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quarta-feira, 13 de março de 2013

Você também quer fazer intercâmbio?

Desde que eu comecei a resolver meus assuntos sobre o intercâmbio, vez ou outra alguém me faz perguntas gerais sobre isso: pra onde eu vou, aonde vou me hospedar, quanto estou pagando... Enfim, são pessoas interessadas em viajar querendo dicas de como se organizar. Pensando nisso, resolvi responder algumas das perguntas que mais recebo por aí. Espero conseguir ajudar quem tem dúvidas.


Qual empresa de intercâmbio escolher? 

Aqui em São Luís o mercado está concentrado em duas agências de intercâmbio: CI e STB. Eu visitei as duas e gostei bastante de ambas. Acontece que desde o início existiu um ponto em que elas divergiam: o preço. A CI era cerca de 2 ou 3 mil reais mais cara que a STB e isso sem qualquer motivo. Mas como não só um bom preço define uma viagem, ainda mais para tão longe e por tanto tempo, fui atrás de pessoas que já tinham viajado pela STB – até porque, apesar de já ser nacionalmente conhecida, é uma empresa nova aqui na cidade. Falei com vários amigos e conhecidos que já tinham viajado pela agência e todos, sem exceção, me disseram que podia confiar na empresa. Então, acabei assinando o contrato e até agora estou satisfeita. 

Quando começar a planejar? 

Depende. Se você quer parcelar o valor do intercâmbio em infinitas vezes, é bom procurar muito antes de viajar; porém, considero 8 a 6 meses de antecedência um tempo razoável. Não acho bom procurar a empresa um ano antes: primeiro, porque os preços das escolas de inglês se renovam a cada ano e isso pode causar alterações no valor ao longo do seu pagamento; segundo, porque às vezes quando você faz reservas de hotéis e compras de passagens com muita antecedência, ao invés de sair mais barato acaba saindo mais caro. 

Eu fui à STB em janeiro para fechar um pacote para julho – não se esqueça de que o curso de inglês e a acomodação devem estar pagos um mês antes da viagem! Pra mim isso foi suficiente, até porque eu mesma, pesquisando em sites e blogs, já tinha listado todos os lugares que eu queria conhecer. Então, o que eu indico a qualquer um é pesquisar desde cedo sobre os lugares que gostaria de ir. Assim, você já pode chegar à agência praticamente com uma decisão tomada. 

E para qual cidade ir? 


Eu sempre quis ir para Londres, então escolher para mim foi fácil. Além de todo o meu amor pela cidade, pesou muito o fato de que eu poderia conhecer outros países nos fins de semana de folga. Como viajo com meu namorado, os outros lugares que vamos visitar não foram só escolhas minhas. Também conta na hora da escolha uma melhor logística de viagem. Exemplo: queria muito conhecer Madrid, mas é muito longe e não compensa ir até lá para passar só um fim de semana. Ou então: para ir a Amsterdã de trem, tenho necessariamente que passar por Bruxelas, então fica fácil fazer uma parada por lá e conhecer a cidade. 

Uma coisa legal na STB: a minha atendente morou na Europa por muito tempo, então ela sabia exatamente a melhor época do mês para visitar cada cidade e quanto tempo eu deveria ficar em cada uma para que eu pudesse conhecê-las de forma satisfatória. Tem cidade, por exemplo, que ela disse que eu não preciso ficar mais que dois dias; outras, por outro lado, terei que ficar por quatro dias. Depois de muito planejar, vou poder conhecer mais lugares do que pensei. Tudo isso minha atendente da STB me ajudou a organizar. 

Onde me hospedar? 

É o seguinte: ficar em casa de família é bem mais barato que ficar em casa de estudantes, principalmente porque toda pequena diferença de valor em libra vira uma enorme diferença quando convertida para real. Mas como eu não vou viajar sozinha, minha opção foi por ficar em casa de estudante. Vou dividir o quarto com banheiro só com meu namorado, mas a área da cozinha e lavandeira vou dividir com outras pessoas. Londres é organizada em zonas: quanto menor o número da zona, mais perto ela fica do centro. Meu apartamento, assim como minha escola, ficam na zona 1, então isso vai me permitir fazer muita coisa à pé. Às vezes compensa gastar mais em uma hospedagem bem localizada, porque o transporte em Londres pode até ser bom... Mas também caro. 

Já nos outros países que vou visitar, tive que me dividir entre hotéis e albergues – todos reservados e pagos através da STB. Em alguns lugares a diferença de preço entre hotel e albergue é bem pequena, então óbvio que a preferência é ficar em hotel, porque o quarto é privativo. Mas em outros lugares, como Amsterdã, não há hotéis baratos perto do centro e os albergues são bem avaliados, mesmo que você divida o quarto com mais 8 pessoas; nesse caso, então, fiquei com o albergue.

O que eu preciso para viajar? 


Para quem vai para Londres, isso é fácil: você precisa de um passaporte. O meu curso de inglês pede que eu faça um teste antes de ir (e outro quando chegar lá) para definir o nível da turma em que vão me encaixar. Talvez eu precise tomar uma ou duas vacinas antes de viajar, mas ainda tenho que verificar meu cartão de vacinas. E, por fim, tem o tal de seguro de vida e sem ele você não entra na Inglaterra – você pode deixar para fazê-lo às vésperas da viagem, então é a última coisa com a qual você vai se preocupar. 

Se eu for para a Europa, como posso viajar para outros países? 

Sabe aquela história de que dá para viajar a Europa inteira com passagens de trem? Mentira, não dá não. Passagens de trem são caras pra caramba. Barato mesmo é viajar de low cost, que são companhias aéreas de baixo custo – as passagens são bem em conta, já que eles tiram todo e qualquer luxo possível que uma companhia aérea normal teria: até para ter direito à mala de 20kg você tem que paga uma taxa extra. Por outro lado, se você pretende viajar por um curto período de tempo – um fim de semana, por exemplo – é só por uma mochila nas costas e pronto, pode ir de low cost. 

Também outra coisa que conta na hora da escolha: de Roma a Londres são mais de 20 horas de trem. Então é bem melhor pegar um voo low cost e pronto, não é? Porém, se você vai de Londres a Paris de trem, você sai de uma estação no centro da cidade direto para outra estação no centro da outra cidade. Nesse caso, compensa bem mais viajar de trem. Mas relaxem: tudo isso, pelo menos na STB, a atendente resolve por você. A única coisa que a agência não faz é comprar as passagens low cost, apesar de te ensinarem direitinho como comprar em casa. Na STB eles também reservam e compram as passagens de trem. 


Tudo isso é muito caro? 

Na verdade, depende do seu conceito de “caro”. Comigo é assim: meu pai está pagando o intercâmbio em si e eu vou pagar todas as viagens de fim de semana com um dinheiro que eu juntei. Optei por fazer o curso de inglês à tarde, que é mais barato – isso não é um problema porque em julho anoitece tipo 8 da noite em Londres, então quando eu sair do curso ainda posso aproveitar o dia, além de ter a manhã livre. Economizei muito nas viagens de fim de semana ao escolher hospedagens alternativas. Economizei sempre procurando se era mais barato fazer essas viagens de low cost ou de trem. Economizei porque todas as minhas hospedagens vão ser em quarto duplo. 

Minhas passagens saíram mais caras, porque eu vou chegar na Europa por Roma e vou sair por Paris. E entenda uma coisa: é impossível comprar passagens para Londres em julho com aqueles preços amigos que são as passagens pra dezembro. Por outro lado, comprei com o voo indo e chegando em Brasília, o que saiu uns 1 mil reais mais barato que indo e chegando por São Luís – vou comprar passagem de São Luís – Brasília – São Luís com milhas. Se você for e voltar por Londres, portanto, e tiver umas milhas para gastar em trecho nacional sem precisar, sai menos caro essa parte da passagem, que com certeza é o que mais pesa na hora de pagar.


