Disseram por aí que ela não tinha nada de passarinha negra; que, se fosse para lhe dar um codinome, que fosse beija-flor – pequeno e belo, aparentemente inofensivo e, quando necessário, de uma resistência que reflete sua sintonia com a vida. Mas saibam vocês que os corvos, por exemplo, estão sendo cada vez mais reconhecidos pela sua exímia inteligência. Admito que foi por essa particularidade que, primeiramente, eu a distingui dos demais. Nela, essa característica – a enorme astúcia com a vida, com as pessoas e com si mesma – é algo que surpreende qualquer um que tem a sorte de perceber a luz dos olhos de boneca que ela tem. Ela, que carrega no nome a missão de enfrentar o que as circunstâncias exigem; ela, que pelos dias como que todos eles fossem sempre dias de ser sonhadora. Mesmo quando a vida quer brincar de ser séria, mesmo quando o medo é inevitável, Ela dança na frente das adversidades como quem desafia um inimigo – às vezes o seu compasso é um pouco mais veloz, às vezes é mais tímido... Mas ela jamais perde o ritmo.
Milena.
Se fosse por mim, eu seria nascida e criada nessa lua que você mora. Teria dormido aos teus pés muitas outras noites, tentaria te acordar outras tantas vezes só pra ver você preferir dormir a provar nossa janta; se dependesse de mim, e não da distância, faríamos mais noites do pijama e eu dormiria ao som da tua risada só pro dia nascer feliz, sempre. Quase sem querer ou sabendo que eu não resistiria, você invadiu os meus dias, me cultivou inúmeros sorrisos e me provou que eu estava errada cada vez que pensei “não, Ela não pode ser ainda mais fantástica”. O dia 10 de outubro está marcado no meu calendário como “o dia da única Milena do mundo”. Ainda que venham outras, nenhuma jamais será tão valente e persistente, tão alegre e sensível, tão espirituosa e ajuizada... Tão Milena. Obrigada por dividir comigo os seus dias, os seus medos, suas alegrias, suas ideias geniais, seu abraço apertado de “até logo”. Obrigada por me deixar ser parte do seu infinito.
Muitos diriam que ainda é cedo para a dimensão do sentimento, mas depois de te encontrar e te ver partir, sim, eu preciso dizer que te amo. É. Eu preciso dizer que te amo. Tanto.
Ao som de There is a light that never goes out – The Smiths
Ao longo da minha curta existência eu fui recendo lições demasiadamente preciosas e que foram categóricas para determinar a pessoa que eu viria a me tornar. Porém, nada até hoje foi mais precioso que um ensinamento que só recentemente eu consegui compreender e é por finalmente ter aprendido essa lição tão bonita que hoje eu agradeço a todos aqueles que a cultivaram em mim.
Ao meu grande Pai, maior que qualquer adversidade e que esteve ao meu lado todos os dias dessa jornada. Graças à companhia dele eu pude trilhar esse longo caminho sempre em paz, em segurança e certa de que estava realizando um sonho. Ao Meu Deus, que foi perfeito em tudo que fez na minha vida.
Aos meus pais, Nizete e Edson, que desde o início fizeram o possível e o impossível para que eu continuasse firme na minha jornada sempre cansativa rumo à universidade, sem me deixar fraquejar por um só segundo. Obrigada pelas palavras de apoio e por cultivarem incondicionalmente o meu amor pela literatura. Eu serei eternamente grata por tudo e por mais que eu me esforce, nenhuma retribuição a vocês será digna o suficiente.
Ao meu namorado, Francisco, o melhor amigo e companheiro, que sempre foi a pessoa que acreditava eu mim quando nem eu mais conseguia fazê-lo. Obrigada por me fazer forte, fiel às minhas convicções e por sempre me impedir de desacreditar na minha capacidade. Obrigada por me fazer ser sempre melhor. Sem o seu apoio eu não teria escrito uma linha sequer. Por você, minha gratidão e meu amor serão eternos.
Às amigas do curso de Direito da UNDB, Carol, Juliana, Viviane e Marynelle, que me suportaram em todas as minhas crises existenciais. A minha vida não teria a mesma graça se não fossem as noites dividas com vocês. A próxima vez que eu escrever um TCC será pela UNDB e eu tenho certeza que, se existe uma forma suportável de passar por todo esse processo de criação novamente, é com vocês ao meu lado.
Aos meus companheiros de twitter, Fernanda, Klerianne, Vanessa, Diana e Wendel, que dividiram comigo até às vésperas da apresentação deste trabalho a angústia e a ansiedade que só conhece quem por a escrita de uma monografia já passou. O apoio de vocês foi incondicional, a ajuda foi mútua e o conforto que eu sentia após cada conversa trocada foi imensurável. Obrigada por me fazerem rir até nos momentos de mais extremo nervosismo. Finalmente chegamos ao ponto em que eu sabia que chegaríamos desde o princípio. Nós conseguimos!
Às amigas do curso de Letras da UEMA, especialmente Lays, nas quais eu sequer consigo pensar sem que meus olhos se afoguem em lágrimas. Meninas, vocês foram a minha maior fonte de inspiração para a vida ao longo dos quatro anos em que me ensinaram a ser uma pessoa muito melhor do que eu julgava ser quando fui aprovada no vestibular; vocês são a prova que na universidade aprendemos muito mais que teoria e prática. Por tudo que passamos juntas, eu sempre me lembrarei de vocês com um sorriso no rosto e uma saudade sem fim no coração.
Às professoras Iranilde Almeida Costa, Sílvia Furtado, Vanda Rocha e, especialmente, à minha orientadora, Andrea Lobato. A todos os professores que depositaram em mim algum conhecimento ao longo de quatro anos de graduação. Não existem palavras possíveis de descrever o tamanho da contribuição de todos vocês para o meu desenvolvimento pessoal e intelectual. O curso de Letras da UEMA mudou completamente a minha vida para algo melhor do que eu imaginei.
Às amigas que eu encontrei graças ao amor pelas letras e pela escrita. Às irmãs de alma que me provam diariamente que você não precisa estar cara a cara com alguém para dizer um verdadeiro “eu te amo”; que me mostram que distância é um elemento cada vez mais insignificante; que acolhem todas as minhas loucuras e abraçam meus devaneios como delas próprias. À Máfia, enfim.
Se hoje eu posso dizer “infinitamente, obrigada” é porque vocês seguraram minhas lágrimas ao me despertar um sorriso, sustentaram minhas pernas frágeis com um abraço, passaram algum tempo comigo mesmo quando este parecia escasso e, principalmente, me ensinaram a lição mais bonita que eu poderia aprender ao longo dos meus vinte anos: não há nada no mundo que substitua a maravilha de nunca estar só.
