quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Dos nossos momentos - que revivem, que retornam

Ela vira de lado para olhar aquela feição que ele produz de quem está ao lado por um grandioso motivo, mesmo tendo tantos outros para faltar. E, sabe, gratidão e respeito às lembranças é algo que poucos aceitam e dão o valor como em tal caso: foram noites ao telefone, as mesmas frases ditas ao mesmo tempo, as reflexões absurdas e planos traçados detalhadamente sentados à calçada... Seria de tamanho anarquismo ignorar tais fatos em virtude de um erro aqui e outro mais atrás – em função de vilões, de distância, de tempos que merecem ser superados. Ela olha e pensa: ''E no meio dessa face concentrada, dessa postura armada... Onde ficou o sentimento?''. E, como quem sabe que não pode mais ignorar e fingir que não sente o peso de um pensamento, ele a olha de volta; ele olha, porque já não agüenta mais segurar as ações, por muito instintivas, que cada um deles tentava impedir com a força de vontade que não tinham.

- Não acho que seja pedir demais... Apenas não faça isso comigo.

- Pois eu te digo que pode me pedir qualquer coisa, que tentarei; eu tentarei, porque essa vida de quem desiste antes de começar já me está fatigada. Só não me peça para ficar longe.

- Mas nesse caso, se ignora o peso das palavras? Logo elas, que dizem tudo?

- E quem nesse mundo há de se prender em coisas leves e perecíveis como as palavras? Ainda mais quando nos esbarramos em sensações como essa, de ficar assim, só você e eu. Palavras... Se esse for o preço a pagar, esqueço tudo o que me foi dito.

- E eu? Esqueço o que não me foi dito?

- Não vejo motivo para lembrar o que faltou diante da ânsia de tudo aquilo que ainda pode vir.

- O tempo, talvez. O tempo.

- Eu espero... Eu te espero.

Continua...

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Da tua mudez - que me dói, me dói

- Na hipótese de dúvida, eu estou aqui.
- Não que eu não veja: te olho, te sinto, te abraço e te... E me estanco no ímpeto do beijo. Somente, e não que seja pouco, não acredito mais em você.
- Ainda assim, vale a observação que tanto me tortura: ainda precisa de mim?
- Acontece que se fosse entrar nessa pergunta, diria que sim. Então, foi hoje que decidi não atravessar mais a linha. É nesse momento que chego partindo, que ouço sem te escutar... Que não falo.
- E fica de fora, sem nada sentir?
- E fico calado, embora sentindo.

Continua...

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Meu momento nada poético

Olha, eu não gosto de fazer aniversário. Sério, não é charminho: isso de acordar com todo mundo me beijando, receber mil telefones de parentes que não vejo há anos, ter que responder inúmeros scraps no orkut de gente que eu nem lembrava que tinha adicionado, fingir por consideração que gostei do presente que ganhei da minha tia pegajosa... Sabem essas e todas as outras convenções que a sociedade insiste em introduzir em um dia que deveria acontecer só coisas que me agradassem? Eu dispensaria todas com um sorriso no rosto. Mas o que acontece é que, eu querendo ou não, o dia 21 de março sempre chega.
É, eu faço aniversário daqui um mês. Daí vem a pergunta: estou me lamentando por antecipação? Não. Acontece que, como eu disse, é daqui exatamente um mês, o que só pode significar uma coisa: hoje começa o meu inferno astral. Talvez seja meio capenga acreditar nessa coisa de signo e cosmos, mas, ah, os astros nunca mentiram para mim: se disserem que vou ter uma péssima semana, posso me preparar que não vem coisa boa; se disserem que vou ter uma chance que não deve ser desperdiçada, eu abro bem o olho para tudo ao meu redor. O negócio é que, sendo verdade ou ilusão, o inferno astral sempre marca presença na minha vida.
Não que tudo vá dar errado até o mês que vem. Só que, desde a meia-noite, me bateu uma coisa estranha: uma não-continuidade de ações, uma inquietude... Eu já sou assim naturalmente, ok, mas agora multiplique por mil a intensidade disso em dias normais e terá, tchanram, o que acontece comigo hoje. Não consigo escrever nada que se aproveite – o que me lembra: porque mesmo eu me atrevi a publicar esse texto? – não consigo ler os meus livros de faculdade, não paro cinco minutos na frente da tv, fico comendo sem sentir fome... Enfim: hoje, ''insatisfação'' é o meu segundo nome – logo depois de ''mau-humor'', vale constar.
Se dessa vez essa coisa toda vai durar até o dia do meu aniversário eu não sei. Sinceramente, espero que não: se continuar assim, até o fim dessa semana eu vou ter uns cinco quilos a mais e nenhuma pessoa com coragem suficiente para chegar a menos de um raio de um quilômetro de mim. Ou talvez eu devesse esquecer isso e me focar em planejar algo para a comemoração dos meus tão esperados dezoito anos, que vai ser em um domingo – por acaso ou não, o dia que menos gosto na semana. Ou, quem sabe ainda, eu devesse mesmo era me torturar até conseguir fazer os meus trabalhos que, por sinal, são todos para amanhã. Que seja. Só deixo aqui meu último apelo: Deuses, planetas, cosmos, constelações... Se vocês puderem me ouvir, eu humildimente peço: peguem leve comigo, ok? Eu ficaria grata.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Ao meu querido