Bom, basicamente é isso. Eu ia fazer esse post quando estivesse mais perto de viajar, mas surgiu a necessidade agora – quando estiver em Londres e depois que chegar de lá, pretendo fazer mais posts respondendo perguntas que me fazem e com informações que acho úteis. Sempre tem muita coisa para falar, então me perdoem pelo post enorme. Tudo que eu disse são dicas bem específicas sobre Londres, porque não posso falar por quem vai fazer intercâmbio para outro lugar. De todo modo, se restou ainda alguma dúvida ou se tem algo em que posso ajudar, não se acanhem: perguntem nos comentários que eu trato de responder em breve!

ps.: não saí colocando os preços de tudo, porque é muita coisa. Mas se alguém quiser saber quanto paguei por algum serviço, é só perguntar.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Vida eterna aos sonhos

Há muito tempo eu sonho em conhecer a Europa - digamos que desde a época em que eu ficava em êxtase quando via uma loja da Lilica Ripilica, não da Zara. Não sei bem explicar de onde surgiu esse amor todo. Sempre fui fascinada por mitologia grega, então acho que a origem disso, bem como de quase tudo no mundo, saiu daí. Segundo meu namorado, eu simplesmente gosto de qualquer coisa que tenha mais de um século. Não sei. Não importa. É fascinante mesmo sem motivos aparentes, sem explicações pautadas em descendência familiar ou qualquer outra coisa do tipo. Eu simplesmente olho para o velho continente e automaticamente suspiro. É o meu amor platônico mais antigo. Em breve, não mais. 

Dia desses meu pai estava num estado de raro bom-humor e eu, como quem não queria nada, aleatoriamente comentei que seria legal, aproveitando a queda cambial do real em relação a libra, aproveitar para fechar contrato com a agência de intercâmbio que venho de olho há um mês. Foi tiro certo – gente, pedir coisas pro meu pai quando ele tá de bem com a vida é maravilhoso, vocês não têm noção. Ele sacou o cartão de débito e entregou ali, nas minhas mãos, o primeiro passo para realizar o meu sonho com maior histórico de "deixa pro ano que vem". Corri para banco antes que meu pai se desse conta do que estava fazendo e depois de 5 minutos no caixa eletrônico lá estava eu, com comprovante de pagamento em mãos, sem saber como sobreviver pelos próximos 5 meses até finalmente embarcar. Eu sei que eu pareço um juvenil falando assim. 

Quantas pessoas com 20 anos, duas graduações caminhando e um estágio nas costas sonham em fazer curso de inglês fora? Poucas, eu aposto. Mas não creio que o problema esteja comigo. Hoje em dia os sonhos envelhecem rápido, essa é a verdade. Quando você passa dos 12, não ganha aquele presente que queria tanto no dia das crianças; quando passa dos 15, você ser decepciona com a melhor amiga e começa a achar que ninguém no mundo é sincero; passou dos 18, então, você já é maduro demais para acreditar em príncipe encantado. Digo que vou fazer intercâmbio e as pessoas perguntam se não vou perder meu estágio por isso. Falo que vou juntar dinheiro para comprar cosméticos e todos me mandam economizar para comprar um carro. 

Não quero que meus sonhos morram na mão dos homens ou das circunstâncias. Não quero me deixar contaminar pela dureza dos dias dessas pessoas cuja única perspectiva é o mundo real. Quero mesmo é fantasiar as minhas lembranças de menina, que no passado tanto sonhou em abrir asas e ir longe. Hoje, eu moro só, cuido do meu irmão como um filho e todo mês faço supermercado e pago contas; nas férias, eu vou passar um mês viajando com mochila nas costas, com pouco dinheiro no bolso e com a melhor e mais aventureira companhia que poderia ter. E quando eu chegar em Londres, o mundo vai sorrir pra mim. Vou fazer festa quando comer meu primeiro macaron em Paris, vou comer chocolate em Bruxelas até enjoar, vou passear por Amsterdam inteira só de bicicleta e, quando olhar o primeiro castelo de Edimburgo, vou mesmo acreditar que mágica existe. E só não vou na Grécia porque ela envolve um sonho meu ainda mais clichê que intercâmbio. E sabe do que mais? As pessoas mais felizes do mundo não são as com data marcada para tudo, com tempo limitado para todas as conquistas, que alcançaram apenas o mínimo; com conhecimento de causa, eu digo que as pessoas mais alegres, mais completas, mais fantasticamente humanas, são aquelas que, não importa quando, viram um sonho se tornar real.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Diários de fotografia

Sei lá eu quantos anos eu tinha quando ganhei minha primeira câmera. Uns nove, talvez? Não lembro nem o modelo. A única coisa que sei ao certo é que eu gastava toda a fortuna que eu ganhava de mesada (era feliz com 20 reais por mês, acreditem) com filmes e revelações. E como eu sou apegada, ainda colecionava os rolos de negativos do filme fotográfico. Minha mãe achava a maior loucura do mundo; desconsiderando todos os meus sentimentos, certa vez ela jogou no lixo todos os meus negativos. Como resposta, eu, no auge da minha maturidade, resolvi fazer greve “de não tomar refrigerante” até que ela admitisse que fotografia, pra mim, era um lance sério. Óbvio que ela não me deu bola. 

Quando eu fiz 12 anos, mamãe achou que eu merecia um pouco mais de atenção, então eu ganhei minha primeira câmera digital. Era um modelo ridículo de ruim da Olympus, mas eu achava o último lançamento. Levava a câmera escondido pra escola e quando chegava em casa, ao invés de estudar, almoçar ou fazer qualquer outra coisa de gente normal, pegava a câmera e começava a mexer naquelas configurações que eu nem sabia o que significavam. Como eu nunca tive talento pra ser autodidata, não saia nada de útil. Foi nessa época também que eu dediquei horas a tirar foto em frente ao espelho, fazendo biquinho e o sinal da paz. Quem nunca, não é? 

Mas como felicidade de pobre dura pouco, minha câmera quebrou (na verdade, eu derramei perfume sobre ela) e eu passei uns péssimos 2 anos sendo fotógrafa com câmera alheia. Quando eu estava no 2º ano do Ensino Médio, mamãe cansou de me ouvir reclamar na vida e me deu uma super (uau) cyber-shot da Sony. Todo mundo já teve uma dessas, acho que até hoje é um clássico. Mas essa durou menos ainda que a anterior. Quando viajei na formatura do 3º ano, obviamente levei a minha companheira, mal sabendo que estava destinando-a a morte: como fui para Camocim, onde tem dunas, a areia da cidade inteira entrou na minha câmera. Depois de lutar bravamente, a coitada pifou e mais uma vez eu fiquei órfã. 

Como isso foi perto do meu aniversário, tratei de pedir outra cyber-shot no lugar da antiga. O problema é que eu nunca tive sorte com eletrônicos, então essa minha câmera vivia com defeito que assistência nenhuma resolvia. Depois de 1 ano entre idas e vindas de consertos, a câmera resolveu morrer assim que a garantia acabou. Dessa vez mamãe não ficou com pena de mim e disse que não me daria mais câmera nenhuma até eu deixar de ser irresponsável. Mães às vezes não compreendem nada, né? Ela acha mesmo que eu ia quebrar minhas câmeras de propósito? Por favor, né. Nisso, eu acabei passando 2 anos sem câmera, uma espécie de castigo por tudo de ruim que já tinha feito na vida até então. 

