tipo de quem não se importa com ligações no fim da noite ou no dia seguinte, mas enganar a mim mesma já não fazia muito efeito. Fui curada pelo teu sorriso. A cada vez que tentei vulgarizar a mim mesma, em uma tentativa humilhante de me fazer sentir algo que não fosse amor, só recebei teus braços em volta do meu corpo, em uma atitude clara de proteção de mim mesma. Sempre digo: você me salvou do perigo que eu me representava. Eu poderia ser autodestrutiva até que secassem as lágrimas e, ainda assim, continuaria dançando o rock à meia-noite, as luzes apagadas e a garrafa de wisky no canto da sala. Essa valsa solitária não me fazia sentido, mas preenchia a vontade do que quer que a gente passe a vida inteira procurando. Para quem esperava de mim um sorriso, um abraço ou qualquer coisa que demonstrasse que aqui dentro ainda havia algum afeto, eu sempre tinha alguma proposta indecente a oferecer, que no fundo nada mais era além de um “está disposto a ser minha válvula de escape?”. Tudo o que eu tive, antes de você, foram noites que não merecem um fiapo de memória. E escondidinho, depois que o efeito das pessoas e das coisas passavam, eu me reunia com a única parte sóbria de mim e pedia a Deus, por favor, por favor, me tira dessa escuridão e me põe salva nos braços de alguém. Você, porém, é mais que o meu milagre pessoal. Quando aparece na minha casa, às quatro da tarde, é como a minha oportunidade de ser feliz para sempre. Dizem por aí que ninguém deve acreditar no amor incondicional, que a vida é efêmera e os sentimentos mais ainda e que as pessoas são mais instáveis que o tempo. Mas que tipo de pessoa eu seria se não me prendesse forte à esperança mais bonita que eu tenho? Se for só mais um sonho bobo, pois que tenha o gosto mais puro de realidade. Sempre que vejo alguém que é solidão por não conseguir ser amor, tenho vontade de dizer: pede, numa prece escondidinha, que alguém venha te salvar, porque tem tanta dor no ato de se conformar em ser sozinho. Eu mesma ainda peço por favor por essas pessoas em dias como o de hoje, em que eu sinto que mais gente merece essa felicidade que habita em mim. Eu, que já passei por todos esses caminhos, vejo que misantropia só tem graça se for saída de uma noite só; colecionar roupas, amores e histórias não têm valor algum se no final tudo é um fiasco de comédia sem graça, de violão desafinado e cantor de voz rouca. Parece música de velório, essa que embala uma vida cuja única motivação é seguir em frente e só. Confesso que eu não me arriscaria a ser tanto se não fosse por alguém que visse graça no meu desastre pessoal. Sou muito frágil e pequenina quando não tenho você sempre ao meu lado me lembrando que toda a força que preciso sempre pode ser encontrada na poesia e nas verdades do amor. É por hoje eu ser sorriso e não tragédia que eu agradeço e obrigada, obrigada, obrigada a você por ter vindo me salvar de mim. Por ter me mostrado que é possível o que quer que seja. Por ter me provado que o “nós” é melhor que todas essas drogas e melodias e desperdícios. Obrigado por ter sido melhor para mim de um jeito que eu nunca fui.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Não somos porque não deveríamos ser