Amor,
Agora que a frieza desses últimos dias parece estar com data marcada para ir embora, pensei que fosse o momento certo para lhe dizer como não venho passando sem você. Para você pode ter sido como um grande tempo de paz e aproveitamento que há muito não tinha; para mim, entretanto, foi a pior prova de paciência, meu mais extenso momento de espera. Amostra disso foram as maneiras absurdas de refúgio em que procurei para lhe resgatar da forma mais pura que eu pudesse – as cartas tiradas do meu baú de melhores recordações, a caixinha de veludo que não sai mais da minha mesinha, a esperança que cultivei ao ouvir tocando por aqui que you're only the best I ever had, ainda que no verso seguinte frases como you don't want me back tentassem me bombardear.
Amor, meu amor. Ainda me lembro de tantas outras vezes que nos separamos assim, de como fazíamos promessas de retornos breves de corpos – porque nossas almas, ah, essas nunca deram um passo que não fosse lado a lado. Hoje, entretanto, me vejo no aguarde do corpo que desejo e da alma que me entende. E caso não tenha notado, estou aqui para pedir que volte logo. Volte, porque já não caibo em mim de saudade, já não aturo mais a companhia ingrata da espera em tantos dias fastidiosos. E volte, porque mal vejo a hora de prova-lhe ''(...) o quanto eu te amo. Amo não mais só como uma amiga, mas também como um patriota ama a sua nação, como um católico ama o Papa, como o seu irmão ama o futebol (Como os terroristas amam o Bush... Brincadeira!). Amo como uma fã, uma amante, como uma esposa, uma namorada''. Volte, apenas volte – para cá, para mim.

Beijos e abraços como os últimos que demos,
Da sua Preta.

ps.: Carta de 16/02/2010 com partes devidamente parafraseadas d'outra carta de 21/03/2007.
ps².: a música em questão se chama Best I ever had, de Vertical Horizon.

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Talvez o final feliz seja fazer isto: passando pelas ligações não retornadas e corações partidos, por todos os erros e sinais não vistos, pela dor e vergonha... Nunca perca a esperança.

Do filme Ele não está tão afim de você.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Guerra perdida