Passei metade de 2011 juntando dinheiro pra comprar uma câmera – óbvio que eu não queria mais cyber-shot depois de tantos traumas. Tinha decidido partir pra uma câmera com lentes intercambiáveis, mas como a mais modesta delas custava muito mais do que eu podia pagar, fiquei na minha. Até que em março de 2012 Deus resolveu trabalhar ao meu favor. Papai me deu uma quantia razoável de dinheiro como presente de aniversário e, juntando com minhas economias, consegui arrecadar o suficiente para minha sogra, que ia pra Miami, comprar minha câmera por lá – um modelo recém-lançado da Nikon que eu vinha namorando desde que anunciaram. Minha sogra conseguiu comprá-la tranquilamente e ela foi carinhosamente batizada de Kate. E se você espera alguma história triste sobre o fim da minha câmera, esqueça, porque ela ainda está em perfeito estado – pelo menos por enquanto. 

O fato é que ontem, em um jantar de família, um primo, ao me olhar usando minha câmera, me perguntou por que eu cuidava dela tanto e a segurava como se fosse de vidro. Eu não contei toda essa história pra ele, claro, então simplesmente respondi “porque ela foi cara” (o que não deixa de ser verdade). Mamãe ainda olha de um jeito torto pra minha câmera e diz que eu joguei dinheiro fora comprando uma lente nova – mas também não pode me ver tirando fotos que pede logo uma dela, porque a minha câmera “deixa até a gente mais bonito, né?”. E essa semana eu recebi, como prêmio de um concurso fotográfico, uma câmera analógica, a minha primeira em todo esse tempo desde a era digital. E quando eu começar a revelar minhas fotos, quero é ver quem dessa vez vai jogar meus rolos de negativo no lixo. Ouviu, mãe?

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Temos nosso próprio tempo




Eu sempre fui feita de muitos conflitos interiores que eu gostaria de reverter, de conduzir ao meu modo, de relativizar. O mais contraditório de todos eles, porém, foi quando eu decidi fazer em umas das paredes do meu quarto um mural de fotos em formato de coração, colocando lá todos os rostos que iluminam o coração de verdade. O meu maior medo foi que chegasse o dia em que eu olharia para aqueles retratos e não fizesse sentido alguns eles estarem colados lá de um jeito tão permanente e difícil de retirar. Sempre tive um medo irracional de colocar pessoas no meu coração para ter que arrancá-las logo em seguida – literalmente ou não. 
Acontece que hoje eu acordei sozinha, sem barulho, sem vento frio, sem café da manhã digno de hotel. Acordei e não tinha ninguém com quem dividir o banheiro, não tinha mochila pesada nas minhas costas e muito menos tinha mala pra arrumar. Hoje, quando eu saí de casa, não cantei músicas no carro, não peguei metrô, ninguém me indicou o caminho e, quando cheguei ao prédio onde trabalho, ele não era na Avenida Paulista. Hoje, quando fui almoçar, não era Mc Donald’s e quando chegou a tarde, não havia Bienal, nem passeio no shopping, nem compras divertidas. E se eu cansasse dessa melancolia e saísse cantando Legião Urbana enquanto andava na rua, seria taxada de louca desvairada, inclusive por mim mesma, porque não é mesmo compreensível querer ser feliz sozinha. E quando chegou a noite, essa danada, a lua me pareceu mesmo feita de pedra, a pizza do jantar sem gosto, as músicas soavam estranhas como se nunca tivessem sido ouvidas e minha cama, antes estreita e quente, era grande demais só para mim. 
Não sei se dois dias é muito ou pouco tempo, mas sei que é suficiente pra reconhecer no olhar das pessoas aquilo – e muito mais – que eu sempre imaginei que elas fossem. Encontrar as minhas meninas foi um presente que Deus me preparou com cuidado e demorou 20 anos para entregar, porque de certo Ele queria ter confiança de que eu estava preparada para reconhecer em um simples encontro de corpos uma reunião de almas gêmeas. Sei que amor não é feito de saudade, muito embora o nosso esteja cheio dela; mas sei também que a vontade do reencontro é o que constrói os dias e que quando não há o que se esperar, a vida não passar de uma repetição do mesmo. Acabado do fim de semana mais surreal da minha vida, eu vejo as nossas fotos pra em seguida fechar os olhos daquele jeito de quem quer olhar para dentro e voltar devagar no tempo, desde o instante do pouso do avião até o último “a gente se vê em breve, viu?”. 
Eu poderia dizer muito mais sobre a nossa história, mas recentemente aprendi que "como todas as histórias de amor de verdade, ela vai morrer com a gente, como deve ser". E para quem me pergunte, eu me limito a dizer: nós somos amor, do tipo que transborda. Hoje eu estou no meu habitat – está calor, o céu está pintado em um azul lindo e a brisa do mar refresca minha alma. Mas eu nunca me senti tão fora de órbita. Nunca me senti tão fora de casa. Hoje, o meu lugar não é aqui; o meu lugar é com as minhas estrelas. 

E sem conflito interior algum, eu formaria um coração inteiro só com os sorrisos de vocês.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Agradecimentos monográficos

Ou: Como dizer “obrigada por tudo” a quem se ama 

 Ao som de There is a light that never goes out – The Smiths 

Ao longo da minha curta existência eu fui recendo lições demasiadamente preciosas e que foram categóricas para determinar a pessoa que eu viria a me tornar. Porém, nada até hoje foi mais precioso que um ensinamento que só recentemente eu consegui compreender e é por finalmente ter aprendido essa lição tão bonita que hoje eu agradeço a todos aqueles que a cultivaram em mim. 
Ao meu grande Pai, maior que qualquer adversidade e que esteve ao meu lado todos os dias dessa jornada. Graças à companhia dele eu pude trilhar esse longo caminho sempre em paz, em segurança e certa de que estava realizando um sonho. Ao Meu Deus, que foi perfeito em tudo que fez na minha vida. 
Aos meus pais, Nizete e Edson, que desde o início fizeram o possível e o impossível para que eu continuasse firme na minha jornada sempre cansativa rumo à universidade, sem me deixar fraquejar por um só segundo. Obrigada pelas palavras de apoio e por cultivarem incondicionalmente o meu amor pela literatura. Eu serei eternamente grata por tudo e por mais que eu me esforce, nenhuma retribuição a vocês será digna o suficiente. 
 Ao meu namorado, Francisco, o melhor amigo e companheiro, que sempre foi a pessoa que acreditava eu mim quando nem eu mais conseguia fazê-lo. Obrigada por me fazer forte, fiel às minhas convicções e por sempre me impedir de desacreditar na minha capacidade. Obrigada por me fazer ser sempre melhor. Sem o seu apoio eu não teria escrito uma linha sequer. Por você, minha gratidão e meu amor serão eternos. 
Às amigas do curso de Direito da UNDB, Carol, Juliana, Viviane e Marynelle, que me suportaram em todas as minhas crises existenciais. A minha vida não teria a mesma graça se não fossem as noites dividas com vocês. A próxima vez que eu escrever um TCC será pela UNDB e eu tenho certeza que, se existe uma forma suportável de passar por todo esse processo de criação novamente, é com vocês ao meu lado. 
 Aos meus companheiros de twitter, Fernanda, Klerianne, Vanessa, Diana e Wendel, que dividiram comigo até às vésperas da apresentação deste trabalho a angústia e a ansiedade que só conhece quem por a escrita de uma monografia já passou. O apoio de vocês foi incondicional, a ajuda foi mútua e o conforto que eu sentia após cada conversa trocada foi imensurável. Obrigada por me fazerem rir até nos momentos de mais extremo nervosismo. Finalmente chegamos ao ponto em que eu sabia que chegaríamos desde o princípio. Nós conseguimos! 
Às amigas do curso de Letras da UEMA, especialmente Lays, nas quais eu sequer consigo pensar sem que meus olhos se afoguem em lágrimas. Meninas, vocês foram a minha maior fonte de inspiração para a vida ao longo dos quatro anos em que me ensinaram a ser uma pessoa muito melhor do que eu julgava ser quando fui aprovada no vestibular; vocês são a prova que na universidade aprendemos muito mais que teoria e prática. Por tudo que passamos juntas, eu sempre me lembrarei de vocês com um sorriso no rosto e uma saudade sem fim no coração. 
Às professoras Iranilde Almeida Costa, Sílvia Furtado, Vanda Rocha e, especialmente, à minha orientadora, Andrea Lobato. A todos os professores que depositaram em mim algum conhecimento ao longo de quatro anos de graduação. Não existem palavras possíveis de descrever o tamanho da contribuição de todos vocês para o meu desenvolvimento pessoal e intelectual. O curso de Letras da UEMA mudou completamente a minha vida para algo melhor do que eu imaginei. 
Às amigas que eu encontrei graças ao amor pelas letras e pela escrita. Às irmãs de alma que me provam diariamente que você não precisa estar cara a cara com alguém para dizer um verdadeiro “eu te amo”; que me mostram que distância é um elemento cada vez mais insignificante; que acolhem todas as minhas loucuras e abraçam meus devaneios como delas próprias. À Máfia, enfim. 
Se hoje eu posso dizer “infinitamente, obrigada” é porque vocês seguraram minhas lágrimas ao me despertar um sorriso, sustentaram minhas pernas frágeis com um abraço, passaram algum tempo comigo mesmo quando este parecia escasso e, principalmente, me ensinaram a lição mais bonita que eu poderia aprender ao longo dos meus vinte anos: não há nada no mundo que substitua a maravilha de nunca estar só.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