Por muito tempo eu esperei o correio chegar com alguma carta sua. Por muito tempo dentro de mim não foi um bom lugar para se viver. Por muito tempo eu me perguntei quando finalmente eu conseguiria ser mais amor a mim que amor a você, embora soubesse que qualquer das duas coisas sempre seria mera ilusão. Sou um caso eterno de amor não correspondido. Não retribuo nem o amor que tenho a mim mesma, mas tento ser o mais sincera possível quando penso: hoje eu vou ser feliz, vou jogar na lata de lixo as mágoas e durezas da vida e recomeçar um novo dia. Já escrevi tanta poesia-desabafos-versos-baratos por algo que eu sabia que não valia uma única linha de sentimentos jogados fora; fui e voltei muitas vezes nesse impasse de seguir em frente ou continuar mantendo o olhar preso ao passado, em uma eterna busca por um adeus que nunca existiu. Me repeti tantas vezes em um drama extremamente descartável, que me enojava, me impedia de encarar minha face sem vergonha e sem juízo no espelho, me prendia em um movimento cíclico de volúpias desnecessárias e choros falsos. Percebe como tudo isso me destruía? Era a força que rompia a cada dia uma nova parte da minha alma, me maltratando por dentro – e ainda assim eu continuava, por amor, por fé, por consideração, por dívida com aquilo que nunca foi, por alguém que nunca existiu, por tudo que eu queria ter sentido. Continuei, porque sou destrutiva até o último segundo, sou insistente até a burrice, sou capenga e ridícula sem receio algum. Até que bastou. Até que tanta indiferença e algumas palavras duras e dispensáveis atingiram o meu ínfimo a ponto de me fazer pensar: o que eu acho que estou fazendo comigo? O que querem agora, depois de me ter rasgado ao meio e ter tirado de mim toda a carga de coisas boas que um dia eu pensei em oferecer? Isso é tão inadmissível que ferve o sangue. Não é isso que vai honrar todas as palavras que eu já desperdicei ou o tempo que eu passei me lamentando por quem não sentia a minha falta. Não é isso que vai trazer alguém que nunca tive de volta para mim. Nunca deixei claro, mas não espero nenhum tipo de recompensa por todo o sofrimento que tive que encarar, muito menos um pedido de desculpas ou o adeus que desisti de esperar. Não vou brindar ao fracasso, se é isso que esperam. Sou muito orgulhosa de ter enfrentado tudo, mesmo sem ajuda alguma, e sem me esconder ou fingir que está-tudo-bem-vamos-continuar-a-viver. Eu não precisei me afogar em cerveja barata, não mudei minha rotina, não procurei conforto em outros corpos e outras bocas e, acima de tudo, sempre fui fiel a mim mesma, embora isso não tenha sido por causa de você. Enfim, entendi que as coisas simplesmente não deram certo e a culpa não é minha, porque fiquei mais fria, ou sua, porque ficou mais distante... Nós não quisemos que as coisas dessem certo, foi isso que aconteceu e ponto final de uma vez por todas, então não venha perturbar a minha paz dificilmente conquistada com convites à meia-noite de sábado carregados de malícia e ironia. Eu finalmente me vi livre dessas amarras e, pronta para continuar, tracei um caminho digno ao meu estado de espírito e todas as essas coisas bonitas que nós passamos a vida inteira procurando. Então, me perdoe a descrença que qualquer um desses seus sentimentos repentinos sejam sinceros, mas dessa vez eu prefiro não por meu coração à prova. Prefiro não amar alguém para ser abandonada no dia seguinte. Vou, sim, aproveitar esse dia de sol maravilhoso que se apresenta a mim cada dia – a vida agora é minha amiga e a ela eu dou as mãos. E fecho as portas ao passado e a tudo que a ele pertence, sem arrependimentos e sem o desejo que voltar atrás.


domingo, 18 de setembro de 2011

Eu, pula um parágrafo, você

O teu cheiro e a tua risada já não me incomodam. O pensamento em qualquer romance é cada dia mais raro e tudo que em mim foi destruído pela sua presença, vai aos poucos voltando a ficar inteiro. O espaço entre dor e a lucidez é cada vez menor. Só preciso continuar assim: um pouco mais de fé em mim mesma, ao invés de me manter presa a uma promessa de algo bonito que, convenhamos, nem você nem eu acreditamos mais. Esse é o trágico fim do que nunca mereceu uma vírgula sequer. Só restou a saudade do que não existiu, a falta de um abraço e um último sorriso, torto como a nossa história.


Forever is a long long time when you lost your way,
trying to follow your ideals (are sorry),
but your so-called life, it is such a waste...

