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| Onde Paris melhor fica: na imaginação. |
Eu queria contar essa história há um bom tempo, mas sempre sentia que estava para cometer um ultraje. Tenho certeza que vocês já passaram por uma situação semelhante e que, por isso, vão me entender - muito embora eu ache que o meu caso tenha dimensões estratosféricas. Esse drama não é só porque eu amei “Anna e o Beijo Francês”, muito menos porque todo mundo diz que sua vida se divide nos momentos antes e depois de conhecer Paris... Era mais questão de encantamento personalíssimo, mesmo, mais uma dessas coisas que amamos sem motivo aparente, antes de sequer conhecê-las.
Dito isso, quero deixar claro que amava Paris, muitíssimo mesmo. Amava suas luzes, suas pessoas e seus cafés à beira do Rio Sena. Muito antes de pisar na França, eu já me imaginava gastando infinitos euros em um jantar no topo da Torre Eiffel. Sonhos clichês, mas ao mesmo tempo tão meus, tirados da minha Paris imaginária, cheia de pessoas interessantes, com músicos e pintores pelas ruas. Paris sempre foi minha unanimidade. Quando meu namorado e eu decidimos viajar juntos, cada um poderia escolher duas cidades para visitarmos no tempo livre... Mas Paris? Ah, Paris foi nossa escolha conjunta, a única que não rendeu discussão. Afinal, quem não quer conhecer a Cidade-Luz? Quem optaria por não visitar Paris?
Não é que eu tenha achado tudo uma perda de tempo – não cheguei a esse ponto de repulsa, ao menos. Não me arrependo de ter ido a Paris e aconselho a quem quer que seja: vá, explore e depois me diga se o problema está na cidade ou comigo, porque eu amei Paris, mas não tanto assim. Na verdade, o meu amor pela cidade diminuiu drasticamente, a ponto de ser só uma faísca do que antes era. Para espanto geral na nação, confesso que gostei muito mais das insignificantes Bruxelas e Edimburgo. Quem diria, uma moça que visita Paris com o namorado e não gosta. Como podem imaginar, o problema não foi a minha companhia, definitivamente. O problema foi Paris, que me atraiu com suas promessas brilhantes, mas me abandonou assim que eu cheguei.
Cadê a porcaria do clima diferente? Cadê as luzes contagiantes? Cadê o romantismo da Cidade do Amor, peloamordeDeus? Nada de me receber de braços abertos; ao chegar a Paris, recebi um belo banho de água fria, assim que me deparei com aquelas estações de metrô infernais que não tem uma mísera placa em inglês. Francês é uma língua linda, indiscutivelmente, mas que espécie de 3ª cidade mais visita no mundo que é Paris, se está pouco se lixando para seus turistas? Essa dificuldade de comunicação se espalha pela cidade inteira e vai irritando dia após dia. Eu praticamente chorava de felicidade quando via algo escrito em inglês, porque isso significaria que ainda existia esperança de sobreviver naquele mundo, certo? Doce engano, doce engano.
As placas podem até estar em inglês, mas os franceses se recusam terminantemente a usar a língua dos seus vizinhos, os britânicos – e tenho cá minhas suspeitas que isso tem raiz na birra que existe entre os dois. Cheguei ao cúmulo de ir até uma barraquinha de sorvete, que tinha uma placa em inglês, pedir uma água para a vendedora e esta me ignorar, enquanto me encarava com a maior cara de desprezo que eu já vi. Gente, como assim? Eu tive que pesquisar como era “água” em francês, sob o risco de morrer de sede. Há muito eu fui avisada que os europeus não são mesmo muito amistosos; porém, apesar de nada acolhedores, todos os europeus nos outros países sempre foram muito educados. Na França não existiu essa dádiva; todo mundo, além de reservado, foi extremamente grosso, a ponto de eu sentir várias vezes aquele soco imaginário direto no meio da minha cara.
A única pessoa que foi gentil comigo em toda Paris foi um vendedor ambulante, que disse que eu era a cara da Juliana Paes – gentil, mas interesseiro, querendo me conquistar com elogios aleatórios. Fora este sujeito, só o que eu senti foi animosidade. Nos quesitos básicos, como língua e povo, Paris me perdeu logo de cara. Daí em diante, foi difícil não me revoltar com outros tantos defeitos: o preço absurdo da comida, o transporte público confuso e sucateado, a má conservação de vários pontos turísticos, o mau cheiro das pessoas (não, isso não é mito). O mais triste de tudo foi ver como os arredores dos pontos turísticos são áreas extremamente sujas; tem sempre muito lixo pelas ruas e os parques (tão perfeitos em Londres e Amsterdã) não têm sequer uma área limpa que nos permita deitar para curtir o sol. Foi frustrante ter que recolher bitucas de cigarro e rolhas de vinho, para que eu pudesse me sentar naquele gramado “lindo” em frente à Torre Eiffel. A verdade é que, se eu fosse enumerar os problemas que encontrei em Paris, as reclamações não se encerrariam por aqui.
Para não dizer que não falei de flores, a área ao redor de Notre-Dame chega muito perto de como eu imaginei que fosse a cidade inteira: pessoas tocam pelas ruas, cafés estão lotados, árvores e flores por todo o lado, uma loja da Häagen-Dazs (imprescindível para o sucesso de uma cidade), a Pont Des Arts, macarons de faz chorar de tão bons... Enfim, tudo que me faria amar Paris como eu gostaria de ter amado. Talvez eu esteja sendo um pouco crítica, é verdade, mas atire a primeira bituca de cigarro quem não é exigente com algo que o mundo clama ser perfeito. Muitos desses problemas também atingem a minha cidade, mas, caramba, eu esperava de Paris um pouquinho mais do que eu vejo em São Luís, Maranhão, Brasil. Se eu quiser gente me tratando mal o tempo todo, eu simplesmente vou ao banco no dia 05 do mês, ao invés de pagar caro para ser mal atendida ou lindamente ignorada.
A minha teoria é que Paris é muito fotogênica e, por isso, engana facilmente. É o mesmo caso da moça feia que só tem fotos lindas, mas que é decepcionante de se conhecer pessoalmente. Se vocês forem olhar as fotos que tirei de Paris, dirão que esse post é uma mentira, porque realmente não há uma foto que não seja bela. Tudo é uma grande ilusão, meus caros – foi essa a lição que Paris me deixou. E cá entre nós: sempre me disseram que apesar de querer muito ter uma alma francesa, eu sempre fui secretamente britânica, por gostos e birras - e isso não nego mais.