She acts like january

Now that she's back in the atmosphere 
With drops of jupiter in her hair
She acts like summer and walks like rain
Reminds me that there's a time to change
Since the return of her stay on the moon
She listens like spring and she talks like june

Drops of Jupiter - Train

Apesar de toda a expectativa que eu sempre guardo para janeiro, dessa vez o que eu tive foi surpreendente até para pessoas como eu, em que tudo é tão previsível. Não houve aquela sensação de coisas simultaneamente repetidas – tenho muita fé em Deus que finalmente dei início a uma temporada de coisas inéditas que me façam sentir algo que eu não sabia que existia dentro de mim. O que eu tenho tido é algo muito belo. Olhar janela afora sempre me ajuda – não há quem me tire da mente a beleza que há nos dias chuvosos do verão dessa cidade. Abro um sorriso imenso quando percebo a chuva que escorre ladeira abaixo levando consigo toda a sujeira que estava presa nos cantos das ruas. As pessoas têm mesmo esse dom de sair deixando imundice por onde (por quem) quer que passem. Acho que é assim que eu me sinto – depois de uma tempestade e toda a porcaria levada minh’alma a fora, finalmente o dia está pronto para ser iluminado por um lindo sol. Acho que esse tempo de bonanza após a chuva forte foi feito para pessoas como eu, como nós, que não têm muito temor em rasgar o peito em lágrimas sofridas se esse for o preço a se pagar por um sorriso sincero – que têm batido à minha porta com cada vez mais frequência e mais força. Amo janeiro porque é o recomeço para alguns e a continuidade para outros. Amo janeiro porque eu nunca estou só. Amo janeiro porque os livros somem das minhas prateleiras e vão parar na cabeceira da cama, no sofá, na mesa da cozinha. Amo janeiro porque a praia é livre de todo mundo que só segue para lá como “única opção de fim de semana nessa cidade fim de estrada”. Amo janeiro porque os abraços são maiores e mais quentes. Amo janeiro porque eu vejo sorrisos por todos os cantos. Amo janeiro porque faz frio lá fora e aqui dentro também, mas depois fará um calor de esquentar o coração.

Canto muito todas as tristezas que tenho, mas cantar as alegrias requer muito menos palavras e muito mais melodias. Um silêncio e um sorriso me bastam nesse janeiro que faz o corpo vibrar de emoção.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Until the end starts

Esse cheiro de ano novo sempre enche dezembro com uma vontade imensa de deixar os fantasmas e as lágrimas em um passado que não nos pertencerá mais. Mas é com o meu orgulho enfiado goela abaixo que eu admito que, no fim do último dia do ano, o balanço que eu posso fazer sobre os últimos 365 dias não poderia ser mais realista. Chega a ser irônico com uma perspectiva de vida que foi construída ao longo de uma vida inteira muda assim, depois de alguns episódios desastrosos e outros nem tanto. Antes, na minha ingenuidade juvenil, tinha plena consciência que um ano a mais só era válido se ele existisse para que eu fosse feliz para sempre, enquanto esse sempre durasse. Fui ridiculamente romântica, uma burguesa de coração atado à paixão, ao afeto, ao carinho. Esperei muito, por tempos, aquilo que eu sempre fiz questão de clamar como o justo e o merecido. Nada do esperado veio, mas é estranho como às vezes o esperado pode ser desinteressante se comparado ao inesperado. Não tive nada do que eu pedi: tive muito mais. Não enchi meus dias de misantropia, de manhãs deitada na rede, de livros fabulosos, de amores perfeitos, de amizades eternas. Vendo por esse lado, a felicidade é tão comum e banal. Todos sempre desejamos as mesmas coisas. E mesmo tento tudo isso em doses satisfatórias, a inquietude sempre me avisou: você não quer nada além do normal. O fantástico meche demais com a cabeça das pessoas. Tanto que começamos a duvidar daquilo que é real. Boa demais para ser verdade, essa realidade de vidro que trinca no primeiro suspiro. Foi com muita contrariedade, para ser sincera, que eu pareço ter entendido que a verdadeira alegria não precisa estar fantasiada de “inacreditável” para existir. Sempre proclamei que não precisava de nada maravilhoso para ser feliz, mas isso sempre foi a maior das minhas mentiras; sempre estamos à espera que algo lindo aconteça, algo que nos faça rever nosso conceito de mundo, que nos faça brindar usando champagne, que nos resgate a vontade de sorrir sem precisar de algum motivo que justifique a nossa loucura incontrolável. Essa exigência do melhor sempre me consumiu, ao invés de me fazer seguir em frente por acreditar. Acima de tudo, é decepcionante esperar coisas que só existem com fruto de uma imaginação nada confiável, que muda de idéias com o passar das horas e que desfila pelos mais perigosos e incertos sentimentos. Por diversas vezes, eu deixei claro que o meu desejo para um novo ano que se inicia é que tudo se transformasse para melhor; hoje, a única coisa que precisa mudar sou eu e essa inclinação a querer o perfeito enquanto este nunca me agradou. Tudo o que eu peço, depois de muito desperdiçar as minhas vontades com coisas que eu nunca quis, é que tudo o que vier seja o mais normal possível. Que os meus amores sejam sinceros e palpáveis e que eu possa reconhecê-los em pessoas sem poderes espetaculares. Que as minhas amizades sempre cultivem o sentimento do real e que nunca tragam consigo a fantasia que evapora ao fim da história. Que as manhãs de cada dia brindem a força, a fé e a esperança, mas que jamais cultivem o sentimento do falso, do que nunca existirá. Que eu jamais, em tempo algum, venha a estimar o desnecessário, o vago, o impreciso, o inoportuno. E que meu coração se acalme e descanse naquilo que habita dentro de mim, que não é tudo de bom que existe, mas que é suficientemente maravilhoso.

Nessa troca de datas de anos, eu não levo comigo nada que trouxe até hoje por falta de coragem de deixar para trás. Fica aqui a minha prece por um coração renovado, livre de todas as mágoas que anos a fio ocupam lugares desnecessários; deixo para trás o medo de acreditar nos sonhos que tenho receio em admitir; reciclo a minha mente para as pessoas que já havia condenado, para tudo em que já havia perdido a fé, para a paciência que sempre me faltou. Nunca fui de ter crença em recomeços, mas a vida me pediu e me mostrou como é imprescindível mudar essencialmente nós mesmos, quando estamos fadigados da nossa própria presença. Por fim, que o novo ano me traga a compreensão sobre tudo aquilo que sempre precisei e que nunca me faltou, mas que por vezes eu desperdicei.

