Está ali, à mostra até para quem não quiser ver. Ali, no meio da sujeira do resto do jantar de ontem à noite, que compartilhávamos enquanto passava uma besteira qualquer na televisão – e ríamos, como quando sempre fazemos em momentos banais e dignos de tédio para muitos, mas que é um dos nossos instantes mais íntimos. Ali, ainda não vê? Entre as folhas de papel dobradas que formam uma pilha no canto do quarto, nas entrelinhas dos textos de livros comprados e jamais lidos, mas que tem o seu cheiro, a linha do teu rosto em cada verso dito por quem parecia prever um caso como nosso – nossas complexidades, descompassos, reencontros e resoluções fantásticas, todas narradas em páginas intermináveis de Caio Fernando ou no canto das letras de Nando Reis, que entoam como ninguém as nossas necessidades mais urgentes ou as mais profundas e prolongadas presenças. Ali, no pinguim de pelúcia que ocupa agora metade da minha cama, em todo o seu significado – parece me olhar com a sua mesma face de menino contente, de gente completa ao extremo de ainda sobrar para me completar também. Se ainda não consegue ver, te aponto mais aquém disso tudo, nas marcas que vem deixado em toda a minha história – das razões que em mim existem, das conquistas que adquiri ou das felicidades que coleciono: tudo com uma pitada da sua vontade, atingido pela interferência daquilo que me apresenta. E, mais ainda, está aqui no presente, na tua marca que carrego em meu dedo, na tua proteção presa ao meu pescoço – está recente na risada estampada na minha face de menina boba, nos meus olhos que enxergam longe, focados em um futuro onde você pode encontrar, também, aquilo que lhe mostro: encontrar na vida que quero pra mim e que aos poucos alcanço, encontrar no limites que ainda vou enfrentar – e superar – e, bem mais, encontrar na família que vou estabelecer e no pouco de mim que quero guardar quando já não for mais possível me fazer presente – mesmo e principalmente ali, você pode encontrar e ver que cabe muito de mim no pouco de ti que conservo aqui, no interior. E é aí, onde por último e mais forte, que você encontra o amor, meu querido, cheio de marcas, cheio de nós, cheio de coisas extintas que demos vida novamente – eternidade, encaixe perfeito e sentimentos sem dimensão. Amor, marcando cada centímetro de vida que eu posso chamar de minha. Amor, o meu ligado ao teu – e não precisamos de nada mais.
segunda-feira, 28 de junho de 2010
quinta-feira, 24 de junho de 2010
A minha resposta
Aqui, parada diante de sua carta onde descreves friamente o abandono, sinto que fui envolvida em uma situação meticulosamente planejada; fui arrastada por esse seu olhar de mistério, permiti que fosse levada até ti por inclinações minhas a sucumbir ao que provavelmente me fará sofrer. Não sinto suas palavras, a mim parecem inconsistentes – não tens como base sentimento ou a mesma dor que agora me causas; envolvestes teus últimos dizeres com simples e indignas frases clichês, o típico maldizer de ''é melhor para você que seja assim'' ou até mesmo ''não há nada de errado com você, o problema sou eu''. Ora, e mesmo no último instante insiste em me enganar? Como se ainda não tivesse sido completa a sua artimanha de falsidade: me parecem ficção até mesmo todos os sóis que vimos se pôr enquanto sussurravas ao meu ouvido palavras e palavras que hoje mais me parecem pedidos subliminares para que eu me ofuscasse da sua vida.
E ainda assim, mesmo tendo posto à prova o meu carinho tantas vezes por pura satisfação pessoal – ainda assim não me endereças um único momento de dignidade em toda essa história, não me ofereces uma valorização na última oportunidade que você sequer chegou a me oferecer – simplesmente me entregou, pronto, lacrado em papel velho, escrito sem o maior esmero, o seu ponto de vista, a sua pseudopreocupação com o fim de algo que só existiu para mim. Não sei, não sei... Talvez não coubesse em você uma única gota de compaixão. Talvez todo o seu corpo estivesse ocupado demais com uma dessas coisas compráveis, ou talvez gasto sua energia em sexo, vodka e noites dormidas em calçadas de pubs – enquanto eu, sozinha, à la 1950, sonhava com casamento, filhos e todo reunidos no sofá de casa.