domingo, 21 de agosto de 2011

Nunca mais


Hoje eu acordei drástica, trágica... Insignificante. Cruel. Sinto culpa e não sinto nada; fica sempre essa sensação de escuridão sem fim que nós tão bem conhecemos nos nossos últimos dias, hoje tão distantes que parecem mentira. Toda essa história pareceu roteiro de filme que acabou sem suspense, sem grandes revelações, sem chance de continuação. Lembro que assim que você se foi, eu passei dias pensando em onde reunir forças para juntar todos os pedaços de você que foram deixados na sala, na cozinha, no nosso quarto. Fiz muito esforço – em vão – pra me olhar no espelho e não ver em memória o seu reflexo ao meu lado, quente em um abraço. Tentei por muitas vezes sair de dentro de mim mesma, mas a memória forte de você me puxava cada vez mais fundo e eu fui ficando assim, miudinha em um mundo só meu.
Das piores das mentiras que eu já contei, a de que esqueceria você sempre me pareceu a mais cruel. A mais ridícula de todas, porque não engana a ninguém, não satisfaz as nossas necessidades e não me ensina a seguir em frente. A pior parte do deixar ir é não poder pedir pra voltar. A pior parte de ser magoada é a necessidade do consolo por justo aquele que magoou. A pior parte da saudade é a foto no retrato, a Marisa Monte do rádio, o resto de comida do último jantar. A pior parte de você é você ainda existir enquanto eu tento inutilmente te expurgar da minha vida, dar um basta, levantar a cabeça e começar de novo.
Você me ensinou a ser mulher, a ser mais eu, e isso não há mágoa nenhuma que possa apagar. Mas também não posso ser injusta comigo mesma e lhe dar mais do que merece: hoje, não passa de uma lembrança minha, de uma estranha curva, de um caminho torto. Hoje você é um homem com cheiro de cerveja barata, cigarro e putas mal pagas. Hoje, meu bem, o que eu espero de você é que não volte jamais.

sábado, 13 de agosto de 2011

As últimas palavras sobre você


Eu jurei a mim mesma que nunca mais ia lhe escrever, porque depois de provocações, dramas chulos e uma conversa que nunca existiu, pensei que não faria mais bem algum nem a mim nem a você mais alguma prolongação dessa história. Nas últimas oportunidades, o que sobrou foram comentários clichês meus e uma fuga desenfreada sua de não ver mais o meu rosto nem de longe. Mas acontece que hoje o dia está tão bonito e me vieram umas lembranças tão fortes de você. Eu sei que no seu coração estão guardados, acima de tudo, os desentendimentos e mágoas que são tão característicos de nós dois; mas não é reciprocidade o que eu busco e, ainda que fosse, eu não poderia deixar de ver você como a única oportunidade que tive de ser absolutamente diferente de tudo que eu já fui. Eu não posso privar o meu sentimento de agradecimento em relação a você, menino, e me desculpe se eu não demonstro isso na mesma imensidão que eu sinto – mas, você sabe, nunca fui boa em afeto, carinhos e amor. Sempre achei que depositar todas as minhas certezas em algo não palpável como um sentimento – em especial o nosso – seria uma loucura imperdoável da minha parte. Até hoje acho que não errei em pensar assim, mesmo porque eu passo muito tempo querendo uma coisa sem ter certeza que foi de fato aquilo que eu sempre quis. E de forma nenhuma eu quero aqui falar sobre futuro, destinos e escolhas. Eu só queria dizer que é muito forte o carinho que eu tenho por você. Que eu espero que a vida não te maltrate nunca e que as suas escolhas sejam bem mais certeiras que a minha. Espero que sempre valha a pena lutar e que a batalha não seja árdua – que nunca lhe falte um amor no qual acreditar e uma fé enorme para seguir em frente. Espero que você saiba aproveitar as suas alegrias e aprender a imensidão de coisas que cada instante de tristeza pode lhe ensinar. Espero que você siga em frente sem olhar para trás e que você sinta sempre coisas muito boas, principalmente quando a saudade apertar e for inevitável lembrar-se de mim – porque, saiba: eu me lembrarei de você. Espero que você encontre os seus caminhos, mas que também se perca de vez em quando – deixe o destino transformar o seu coração em algo impulsivo, quando necessário. Espero que você seja forte e não deixe que lhe digam o contrário – ninguém, nem mesmo você mesmo, sabe até onde pode ir antes de chegar lá. Aliás, desejo que você chegue lá e que deixe pelo caminho o máximo de você mesmo; não se desespere por isso, não se sinta partido ou incompleto, porque você jamais deveria privar as outras pessoas de conhecer você da forma que eu conheci. Espero que você cultive sempre o seu melhor e que vá matando pouco a pouco aquilo que nada lhe ajuda ou acrescenta. Espero que você tenha a quem desejar coisas assim – de repente nada tão cheio de despedida, mas algo igualmente bom. Espero que você saiba de tudo isso e entenda que é sincero, que é verdadeiro e sem uma gota de mágoa. Espero que um dia você acredite: você foi parte do meu coração.

''Me despeço dessa história
E concluo: a gente segue a direção
Que o nosso próprio coração mandar,
E foi pra lá, e foi pra lá, e foi pra lá...''