Feliz vida, mente e coração novos a todos.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Breve perspectiva sobre o que virá

Fim de ano é uma das poucas coisas que ainda conseguem mexer comigo como se uma nova contagem de meses fosse mudar alguma coisa, mesmo que eu saiba que a diferença de um só dia não muda nada: os problemas continuam presentes como se não tivessem causas passadas, as pessoas continuam nos decepcionando e música sem graça de todos os anos toca naquelas lojas abarrotadas de gente comprando os presentes de última hora. Mas mesmo assim, aqui dentro de mim existe uma parte que nunca deixa de ser ingênua e que cria mil expectativas de como as coisas (sempre) podem ser melhores. Todo ano é sempre a mesma ilusão: penso que será diferente se eu quiser que seja e que a vida está renascendo, me entregando de bandeja uma nova chance de limpar o passado e construir um presente do qual eu me orgulhe mais. Nunca é: sempre aconteceu essa mesma dança de erros sendo valsada em um looping infinito de lamentações, mil palavras de desagrado que ficam me envenenando meses a fio e me privando de tudo que de bom venha a acontecer. Tristeza cega a qualquer um, até mesmo aos mais seguros ou independentes. Ninguém aprendeu a viver passo a passo com tanta dor e onze meses depois eu me pego perguntando o que fiz do tempo que passou e por que motivo não fiquei satisfeita. O motivo está escrito a sangue na parede: porque eu não quis. Porque. Eu. Não. Quis. Porquenãoquis, assim falado depressa, para ver se fica menos ridículo de se ouvir. Porque, pasmem, não fiquei satisfeita, não fiquei feliz ou alegre o tempo todo, não sorri todos os dias porque eu simplesmente não quis. Motivos eu tive de sobra. Incentivo nunca me faltou. Vontade eu até tenho, sinceramente. Coragem... O motivo sempre me foi a coragem. Ou a falta dela. Repetidas vezes eu já justifiquei minha melancolia como um ato de coragem que é preciso para se ser triste, mas o que sempre me sobrou, de verdade, foi um medo danado de ser feliz. Medo de conquistar coisas boas, de me unir a pessoas maravilhosas, de ser gentil com quem merece e de por uma pedra no que nada me acrescenta. Me falta mesmo é coragem para assumir que eu tenho tudo o que eu preciso e não sei aproveitar. Me falta mesmo é revigorar essa chance linda que eu tenho e que ponho fora todos os dias, quando escolho me afundar em reclamações sem fundamento. E hoje, por algum motivo, eu tive um súbito de auto-compaixão e decidi: não mais. Nem que eu tenha que relembrar quão covarde eu sou, todos os dias. Nem que eu sofra muito para não sofrer mais. Nem que a vida me bata muito para eu nunca esquecer o que é uma dor de verdade. Porque por mais que falte a coragem, a gente cansa de ser essa coisa pesada e desnecessária, esse ser humano descartável, isso que não respeita nem a si mesmo.
Cansei de desperdiçar os meus sonhos, não quero mais viver a decepção de não cumprir as minhas próprias promessas. O ano ainda não acabou, mas já sei o que espero daquele que não tarda muito e virá: novo, tudo novo. Todas as coisas e, se possível, as pessoas. Até eu mesma.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Paradise is like hell


Menos de vinte anos, alguns metros cúbicos de lágrimas e cá estou eu, tentando fazer a coisa certa ao menos uma vez. O meu entendimento em relação ao resto do mundo tem sido cotidianamente reconstruído e eu não sei se as mesmas palavras de ontem não passam, hoje, de um sentido superficial do que ainda está por vir. “Ainda está por vir” é o termo mais certeiro que eu tenho me atrevido a utilizar, a propósito. Acho que abandonei – finalmente – essa minha tentativa vã de parecer determinada em alguma coisa: sou uma contradição em mim mesma, um movimento cíclico daquilo que ainda não aconteceu, mas que se espera e espera e espera, não me perguntem até quando. Há muito tempo eu desisti de entender o que qualquer uma dessas coisas significa – se não haveria um sentido oculto por trás de tudo e se as respostas certas não estariam escritas em letras grafais em neon, bem à minha frente. Dizem que nós somos cegos em relação ao que de melhor está por vir, mas eu garanto, com toda a minha honestidade de quem nunca aceitou bem a decepção de esperar o que não tem que ser esperado: nada de excepcional está por vir. Talvez, no máximo, surja a chance de umas belas voltas por Copacabana, com aquele vento maravilhoso que talvez só faça igual aqui por minha terra; talvez uns goles de café, minha única e amiga bebida, que me façam revigorar e reconstruir todas as forças que não encontro mais em mim mesma; e, por fim, algumas dessas palavras cruéis que não têm um significado em si mesmas, mas que no fim acabam por formar um sentido único: não tenham pena de mim, não me mandem cartas nem recados de despedidas. Eu estou – muito – satisfeita até mesmo com os tombos que tenho levado, o que dirá das alegrias que vez ou outra batem à minha porta, pedindo passagem. São momentos raros esses que eu saio do meu corpo cansado e me permito flutuar nas luzes que invadem a noite – é uma ótima sensação, vocês deveriam experimentar. E depois eu retorno, para a mesma vida, o mesmo jogo, o mesmo resultado. E, não sei bem como dizer, isso tem satisfeito a minha fome de viver. Porque não dá para brincar com a verdade. A realidade não é um leque de opções. Existe essa força acima de tudo que lhe deu as cartas e, bom, tudo o que eu sei é: faça o melhor jogo que puder.


"São tudo histórias, menino. A história que está sendo contada, cada um a transforma em outra, na história que quiser. Escolha, entre todas elas, aquela que seu coração mais gostar, e persiga-a até o fim do mundo. Mesmo que ninguém compreenda, como se fosse um combate. Um bom combate, o melhor de todos, o único que vale a pena. O resto é engano, meu filho, é perdição."

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Ode à monografia

Eu leio Caio Fernando Abreu há algum tempo – 5 anos, para sermos mais exatos. O curioso da história é que eu descobri o autor extremamente por acaso e mais por acaso ainda comecei a pesquisar sobre a sua obra. No fim das contas o meu amor virou trabalho, porque, sim, minha monografia é sobre uma obra de Caio Fernando Abreu.
Eu poderia passar o resto do dia dizendo como escrever um trabalho tão extenso é atribulado – na verdade, eu não poderia, porque tenho que escrever um projeto para ser entregue na semana que vem para a minha orientadora. Mas eu não vou perder o meu tempo crucificando a tal da monografia, até porque todo mundo já faz isso sem a minha ajuda – e também porque estou tentando fazer uma ode, ora bolas. E, sendo sincera, essa é a tarefa “árdua” mais gostosa que eu já tive em toda a minha e eu posso afirmar com toda a certeza que eu nunca fui tão feliz com o meu curso como eu sou hoje.
Tenho uma amiga que diz que meus olhos brilham quando eu falo de Caio Fernando e que parece que eu sou a melhor amiga dele há anos – é como se nós tivéssemos trocamos cartas e farpas e sido vizinhos de porta a vida toda. Porque é assim: escrever uma monografia é fazer os seus olhos brilharem; é conhecer aquele assunto mais do que você conhece a si mesmo; é respirar teorias e textos exaustivos de forma repetitiva, mas sempre querendo mais; é nunca estar satisfeito com uma linha escrita que parece fora do lugar, porque aquilo que você está fazendo é tão belo que merece o esforço máximo para estar o mais perto possível da perfeição.
Eu não consigo pensar em outra coisa: é quase como se eu tivesse 15 anos e começasse a namorar o cara que eu sempre quis, mas que nunca me deu bola. É quase como se eu tivesse descobrindo pela primeira vez o final de Harry Potter. Cinco em cada dez assuntos que eu tenho são referentes à monografia. Estou a dois passos de abandonar o resto da minha vida e viver de ler e escrever sobre o assunto. Logo eu, que sempre tive tanto medo de nunca encontrar algo que me fizesse sentir tanto prazer... Lembro que quando estava no início do curso, uma professora minha fez aquele discurso inicial sobre escolhas e se entregar a uma área de pesquisa. Eu fiquei apavorada com aquilo, quase pensando em já desistir; então, no fim da aula, fui até ela e perguntei: “como eu posso saber que encontrei algo que eu posso me entregar de verdade, sem abusar a pesquisa na semana seguinte?”. E ela olhou para minha cara de caloura desespera e simplesmente disse: “você vai saber”.