Ainda assim – e me chamem de burra, de inocente ou mesmo de masoquista - não me arrependo. E mesmo me ensinando a sofrer, me esfregando na cara a ruela sem saída que guia corações partidos ao corte e desleixe, para que sejam costurados à ação do tempo, para que tenham a chance de um dia recuperarem todo o seu vigor... Apesar de tudo, você – que um dia foi meu querido e hoje não passa da razão pela qual consumo Martini aos litros – me despertou algo que pensava que em mim não existia; agradeço, portanto, não por ser algo que eu jamais conheci ou por qualquer outro momento consumido entre nós; agradeço por ter feito, sem classe nem honra, o que qualquer outro faria – o que eu precisava que alguém fizesse: me despertasse para a dor, para o choro e mesmo para as lamentações – me despertasse para a vida para que eu pudesse começar a vivê-la.
E ainda assim, mesmo tendo posto à prova o meu carinho tantas vezes por pura satisfação pessoal – ainda assim não me endereças um único momento de dignidade em toda essa história, não me ofereces uma valorização na última oportunidade que você sequer chegou a me oferecer – simplesmente me entregou, pronto, lacrado em papel velho, escrito sem o maior esmero, o seu ponto de vista, a sua pseudopreocupação com o fim de algo que só existiu para mim. Não sei, não sei... Talvez não coubesse em você uma única gota de compaixão. Talvez todo o seu corpo estivesse ocupado demais com uma dessas coisas compráveis, ou talvez gasto sua energia em sexo, vodka e noites dormidas em calçadas de pubs – enquanto eu, sozinha, à la 1950, sonhava com casamento, filhos e todo reunidos no sofá de casa.
Ainda assim – e me chamem de burra, de inocente ou mesmo de masoquista - não me arrependo. E mesmo me ensinando a sofrer, me esfregando na cara a ruela sem saída que guia corações partidos ao corte e desleixe, para que sejam costurados à ação do tempo, para que tenham a chance de um dia recuperarem todo o seu vigor... Apesar de tudo, você – que um dia foi meu querido e hoje não passa da razão pela qual consumo Martini aos litros – me despertou algo que pensava que em mim não existia; agradeço, portanto, não por ser algo que eu jamais conheci ou por qualquer outro momento consumido entre nós; agradeço por ter feito, sem classe nem honra, o que qualquer outro faria – o que eu precisava que alguém fizesse: me despertasse para a dor, para o choro e mesmo para as lamentações – me despertasse para a vida para que eu pudesse começar a vivê-la.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Detalhes sórdidos de uma vida enlatada
Descobri que não escrevo para ser lida, para ser compreendida ou muito menos admirada – escrevo porque preciso tirar de mim algo que me desgasta, que me corrói; escrevo porque acho digno que todos saibam que por trás da filha de pais rigorosos ou da estudante aplicada, mora uma alma prolixa e lotada de erros não tão incomuns como ela os faz parecer; por fim, escrevo simplesmente porque às vezes gosto desafiar os outros a serem tão estupidamente felizes como eu.
Minha capacidade de desgostar de coisas, pessoas ou lugares sempre foi e deve continuar sendo por um bom tempo infinitamente maior à minha tendência à simpatia – o que dirá, ainda mais dificilmente, ao amor. Ainda assim, eu quase nunca odeio alguém gratuitamente: se não gosto de você é porque sei que você já não gostava de mim antes. Aos críticos de plantão, reflitam antes de reclamar e de declarar desgosto a mim – uma vez conquistado meu desprezo, é tudo o que terá de mim por um longo período de tempo denominado ''sempre''.
Odeio emprestar livros. Dou risadas falsas todos os dias. Reconheço pessoas por seus defeitos. Sou um exemplar humano puramente egoísta. Não mereço confiança de ninguém. Nada que seja totalmente vindo de mim pode durar muito tempo. Sou do tipo que admite as partes humanas e desprezíveis que todos nós temos, mas que teimamos inutilmente em esconder por necessidade de aceitação ou alergia à sinceridade exacerbada – e não, não tenho medo de julgamentos e condenações; pelo contrário: me divirto. Só me divirto.
O parágrafo presente pode ser imediatamente contrário ao superior, em texto qualquer, na biografia que eu ainda não escrevi ou ainda naquilo que me passa pela cabeça e logo virá parar no papel. Seria tudo muito melhor se eu mantivesse a linearidade que poucos têm e que muito eu invejo; porém, cabe a mim jamais negar a única coisa que faz com que eu me sinta... Eu. Independente de onde, de quando ou com quem: se eu ainda puder ser contraditória, indecisa, complexa e inconstante, ainda serei eu, mesmo que em uma pequena e repugnante parte.