[Assinado eu - Tiê]

sábado, 6 de agosto de 2011

Toda minha mágoa e amor de sempre


Venho sonhando com luzes fortes e carros em movimento; deito a cabeça no travesseiro e automaticamente surgem os sons do vinho sendo aberto, do seu sorriso estridente e do meu coração palpitante. Mês passado eu jurei ter juntado a última leva de todas essas sensações, empacotado e endereçado a você – como se eu soubesse o seu endereço. O correio devolveu e novamente eu abri meu coração a tudo o que mais me dói – um boicote de mim mesma, um rasga fora do pouco amor próprio que ainda me restava. Você não me deixou nem um resquício de sentimento bom, nem um traço do caminho que eu desenhei tão cuidadosamente para nós; não sobrou nem minha dignidade para que eu pudesse juntar todos os pedaços de mim e viver daqui pra frente uma espécie de faz de conta, uma mistura de solidão, mal me quer e desejo de retomar minhas ilusões infantis de quem nada sabe sobre a vida, amores e partidas. Você escreveu bem a tragédia de história que nós iríamos viver e ao final dessa peça mal ensaiada, o que resta a nós é essa sensação de perda de tempo, de “poderíamos ter feito melhor, se tivéssemos querido”. Se você tivesse querido.
Nunca fui de desejar mal a ninguém, mas seria a pior das hipocrisias se eu dissesse que espero lhe ver feliz e satisfeito, com outras paixões e outras histórias que não a nossa; porém, tão pouco vou perder minha força e os meus dias lhe despejando mil e unas sementes de vingança. Quero mais é que você apareça à minha porta uma última vez; não me dê bom dia, não pergunte como estou – se não quiser uma resposta ríspida – e tão pouco me deseje qualquer coisa como se lhe importasse de algum modo o que tenho ou deixo de ter – apenas recolha suas coisas, esvazie sua existência da minha vida, saia da minha sala, do meu quarto, dos meus livros e das minhas boas músicas; recolha suas fotografias e quando acabar, nem precisa dizer adeus. Deixa no ar essa vagueza de uma despedida não concluída. Deixa eu sentir saudade de você, morrer de solidão se for preciso; mas não volte, não ouse pensar em me fazer uma visita, não passe à minha rua quando eu estiver na calçada. Deixa eu chorar e me afogar em mágoas próprias, deixa eu destinar mil cartas mal escritas a você, deixa eu amargurar minha alma idosa e reclamar horas a fio para as paredes. Deixa eu achar que tenho o direito de tentar escolher a quem amar e com isso dizer: nunca mais, não desse jeito, não com essa dor. Deixa eu aprender a viver sem você.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A carta que você deveria ler


“Tem coisas da gente que não são defeito nem erro:
são só jeito da gente ser”.

Eu sempre acreditei que tudo que algumas pessoas esperam é uma chance para destruir a vida de quem está logo ao lado. Simples assim: esperam até ter a primeira oportunidade e vão lá – sugam tudo o que há de bom e cospem na cara de alguém, para que essa pessoa veja sua única fonte de felicidade se esvair pelo ralo. Por muito tempo, essa foi a nossa história do ponto de vista de cá: você, meu calo no pé; eu, sua perseguidora fiel. Não que isso importe a você, e eu sinceramente acho que não importa, mas de repente eu descobri que ao menos para mim ainda vale à pena: se não por você, mas com certeza pela minha incapacidade de carregar por toda a vida algum sentimento que não seja bom. Compreendi que mesmo aquelas pessoas que me fizeram (sentir) mal ou que não me fizeram (sentir) nada ou aqueles que nunca dedicaram a mim uma única palavra que não explicitasse desprezo ou, mesmo ainda, quem me ofendeu de forma justificada ou não... Enfim, ninguém, nenhum desses, é dispensável, porque por mais insignificante que qualquer pessoa tenha sido, eu devo a todos uma parcela da motivação por eu ser quem – felizmente – eu sou hoje. E assim eu acabo nesse dilema de um pedido de desculpas mal feito – não sou boa em ser humilde, mas a intenção não é o que vale? –, a expectativa de que releve qualquer atitude ou palavras da minha parte que, intencionalmente ou não, tenha lhe atingido. Porque esse nunca foi o meu intuito – atingir alguém. A ideia sempre foi me proteger, e quem pode me julgar por isso? E, mais ainda: quem pode nos julgar por compactuar com uma briga infantil que, cá entre nós, nem motivo real e concreto ainda tem. Se quer saber a (minha) verdade, acho até que nos daríamos bem – me atrevo até a dizer que muito temos em comum em relação aos nossos tipos de gente. Mas ninguém quer ceder, embora, de todo coração, eu não me importasse de fazê-lo porque não vejo a possibilidade de perder nada com isso – por baixo de todas as implicâncias, confesso, sempre guardei uma impressão boa de você. De qualquer forma, não serei eu que vou mergulhar sozinha e sem perspectiva de sucesso em uma relação por enquanto condenada ao fracasso; tampouco vou julgar os seus juízos de valores, os seus sentimentos e, mais ainda, não serei eu que de alguma forma mudarei esse rancor que sente por mim: isso já é com você, e se achar necessário que assim o faça. Mas de minha parte deixo claro: você, para mim, é como qualquer outra pessoa que eu ainda não conheci – sem pré-juízos, sem condenações ou antecedentes. Só uma admiração boba à qual, sinceramente, espero atribuir motivos. E no mais, não serei hipócrita em dizer que o passou está no passado, porque se uma coisa é perdoar, outra bem diferente é esquecer – e não quero me olvidar nunca, de qualquer forma, porque só me lembrando de tudo eu tenho a garantia de, com um pouco de esforço, não ser pegar na minha própria armadilha outra vez. E no fim, até sorrir, quem sabe, de ter perdido tanto tempo com birras inúteis e que não acrescentaram – e isso eu garanto – nada nem a mim nem a você.
E se ainda assim, tudo o que eu tiver de resposta for um silêncio gelado ou uma frase arrogante seguida de um “tanto faz”, eu estarei satisfeita – aprendi a não esperar o esperado.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Meu mistério é você