É. Agora eu sei.

ps.: o título provisório da minha monografia é “Um escritor irremediável: uma leitura melancolia em Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu”. É a única monografia da região norte/nordeste já escrita sobre ele e, quer saber? Em tempos de modinhas de quem não sabe valorizar uma boa escrita quando a vê, eu tenho um orgulho imenso disso.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Viagem maravilhosa


Ninguém é feliz de graça, por sorte. Ninguém acertou o caminho sem antes tentar. Venho convencendo a cada dia um pouco mais de mim mesma da veracidade de todas as minhas teorias sobre a vida, o amor, os astros e a sorte – coisas banais que não fazem muita diferença para a maioria das pessoas, mas que vêm me guiando em um caminho que eu sei que vai dar pé. Todo dia eu reflito sobre as chances e possibilidades que eu ofereço a mim mesma e penso, trepenso, analiso e concluo: não há como errar. O caminho está traçado, a vitória é companheira e eu que não ouse olhar para trás. Eu que nem pense em novamente me olhar no espelho e duvidar da imagem refletida. Já fui e já voltei tantas vezes nesse caminho que dizem ser dos vitoriosos que já reconheço a todos – inclusive a mim mesma quando começo a ficar assim, com esperança. Mas eu imagino essa viagem tão bonita; não consigo parar de pensar como vai ser bom quando eu puder finalmente embarcar nesse trem, de como as poltronas são confortáveis, na forma com que a paisagem foi divinamente desenhada em suas minúcias, o céu azul do jeito que eu gosto e lá na frente, o mar, ah o mar! Suponho que seja assim, ou estou enganada? Porque, penso eu, que quando se é feliz, a gente consegue imaginar o mundo do jeito que quiser. Quando se é feliz se pode até ser triste que nada afeta o colorido do mundo – e eu tenho essa mania de gente besta, de ter tudo para rir até passar mal, mas querer sempre remoer um sofrimento que não existe. Esse meu velho vício de saudade e mágoas que sempre contagia tudo – mas que não vai mais me privar de nada, é o que eu venho repetindo. Outro dia mesmo, parei e disse: hoje vou ficar contente. E fiquei. Engraço como às vezes a gente consegue exatamente o que quer; e outras vezes a gente tem que adaptar as nossas querências àquilo que é possível, que é bom, que é leve. E por fim chega o dia em que tudo que nós precisamos fazer é ficar quietos no vagão do trem, enquanto ele faz sua viagem e nós só observamos a paisagem – e é aí que eu quero chegar. Se um dia eu conseguir, volto pra dizer como é bom.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Para atravessar os dias

Fugir. Sair da cidade na segunda à tarde, sem previsão de volta e sem sentir culpa alguma – apenas porque é gostoso, porque é bom, porque é leve. Por muito tempo eu quis escapar de mim mesma; hoje, eu só quero ser cuspida por esse mundo cheio de desgostos, que não me aceita em uma forma mais simples de ser, se assim eu quiser. Ninguém está preparado para ser feliz nem para ser amado, coisas hoje que eu busco desesperadamente; estão todos presos aos seus dramas sem fim, em um ímpeto incomum de se sentir incompleto. É um ultraje da minha parte querer descomplicar boa parte dessas coisas que por si só já são difíceis – porque o normal é querer sentir o gosto do veneno impregnando o seu estômago, você mesmo dar cabo a qualquer chance de terminar essa história com um final feliz.
De fato, eu sou também masoquista assim e não sei com que direito estou me comportando como se amanhã, na hora de realmente fugir, eu não fosse dar para trás e resolver que minha cama e meu edredom são mais seguros. Mas, por enquanto, eu sinto coragem o suficiente para não aceitar esse mundo covarde como está; por enquanto, “trago no peito o saudável defeito de ainda acreditar na vida”; por enquanto, eu sinto vontade de ir além do que eu posso ser, de me dar ao direito de sonhar com Paris, samba e amor, de atingir os corações de todos com essa vontade danada de sorrir até ficar sem ar.
Me confundindo nas minhas próprias palavras, eu retifico: amanhã, eu não sei se serei triste, feliz ou poeta. Talvez tudo perca a graça, talvez tudo esteja mais difícil; talvez surja um problema, talvez eu receba à porta um aglomerado de soluções. Amanhã, eu não sei. Mas o “por enquanto” me soa tão bonito e justo, que a fé infla tão grandemente e só posso pensar: há de ser sempre bom, há de ser.


Para atravessar agosto é preciso, antes de tudo, paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro – e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah! Escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A loucura que sempre será


Já me acusaram de altruísmo, já me proibiram de pensar: não funcionou. Já me reprovaram com olhares, já me julgaram por meia palavra dita, já censuraram as minhas verdades (mal contadas): nunca senti vergonha de um ato sequer. Já tentaram fazer com que eu fosse menos eu – menos misantropia, menos chá gelado, menos amor em um abraço. Todos me preferem assim, fria e calculista: menos carinho, menos afeto, menos tudo que não contenha álcool – menos vida para se orgulhar, eu acrescentaria. “Uma dose de tequila e dois dedos de desapego, por favor” é a pedida da vez, tentaram me convencer. E por fim, me abandonaram por achar que depois de todas as lições, eu não conseguia entender a lógica das coisas – mal sabiam eles que eu dançava minha própria valsa, num ritmo que só eu acompanhava.
Mal sabiam eles que os círculos da minha vida jamais se encontravam e que os dias, para mim, não servem para repetir os mesmos atos destrutivos de quem tenta enganar os outros – e a si mesmo – de que não existe motivo para chorar: prefere ser forte, prefere ser valente, prefere ser falso. Uma marionete oca por dentro. Mal sabiam eles que eu havia aprendido com o máximo dos mestres, que me dizia sem parar: “abraça a tua loucura antes que seja tarde demais”. E loucura, para nós – ele e eu como um só – nunca foi sinônimo de noites insanas na Av. Paulista, sem freio e sem rumo. Loucura nunca foi uma garrafa vazia de vinho chileno. Loucura nunca foi abandonar seus sentimentos em uma esquina qualquer como se fosse um papel velho que se amassa e joga fora. Loucura nunca foi negar amor e companhia porque se tem a ilusão de que se pode viver sozinho.
Loucura, meus caros, é ousar. Ousar ser feliz e ser muito triste, inclusive. Loucura é não ter medo de arriscar doer mais um pouco quando já estiver doendo muito. Loucura é encontrar sempre alguém que faça tudo valer à pena, mesmo que não seja recíproco, mesmo que não seja aceitável, mesmo que seja ridículo. Loucura é esbanjar mil palavras como se elas fossem mudar o mundo e, mesmo quando se descobre que não muda nem quem as escreveu, ainda assim continuar em um desabafo sem coerência alguma. Loucura é olhar para os lados e não encontrar ninguém, mas ainda assim se sentir acompanhado pelo mundo inteiro. Loucura é ter coragem de ser quente e letrista onde gente desse tipo, nesse mundo, já não se encontra mais.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Hoje eu quis brincar de ser feliz

Ultimamente, tenho tido muitos daqueles dias em que não se sente nada. Seria quase como férias de mim mesma, se eu não tivesse que enfrentar a ilusão que é essa idéia, todos os dias. É quase assim: ponho o sorriso no rosto e tento me convencer que é de verdade. Às vezes, até que é. Talvez chegue ao ponto da mentira se tornar tão comum que se transforme em verdade. Talvez chegue o dia em que eu me perca nas minhas próprias utopias e possa vivê-las sem o peso de estar em constante fantasia. Porque sonhar, para quem tem 19 anos de responsabilidades nas costas, parece pura ingenuidade. Quase perda de tempo, eu diria. Então eu não me sinto mal e, por favor, não me julguem, se eu acordo mais cedo todos os dias para treinar meu sorriso no espelho. Um pouco mais aberto, um tanto mais discreto, um pedido desesperado de que tudo possa ser mais bonito – entendam como quiser. No fundo, sou criança; não me envergonho do pouco que sei e do muito que prefiro continuar sem saber. Tudo e nada, se for para manter um sorriso.