Eu não sei bem o que se passa na cabeça da maioria das pessoas. Muitas delas – e aí eu falo Dele, falo de mim, falo de você – se escondem atrás dessa máscara impetuosa de anti-sentimentalóides, de senhor de si e de seus sentimentos. Pois veja bem o que te digo, para que eu só repita essa vez: não és nem por um nanosegundo o controlador disso que chamas de independência espiritual. A razão, caríssimo, nada mais é que a maior ilusão que temos. És, assim como outro qualquer mortal que há de ainda habitar esse planeta, uma simples marionete dessa coisa enorme, tão grande que se sobrepõe a esse seu orgulho de fachada, a essa sua pseudo-reviravolta de vida. Olhe para dentro desse seu corpo entroncado em posição de defesa e ouça com o coração essas minhas palavras de quem muito tentou e, por consequência, se frustrou em querer mandar em si mesma mais que o possível: sabe a lembrança? Sabe a paixão, o fervor, o arrependimento, a compaixão? Sabe o amor? Nada disso há de ser seu. Há de ser, sim, algo em ti e que habita justo aquele último buraco do seu coração que imaginavas ser um vazio eterno - que imaginavas ser o local intocável. Mas dizer que a ti pertence? Que há de retirar, colocar, dobrar, virar? Que há de por e repor em lugares em que sinta menos, que doa menos, que durem menos? Não te esforces em conter-te, faça-me o favor. Se pensares por um ímpeto de egocentrismo que és livre em suas ações, abaixe essa sua soberba e compreenda de uma vez: não és o único ser vivo por aqui. E há dentro de ti uma força, mais livre do que imaginas, que há de domar-te. Essa força. Aquela força. E dedica-te a ela, como eu me dediquei. A luta é fastidiosa, o inimigo invencível. E você... Você é apenas mais um ser humano rendido a sentimentos.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

E me sentirei bem

Então, é isso. E eu muito bem acomodada, achando que ia passar mais uma temporada reclamando apenas das mudanças habituais que todo ser humano sofre, fui surpreendida pelo acaso – e porque não, castigo – de sofrer com distância, ausência, vazios – exatamente nessa ordem. Uma coisa muito mais objetiva, tudo menos agradável, mas que chegou, com a velha síndrome do peito apertado, a mania irritante que tenho de querer aqui, querer agora... E não poder ter. Eu esperava que não fosse demais: ora, um filme legendado na televisão, um abraço daqueles em que você se perde dentro e o cheiro de pipoca banhada à manteiga no ambiente não seria nada de excesso para alguém que – sim!, e digam o que disserem - comeu o pão que o diabo amassou, bebeu água de fontes sujas e caminhou descalça por cima de brasas. E eu diria, veja bem, que todas as regalias do mundo para mim seria nada mais que o justo. Mas exatamente, como de propósito, nos últimos pulsares de meu coração cansado, o vasto poder da vida de variar destinos me encontrou. De nada adiantou escapar de flechas e tiros, se fui acobertada de doença sem cura, de mal único, de contágio devastador direcionado para duas almas, que nenhum poder ainda têm de escolher o fazer – o que dirá o que sentir.
A morte que é brincadeira, perto de males que nos consomem aos poucos. Então que venha depressa sugar minha alma, enquanto eu solto o meu último suspiro de ''ê, saudade''.

Texto de 11/02/09.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Verbo ''tentar'', terceira pessoa do plural

E a gente tenta.

Tenta porque cada lágrima de raiva e de decepção que trocamos não é nada – nada – perto dos incontáveis dias que passamos sorrindo, das inúmeras lembranças que nos fazem gargalhar só em serem lembradas, dos vários planos que temos – temos, no presente, porque uma vida como a que sonhamos só existe de um jeito; um jeito que, acima de qualquer coisa, é insubstituível por ter que, obrigatoriamente, unir duas pessoas: você e eu. Tenta porque eu sei que a nossa cota de erros um com o outro já foi gasta o suficiente para que possamos passar o resto da vida só acertando. Tenta porque uma pessoa que é exatamente aquilo que a gente precisa, só encontramos uma vez na vida - e, assim como eu nunca vou encontrar alguém que ao menos se iguale a você, que ature minhas reclamações com tanto bom humor, que diga que me ama sempre que eu quiser ouvir, que me ache linda mesmo quando eu estiver o contrário disso, você também nunca irá encontrar alguém que seja a sua medida certa, que ria das suas bobagens, que entenda o que você pensa antes mesmo de você falar... Não, você jamais encontrará alguém que lhe sinta da mesma profundidade que eu. E, bom, a gente tenta porque eu sei que a estupidez que cada um de nós fizemos não foi para que seguíssemos os nossos caminhos separados; foi para que a gente teimasse, para que a gente olhasse um para o outro e pensássemos juntos: ''Tá vendo como doeu? Então que jamais se repita''. E não se repetiria.

E olha só: tentar, insistir, nunca há de ser crime, pecado ou vergonhoso – há sempre, sim, de ser prova que ninguém nunca se cansa de amar. Que não cansamos. E, por Deus, sejamos sinceros: que outra alternativa saudável, completa e 100% aceita por nós mesmos que temos, a não ser tentar?