Driving in your car I never never want to go home Because I haven't got one Anymore
Me leve para fugir essa noite. Cale minhas reclamações e as transforme em sorriso. Me leve para algum lugar onde as luzes brilhem tanto que doa aos olhos de quem não quiser enxergar o colorido da avenida. Me ponha em movimento dentro de um carro, dentro de um abraço, dentro de uma roda de música e pessoas cantando alto, soltando a alma em um ritmo que não me faça querer parar. Me cerque do rock britânico dos anos 80 e do balaio dos violões com suas cordas quase rompendo de tanta euforia. Você sabe, eu nunca quis sair do meu mundo, mas, de qualquer forma, me apresente o seu. Me dê a chance de escolher algo diferente que me faça querer sair de casa e correr pelas ruas da cidade. Me leve para fugir essa noite porque eu quero ver o que de tão fabuloso e ao mesmo tempo cruel existe por trás das janelas do seu carro. Me leve para ver pessoas de verdade. Me apresente lágrimas e risadas. Faça com que eu sinta coisas boas. Faça com que eu sinta alguma coisa. Me leve para beber até perder o bom senso e me deixe sentada ao meu fio, cantando enlouquecidamente alguma cantiga que acabei de aprender. Não, não me deixe em casa. Não me ponha na cama, estenda o cobertor e me faça dormir. Eu não quero dormir essa noite; eu quero enlouquecer sem motivo algum e acordar amanhã com uma dor de cabeça que tenha valido a pena. Pensando bem, não me deixe voltar. Não quero ser mais benvinda no meu mundo, eu quero ser parte do seu. Quero pegar a sua mão e correr pelo meio das ruas, desviando de motos e ônibus, colidindo apenas com você. Esperar amanhecer ao seu lado é uma forma linda de uma noite chegar ao seu fim. E se a noite não acabar, e se o delírio permanecer, e se a realidade jamais retornar, bem, o prazer e o privilégio de viver essa loucura opcional ao seu lado terá sido todo meu. Mas me leve para fugir essa noite. Me leve para qualquer lugar, não precisa me dizer para onde, não precisa me dizer com quem, não precisa haver hora para voltar. Me transporte por meio de suas passagens secretas até chegar a um lugar que me faça pensar: esperei tanto para estar aqui. E se um medo inaceitável for aparente em meu rosto, novamente: cale minhas reclamações e as transforme em sorriso. Não deixe que nada nos detenha. Me leve para fugir essa noite e juro como nada mais me importa. Me leve para fugir essa noite e não me traga de volta. Me leve para fugir essa noite e se perca comigo em algum lugar. Me leve para fugir essa noite com você.
Eu não sou a heroína Dessa história E tão pouco você Mas acho que chegou a hora De salvarmos um ao outro.
Há tempestade lá fora e também aqui dentro de mim, mas ele nunca percebeu a minha chegada berrante pela porta de entrada ou pela dos fundos. Para ele, nunca fez muita diferente – experimentei passar noites fora, sumir como todas as roupas do armário, não me alimentar bem. Passei noites em claro tentando me manter acordada enquanto escrevia uma palavra ou outra que fizesse algum sentido, que pudesse explicar algo no momento em que o silêncio não bastava. Não adiantou. Nada chamaria a sua intenção, eu deveria saber antes de ter dado início a esse circo patético lotado de palhaços e de nenhuma mágica. Acho isso errado de tantas formas que desconheço se existe um jeito certo de ao menos te dizer que já basta. Gostaria de ter o poder de ao menos terminar um pensamento por mim só, mas cada tentativa fica mais distante até chega nesse ponto que é o vazio de sempre. Não acho que estamos conseguindo alguma coisa; estamos nos ferindo e cometendo o pecado de esmagar os sonhos um do outro. Não, eu não sou inocente. É claro que eu já fingi um beijo ou um abraço que queria prender só para mim e não deixar feito pássaro livre para ser preso por outra pessoa. É claro que eu já menti, e muitas vezes – ou ele achou mesmo que ia entregar tão facilmente o meu coração? Tanto cuidado para apenas ter uma pilha de acusações na consciência e alguma canção triste para compor. Você consegue sentir? Eu sinto – o frio, a TV chiando, uma gota caindo na pia da cozinha, a janela da sala rangendo. Você vê? É o fim?
Nos últimos tempos, o único que não me traiu foi o mar. Aquele vai e vem de ondas nunca me deixou esperando, nunca me deixou só, nunca me decepcionou: sempre haveria volta. À beira mar eu me sentia em uma espécie de solidão acompanhada – existe isso, solidão sem estar só? Olhei para os lados pensando se haveria alguém que valesse a pena, que eu pudesse chamar de companheiro, pra quem eu pudesse dar abrigo, quem pudesse me oferecer um ombro, um abraço ou uma verdade, ainda que dolorida. Não havia. Pensei, então: estou acompanhada pela solidão. Estaria também em paz, se a música da última noite não tivesse ecoado em minha mente. Como se ninguém estivesse te observando, ecoava em meus ouvidos, me importunada a paciência, me deixava contrariada. Eu sei, eu sinto cada passo sendo monitorado – tive que admitir. Sinto o desapontamento, também. Cada vez que nos cruzamos no corredor e os olhares perigosamente e sem querer se encontram, eu sinto exatamente isso: uma necessidade tremenda de um momento que nunca mais aconteceu. Um sonho, uma risada, uma combinação de pensamentos... Como dois anos podem mudar tanto em dois meses? Como pode haver tanto desencontro entre duas pessoas separadas por uma avenida, alguns carros, muitas coisas não ditas e tanto sentimento oculto? A nova circunstância entre nós é o silêncio – logo ele, que nunca foi nosso companheiro, é o único que ainda torna tudo isso suportável. O silêncio é aquilo que adia mais um pouco o fim que se torna cada vez mais nítido. Eu consigo enxergar, você não? Já posso até prever e tenho ensaiado em frente ao espelho um “oi, como você está?” sem nenhuma pretensão que minha pergunta casual seja de alguma forma respondida. Eu sei que ainda posso te ligar. Sei que a qualquer momento isso será ridiculamente superado e seguiremos as nossas vidas com uma expressão rude no rosto e o pensamento de “o que mais se poderia fazer?”. Mas eu não quero, porque ouvir sua voz só por uma linha telefônica é incômodo demais para quem queria mesmo era as palavras de um silêncio presente, daqueles que parecia fazer carinhos em nós quando, sem dizermos absolutamente nada, já havíamos dito tudo. Nunca fui dessas que superam facilmente as dores como se no dia anterior não estivesse com o peito dilacerado e abraçado a decepção. Nada me incomoda mais que o excesso de coisas não ditas. Nunca fiz questão de coisas facilmente ou falsamente perdoáveis. Tenho, sim, vontade de bater mais uma vez à sua porta e sem descaminhos, indagar que porra é acha que estamos fazendo. Assim mesmo: sem orgulho ou vergonha alguma, eu renunciaria inclusive a essa minha sensação de que só eu estou tentando ver as coisas pelo lado bom. Mas eu tenho medo de algo mais terrível acontecer: que não haja nada a ser dito. Que não tenha remédio e que o fim já tenha chegado sem eu me dar conta. Sei que somos jovens e irritantemente parecidas – sei que temos outros problemas e outras vidas e outros abraços. Mas não me peça apenas para ficar aqui, esperando você chegar; não me peça para ver ir embora todos os momentos em que precisei de você até só ficar aquilo no que você é absolutamente dispensável. Não me peça para esquecer, nem que seja por pouco dias, porque minha memória ainda não aprendeu com o mar. Porque nada é mim é tal como uma onda. Porque nem tudo que vai, volta - mesmo que volte, não há garantia de que seja como um dia foi. Isso de fato soa como uma canção de desespero para você. Cante-a, se quiser. E não pare até que tudo isso tenha um fim.