E me perdoe se as minhas reflexões, meus pontos visionários de aspectos comuns a você lhe parece um tanto absurdo e porque não dizer, um tanto sem forma nenhuma. Acontece, meu caro amigo que prefere obviedades, que as certezas despejadas e as convicções que afirmamos nem sempre são os instrumentos que nos acompanham; um pouco de interrogação às vezes é bom: a realidade é árida demais para nos ser despejada por tantas vezes seguidas, assim.
Minha capacidade de desgostar de coisas, pessoas ou lugares sempre foi e deve continuar sendo por um bom tempo infinitamente maior à minha tendência à simpatia – o que dirá, ainda mais dificilmente, ao amor. Ainda assim, eu quase nunca odeio alguém gratuitamente: se não gosto de você é porque sei que você já não gostava de mim antes. Aos críticos de plantão, reflitam antes de reclamar e de declarar desgosto a mim – uma vez conquistado meu desprezo, é tudo o que terá de mim por um longo período de tempo denominado ''sempre''.
Odeio emprestar livros. Dou risadas falsas todos os dias. Reconheço pessoas por seus defeitos. Sou um exemplar humano puramente egoísta. Não mereço confiança de ninguém. Nada que seja totalmente vindo de mim pode durar muito tempo. Sou do tipo que admite as partes humanas e desprezíveis que todos nós temos, mas que teimamos inutilmente em esconder por necessidade de aceitação ou alergia à sinceridade exacerbada – e não, não tenho medo de julgamentos e condenações; pelo contrário: me divirto. Só me divirto.
O parágrafo presente pode ser imediatamente contrário ao superior, em texto qualquer, na biografia que eu ainda não escrevi ou ainda naquilo que me passa pela cabeça e logo virá parar no papel. Seria tudo muito melhor se eu mantivesse a linearidade que poucos têm e que muito eu invejo; porém, cabe a mim jamais negar a única coisa que faz com que eu me sinta... Eu. Independente de onde, de quando ou com quem: se eu ainda puder ser contraditória, indecisa, complexa e inconstante, ainda serei eu, mesmo que em uma pequena e repugnante parte.
E me perdoe se as minhas reflexões, meus pontos visionários de aspectos comuns a você lhe parece um tanto absurdo e porque não dizer, um tanto sem forma nenhuma. Acontece, meu caro amigo que prefere obviedades, que as certezas despejadas e as convicções que afirmamos nem sempre são os instrumentos que nos acompanham; um pouco de interrogação às vezes é bom: a realidade é árida demais para nos ser despejada por tantas vezes seguidas, assim.
sábado, 19 de junho de 2010
(Re)Negar
- Você? Você é absurdo: chega, assim, sem mais nem menos. Aliás, quem ao menos lhe disse que poderia chegar? Ouça bem: eu estava feliz. Eu. Estava. Feliz! Até você, todo autoritário, vir até mim e impor o que eu jamais desejei. Ou acha mesmo que por algum instante de loucura eu quis isso? Não, meu querido, a aceitação é dura como um tapa na cara. Sim, é exatamente isso: ninguém aceita o pedido de amor de ninguém.
- E muito menos se pede para ser amado. Eu não pedi e cá estou: sou tão vítima quanto você, porque se acha que a culpa é minha ou sua, eu lhe digo que a culpa é nossa – inconscientemente nossa.
E assim o amor ficou. Sem dono, sem rumo – sem pedido, sem porquê.
- E muito menos se pede para ser amado. Eu não pedi e cá estou: sou tão vítima quanto você, porque se acha que a culpa é minha ou sua, eu lhe digo que a culpa é nossa – inconscientemente nossa.
E assim o amor ficou. Sem dono, sem rumo – sem pedido, sem porquê.
quarta-feira, 16 de junho de 2010
O que falta a você
Tá errado você achar que pode cometer todos os maiores absurdos do mundo, que pode me ferir da maneira que mais lhe for confortável, porque no fim eu sempre vou lhe perdoar. Tá errado você achar que os meus sentimentos são um poço de vontades a serem preenchidas – aqui, aqui dentro e aqui fundo, já está ocupado, meu bem. Ou você se encaixa, ou você (me) aceita... Ou então pode ir embora, porque eu não preciso de alguém que venha apenas para me mudar – de alguém que venha apenas para exigir a perseverança que eu não tenho.