Você me soa como uma incógnita tão grande que me faz perder o ar. Algo como um pouco de paixão e um muito de loucura. Algo como você e eu em tardes de um dia qualquer, sentados à mesa do bar e recitando nossas ironias incomuns. Eu lembro que sentávamos lado a lado meio sem querer, meio que de propósito; lembro que eu sempre tomava a iniciativa, já que você nunca foi muito um homem de atitude. E era nesse momento em que eu deveria ter percebido que seria essa a causa da nossa morte: a falta de ação. Porque nós morremos sem tentativa, morremos por pouco interesse, morremos sem tentar.
Nossa história acabou em alto mar, boiando no meio do nada, afogada nesse seu medo incomum de ser feliz – porque, eu lhe digo, eu poderia ter lhe feito muito feliz. Você ainda me fez, mesmo que por acaso, mesmo que nem nisso você tenha se empenhado. Pois bem, meu garoto, você que sempre disse não saber de nada, foi capaz e sem esforço algum de me plantar no rosto alguns poucos e sinceros sorrisos. E agora eu planto em você a possibilidade de um arrependimento: imagine o que você teria feito por mim se tivesse tentado, hein? Imagine o que eu poderia ter feito por você se tivesse sido permitido, se a janela para a alegria não tivesse travado o seu coração.
Não sou mulher de olhar para o passado e graças ao bom Deus aprendi que ficar remoendo as mesmas palavras às mesmas pessoas é tão frutífero quanto ficar calado; mas eu não posso deixar de dizer que agora sim faz sentido a minha atitude, naquele momento absurda, de ficar calada quando, pela primeira vez, você, de forma igualmente inédita, quis dizer alguma coisa. Acho que agora começa a fazer sentido o medo que você sentia – que deveria ser o meu medo, também, só que a mim com razão. Preciso remoer tudo isso, repetidas vezes, para que eu finalmente compreenda: não há nada a ser compreendido.

"Amo-te tanto que decidi deixar-te ir, se é isso mesmo que queres, mas és tão egoísta ao ponto de não me dar escolha, fazendo com que fiquemos ligamos para sempre pela vergonha, culpa e dor", foram minhas palavras a você quando eu finalmente percebi a impossibilidade de viver sozinha uma história a dois.