Eu vivo assim de reviver o amor,
a gente até sabe dizer ''por favor'' (...)

Mas eu insisto, eu vou sumir,
e ir pra um lugar onde eu possa viver e te amar.

play: Reviver - Torre de Papel¹

¹Torre de Papel é uma banda maranhense de rock alternativo com altas influências de Los Hermanos, The Beatles, Jimi Hendrix e Muse. Vale a pena ouvir algumas canções, eu indico.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Deixe-se acreditar

Eu nunca fui de escutar a opinião de ninguém, talvez porque eu fosse tão absurdamente arrogante a ponto de achar que estava sempre certa. Ou nem isso: às vezes eu sequer me escutava. Para mim, eram tudo palavras jogadas no ar, tudo coisa da minha cabeça de adolescente que amadureceu antes do tempo. Bem estúpido, agora eu sei; de uns dias para cá eu venho descoberto o quão perigoso e definitivo pode ser a simples ação de decidir não acreditar naquilo que está óbvio, naquilo que está saltitando bem na sua frente, pedindo apenas para ser visto.
Não, eu não abria os meus ouvidos para ninguém. E na primeira vez que eu fiz isso foi a para uma pessoa totalmente inusitada, alguém que eu achei que jamais se importaria em ter uma conversa comigo. Não importa a razão, o que importa é o discurso: ''Eu li uns textos seus. Eu não sei bem como explicar, como lhe dizer... Mas ao ver o que estava lá escrito, era como se você estivesse do meu lado, conversando comigo. Eu senti a palavra. Naquele mesmo instante, eu peguei o telefone para fazer uma ligação, porque eu tinha que dizer: ''Filho, agora eu entendo... Entendo porquê você se apaixonou''. E sabe aquilo de quando apontam pro cara e dizem ''aquele é o cara!''? Então, você é ''a cara!''. E mais: já parou para pensar que ele fez tudo que fez para lhe provar que era bom? Não estou dizendo que foi isso, só tô dizendo que já vi esse filme antes; um dia, eu tive que provar para alguém que eu gostava o quanto eu era... Bom. O que veio depois não importa muito. O fato é: já parou para pensar nisso? E mais uma coisa: desiste fácil?''. Coisa linda de se dizer para alguém, não acham? Claro que eu não levei como um elogio pelos meus textos ainda tão pobres, tão míseros de palavras... Eu levei como uma das melhores lições de vida que alguém já me deu. E, acima de tudo, levei como o tapa na cara que há muito tempo eu merecia.
Foi nesse momento, nesse exato instante entre o cuidado que eu não soube oferecer e o abraço que não recebi, que eu percebi que, só abrindo meus ouvidos para as outras pessoas é que eu poderia ouvir a mim mesma. Quem diria: eu, que passei 17 anos e 11 meses da minha vida achando que sabia tudo de mim, passei esse tempo sem levar à sério nenhuma palavra minha. Passei esse tempo todo sem acreditar em mim mesma. Hoje, eu entendi o meu erro. Não fui eu que duvidei de você. Eu duvidei de mim. Duvidei que te amava o suficiente, duvidei que o futuro que eu sempre quis ia se realizar ao seu lado, duvidei que o anel que eu carregava no dedo fosse mais que um presente fofo de dia dos namorados – resumindo: fui estúpida o suficiente para duvidar da maior verdade que eu tinha. E como fazer para alguém acreditar em você, quando você mesma não acredita em si? Meio complicado.
Talvez mais doloroso, porém mais causa perdida, seria aceitar agora o seu ''não quero e não seria certo comigo arriscar de novo''. Mas não, obrigada. Agora que deixei pela primeira vez algo entrar nos meus ouvidos, algo tão verdadeiro e genuíno, acha mesmo que vou aceitar umas palavras tão caprichosas e egoístas, enfeitas com o seu maior orgulho? Eu prefiro muito mais o segundo discurso que eu verdadeiramente ouvi e que veio de alguém em quem eu confio de olhos fechados: ''Por amor, eu tentaria e acho que deves tentar. Se ele ainda te ama, ao meu ver, é porque ainda há uma luz no fim do túnel. Porque, nêga, o amor move mundos. Claro que não depende só de ti... Mas também depende de ti''. E não, isso não se chama ''ficar acreditando naquilo que me dizem só porque me agrada''. Isso se chama: a-cre-di-tar. Só isso: acreditar. E com um bônus sim, de ''arriscar'', porque isso, se jogar, se atirar para quem se ama é algo que nunca ninguém pode cansar de fazer.