Hoje eu estou sonhando que desse sonho eu não vou acordar.
Sem meias e duras palavras, por favor, me deixem assim.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Let's find some beautiful place to get lost


Eu sempre disse que minha vontade é uma faca de dois gumes. Diferente da maioria das pessoas, eu sempre soube o que não me agrada, o que me agride, o que me incomoda. E diferente do que se espera de alguém tão sentimentalmente bem resolvida, eu nunca soube exatamente o que fazer com isso. Sei que preciso ler mais, que tenho livros ótimos criando mofo na minha estante; sei que preciso fazer dieta, que meus estudos não estão tão adiantados quanto eu preciso e devo, mas que isso não chega a ser desesperador; sei que tenho viagens marcadas e que isso pouco me anima. Sei um monte de coisas e isso não significa absolutamente nada. Veem o problema? Tenho tudo em mãos: mala cheia, livros, nenhuma companhia (desagradável) e tudo mais se encaminhando. E ainda assim, descontento...
Tenho também muitos rabiscos soltos, sem sentido algum. Algo que reflete muito bem meu atual estado de espírito: tão livre e tão solto que chega a se perder. Queria dizer que isso que chamam de completa satisfação pessoal sempre me incomodou como uma ferida no dedão do pé – sabe, aquela que sempre que existe, alguém pisa justo encima ou você acerta no canto da cama? Então. Incomoda a maior parte do tempo e dói, por menor que seja. Dá uma vontade louca de arrancar fora o bendito dedo ferido – dá uma vontade louca de partir dessa vida, desse lugar amargurado, diretamente para uma esquina fria de New York, onde ninguém me entende, me conhece, me julga ou cria expectativas sobre mim. Onde, enfim, eu não preciso de ninguém, porque ninguém precisa de mim. Sem relações de dependência, sem ninguém para (me) decepcionar...
Não é nada pessoal, não é nada urgente – é apenas uma vontade louca de descer a rua, gritando o que eu não quero que as pessoas ouçam. Porque ninguém nunca ouve e eu queria parar de achar que deve ser o contrário. Queria parar de esperar algo de alguém – especialmente de mim. Me livrar dessas amarras, sabe, que me obrigam, devido às circunstâncias, a ser feliz. Eu não quero ser feliz, porra. Quero tomar um chá gelado que me dê náuseas, assistir um filme de terror que me deixe sem sono e deitar na cama sem culpa alguma por me boicotar tanto. Quero continuar a aprender com os problemas, porque o mundo cor-de-rosa vem me deixado cada vez mais burra e vulnerável. É, era isso que eu queria ser: problemática e infeliz. Mas também esperta, viva. E preparada pro próximo round.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Sweet Nineteen


Tenho dito muito ao mundo que não gosto de fazer aniversário, que o dia 21 de março está longe de ser o meu prefiro no ano e que morro de medo de chegar aos 20. Seria um pensamento imaturo, alguns diriam, se não fosse exatamente o contrário: a maturidade batendo à porta, a adolescência quase não sentida e logo indo embora para dar vez à minha juventude cheia de peso, responsabilidades e momentos decisivos.
Eu sempre tive medo de crescer – tinha medo de deixar minhas bonecas sozinhas no quarto e alguém pegá-las, de desarrumar a casa da Barbie do chão da sala e de começar a comer com garfo e faca. Tinha medo de andar de ônibus sozinha, de chegar tarde a casa e de não fazer o dever de casa antes de dormir. Tive isso até 12 anos, quando fui embora da casa dos meus pais. Tenho medo de praticamente tudo isso agora, com 19 anos e responsável por uma casa onde só moram eu e meu irmão de 15 – que com certeza ainda é bem mais medroso que eu.
O fato é que, de verdade, tudo muda quando você faz 15, 17, 18 anos... Como assim vem alguém e te diz que nada muda? Você continua o mesmo, aí dentro? Ok: não tirei carteira de motorista, não tenho carro e continuo dando satisfações para os meus pais. Mas dizer que nada em mim mudou seria bobagem. E, querendo ou não, o peso da nova idade foi primordial nessa mudança. É a famosa dor de crescer, meu amigo – e ninguém está livre dela.
Se eu ainda tenho medo? Gente, estou tremendo de medo, doida para voltar para a cama e fingir que o mundo não existe, que ainda tenho 10 anos e a obrigação de dormir antes da novela das nove começar. Tô doida pra me esbaldar no bolo de chocolate sem medo de glicemia, gordura e celulite. E mais: queria muito não ter que estudar e ir à aula no meu aniversário, porque mesmo sendo segunda-feira, hoje é meu dia, ora bolas. Mas não dá. Não dá porque algo de mim grita, incessante: é hora de crescer. Sempre é.


Sem querer ser piegas ou algo do tipo, acho que todos nós pensamos algo assim.
Ao menos uma vez ao ano.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Tudo que eu sempre sonhei

Tudo é fase, tudo é fase - sempre me repetiam sem parar. E eu, tão pouco entendendo, reproduzia em cada ato essa sequência de atitudes que sempre me definiram como ''rebelde sem causa'', ''adolescente problemática'' ou ''indecisão ambulante''. Isso sempre bateu à minha porta, até que sim, finalmente, eu entendi que não preciso ser nada do que dizem que eu sou - se eu souber, de fato, o que quero ser. Talvez por isso as mudanças sempre tenham me doído tão pouco - talvez por isso eu nunca tripudiei antes de dizer adeus. E, com certeza por isso, me sinto tão preparada para viver o hoje - porque as 24 horas passadas ou futuras nada mais são do que aquilo que eu sempre quis. Depois de dramas amorosos, semanas afundada organizando a nova casa e aulas inúteis de como preparar a própria comida, caiu sobre mim o peso de ser o que eu escolhi - de ter todas as responsabilidades que sempre desejei, de exercer o poder sobre a minha vida que ninguém mais tem. Não sei bem o gosto da independência e nem sei se quero saborear esse prato sozinha - olho para os lados e às vezes não vejo ninguém, outras vezes vejo mais pessoas que achava que tinha. Nada muito melodramático, para ser sincera.
O dia de hoje amanhece mais claro do que nunca e eu sinto, aqui dentro, aquilo que as pessoas chamam de satisfação pessoal - apesar de não saber ao certo se isso é o que dizem ser, apesar de temer ser mais momentâneo que um sorriso no meu rosto. Não sou de adotar discursos motivadores e muito menos de agradecer aos céus a vida que tenho - só que quando em mim não cabem minhas próprias reclamações diárias, fica aqui a vontade de dizer: é, estou bem.