Às vezes eu tenho a ligeira impressão que a minha vida
trabalha em loop infinito de encontros e desencontros.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Tudo que faltou para você ser

Ninguém sabe que aqui dentro, por trás de todas as vitórias e troféus em coleção, eu carrego comigo a pior das minhas verdades mal contadas. Aquela que você faz questão de não me deixar esquecer sempre que aparece na minha vida assim, sem aviso, sem motivo... Só para não deixar eu me acomodar, só para não me deixar lhe esquecer. Não sei o que se passa com você e muitas vezes eu lhe proferi palavras de desprezo que, de forma ingênua, achei que meu coração fosse capaz de ouvir. Mas depois de um “adeus” um tanto dramático e de uma repulsa que não convence ninguém – principalmente a mim mesma –, a única coisa que fica é o seu sorriso.
Nossa, eu nunca lhe disse, mas como eu sou apaixonada pelo seu sorriso. Como eu sou louca pelo seu sarcasmo e por cada palavra carregada de ironia que sai da sua boca. Como você me faz perder a cabeça cada vez que você se refere a mim com esse ar de superioridade, testando a minha arrogância, sabendo eu que você espera que eu responda em mesmo tom, para ficarmos nesse eterno jogo, em uma tensão que paira entre nós, sempre e sempre e sempre, até que a realidade me joga um balde de água fria e eu percebo que você não está mais aqui – está longe, realizando os seus sonhos, construindo a sua vida, amando outras pessoas. Então, eu lhe pergunto, porque voltar de forma tão avassaladora? Porque não me encontrar e simplesmente ser simpático e educado, não é isso que todos os outros fazem? Precisa, de fato, me lembrar de quem um dia você foi para mim e me deixar nessa eterna dúvida de: será que continua sendo?
E por mais que racionalmente eu diga “não quero, não posso”... Por mais que estupidamente eu ainda fantasie uma situação que, você e eu sabemos, é impossível por uma série de fatores, uma porção de decisões – em maior parte, suas – que nos limitou a tanta coisa... Por mais que eu saiba que tudo isso também é minha maior carga de vergonha, arrependimento e loucura... Por mais que exista distância e outros amores e outras vidas... Por mais que eu queira estar na sua vida, mas não queira fazer parte do que hoje você tem... Eu ainda não consigo deixar de pensar em você como a minha maior chance de ir além de mim mesma. Não consigo entender como alguém pode ser exatamente aquilo que eu não quero e, ainda assim, conquistar minha vontade. Não consigo esquecer que um dia eu me permiti corromper tudo que havia construído por um sentimento que eu jamais vou entender.
E quando eu acabo de pensar tudo isso e finalmente percebo o quão irracional eu estou sendo, sento solitária para chorar pelas palavras que você nunca mereceu e que você nunca chegará a ouvir.

''Uma coisa que eu aprendi na vida:
Deus não te tira as coisas, Ele te livra delas".

terça-feira, 31 de maio de 2011

O início de algo bom - há de ser


Hoje foi um daqueles dias em que eu fiquei feliz por qualquer bobagem que vi na rua. Estava, como sempre, em mais um daqueles momentos reflexivos em que não sei se me entrego de uma vez a essa carência de viver ou se espero mais um pouco para analisar onde esse caminho todo vai dar – a luz no fim do túnel pode ser simplesmente uma lanterna velha piscando na mão de mais um desistente. O fato é que eu nunca fui de ter calma, de deixar as coisas acontecerem, let it be, let it be. Talvez por isso minhas marcas são tão profundas: eu sempre senti os meus dramas antes mesmo deles acontecerem. E às vezes nem aconteciam. Continuam sem acontecer. Minhas lágrimas insistem em secar no meio percurso pelo meu rosto. E só aos poucos eu vou me dando conta de como isso é ridículo – eu, você, os fantasmas e tudo mais que deixam sombrio nosso relacionamento (se é que pode se chamar assim), que há muito já não precisava mais de tensões. Nunca fui de te escrever, mais eu precisava dizer de uma vez por todas: gosto de você. Sempre gostei e não me condeno por isso, mas a vida – a culpa é sempre dela, essa danada – foi nos afastando de tal forma que nunca tive tempo de te dizer tudo o que eu queria. Faltou coragem, faltou espaço na mente e no coração. Hoje, eu reflito sobre tudo o que passamos – sozinhos, por causa um do outro. E vejo que o assunto não é mais tão intocável. Vejo, acima de tudo, que só superarei certos choros e certos traumas a partir do momento que eu encará-los de frente e acreditar no que eu digo: você não é tão terrível quanto pensei. E mais: estou vivendo muito bem agora, apesar de ter passado dias inteiros só pensando o que diabos você tinha que conseguia me atingir assim. No fim, tudo o que eu peço é que tenha paciência, pois o meu coração lento já não compreende com tanta facilidade essa necessidade das pessoas de nunca permanecerem nas nossas vidas e, ainda assim, se eternizarem em nós.