Tá errado você sempre esperar por mim – nem eu mesma espero muito de mim, porque caberia a você o papel de exigir tudo o que não sei se tenho? Tá errado eu ter que ir atrás de você sempre que a gente briga, tá errado eu ter que entender todos os seus motivos e ignorar as minhas motivações. E tá errado, por Deus, eu esquecer de mim porque não posso esquecer de você.
Tá errado, tá tudo errado, e viver nessa fuga de caminhos certeiros anda me enlouquecendo. Preciso de brisa, preciso de bons livros, de companhias leves e um bom lugar à beira do mar. Não preciso de você, não preciso de suas visões errôneas – não preciso continuar gritando ''tá errado'', na esperança que um dia você me ouça. E admitir que cansei e que estou escapando desse fogo cruzado onde só quem é atingido é o meu coração me parece a única coisa certa em meio a tanta ingratidão.
Tá errado você sempre esperar por mim – nem eu mesma espero muito de mim, porque caberia a você o papel de exigir tudo o que não sei se tenho? Tá errado eu ter que ir atrás de você sempre que a gente briga, tá errado eu ter que entender todos os seus motivos e ignorar as minhas motivações. E tá errado, por Deus, eu esquecer de mim porque não posso esquecer de você.
Tá errado, tá tudo errado, e viver nessa fuga de caminhos certeiros anda me enlouquecendo. Preciso de brisa, preciso de bons livros, de companhias leves e um bom lugar à beira do mar. Não preciso de você, não preciso de suas visões errôneas – não preciso continuar gritando ''tá errado'', na esperança que um dia você me ouça. E admitir que cansei e que estou escapando desse fogo cruzado onde só quem é atingido é o meu coração me parece a única coisa certa em meio a tanta ingratidão.
terça-feira, 15 de junho de 2010
É melhor esperar que não esteja só
Melhor visar em se perder e se achar nesse seu corpo ou mesmo quando você também busca em mim cada retalhe da sua pele – e é assim você que se afunda na minha presença, sempre querendo achar em mim uma dose sua porque eu, ora, eu não necessito mais de busca para te encontrar em mim. Nesse momento em que estamos assim, em uma paz que implanta o silêncio, onde nada causa aquelas ondas de atribulações que nos molhava o rosto – é nesse momento, mais que qualquer outra supérflua vantagem ou falso otimismo, que eu me encontro. Me encontro, aqui, dentro de mim, como sua amante que sou; me vejo, me sinto, existo em mim como ligada à sua parte, aquela que de você roubei, aquela que em mim conservo. E te tenho, meu querido, como retrato de uma felicidade sem igual.
É você que cabe aqui: dentro do meu peito, dentro das minhas memórias, dos meus planos e em tudo mais onde eu estiver presente.
É você que cabe aqui: dentro do meu peito, dentro das minhas memórias, dos meus planos e em tudo mais onde eu estiver presente.
domingo, 6 de junho de 2010
D'Ela para Ele
Hoje eu vou lhes contar uma história e vocês, que têm pressa, sugiro que se levantem no justo instante, porque para contos de amor não há limite de palavras – o que dirá limite de tempo.
Ela era uma garota. Ele era um garoto.
Ano de 2006. Simples e pueril, duas crianças de treze anos como deveriam ser: conheceram-se meio sem querer, mais como um ato de implicância mútua do que uma vontade de compartilhar vidas. Sentavam-se próximos todos os dias, interrompendo as aulas com suas brigas sem fim: Ele, com a sua mania de caçoar Dela todo o momento; Ela, com a sua arrogância que só dava a Ele mais motivos para continuar a provocar. Uma típica novelinha pré-adolescente que rendia muitos sermões dos professores, algumas piadinhas dos outros colegas e nenhum olhar mal intencionado de quem tinha um jeito odiado de demonstrar afeto.
Não se sabe como ou exatamente o porquê, mas um dia Ela percebeu que Ele seria bem mais benfeitor se fosse algo além que o seu objeto de implicância; um dia Ela pensou que, bem, até que Ele não daria um mau amigo. E mais: Ele imaginou que, pois bem, porque não fazer Dela a sua amiga? Entram em um acordo de paz selada desses sem aviso algum e assim foi: amigos de confidências, de trocar bilhetinhos durante as aulas, de despejar confissões um no ouvido do outro – amigos como a muito eram e só agora haviam percebido.