Tenho repetido o roteiro dessa história sempre com as mesmas palavras e sentimentos. Falar sobre o modo com que me relaciono comigo e com ou outros virou um desses dramas clichês que nos fazem deixar o cinema antes de chegar na metade da história – os personagens não sabem interpretar nem a si mesmos e ficam em um eterno movimento cíclico de mesmas escolhas, mesmos erros, mesmas lamentações, mesma falta de compreensão sobre aquilo que já é café morno até para si próprio. Não interessa se busco entender os problemas de um dia ou um ano atrás – é sempre a mesma ordem inevitável de coisas que só me fazem chegar à conclusão de que estou mesmo condenada a mim mesma, que sou a perdição da minha própria mente, que sou prisioneira da minha falta de vontade de conduzir a dança sem ninguém pisando nos meus sapatos e me dizendo que não gosta da música que está tocando. Queria tanto ter a paz e o silêncio de ouvir o que minha alma grita, mas sempre acabo em um desses shows de rock onde ninguém consegue dar atenção aos próprios pensamentos – é só aquela a gente ao seu redor julgando o jeito como você se veste, sem sequer lhe dar a chance de explicar porque está ali daquela forma, com aquelas companhias e com aquela expressão de que nada no mundo compensa tanta desordem. No fim, fica só o velho disco arranhando na vitrola, deixando escancarada no ar a pior das verdades: sou a única que ainda acredita nas mentiras que conto. Na última vez que eu disse que seria a última vez, pude sentir pelas minhas costas as risadas de todos que já sabiam que, em poucos dias, a única coisa que viria seria outro desabafo como esse. No início de tudo é tão fácil. Eu juro a mim mesma que me boicotar é coisa do passado e me convenço de que tenho em mãos todas as armas para sentir uma felicidade contagiante – e tenho mesmo, ainda que não pareça. Mas é com facilidade que rompo as minhas próprias promessas e traio todos os planos que tracei. Minha mente começa a trabalhar em auto-ataque e entra em choque por tudo que anda acontecendo – e pelo irreal, também. Jogo ao vento as convicções de que é possível vencer a mim mesma, até que novamente me dou conta de que há a chance de ser feliz com o que se tem e não somente com aquilo que se acha que deveria ter. É nesse momento que viro a metamorfose ambulante não muito nos moldes do que o velho Raul previa; ergo as mãos aos céus, me ajoelho num canto do meu quarto e só peço para que o que tiver de vir, que seja para acrescentar e jamais para destruir. Nem busco mais entender o que me leva a tanto extremos e por desistir de uma auto-compreensão é que percebo tantos olhares de dúvidas destinados a mim. Está escrito no olhar de quem me vê que a grande maioria acha que eu nunca vou conseguir encontrar em mim mesma alguma paz. Pois eu digo a todos que se eu estiver meditando à beira mar ou mesmo contando os grãos de areia para descobrir com quantos se faz um castelo é porque não desisto de viver ainda que isso implique em castigar a mim mesma até que eu pague a dívida de um dia ter ousado pensar que a verdade sobre mim está em outro alguém. Sou mais independente que essa minha vontade de estar sempre ligada a algo e na falta de pessoas que acreditem em mim, eu resolvi achar aqui dentro a coragem que preciso para recomeçar mesmo quando a luta parece vencida antes do seu início. Ainda ouço uns ou outros que me destinam algumas das frases mais clichês de Caio Fernando – vai passar, tu sabes que vai passar, talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? – mas tudo tem acontecido quando me ponho a pensar que guardar mágoas é um desperdício de espaço de memória e do coração e que se todos os dias eu dou uma nova chance a mim mesma, porque não dar oportunidade às outras pessoas, também? Se esperavam um novo rumo pra mim, se enganaram em pensar que por um único segundo eu cogitei a hipótese de desistir de mim mesma. Hoje, eu abraço os meus erros como quem acolhe um amigo que te leva sempre aos mesmos passeios, mas que no fim do dia te trás de volta para casa – foi o que o destino sempre quis e eu aprendi a ser muito bem assim. Talvez seja mesmo uma nova espécie de paz essa que eu tenho: boa o suficiente para trazer alegria, mas nunca duradoura ao ponto de me fazer acomodar. E cá estou eu, flutuando insegura no meio de tantas conclusões, reaquecendo o café e pensando que talvez seja essa a única saída: acreditar que não se pode ir mais em frente para, logo em seguida, ter vontade de ir muito mais além.