Só andei pensando que conversar a respeito pode fazer algum bem. De qualquer forma, exercitar o perdão e a capacidade de recomeçar nunca fez mal a ninguém.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Meu amor dos tempos de sempre


Liberdade na vida é ter um amor pra se prender.

Eu preciso te dizer que meu amor por você cresceu absurdamente durante os últimos 4 anos. Que os meus dias foram mais felizes e mais intensos, que as cores são mais vivas e que a beleza do mundo salta aos meus olhos cada vez que eu tenho a sorte da sua presença.
Sorte, sim. Porque história como a nossa tem aos montes por aí, mas o que nos faz diferente é que aconteceu comigo, com você - e de como nós sozinhos já somos parte de um mundo paralelo e como essa singularidade se tornou semelhante desde o dia que eu te conheci.
Sorte, sim. Porque muitos como nós tem o prêmio de se encontrar, mas poucos dão valor como nós damos. E vivem as coisas tão profundamente. E têm tanta certeza de um futuro maravilhoso como aquele que planejamos todo os dias.
4 anos não são 4 meses, não são 4 dias e não são nada perto dos tantos outros que virão. Que eu te amo você já sabe, que a minha vida é a sua vida não é mais nem novidade e ser a mulher mais feliz do mundo já se tornou rotina. A novidade é que isso tem um valor único, maior e diferente, todos os dias. Como os de hoje, em que você me abraça, me beija e diz ''parabéns, meu Amor''.

Com a paz que isso me dá,
beijos e abraços fortes,
Para sempre tua.

(17/03/2011)

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Querido,


Percebe como tenho lhe escrito muito, ultimamente? Não sei, acho que todos nós usamos as armas que temos e você tem sido a minha mais fiel válvula de escape. Porque tudo o que eu preciso, principalmente esses dias, é fugir. Você sabe bem como se faz isso, não? Juntar umas roupas velhas em uma mala qualquer, pegar os melhores escritos, todos os textos com palavras usadas e cadernetas com folhas em branco. Juntar tudo e cair fora – mergulhar no desconhecido, não olhar para trás, não ter peso nas costas, não ter hora para voltar. Como deve ser bom, hein, menino? Quantas e quantas vezes você já não deve ter sentido essa mesma sensação de não pertencer a lugar algum e, ainda assim, sentir-se em casa – onde quer que esteja. Quantas vezes você já não deve ter achado que a vida não tinha mais jeito, que a única saída era escapar desse redemoinho de confusão e adeus, bye bye. Tenho certeza que sempre esteve certo. E se hoje eu lhe perguntasse o que seria o certo a fazer, você me mandaria passar o melhor perfume, pegar o metrô e escrever uma bobagem qualquer, sentada em um banco entre as estações 9 e 10. Ou sair da cidade. Ou mudar de país, trocar o telefone, pintar o cabelo, emagrecer 10 quilos. Tudo que me tirasse do velho quadro pintado à tinta óleo – tudo que não lembrasse a mim mesma. Vai ver é isso, menino: preciso fugir desse lugar, mas também preciso fugir de mim. E preciso me encontrar longe daqui, distante desses erros e repetições. Porque eu já não agüento mais ser a mesma. Não agüento a rotina de encontrar o mesmo rosto cansado, todos os dias. Quero tirar férias de mim. Quero me perder e me encontrar um bom tempo depois, bem melhor, bem mais forte, bem mais como você.

Tenho vontade de ser assim, livre feito gaivota. Mas tem sempre aquilo que te prende e prende e prende. Tô de mãos atadas, menino. Tô precisando de alguém pra vir me salvar.

Mais ainda nas dores,


Para sempre tua.

''Preciso muito que alguma coisa muito muito boa aconteça na minha vida… Alguma coisa, alguma pessoa. Acho que tenho medo de não conseguir deixar que o passado seja passado, de aceitar verdades pela metade, de viver de ilusão! Eu preciso muito muito deixar acontecer o momento da renovação, trocar de pele, mudar de cor. Tenho sentido necessidades do novo, não importa o quê, mais que seja novo, nem que sejam os problemas. Preciso deixar a casa vazia para receber a nova mobília! Fazer a faxina da mente, da alma, do corpo e do coração! Demolir as ruínas e construir qualquer coisa nova, quem sabe um castelo''.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A cada despedida, um recomeço

Hoje – só por hoje – eu abro mão de você como quem sorri para a solidão; abraço esse espírito de amores efêmeros para que as dores também o sejam e espero sentada à varanda que a noite não me traia e que os sonhos continuem a vir. Porque felicidade não se resume só aos momentos em que você é feliz. Porque paixão nenhuma existe apenas enquanto durar. Porque a minha espera sempre vai ser maior que qualquer destemperança que vier. Porque nós sempre vamos viver esse ciclo de quem não sabe fazer uma busca mais sincera dentro de si e então conserva as mesmas palavras de antes, um grito calado de desespero que sempre acaba em algo como: e se tentássemos mais uma vez?