O anel está aqui. E justamente por ser bem mais que um anel, ele vai ficar no meu dedo, de onde nunca deveria ter saído. Já quanto à pergunta feita pelo cara do primeiro discurso bonitão ali de cima, aí vai a resposta que faltou: não, eu não desisto fácil, porque mesmo que eu tenha tido que errar muito para chegar até isso, eu consegui. Consegui acreditar em mim. E hoje, olhando para a minha dor e vendo as impossibilidades contra as quais eu tenho que lutar, afirmo com toda a minha convicção: não duvido mais.

Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir. Mas a gente tem que afundar junto e descobrir que é possível nadar junto.

Ps.: texto dedicado ao Sr. Gilson Marques e à Wilwana Guimarães, por acreditarem em mim quando eu mesma não sabia como fazer isso.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Verdade bem contada

Hoje eu me surpreendi com algo que eu mesma disse. Não foi exatamente alguma coisa demais, nenhuma frase profunda e muito menos alguma reflexão filosófica. Eu simplesmente disse algo como ''eu nunca escrevo nada pessoal e se o fiz, foi apenas uma vez'', me referindo a um trecho de texto postado aqui há quase um ano. Por um minuto eu achei que eu estivesse mentindo – para mim e para uma pessoa que, convenhamos, não merece mais receber mentira alguma, principalmente assinada pela minha já manchada pessoa. De qualquer forma, eu parei e pensei: ''Opa, Deyse, como assim? E todos os textos de 2009 que você publicou? E todos aqueles desabafos chorosos e as lamúrias sem fim?''. Pois eu respondo: não era eu.
Já me reencontrei. Descobri em mim a menina que eu perdi há um ano, que desamparei em um banco de praça de shopping. E confesso: não foi difícil abandoná-la. Parece coisa de mãe desnaturada: pega o filho, põe numa caixa de papelão e deixa na porta da casa de um estranho. Mais ou menos isso que eu fiz. Eu só não contava com um detalhe: a mãe que abandona não é presa, assim que descobrem seu crime? Então, também sou digna de receber uma condenação. Mas não quero chegar nesse ponto, até porque isso merece outro texto – ou não. A questão é que eu descobri que eu tinha feito a mim mesma algo que já fizeram comigo e, adivinhe, eu odiei: me enfiei dentro de uma bolha de proteção e comecei a ter minha ilusão de vida de dentro dela.
Quisera eu que alguém tivesse me despertado para isso, tivesse tentado me impedir – mas a única pessoa que era capacitada de fazer isso não tinha a menor noção do que acontecia comigo. E foi assim, de dentro dessa bolha, que nasceram cada um dos textos de 2009: eu podia atingir todo mundo de dentro dela, mas sempre que alguém tentava me atingir, era impedido por minha bolha superprotetora – e isso, tudo isso que eu chamei de paixão, amor, dor, decepção e ilusão durante um ano inteiro foi apenas a minha maneira, às vezes doentia, de dizer: ''Opa, você tentou, mas está apenas perdendo o seu tempo. Me distraindo, ainda não percebeu?''.
Não me julguem por isso. Veja bem: eu fui tão falsamente satisfeita, me enchi tão de repente de um utópico surto de determinação que eu consegui até me enganar, pobrezinha que achava que tinha mudado, mas continuo a mesma romancista-felizes-para-sempre que venho sendo desde que entendi que sim, essa história de amor para vida toda existe. No fim, não adiantou coisa alguma tentar me abandonar como quem corta uma mecha de cabelo e joga fora: aquele meu pedacinho que pensei ser inútil, que considerei descartável, um dia achou de retornar, nem que seja só para me fazer pensar o seguinte: ''Como eu sobrevivi tanto tempo incompleta desse jeito?''.
Isso aconteceu comigo, claramente, muito provável que tarde demais. E dói – é, de fato, uma parte sua que está lutando para se reintegrar novamente. Eu poderia muito bem renegá-la, abandoná-la em um lugar mais distante, de uma maneira que a mesma não encontrasse o caminho de volta - ainda que isso fosse o mesmo que, burramente, cometer o mesmo erro de há um ano. Mas dessa vez, ao menos dessa vez, eu decidi assumi o meu erro e fazer uma coisa inédita na minha vida: tentar reescrever cada uma das minhas verdades mal contadas.