Sempre achei o amor a maior queda livre rumo ao fundo de um poço. Você pula no poço. Se joga e vai direção abaixo, mesmo sabendo que não há muitas direções a seguir, mesmo aguardando o fim que uma hora chega, mesmo consciente de que tudo que o espera é um chão duro e frio, mesmo que tenha deixado para trás milhares de pessoas lhe dizendo repetidas vezes “não pule, não pule, que no fim do poço só há dor e solidão”. Não adiantava torcer para que não se machucasse muito quando chegasse ao fim, porque a queda era fatal e a doer era certeira. Relacionamentos que envolvem corações sempre me pareceram uma contagem regressiva ao fundo do poço – por isso, demorei muito a ter coragem de me atirar. Tinha medo do escuro, do imprevisível, de não haver volta. Só quando o fiz é que eu percebi que o fim do poço é uma ilusão. Você mergulha esperando um choque contra o chão, mas o que encontra é um mundo que você jamais conheceria se não tivesse se jogado. E você começa a gostar daquele poço, do formato do poço, da extensão do poço, do jeito do poço, do cheiro do poço. E quando você acha que finalmente vai atingir o fundo, você descobre que o poço não tem fim. O fim é uma ilusão de quem nunca pulou no poço, é o mito dos que nunca tiveram coragem de enfrentar o monstro do poço, daqueles cujo coração foi fraco para enfrentar a queda. O fim do poço não existe – você acha que está lá, mas se continuar de olhos abertos e teimar em ir em frente, só encontrará mais águas, terra úmida e talvez algumas flores que só existam no mundo do poço. Quando se está no poço, de uma forma absolutamente lúcida, ficamos cegos pela loucura de ir em frente sem medo de um dia não ser mais como foi. O amor não está no medo do mergulho nem na precaução de sequer se jogar. O amor não tem nada a ver com as possibilidades fora do poço, e se você não pulasse, e se o poço não fosse a saída, e se você agisse como se o poço nunca tivesse estado ali, e se mais uma desculpa qualquer. O poço existe, é real, mas o amor requer mais que uma simples existência cheia de oportunidades. O amor só começa quando você decide se jogar. O amor continua e se estende quando você esquece que existe um fundo e lembra só do poço. O amor está na coragem dos que pularam sem saber onde vão parar, no atrevimento dos que mantém os olhos, o coração e a mente abertos e não se deixam fraquejar pelo desconhecido. O amor acontece quando você se deixa entrar em queda livre, sem rédeas, sem freios, numa direção única, contínua e sem fraquejar. O amor existe em se deixar ir.
Apesar de toda a expectativa que eu sempre guardo para janeiro, dessa vez o que eu tive foi surpreendente até para pessoas como eu, em que tudo é tão previsível. Não houve aquela sensação de coisas simultaneamente repetidas – tenho muita fé em Deus que finalmente dei início a uma temporada de coisas inéditas que me façam sentir algo que eu não sabia que existia dentro de mim. O que eu tenho tido é algo muito belo. Olhar janela afora sempre me ajuda – não há quem me tire da mente a beleza que há nos dias chuvosos do verão dessa cidade. Abro um sorriso imenso quando percebo a chuva que escorre ladeira abaixo levando consigo toda a sujeira que estava presa nos cantos das ruas. As pessoas têm mesmo esse dom de sair deixando imundice por onde (por quem) quer que passem. Acho que é assim que eu me sinto – depois de uma tempestade e toda a porcaria levada minh’alma a fora, finalmente o dia está pronto para ser iluminado por um lindo sol. Acho que esse tempo de bonanza após a chuva forte foi feito para pessoas como eu, como nós, que não têm muito temor em rasgar o peito em lágrimas sofridas se esse for o preço a se pagar por um sorriso sincero – que têm batido à minha porta com cada vez mais frequência e mais força. Amo janeiro porque é o recomeço para alguns e a continuidade para outros. Amo janeiro porque eu nunca estou só. Amo janeiro porque os livros somem das minhas prateleiras e vão parar na cabeceira da cama, no sofá, na mesa da cozinha. Amo janeiro porque a praia é livre de todo mundo que só segue para lá como “única opção de fim de semana nessa cidade fim de estrada”. Amo janeiro porque os abraços são maiores e mais quentes. Amo janeiro porque eu vejo sorrisos por todos os cantos. Amo janeiro porque faz frio lá fora e aqui dentro também, mas depois fará um calor de esquentar o coração.
Canto muito todas as tristezas que tenho, mas cantar as alegrias requer muito menos palavras e muito mais melodias. Um silêncio e um sorriso me bastam nesse janeiro que faz o corpo vibrar de emoção.
And all the lights that lead us there are blinding
There are many things that I would like to say to you
But I don't know how
Because maybe
You're gonna be the one that saves me
And after all
You're my wonderwall
Eu te liguei na noite passada para dizer “meu Amor, amanhã eu escreverei uma carta endereçada a você”. Surpresa nenhuma dizer que faria algo que já faço todos os anos, desde que te conheci. Mesmo com as marcas da distância, com os presentes adiantados e a falta do teu olhinho brilhando enquanto te digo tudo isso, eu não posso deixar a oportunidade passar. Como se eu precisasse de requisito algum para me declarar a você, não é mesmo? Sempre planejo as palavras certas por dias, mas no fim da contas sempre me recolho na insignificância do meu vocabulário que nunca me basta. Como explicar a você e ao mundo como é grande a minha gratidão e a minha sorte por ter sido, entre milhões de garotas mais bonitas e mais engraçadas, a escolhida? Como dizer, sem parecer clichê ou piegas, que o dia 24 de dezembro de 1991 foi o mais bonito e o mais significante para mim, antes mesmo de eu ter nascido? E, mais que tudo: como posso, com simples palavras, explicar a explosão de sentimentos bons que ocorrem em mim sempre que me vem à mente o teu rosto? Nada disso cabe em carta alguma. Não teria como explicar o poder da nossa história a ninguém, porque não é todo mundo que tem quem dê colo toda vez que parece que nada vai dar certo, que o faça rir até quando a sua vontade é de rasgar o peito com o choro mais sofrido, que lhe encha de orgulho cada vez que consegue superar até a si mesmo. Você me ensinou as lições mais importantes da minha vida e, sem pedir nada em troca, se doou o máximo que pode pelo simples fato de achar que eu mereço. Em 20 anos você foi e é muito mais do que muita gente luta a vida inteira para ser. E entre toda a frieza que às vezes atinge o meu coração, você foi o único que conseguiu fazer com que eu sentisse algo – amor, ódio, saudade, admiração, desejo... Felicidade. E mesmo que hoje você não fosse tudo isso que é para mim, ainda assim eu te desejaria as coisas mais fabulosas que a vida possa te oferecer, porque eu jamais conseguiria pensar em alguém que merecesse mais. Obrigada por ser o meu melhor amigo, meu namorado, meu amante, meu futuro marido, meu herói, meu bandido, minha luz no fim do túnel, meu protetor, o protagonista dessa minha história que às vezes não passa de um drama grego ultrapassado, mas que você transforma num romance francês de tirar o fôlego.
Feliz aniversário, meu Amor. Que Deus multiplique na sua vida todas as coisas maravilhosas que vêem acontecendo, que nunca lhe falte forças e paciência e que a sua fé permaneça intacta, assim como o amor que habita em ti e que propaga no coração de todos que você se aproxima.
And high up above or down below
When you're too in love to let it go
But if you never try, you'll never know
Just what you're worth
Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try, to fix you.