Muito bem.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Novos velhos tempos

Tenho certeza que nada tem a ver com o ano novo, vida nova, até porque entre todas as pessoas, eu sou a que menos acredita que números diferentes no calendário são capazes de fazer de mim uma pessoa melhor ou pior. Mas é o velho espírito de mudança – aquele meu conhecido que vem, insistente, batendo à minha porta.
Não sei se fui eu que simplifiquei demais ou apenas deixei as coisas tomarem a forma de como realmente são. Alguma coisa ainda me tiram as noites de sono, é verdade, mas a maioria hoje em dia pouco me afeta; deixei o que fosse possível a cargo do meu esforço e o mais improvável, que fosse carregado pela força do tempo. No mais, amadureci uma quantidade de ideias no último ano de uma forma que eu jamais pensei que fosse possível; minha capacidade de separação foi aprimorada de maneira que hoje eu consigo perceber, claramente, quão estúpida eu fui diversas vezes por, simplesmente, não conseguir analisar as coisas pelo ângulo certo.
Pobre de mim, pensei. Que bom que ainda há saída, refleti logo em seguida. Porque, afinal, sempre se pode dar um jeito – sempre. E o que eu quero dizer, apesar dos meus quereres se confundirem de tal forma que eu começo a falar sobre o sol que fazia e termino exclamando sobre como o tempo anda frio que... E cá fui eu novamente. Rotatividade. Círculos, círculos, círculos... Mudança. A mais pura e reconhecível. E mais, porém não somente: a diferença de hoje para todos os outros fins de ano é que vocês jamais voltarão a ouvir por aqui frases como ''é o fim para um novo começo'', porque longe de mim pretender encerrar com tantas coisas que me fizeram bem ao longo do tempo. Só quero me assegurar do que vale à pena cultivar e o que é dispensável. Só quero ter certeza das coisas, essa é a verdade. Tô passando uma peneira em tudo e o que me parecer bem seguro, fica; tudo mais que me for duvidoso, sinto muito, mas adeus, porque de coisas incertas na minha já me basta eu mesma.
Talvez funcione, talvez não; talvez acabe com as coisas de vez, talvez ajude e melhore mais ainda. Tô arriscando, vai saber, porque a ideia é simples: o que é bom, fica; o que me irrita, eu ignoro; o que não me faz falta, eu dispenso. Porque não vou mais desperdiçar um ano inteiro só decidindo entre o que é certo e o que é errado; não vou passar horas analisando a mesma coisa de mil formas ao passo que a solução está escrita em letras grafais e em néon bem na minha frente. E, mais ainda: não vou passar os meus dias sentada, esperando que algo de maravilhoso me aconteça, porque não foi assim que cheguei a lugar nenhum. Quem quiser ir comigo e conseguir me acompanhar, estamos juntos. Quem não estiver nessa, fica aqui o meu último adeus.

domingo, 15 de agosto de 2010

Meu divã

Escuta, doutor, eu trago comigo um problema. Claro que eu tenho mais de um único problema, mas acontece que eu sou meio extremista: prefiro dizer que tenho um problema a dizer que tenho inúmeros deles – otimismo sempre é bom, ainda que seja só de fachada. De qualquer maneira, eu tenho isso, essa coisa dentro de mim que vem me cutucando o pensamento e, não vá rir, mas eu tenho medo, doutor: tenho medo de me perturbar tanto e eu nunca saber o que fazer com isso até que vai chegar o dia onde, adeus, passou o tempo de tratar o assunto como devia e agora já foi, não tem mais jeito Não sei, não me pergunte o que é, porque eu vim aqui justamente na esperança que o senhor me diga: é normal?
Vou logo deixando claro que não tenho qualquer precedente que pudesse me tirar a paz: tenho uma vida tranqüila... Certo, nada de vida tranqüila. Tenho dias corridos, mas ainda assim leves como o vento frio que eu sinto todo dia ao acordar. Tenho meus estudos diários, que você pode entender como leituras pendentes formando uma pilha da altura da Torre Eiffel – não que eu já tenha ido a Paris, mas um dia quem sabe. Além disso, me alimento muito bem, durmo 8 horas por dia e tenho um relacionamento amoroso que anda fazendo muito bem à minha pele e ao meu cabelo. Entendeu onde eu quero chegar? Simples: no meio da minha rotina toda pomposa, onde caberia essa sensação de incômodo, que vem me alterando a paciência dia após dia?
Não foi isso que eu disse. Não acho nada perfeito, pelo contrário; vejo que tudo que eu consegui até hoje é muito pouco diante do mundo que eu imagino para mim – o meu mundo, decorado por pura literatura e algum rock inglês tocando ao fundo. Me falta muito, doutor, mas não é o fato de ainda (ainda!) não ter atingido o ápice da minha pirâmide de desejos que me causa essa inquietude; não, é mais fundo que isso – mais forte? Não sei; mas lhe garanto, infelizmente, que essa compressão talvez tenha ultrapasso os limites do meu peito e agora se fazem de vendas nos meus olhos: não vejo mais as coisas da mesma forma que eu via antes – agora tudo é mais simples e isso me intriga de uma forma que você não imagina.
Eu sei que não faz sentido e que às vezes é bom se ter essa inquietude para que você sempre procure evoluir, sempre procure mais, procure ser mais. Então, não me venha com essas conclusões mágicas que eu claramente posso alcançar sozinha, porque o que se passa dentro de mim é muito mais que uma confusão mental que nunca me abandona. O que eu carrego comigo é mais intrigante: não sei se é bom, não sei se é ruim, mas eu garanto que está me deixando acesa, me deixando em alerta. É a minha intuição que está ligada, doutor. Não estou acostumada com tanta moleza, com tanta vontade seguida de repetir ao mundo ''como eu estou feliz!''. De qualquer forma, estou curtindo: um olho aberto, sempre em vigília, e o outro fechado, só observando a beleza que carrego dentro de mim.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Eu vivo assim, de (re)viver

Não é começo de mês, não é início de ano e muito menos eu começo uma nova fase na minha vida – a faculdade de sempre, os amigos de sempre, o namorado de sempre, as roupas surradas de sempre, o computador velho e útil de sempre. Mas alguma coisa mudou – alguma coisa além do layout do blog que, na minha humilde e suspeita opinião, até que ficou apresentável. Além do material, do palpável e do suscetível à opinião alheia, falo de mim, que entre todo esse processo de tentar me manter estável e decidida, assumi mais uma vez a minha natureza de quem não se aceita da mesma forma todos os dias.
Falo muito da minha alma transformista e me apresento como a maior conhecedora de todos os dramas possíveis de serem vividos – mas sou, na realidade, alguém que não consegue resolver os seus próprios. Mesmo assim, carrego comigo sempre essa vontade de ser mais, de explicar mais: deixa-me entender o seu conflito, que agora será meu e, assim, quem sabe um dia não será de ninguém. Posso ser sua beleza, talvez, mas sei mostrar a máscara que assusta se for isso que você merecer ter de mim; no mais, não preciso ser alguém se eu puder ser várias, todos os dias, não como alguém que não conhece sua essência, mas como quem tem mais de uma única.
Não vou dizer que deixei de ser uma romântica não-assumida que sempre preza um bom orgulho; não vou mentir que minhas dores me doem menos ou que minhas felicidades são eternas. Não é desse tipo de mudança que eu falo, não é o meu comportamento que se altera: não é o meu olhar de dentro para fora, mas de fora para dentro, que faz a diferença em tudo que me envolve, desde as paixões que tenho aos medos que escondo. Enfim, não sou eu deixando de ser quem eu sou: sou eu descobrindo que sou mais do que achava que era; que sou várias e, acredito, ainda não tenho em mim toda uma imensidão que posso alcançar.
As coisas mudaram – eu mudei. Podem chamar isso de amadurecer, de tomar consciência de que se é alguém no mundo ou até mesmo de tentativa de autopreservação. Eu só acho que a gente faz o que pode, meus caros: desafia, põe a cara a tapa e ainda sobrevive, porque por trás de toda a peleja, tem um céu tão azul que faz tudo valer mais do que se imaginava. E talvez seja nesse momento, eu me arrisco a dizer, que você se descubra assim como eu: todo incerto. Um dia vento e outro, tempestade – um dia céu nublado e outro, sol de verão. Um dia sonho e outro, realidade – um dia como você, outro dia como quem quiser.