Nunca houve estranhamento; não existiam brigas que não pudessem ser superadas no mesmo momento que eram criadas. Havia cuidado, havia a curiosidade, havia o seu jeito rítmico que jamais perdiam, havia o bem-querer-bem-mais-que-bem-querer. E, olha só, começaram a existir outras tantas coisas que a Ele e a Ela pareceram um tanto como novidade assustadora: havia a saudade de quem há poucas horas tinha estado ao lado, havia o ciúme por vezes injustificável e sempre calado, havia a vontade de estar junto simplesmente porque era bom, era tranqüilo, era o certo. Havia amor – amor escondido, amor nascido não se sabe onde e como, amor confuso de quem nunca havia sentido ao mesmo tempo tanta coisa boa, tanta coisa contraditória. Amor.
Ele e Ela agora eram Ele, Ela, Amor e todas as suas implicações. Amor que quer dizer declarações confusas metidas a muitos ''O que exatamente você quer de mim?'' e ''Eu nunca imaginei que você sentisse o mesmo''. Amor que quer dizer manhãs ensolaradas de sábado sentados no banco do shopping, conversando coisas sem sentido algum, mas que tendiam sempre para o mesmo ponto: como é bom estar com você. Amor que quer dizer o caminhar de mãos dadas, o primeiro ''Mãe, tô namorando'', o cinema no fim de semana, as cartinhas cheias de promessas infantis e, por isso, verdadeiras. Amor que quer dizer por vezes choro, por vezes abandono, por vezes fim – fim de um instante, de um ciclo. Amor que quer dizer dor, dessas que aperta até você gritar ''Chega! Tem um coração aqui, sabia? Um coração que precisa bater, mas acontece que você não deixa!''.
Pela primeira vez, Ele e Ela perceberam o óbvio que ficou escondido pelo encanto: não seria fácil – nunca foi e jamais será. Ele partiu, mesmo continuando ali, e Ela ficou em lugar nenhum. E fez falta: os rituais engessados, os carinhos que viraram costumes, os costumes que já eram afeto. Fez muita falta, acreditem – e que outra forma melhor para se medir o amor que na ausência?
Ela o aceitou de volta porque parte dele jamais havia partido; Ele voltou, pois não sabia viver sem a sua parte que abandonara. Mais sábios, talvez; mais maduros, com certeza. E foi nesse momento que souberam: estamos aí para tudo e o que mais precisar. Foram tempos difíceis: a rotina de pré-universitário consumia cada suspiro de quem precisava de simples instantes – aqueles velhos períodos para bobagens, para perca de tempo junto. Não tinham mais momentos, então inventavam: o intervalo das aulas, a noites de domingo pós-simulado, o meio-dia do sábado... Todo tempo era tempo. Não precisavam de muito – precisavam de si e isso tinham ali, carimbados pelo anel do dedo, expostos para aqueles que um dia duvidaram. E não foram poucos: uma platéia de infelizes na paixão, rezando pela próxima queda, pela ação do próximo obstáculo que não custou a aparecer.
Um ano é muito tempo. Um tempo para ele passar longe, afundado na busca do sonho que Ela nunca conseguiu entender – no amor, se sonha junto; então, porque, por um ano inteiro, Ele e Ela iam ter que sonhar separados? Não dava – não deu. E então foi a vez Dela de cometer tentativa de homicídio doloso – e o Amor ficou ali, em estado de coma, enquanto Ela brincava de Sra. Independência e Ele travava de lugar nada favorecido a sua luta solitária. Foram tempos difíceis, senhores; quem via de fora, talvez com uma gota de razão, pensava em voz alta: os ''inseparáveis'', por fim, entenderam que a escola não é para sempre – que você cresce, que você muda... Que os amores mudam.
Pois eu digo: não muda. Não o Dela, não o Dele. Não mudou durante as brigas quando ainda quando cursavam o Ensino Fundamental, não mudou sob a pressão de vestibular, não mudou após a Faculdade. Esse Amor – O Amor – não mudou nem por traição, nem por tempo; não mudou por distância, por interferência alheia, não mudou por complicações naturais. E, acima de tudo, não mudou porque eles não quiseram: nunca, nem por um instante, acreditaram na opção do ''E se'' – ''E se eu te esquecesse'', ''E se você jamais me quisesse de volta'', ''E se alguém pudesse fazer por você o que eu faria''.