[Fix you - Coldplay]
Há muito tempo eu não falo de amor, porque ele próprio tem dito tudo por mim. Vez ou outra na vida, eu esperei que alguém me provasse alguma coisa. Que algo de maravilhoso acontecesse. Que a vida finalmente fosse justa comigo. Passei muito tempo reconstruindo a mim mesma, somando os pedaços que foram destruídos e separados por cada tempestade que por aqui passou – um trabalho muito duro para quem tem somente gotas de força de vontade. Fiz tanto o tipo de quem não se importa com ligações no fim da noite ou no dia seguinte, mas enganar a mim mesma já não fazia muito efeito. Fui curada pelo teu sorriso. A cada vez que tentei vulgarizar a mim mesma, em uma tentativa humilhante de me fazer sentir algo que não fosse amor, só recebei teus braços em volta do meu corpo, em uma atitude clara de proteção de mim mesma. Sempre digo: você me salvou do perigo que eu me representava. Eu poderia ser autodestrutiva até que secassem as lágrimas e, ainda assim, continuaria dançando o rock à meia-noite, as luzes apagadas e a garrafa de wisky no canto da sala. Essa valsa solitária não me fazia sentido, mas preenchia a vontade do que quer que a gente passe a vida inteira procurando. Para quem esperava de mim um sorriso, um abraço ou qualquer coisa que demonstrasse que aqui dentro ainda havia algum afeto, eu sempre tinha alguma proposta indecente a oferecer, que no fundo nada mais era além de um “está disposto a ser minha válvula de escape?”. Tudo o que eu tive, antes de você, foram noites que não merecem um fiapo de memória. E escondidinho, depois que o efeito das pessoas e das coisas passavam, eu me reunia com a única parte sóbria de mim e pedia a Deus, por favor, por favor, me tira dessa escuridão e me põe salva nos braços de alguém. Você, porém, é mais que o meu milagre pessoal. Quando aparece na minha casa, às quatro da tarde, é como a minha oportunidade de ser feliz para sempre. Dizem por aí que ninguém deve acreditar no amor incondicional, que a vida é efêmera e os sentimentos mais ainda e que as pessoas são mais instáveis que o tempo. Mas que tipo de pessoa eu seria se não me prendesse forte à esperança mais bonita que eu tenho? Se for só mais um sonho bobo, pois que tenha o gosto mais puro de realidade. Sempre que vejo alguém que é solidão por não conseguir ser amor, tenho vontade de dizer: pede, numa prece escondidinha, que alguém venha te salvar, porque tem tanta dor no ato de se conformar em ser sozinho. Eu mesma ainda peço por favor por essas pessoas em dias como o de hoje, em que eu sinto que mais gente merece essa felicidade que habita em mim. Eu, que já passei por todos esses caminhos, vejo que misantropia só tem graça se for saída de uma noite só; colecionar roupas, amores e histórias não têm valor algum se no final tudo é um fiasco de comédia sem graça, de violão desafinado e cantor de voz rouca. Parece música de velório, essa que embala uma vida cuja única motivação é seguir em frente e só. Confesso que eu não me arriscaria a ser tanto se não fosse por alguém que visse graça no meu desastre pessoal. Sou muito frágil e pequenina quando não tenho você sempre ao meu lado me lembrando que toda a força que preciso sempre pode ser encontrada na poesia e nas verdades do amor. É por hoje eu ser sorriso e não tragédia que eu agradeço e obrigada, obrigada, obrigada a você por ter vindo me salvar de mim. Por ter me mostrado que é possível o que quer que seja. Por ter me provado que o “nós” é melhor que todas essas drogas e melodias e desperdícios. Obrigado por ter sido melhor para mim de um jeito que eu nunca fui.
O teu cheiro e a tua risada já não me incomodam. O pensamento em qualquer romance é cada dia mais raro e tudo que em mim foi destruído pela sua presença, vai aos poucos voltando a ficar inteiro. O espaço entre dor e a lucidez é cada vez menor. Só preciso continuar assim: um pouco mais de fé em mim mesma, ao invés de me manter presa a uma promessa de algo bonito que, convenhamos, nem você nem eu acreditamos mais. Esse é o trágico fim do que nunca mereceu uma vírgula sequer. Só restou a saudade do que não existiu, a falta de um abraço e um último sorriso, torto como a nossa história.
Forever is a long long time when you lost your way,
trying to follow your ideals (are sorry),
but your so-called life, it is such a waste...
Eu jurei a mim mesma que nunca mais ia lhe escrever, porque depois de provocações, dramas chulos e uma conversa que nunca existiu, pensei que não faria mais bem algum nem a mim nem a você mais alguma prolongação dessa história. Nas últimas oportunidades, o que sobrou foram comentários clichês meus e uma fuga desenfreada sua de não ver mais o meu rosto nem de longe. Mas acontece que hoje o dia está tão bonito e me vieram umas lembranças tão fortes de você. Eu sei que no seu coração estão guardados, acima de tudo, os desentendimentos e mágoas que são tão característicos de nós dois; mas não é reciprocidade o que eu busco e, ainda que fosse, eu não poderia deixar de ver você como a única oportunidade que tive de ser absolutamente diferente de tudo que eu já fui. Eu não posso privar o meu sentimento de agradecimento em relação a você, menino, e me desculpe se eu não demonstro isso na mesma imensidão que eu sinto – mas, você sabe, nunca fui boa em afeto, carinhos e amor. Sempre achei que depositar todas as minhas certezas em algo não palpável como um sentimento – em especial o nosso – seria uma loucura imperdoável da minha parte. Até hoje acho que não errei em pensar assim, mesmo porque eu passo muito tempo querendo uma coisa sem ter certeza que foi de fato aquilo que eu sempre quis. E de forma nenhuma eu quero aqui falar sobre futuro, destinos e escolhas. Eu só queria dizer que é muito forte o carinho que eu tenho por você. Que eu espero que a vida não te maltrate nunca e que as suas escolhas sejam bem mais certeiras que a minha. Espero que sempre valha a pena lutar e que a batalha não seja árdua – que nunca lhe falte um amor no qual acreditar e uma fé enorme para seguir em frente. Espero que você saiba aproveitar as suas alegrias e aprender a imensidão de coisas que cada instante de tristeza pode lhe ensinar. Espero que você siga em frente sem olhar para trás e que você sinta sempre coisas muito boas, principalmente quando a saudade apertar e for inevitável lembrar-se de mim – porque, saiba: eu me lembrarei de você. Espero que você encontre os seus caminhos, mas que também se perca de vez em quando – deixe o destino transformar o seu coração em algo impulsivo, quando necessário. Espero que você seja forte e não deixe que lhe digam o contrário – ninguém, nem mesmo você mesmo, sabe até onde pode ir antes de chegar lá. Aliás, desejo que você chegue lá e que deixe pelo caminho o máximo de você mesmo; não se desespere por isso, não se sinta partido ou incompleto, porque você jamais deveria privar as outras pessoas de conhecer você da forma que eu conheci. Espero que você cultive sempre o seu melhor e que vá matando pouco a pouco aquilo que nada lhe ajuda ou acrescenta. Espero que você tenha a quem desejar coisas assim – de repente nada tão cheio de despedida, mas algo igualmente bom. Espero que você saiba de tudo isso e entenda que é sincero, que é verdadeiro e sem uma gota de mágoa. Espero que um dia você acredite: você foi parte do meu coração.