Ps.: Assim eu tenho, na verdade, o terceiro (o primeiro foi esse e o segundo foi esse) texto do blog em que não omito nem controlo nenhum fato. Deixei sair, apenas. E, sim, a pessoa a que dedico cada linha é a mesma nos três casos.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Quando ainda se tinha amor

Eu não quero ser apenas uma ''ausência da maior parte do seu coração que ficou comigo''... A maior parte do seu coração é pouco: eu quero você por inteiro. Mas sabe o que eu realmente quero? Só ficar com você. Mesmo estudando lá na UEMA e você na UFCG, se for o caso, eu quero ficar com você. Mesmo se você for fazer trabalho voluntário em um hospital carente em Bangladesh e eu vá fazer especialização na Califórnia, eu quero ficar com você. Eu quero casar com você e, mesmo depois de trabalhar o dia todo e de colocar os nossos oito filhos pra dormir, eu quero entrar no meu quarto, deitar na cama e encontrar você do meu lado, com aquele sorriso único na cara, pronto pra fazer o que você faz de melhor na vida: me tornar a mulher mais feliz desse mundo.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Do coração para fora

Isso de que um grande amor que surge nos grandes corações tira o fôlego. Ora, ter grande coração não significa que você pode amar mais. Significa que você tem um órgão espaçoso e burro dentro de você, lotando espaço que poderia ser ocupado pelos pulmões que facilitariam sua respiração e não te deixariam sem fôlego. Quem lá vai gostar de ficar sem ar? Aquela sensação de que está preste a morrer... Dispenso, obrigada.

(Eu me recuso, pois, a assumir minhas dores, ainda que essas sejam obvias. Enquanto eu puder me enganar que estou enganando... Bom, estou satisfeita).

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Das coisas difíceis de serem calculadas

A nossa necessidade de sempre desejar alguém que não nos merece é diretamente proporcional à necessidade de outro alguém de nos desejar, mesmo merecendo coisa melhor. Ou à sua necessidade de desejar alguém que um dia lhe mereceu, mas que hoje precisa de algo mais. Já viu como é complicado? De-se-jar. Porque não poderia ser algo mais simples, como ''eu te quero, você me quer e nossos quereres estão acima de outras tantas coisas vãs''.
Me-re-cer. Essa e outras tantas palavras que só servem para nos tirar o sono deveriam ser extintas, isso sim.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Rotina

Tem dia que eu me pego um tanto assim.
Um tanto parada no nada e olhando para o nada a fim de atingir uma conclusão que, adivinhe, será um nada mais completo ainda.
Um tanto cabisbaixa e avaliativa, tão rigorosa comigo mesma, como se a vida em si já não tratasse dessa parte.
Um tanto chorona e mimosa, doida por um abraço. Um abraço que não vem; acaba o jornal, começa a novela, todos se recolhem e eu fico ali, sentada na varada; cadê meu abraço que ainda não chegou? Está dobrando a esquina, parou para conversar com o vizinho... Mas cadê meu abraço que ainda não chegou?
E tem dia que eu me pego um tanto assim.
Um tanto feliz. Sem motivo, preceitos, conceitos ou quaisquer razões. Mais feliz que manhã ensolarada, mais sorridente que gota de chuva no calor, mais em êxtase que sabiá quando aprende a assobiar.
Um tanto que excessivamente corajosa. Hoje eu vou ser mais eu e nada me impede! Hoje eu construo meu império, ergo meus muros, coloco grades na janela... Hoje eu me fecho, me tranco, me viro, me escondo, me escureço. Hoje me esquecem.
Tem dia. Tem dia que sou tudo, tem dia que sou nada, tem dia que sou meio.

Tem dia que não sou.