'' (...) já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloquentes como "sempre" ou "nunca". Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicídio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituímos expressões fatais como 'não resistirei' por outras mais mansas, como 'sei que vai passar'''.

[15 anos sem] Caio Fernando Abreu.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Hoje e sempre




Queria te desenhar mil borboletas para que elas te ensinassem a voar. Queria te dar fórmulas prontas de como ser feliz para sempre, pulando todas as etapas de dor que apertam o seu coração. Queria te embrulhar em papel florido toda a felicidade do mundo e dividir todas as suas perdas em doses homeopáticas. Queria deixar o mundo mais fácil para você, pequena, mas tudo o que eu consegui foi cantar uma canção no dia em que o sol está mais brilhante porque hoje ele nasceu para iluminar você.
Noites dividindo aflições em comum, uma implicância mútua que chega a ser cômica e pouco tempo pra perceber o quanto nossa essência pode ser a mesma - amizade não é só questão de oportunidade, mas é estar no lugar certo, na hora certa, com a pessoa certa e saber perceber isso. Ainda bem que eu encontrei você, pequena, que desde então tem me ensinado a ser muito mais do que eu achei que fosse capaz.
O que eu desejo a você ainda não tem nome – algo como a mistura de toda a bondade possível e alguns desafios, para que você jamais se perca da pessoa forte que é.
Um forte abraço, um beijo enorme e toda a felicidade do mundo.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Estupidamente livre



Querido Caio,

Os dias têm sido longos, se arrastado. A dor que me doía mais já parece não doer tanto e a mudança de foco tem se tornado constante. Isso tem me deixado confusa – é como se eu não tivesse mais sequer o direito de sofrer o quanto posso, de me afundar nas belas doses de conhaque tarde da noite e não sentir culpa alguma. Porque é bom, e você sabe. Aliás, todos acham bom, mas como ninguém faz, eu sinto esse cargo em admitir minha perdição. Entre a culpa e a dor, eu preferi não sentir nada – repetia sem parar.
Algo assim, se é que dá para entender. As minhas buscas ficaram boiando nesse mar de dúvidas, onde eu não sei se mergulho de vez ou se fico aqui, só admirando a paisagem. O bonito, afinal, foi ficando tão pouco subjetivo que não sei mais nem do que gosto – não sei sequer se isso valeria de algo. O agradável é o que todos acham e ponto; não serei eu, que nem ainda fui descoberta pelo mundo, que irei contrair a ditadura de opiniões. Sei que vai me repudiar por isso, mas, meu caro, se você tinha medo de sentir coragem, eu tenho a coragem de sentir medo. E não acho que isso me faça pior, não; só me faz diferente nesse mundo onde todo mundo deseja ser igual a todo mundo.
Não estou aqui para criticar minhas decepções com a humanidade, não é isso – até porque nunca esperei nada de admirável da mesma. Aliás, não tenho me surpreendido com nada, ultimamente. Diferente do que sempre se espera, minha alma foi contagiada por uma procrastinação e anda tão lacônica que chega a ser inacreditável. Ando com preguiça de ter sentimentos exacerbados – de sofrer demais, amar demais, lutar demais. Ando sendo um pouco “de menos”, onde já se viu, e sem inquietação alguma.
Se eu sinto vergonha? Não é bem essa a palavra. É mais algo como libertinagem de espírito. Talvez eu só esteja tendo, pela primeira vez na vida, aquilo que as pessoas chamam de paz – e estou confundindo, estupidamente, com essa frieza que, na verdade, nada passa além de um não-sofrer. Acho que você me entederia, sabe? Assim como eu, você sempre sofreu mais que o necessário. Mas até nós sempre soubemos a hora de parar.

Sinto saudades suas, mesmo sem ter te conhecido.

Beijos na alma,
Para sempre tua.