''Me despeço dessa história
E concluo: a gente segue a direção
Que o nosso próprio coração mandar,
E foi pra lá, e foi pra lá, e foi pra lá...''
Posso estar só
Mas, sou de todo mundo
Por eu ser só um
Ah, nem! Ah, não! Ah, nem dá!
Solidão, foge que eu te encontro
Que eu já tenho asa
Isso lá é bom, doce solidão?
[Doce solidão - Marcelo Camelo]
Não era um sorriso forçado, não era uma avenca murcha. Não era um coração partido, não era uma saudade doída. Não era frio, não era agosto: era verão, sábado de julho e sonhos infantis. Não era solidão, não era abandono e muito menos desprezo: era segurança, mais para os outros que para si. Era medo, de vez em quando. Era insegurança, todo o tempo. Era querer acreditar. Não era palavra ou um verso rimado; não era frase feita ou soluções mágicas. Não era tão perto, mas nem tão distante. Não era meio-termo, mas também nenhum extremo. Não era ódio – era indiferença. Não era paixão, não era amor – era mais. Não era guerra nem paz: era trégua, tragédia, comédia. Drama. Não era pra sempre nem nunca mais. Era pouco, às vezes muito, quase sempre nada. Era algo que não quer dizer coisa alguma. Era sofrimento à toa. Era descobrir coisas importantes já muito tarde. Era não descobrir jamais. Não era enganação – era vencer o desimportante, viver o útil e congelar ambos. Era chorar pelo que não se sente, sentir por quem não se conhece, conhecer muito o quê lhe faz chorar. Era culpada de tudo. Não era culpa de ninguém.
vá voar com o vento que só lá você existe
não esqueça que não sei mais nada
nada de você
não me espere porque eu não volto logo
não nade porque eu me afogo
não voe porque eu caio do ar
não sei flutuar nas nuvens como você
você não vai entender que eu não sei voar
eu não sei mais nada..."
[Canção pra não voltar - A Banda mais Bonita da Cidade]
Eu preciso parar de escrever como se fosse salvar minha vida com as minhas palavras. Preciso parar de achar que vou ouvir de você algo além de seus lapsos de silêncio, ou, em raras vezes, alguns murmúrios que significam algo como “não acredito mais em você”. Preciso parar de acreditar que alguém vai enxergar alguma coisa além dos meus relatos infantis e repetitivos que no fim sempre culminam para uma mesma tragédia: não sei como lidar comigo. Enfim, preciso parar de me indispor com os sentimentos alheios, porque não vou encontrar na mesa nenhum bilhete de adeus – só tenho um fim de tarde sem emoção alguma e duas doses quentes de desprezo, para engolir rasgando garganta abaixo.
Por essas e outras, por puro instinto de sobrevivência, digo que as paixões estão proibidas por excesso de loucura, até que me provem o contrário.
É isso que tenho recebido, cotidianamente. Percebi enquanto vinha sentada, solitária, no último banco do ônibus lotado – irônico que até nessas situações do dia a dia eu acabo sozinha, em um canto sujo qualquer. Nem assim ninguém nota qualquer coisa diferente no meu rosto cansado de quem já perdeu o sentido nas próprias palavras – até elas me traíram e se perderam de mim. Talvez por isso ninguém mais me ouça, me leia, me leve a sério. Porque nem eu mesma pratico essas ações solidárias. Porque não ando feliz com as pessoas à minha volta, com a minha escrita, com os meus pensamentos, com o que eu tenho me tornado – algo como nada que se valha a pena ser. Porque até eu mesma esqueci de que aqui dentro ainda há uma pessoa. Como dizem mesmo? Só que ao contrário: Sorte no amor... Talvez seja esse um preço a pagar.
Por muito tempo eu nadei contra a maré. Quase fui uma versão brasileira do “Fabuloso Destino de Amelie Poulain” – logo ela, por quem sempre guardei uma aversão particular. Sempre critiquei sua falta de autonomia e outra tantas características que eu mal percebia que carregava comigo – e que me consumiam e me derrubavam em doses homeopáticas de sofrimento e indiferença. No fim, virei objeto favorito de diversão de quem só dá valor às coisas quando perde. Só o que me restou foi essa vontade que um dia aconteça algo maravilhoso, que me faça lembrar do passado com até um certo carinho, por ter existido e acabado bem, afinal. O que não entra na minha cabeça é que seja estúpido pensar assim. Porque ser Amelie, hoje em dia, é ser o palhaço mais engraçado de circo – é ser dada às moscas, porque todos sempre vão lhe achar uma personagem de ficção. Antes assim fosse.
E enquanto eu ouvia Phoenix – forever is a long long time when you lost your way – eu pensava como era absurda a situação em que eu me encontrava e em que momento da minha vida eu me permiti decair tanto. Em que instante as pessoas pararam de responder aos meus pedidos de ajuda, afinal? Seus ouvidos cansados, talvez, acostumaram-se aos meus choramingos de quem nunca se encontrou em parte alguma, e por isso hoje vaga sem rumo e sem volta. E minha existência acaba como qualquer outro filme francês que não inclua “fabuloso destino” em seu título, porque enquanto descia do ônibus, eu esqueci no assento frio qualquer coisa boa que ainda carregasse comigo.