E escute o que mais: não vai mudar. A mesma garota que um dia perguntou a Ele ''É para sempre?'' e o mesmo garoto que respondeu a Ela ''Para a vida toda'' são os que estão hoje por aí, 5 anos de história na bagagem, muitos erros a jamais serem cometidos novamente e uma lista de acertos que mais do que nunca parecem não com as velhas promessas – soam como garantias. Estão os dois aí, para o que der e para o que não der também: metidos à luta, metidos em buscas, indo com sede à estrada como bons insistentes teimosos que são. E falam por conhecimento de causa: não tente bancar o esperto, não gaste fôlego tentando fugir – o Amor chegou a Ele e a Ela, talvez cedo demais, talvez rápido demais, mas, definitivamente, de uma forma que poucos têm a sorte de ter durante a vida.
Ele sempre é o exageradamente otimista: acha que eles vão terminar a faculdade, morar juntos em uma outra cidade enquanto fazem uma especialização, retornar a onde tudo começou, casar e ter oito (oito!) filhos.
Ela é a realista: eles ainda vão brigar muito – por família, por (falta de) tempo compartilhado, por tempo que não se soube aproveitar. Ainda vão chorar muito pela fortuna que tiveram – o Amor lhes é um presente que tem custo caro, afinal. Mas não importa como, não interessa onde: eles sempre vão acabar juntos. E bem.
Por Ela, a garota.
Para Ele, o garoto (que é amado e amado e amado).
Ela era uma garota. Ele era um garoto.
Ano de 2006. Simples e pueril, duas crianças de treze anos como deveriam ser: conheceram-se meio sem querer, mais como um ato de implicância mútua do que uma vontade de compartilhar vidas. Sentavam-se próximos todos os dias, interrompendo as aulas com suas brigas sem fim: Ele, com a sua mania de caçoar Dela todo o momento; Ela, com a sua arrogância que só dava a Ele mais motivos para continuar a provocar. Uma típica novelinha pré-adolescente que rendia muitos sermões dos professores, algumas piadinhas dos outros colegas e nenhum olhar mal intencionado de quem tinha um jeito odiado de demonstrar afeto.
Não se sabe como ou exatamente o porquê, mas um dia Ela percebeu que Ele seria bem mais benfeitor se fosse algo além que o seu objeto de implicância; um dia Ela pensou que, bem, até que Ele não daria um mau amigo. E mais: Ele imaginou que, pois bem, porque não fazer Dela a sua amiga? Entram em um acordo de paz selada desses sem aviso algum e assim foi: amigos de confidências, de trocar bilhetinhos durante as aulas, de despejar confissões um no ouvido do outro – amigos como a muito eram e só agora haviam percebido.
Nunca houve estranhamento; não existiam brigas que não pudessem ser superadas no mesmo momento que eram criadas. Havia cuidado, havia a curiosidade, havia o seu jeito rítmico que jamais perdiam, havia o bem-querer-bem-mais-que-bem-querer. E, olha só, começaram a existir outras tantas coisas que a Ele e a Ela pareceram um tanto como novidade assustadora: havia a saudade de quem há poucas horas tinha estado ao lado, havia o ciúme por vezes injustificável e sempre calado, havia a vontade de estar junto simplesmente porque era bom, era tranqüilo, era o certo. Havia amor – amor escondido, amor nascido não se sabe onde e como, amor confuso de quem nunca havia sentido ao mesmo tempo tanta coisa boa, tanta coisa contraditória. Amor.
Ele e Ela agora eram Ele, Ela, Amor e todas as suas implicações. Amor que quer dizer declarações confusas metidas a muitos ''O que exatamente você quer de mim?'' e ''Eu nunca imaginei que você sentisse o mesmo''. Amor que quer dizer manhãs ensolaradas de sábado sentados no banco do shopping, conversando coisas sem sentido algum, mas que tendiam sempre para o mesmo ponto: como é bom estar com você. Amor que quer dizer o caminhar de mãos dadas, o primeiro ''Mãe, tô namorando'', o cinema no fim de semana, as cartinhas cheias de promessas infantis e, por isso, verdadeiras. Amor que quer dizer por vezes choro, por vezes abandono, por vezes fim – fim de um instante, de um ciclo. Amor que quer dizer dor, dessas que aperta até você gritar ''Chega! Tem um coração aqui, sabia? Um coração que precisa bater, mas acontece que você não deixa!''.