Nós fomos ficando tão iguais, afinal. Mas, diferente de você, me falta a fé para dar mais que dois passos por dia – sento no sofá, espero outro tanto, respiro fundo e rezo para que as coisas se arrumem sozinhas. Porque estou sem forças, meu amigo. Mais que isso: ando satisfeita com pouca coisa, não está dando para se exigir muito. Fico feliz em ter ao menos a chance de conversar assim, com você. De ser ouvida, para todos os modos. E de me sentir ainda no direito de sofrer como a ocasião pede – nós sempre fomos muito bons nisso. Sempre tivemos dificuldade em sorrir, mas se o momento pede um copo de vinho, muita análise interior e um pouco de pessimismo, para variar, nós sempre fomos os melhores. Acho que por isso, nesse instante, eu só posso recorrer a você. Porque para mim, todas as outras portas se fecharam. Porque elas – as pessoas – cansaram desse melodrama barato de quem só tem talento para amargura e insatisfação. Você, até você, poderia dizer, mas minha querida, está na hora de erguer a cabeça e continuar, há tantos lugares, tantas outras vidas menos exigentes e um mundo inteiro para o qual você deveria olhar com mais gratidão. Sim, sim, eu lhe diria, mas hoje eu só queria deitar no seu colo e ouvir que as coisas vão ficar bem. Mesmo que não fiquem. Mesmo que amanhã seja só uma continuação mais fria e cruel de hoje. Mesmo que, na verdade, seja sempre esse ciclo de não-alcances, porque é nisso que eu começo a acreditar. Só por hoje, eu gostaria de não ter que decidir que caminho seguir, que pessoas gostar, que coisas fazer. Só por hoje você poderia me iludir com a possibilidade da dor passar. Só por hoje a gente poderia brincar de ser feliz, até que a hora da distração se fosse e eu voltasse ao meu buraco, onde me afundo e só pergunto: porque, porque, porque?
A saudade de sempre, que aperta nessas horas de desentendimento,
Confesso que não sou grande fã de memes seguidos. E que tão pouco sou grande fã de vídeos. Acho que sempre que vou acessar o youtube, preciso digitar todo o endereço, porque ele nunca está gravado na memória do meu navegador. Detalhes essas à parte, eu resolvi fazer o meme que a Rafaela me passou porque aproveitando essa onde de vídeo postados, eu gostei da ideia. Se bem que me deu um bom trabalho, viu? A maior parte das músicas que eu queria colocar aqui não tinham clips... E como eu não assisto quase nenhum, preferi colocar uma lista com vídeos das músicas que mais tenho ouvido ultimamente - não necessariamente clips oficiais e não necessariamente nessa ordem de preferência.
1. Lady Antebellum - Need You Now
Eu não sei explicar a sensação que essa música me dá. É ao mesmo tempo uma vontade de chorar com um desejo enorme de fugir com o meu namorado - se é que você me entendem, porque é mesmo uma mistura de sensação muito louca. Adoro Lady Antebellum e essa música faz parte da minha vida bem antes de estourar no Big Bother - o que foi um big ódio da minha parte, porque eu morro de ciúme quando coisas que até então ''só eu gostava'' viram conhecidas do grande público.
2. Jason Mraz - You and I Both
Teve show do Jason aqui pelo Maranhão já esse ano e eu passei dias me torturando por até ter comprado o ingresso, mas não ter ido. Aí depois a culpa passou porque eu fique sabendo que ele não cantou essa música - que, para mim, é a melhor dele. E a versão desse show no Pepsi Smash me deixou de coração partido - olha a carinha de garoto de início de carreira. Enfim: música linda, cantor lindo e um espaço garantido no meu player há um bom tempo.
3. Los Hermanos - O Vencedor
O youtube me contou que é o clip oficial da música, mas não tenho ideia se é verdade ou não. De qualquer forma, achei que o conceito do vídeo é bem legal, mas não dá para assistir mais de uma vez, pque se torna cansativo - enfim, não faz jus à banda e nem à música. Eu ouço 'O Vencedor' ao menos uma vez por dia, juro, e nunca enjoei, porque acho quase impossível enjoar essa música, que é quase um hino para os desmotivados - e como eu sou uma, quase um hino para a menina Deyse. Fora isso, Los Hermanos é Los Hermanos e para mim existiram poucas bandas iguais.
4. Train - Drops of Jupiter
Assim como 'Need You Now', essa é uma daquelas músicas que me trazem uma sensação que eu não sei explicar. Eu adoro Train, acho uma banda bem legal mesmo e que vai muito além de 'Hey, soul sister'. A minha preferida é 'Parachute', mas como o youtube não me ajudou muito nessa busca, não mostrando sequer uma versão de show decente, eu trouxe 'Drops of Jupiter', que foi a primeira música que eu conheci da banda. Fica a dica para downloads.
5. The Smiths - There is a light that never goes out
Eu esqueci toda a raiva que o youtube me fez passar por causa desse meme quando vi esse vídeo. É simplesmente uma das músicas mais lindas que conheço com cenas do meu filme favorito de todos os tempos - 500 days of Summer. Se vocês não quiserem ver nenhum vídeo da lista, ok, mas por favor, vejam esse. Sem palavras para descrever o clip, prefiro dizer apenas que é fantástico e apaixonante.
6. The Magic Numbers - Forever Lost
Eu achei esse clip uma graça só! Primeiro que sou suspeita para falar porque The Magic Numbers bate forte no meu coração, mas sempre tive uma queda especial por vídeos em desenhos - exceto quando Gorillaz tava bombando muito e eu fique arrasada porque gostar de algo que estava sendo utilizado de forma ridícula. Críticas à parte, minha música favorita da banda em um clip que adorei!
7. Ludov - Kriptonita
Gente, Ludov é muito amor! Eu amo todas as músicas da banda, o show é de uma vibração positiva enorme e já gritei muito cantando os grande sucessos. Essa música foi uma das primeiras da banda que estourou e eu acho a letra belíssima - apesar do clip não ser grande coisa. Para quem tiver atrás de algo diferente para ouvir, essa também é uma sugestão mais que aprovada por mim.
8. Moptop - Aonde quer chegar?
Eu já chorei tantas vezes ouvindo essa música que perdi a conta. Moptop foi uma banda que marcou muito a minha vida e todos os dias sou triste porque possivelmente jamais vou assistir a um show deles. Acho todas as músicas ótimas, muito mais pela letra que pelo estilo. Enfim, não poderia deixar de citar.
9. Móveis Coloniais de Acaju - O tempo
Gente, eu acho Móveis tudo de maravilhoso! Achei esse vídeo da TV Trama, porque sequer sei se essa música tem clip. Deem uma sacada na letra, é belíssima - assim como todas as músicas da banda.
10. Oasis - Whatever
Todo mundo já ouviu essa música ao menos uma vez na vida, nem que tenha sido na nova propaganda da Coca-cola - que é a minha favorita de todos os tempos, aliás. Talvez porque eu ame Oasis e chore até hoje por não ter ido a nenhum show enquanto a banda ainda estava junta. Acho Noel e Liam fantásticos e sei todas as músicas de trás para a frente. Sou fã de carteirinha e pelo menos uma música de Oasis fez parte de todos os momentos da minha vida. Enfim, paixão eterna - apesar de achar esse clip deprimente.
Então, espero que tenham gostado. Viram que o meu gosto musical não é nada refinado à la Beatles e outras coisas que as pessoas normalmente gostam - mas acho que é bem aceitável. O meme, como sempre, fica livre para quem quiser.
ps.: Você não têm NOÇÃO de como eu sofro para postar vídeo no blogspot. Sempre esqueço como faz e tenho que reaprender toda santa vez. Great.
ps².: Ainda estou arrasada porque não achei nenhum vídeo de 'Periscopes', de The Beatiful Girls para postar aqui. A música é tem uma vibração muito gostosa e eu indico demais.
São tantas frases soltas misturadas a uma multidão de sentimentos que preciso de dois segundos a mais para organizar minha mente. Não, não, não era esse o ponto... O que eu queria lhe dizer era: eu sinto sua falta. E mais: eu não só sinto sua falta. Sinto impaciência quando acordo de manhã, vou para o banho, me visto e lembro que nada daquilo é para lhe encontrar e receber o melhor ''bom dia'' que existe. Sinto mau-humor – daqueles que afastam qualquer um de mim o dia inteiro. Mas que culpa eu tenho? Basta que eu lembre que hoje é, sei lá, quarta-feira e não temos como nos ver, basta que eu não consiga lhe ligar porque tenho uma tarefa importante, basta que eu pense em você e não possa lhe dizer isso. O resultado? Mau-humor para o dia inteiro. Sinto carência – surtos graves de abstinência de você, desses que me fazem ver filmes de amor-meloso-pegajoso-irritantemente-adocicado que em situações normais me fariam ter crises de enjôo, mas que sem você só me ajudam a afundar em uma tigela absurdamente engodativa de sorvete.
E saiba que, se fosse apenas isso e outras coisas do tipo, eu me orgulharia; e mais, faria questão que todos soubessem: tenho em mim metades, porque eu, no meio de tanta gente solitária, encontrei quem me roubasse de mim mesma. Eu, que já recebi tantos ''não'' de tantas formas, tenho o mais difícil: alguém que eu ame. Sim, eu faria isso, acredite, se não fosse uma última questão: sinto rejeição - não sou o tipo que precisa de atenção a cada cinco minutos e que prefere muito mais ser ignorada pela maioria das pessoas. Mas você, se não me liga para dizer que está com saudades, se não me conta como foi o seu dia, se não se importa se estou bem, se me ignora como ato de rotina... Você me destrói aos poucos, me pisa e esfrega em brasa quente o meu rosto choroso.
E é por isso, meu bem, que tudo o que eu sinto congela quando me dou conta de que a noite está fria, chove lá fora e a sua indiferença é minha companhia – de hoje, de sei lá até mais quando. Portanto, a você, de mim, só cabe uma coisa: boa noite.
Agora que a frieza desses últimos dias parece estar com data marcada para ir embora, pensei que fosse o momento certo para lhe dizer como não venho passando sem você. Para você pode ter sido como um grande tempo de paz e aproveitamento que há muito não tinha; para mim, entretanto, foi a pior prova de paciência, meu mais extenso momento de espera. Amostra disso foram as maneiras absurdas de refúgio em que procurei para lhe resgatar da forma mais pura que eu pudesse – as cartas tiradas do meu baú de melhores recordações, a caixinha de veludo que não sai mais da minha mesinha, a esperança que cultivei ao ouvir tocando por aqui que you're only the best I ever had, ainda que no verso seguinte frases como you don't want me back tentassem me bombardear.
Amor, meu amor. Ainda me lembro de tantas outras vezes que nos separamos assim, de como fazíamos promessas de retornos breves de corpos – porque nossas almas, ah, essas nunca deram um passo que não fosse lado a lado. Hoje, entretanto, me vejo no aguarde do corpo que desejo e da alma que me entende. E caso não tenha notado, estou aqui para pedir que volte logo. Volte, porque já não caibo em mim de saudade, já não aturo mais a companhia ingrata da espera em tantos dias fastidiosos. E volte, porque mal vejo a hora de prova-lhe ''(...) o quanto eu te amo. Amo não mais só como uma amiga, mas também como um patriota ama a sua nação, como um católico ama o Papa, como o seu irmão ama o futebol (Como os terroristas amam o Bush... Brincadeira!). Amo como uma fã, uma amante, como uma esposa, uma namorada''. Volte, apenas volte – para cá, para mim.
Beijos e abraços como os últimos que demos,
Da sua Preta.
ps.: Carta de 16/02/2010 com partes devidamente parafraseadas d'outra carta de 21/03/2007. ps².: a música em questão se chama Best I ever had, de Vertical Horizon.
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Talvez o final feliz seja fazer isto: passando pelas ligações não retornadas e corações partidos, por todos os erros e sinais não vistos, pela dor e vergonha... Nunca perca a esperança.
Tenta porque cada lágrima de raiva e de decepção que trocamos não é nada – nada – perto dos incontáveis dias que passamos sorrindo, das inúmeras lembranças que nos fazem gargalhar só em serem lembradas, dos vários planos que temos – temos, no presente, porque uma vida como a que sonhamos só existe de um jeito; um jeito que, acima de qualquer coisa, é insubstituível por ter que, obrigatoriamente, unir duas pessoas: você e eu. Tenta porque eu sei que a nossa cota de erros um com o outro já foi gasta o suficiente para que possamos passar o resto da vida só acertando. Tenta porque uma pessoa que é exatamente aquilo que a gente precisa, só encontramos uma vez na vida - e, assim como eu nunca vou encontrar alguém que ao menos se iguale a você, que ature minhas reclamações com tanto bom humor, que diga que me ama sempre que eu quiser ouvir, que me ache linda mesmo quando eu estiver o contrário disso, você também nunca irá encontrar alguém que seja a sua medida certa, que ria das suas bobagens, que entenda o que você pensa antes mesmo de você falar... Não, você jamais encontrará alguém que lhe sinta da mesma profundidade que eu. E, bom, a gente tenta porque eu sei que a estupidez que cada um de nós fizemos não foi para que seguíssemos os nossos caminhos separados; foi para que a gente teimasse, para que a gente olhasse um para o outro e pensássemos juntos: ''Tá vendo como doeu? Então que jamais se repita''. E não se repetiria.
E olha só: tentar, insistir, nunca há de ser crime, pecado ou vergonhoso – há sempre, sim, de ser prova que ninguém nunca se cansa de amar. Que não cansamos. E, por Deus, sejamos sinceros: que outra alternativa saudável, completa e 100% aceita por nós mesmos que temos, a não ser tentar?
Eu vivo assim de reviver o amor, a gente até sabe dizer ''por favor'' (...)
Mas eu insisto, eu vou sumir, e ir pra um lugar onde eu possa viver e te amar.
play: Reviver - Torre de Papel¹
¹Torre de Papel é uma banda maranhense de rock alternativo com altas influências de Los Hermanos, The Beatles, Jimi Hendrix e Muse. Vale a pena ouvir algumas canções, eu indico.