Pela primeira vez, Ele e Ela perceberam o óbvio que ficou escondido pelo encanto: não seria fácil – nunca foi e jamais será. Ele partiu, mesmo continuando ali, e Ela ficou em lugar nenhum. E fez falta: os rituais engessados, os carinhos que viraram costumes, os costumes que já eram afeto. Fez muita falta, acreditem – e que outra forma melhor para se medir o amor que na ausência?
Ela o aceitou de volta porque parte dele jamais havia partido; Ele voltou, pois não sabia viver sem a sua parte que abandonara. Mais sábios, talvez; mais maduros, com certeza. E foi nesse momento que souberam: estamos aí para tudo e o que mais precisar. Foram tempos difíceis: a rotina de pré-universitário consumia cada suspiro de quem precisava de simples instantes – aqueles velhos períodos para bobagens, para perca de tempo junto. Não tinham mais momentos, então inventavam: o intervalo das aulas, a noites de domingo pós-simulado, o meio-dia do sábado... Todo tempo era tempo. Não precisavam de muito – precisavam de si e isso tinham ali, carimbados pelo anel do dedo, expostos para aqueles que um dia duvidaram. E não foram poucos: uma platéia de infelizes na paixão, rezando pela próxima queda, pela ação do próximo obstáculo que não custou a aparecer.
Um ano é muito tempo. Um tempo para ele passar longe, afundado na busca do sonho que Ela nunca conseguiu entender – no amor, se sonha junto; então, porque, por um ano inteiro, Ele e Ela iam ter que sonhar separados? Não dava – não deu. E então foi a vez Dela de cometer tentativa de homicídio doloso – e o Amor ficou ali, em estado de coma, enquanto Ela brincava de Sra. Independência e Ele travava de lugar nada favorecido a sua luta solitária. Foram tempos difíceis, senhores; quem via de fora, talvez com uma gota de razão, pensava em voz alta: os ''inseparáveis'', por fim, entenderam que a escola não é para sempre – que você cresce, que você muda... Que os amores mudam.
Pois eu digo: não muda. Não o Dela, não o Dele. Não mudou durante as brigas quando ainda quando cursavam o Ensino Fundamental, não mudou sob a pressão de vestibular, não mudou após a Faculdade. Esse Amor – O Amor – não mudou nem por traição, nem por tempo; não mudou por distância, por interferência alheia, não mudou por complicações naturais. E, acima de tudo, não mudou porque eles não quiseram: nunca, nem por um instante, acreditaram na opção do ''E se'' – ''E se eu te esquecesse'', ''E se você jamais me quisesse de volta'', ''E se alguém pudesse fazer por você o que eu faria''.
E escute o que mais: não vai mudar. A mesma garota que um dia perguntou a Ele ''É para sempre?'' e o mesmo garoto que respondeu a Ela ''Para a vida toda'' são os que estão hoje por aí, 5 anos de história na bagagem, muitos erros a jamais serem cometidos novamente e uma lista de acertos que mais do que nunca parecem não com as velhas promessas – soam como garantias. Estão os dois aí, para o que der e para o que não der também: metidos à luta, metidos em buscas, indo com sede à estrada como bons insistentes teimosos que são. E falam por conhecimento de causa: não tente bancar o esperto, não gaste fôlego tentando fugir – o Amor chegou a Ele e a Ela, talvez cedo demais, talvez rápido demais, mas, definitivamente, de uma forma que poucos têm a sorte de ter durante a vida.
Ele sempre é o exageradamente otimista: acha que eles vão terminar a faculdade, morar juntos em uma outra cidade enquanto fazem uma especialização, retornar a onde tudo começou, casar e ter oito (oito!) filhos.
Ela é a realista: eles ainda vão brigar muito – por família, por (falta de) tempo compartilhado, por tempo que não se soube aproveitar. Ainda vão chorar muito pela fortuna que tiveram – o Amor lhes é um presente que tem custo caro, afinal. Mas não importa como, não interessa onde: eles sempre vão acabar juntos. E bem.
Por Ela, a garota.
Para Ele, o garoto (que é amado e amado e amado).
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