domingo, 29 de agosto de 2010

O pior inimigo é o meu espelho

Eu tinha algumas coisas a dizer e, não sei, queria apenas selecionar as que parecessem mais úteis, mas não sei se é justo ou sincero comigo passar por um filtro nos meus sentimentos e pensamentos fantasmas apenas por serem coisas ou acasos que andam me assustando. Não compreendo bem o porquê, mas acontece que agosto tem me doído tanto e, com isso, exala de mim essa necessidade de que alguém se aponte como ponto de socorro; seria ingenuidade minha, talvez, achar que tenho sempre alguém de prontidão a ponto de me salvar? De qualquer forma, sempre seria um pensamento reconfortante, ainda que acabasse apenas por comprovar a minha solidão.
Ou talvez não seja tão específico a mim. Talvez, e não me cabe entender os planos Dele, sejamos todos indivíduos postos à teste, a todo sofrimento que for possível existir... Não, esqueça, eu falo besteira outra vez e, de novo, tento compreender o incompreensível; e porque será que nós, seres humanos, achamos que é nosso dever entender? Queria plantar fundo todas essas dúvidas e deixá-las lá, corroendo outros corpos subterrâneos e não o meu, tão recente e frágil. Eu só queria saber mais, porque o pouco que compreendo não é suficiente para me garantir bom humor durante o dia e noites de sono tranquilas.
Outra ocasião, ainda não faz muito tempo, estava refletindo na varanda quais as reais chances de algo mudar na vida que levo – e me deparei com a triste conclusão que, oras, se eu não faço nada além de me acomodar ao que me incomoda, não será um terceiro que me tirará da autodepreciação. E isso me doeu fundo e duplamente: machucou saber que não existe ninguém no mundo que fizesse algo para me salvar – me despedaçou assumir que não tenho sequer em mim uma fonte segura de auxílio. Não tenho nem meus próprios ombros para consolo, não suporto mais ouvir meu choro e, por Deus, se eu perceber mais uma vez que estou prestes a desistir, que desista à vontade, porque nem eu mesma sou capaz de me impulsionar, ainda que pela milésima inútil vez, a seguir em frente.

Enfim, não sei bem se isso seria um convite ao descaso, um conjunto de pensamentos vagos ou uma última tentativa desesperada. Mas o que eu queria dizer, já que nada vem de graça e o orgulho eu já não tenho... Bom, alguém pode me ajudar?

domingo, 15 de agosto de 2010

Meu divã

Escuta, doutor, eu trago comigo um problema. Claro que eu tenho mais de um único problema, mas acontece que eu sou meio extremista: prefiro dizer que tenho um problema a dizer que tenho inúmeros deles – otimismo sempre é bom, ainda que seja só de fachada. De qualquer maneira, eu tenho isso, essa coisa dentro de mim que vem me cutucando o pensamento e, não vá rir, mas eu tenho medo, doutor: tenho medo de me perturbar tanto e eu nunca saber o que fazer com isso até que vai chegar o dia onde, adeus, passou o tempo de tratar o assunto como devia e agora já foi, não tem mais jeito Não sei, não me pergunte o que é, porque eu vim aqui justamente na esperança que o senhor me diga: é normal?
Vou logo deixando claro que não tenho qualquer precedente que pudesse me tirar a paz: tenho uma vida tranqüila... Certo, nada de vida tranqüila. Tenho dias corridos, mas ainda assim leves como o vento frio que eu sinto todo dia ao acordar. Tenho meus estudos diários, que você pode entender como leituras pendentes formando uma pilha da altura da Torre Eiffel – não que eu já tenha ido a Paris, mas um dia quem sabe. Além disso, me alimento muito bem, durmo 8 horas por dia e tenho um relacionamento amoroso que anda fazendo muito bem à minha pele e ao meu cabelo. Entendeu onde eu quero chegar? Simples: no meio da minha rotina toda pomposa, onde caberia essa sensação de incômodo, que vem me alterando a paciência dia após dia?
Não foi isso que eu disse. Não acho nada perfeito, pelo contrário; vejo que tudo que eu consegui até hoje é muito pouco diante do mundo que eu imagino para mim – o meu mundo, decorado por pura literatura e algum rock inglês tocando ao fundo. Me falta muito, doutor, mas não é o fato de ainda (ainda!) não ter atingido o ápice da minha pirâmide de desejos que me causa essa inquietude; não, é mais fundo que isso – mais forte? Não sei; mas lhe garanto, infelizmente, que essa compressão talvez tenha ultrapasso os limites do meu peito e agora se fazem de vendas nos meus olhos: não vejo mais as coisas da mesma forma que eu via antes – agora tudo é mais simples e isso me intriga de uma forma que você não imagina.
Eu sei que não faz sentido e que às vezes é bom se ter essa inquietude para que você sempre procure evoluir, sempre procure mais, procure ser mais. Então, não me venha com essas conclusões mágicas que eu claramente posso alcançar sozinha, porque o que se passa dentro de mim é muito mais que uma confusão mental que nunca me abandona. O que eu carrego comigo é mais intrigante: não sei se é bom, não sei se é ruim, mas eu garanto que está me deixando acesa, me deixando em alerta. É a minha intuição que está ligada, doutor. Não estou acostumada com tanta moleza, com tanta vontade seguida de repetir ao mundo ''como eu estou feliz!''. De qualquer forma, estou curtindo: um olho aberto, sempre em vigília, e o outro fechado, só observando a beleza que carrego dentro de mim.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Eu vivo assim, de (re)viver

Não é começo de mês, não é início de ano e muito menos eu começo uma nova fase na minha vida – a faculdade de sempre, os amigos de sempre, o namorado de sempre, as roupas surradas de sempre, o computador velho e útil de sempre. Mas alguma coisa mudou – alguma coisa além do layout do blog que, na minha humilde e suspeita opinião, até que ficou apresentável. Além do material, do palpável e do suscetível à opinião alheia, falo de mim, que entre todo esse processo de tentar me manter estável e decidida, assumi mais uma vez a minha natureza de quem não se aceita da mesma forma todos os dias.
Falo muito da minha alma transformista e me apresento como a maior conhecedora de todos os dramas possíveis de serem vividos – mas sou, na realidade, alguém que não consegue resolver os seus próprios. Mesmo assim, carrego comigo sempre essa vontade de ser mais, de explicar mais: deixa-me entender o seu conflito, que agora será meu e, assim, quem sabe um dia não será de ninguém. Posso ser sua beleza, talvez, mas sei mostrar a máscara que assusta se for isso que você merecer ter de mim; no mais, não preciso ser alguém se eu puder ser várias, todos os dias, não como alguém que não conhece sua essência, mas como quem tem mais de uma única.
Não vou dizer que deixei de ser uma romântica não-assumida que sempre preza um bom orgulho; não vou mentir que minhas dores me doem menos ou que minhas felicidades são eternas. Não é desse tipo de mudança que eu falo, não é o meu comportamento que se altera: não é o meu olhar de dentro para fora, mas de fora para dentro, que faz a diferença em tudo que me envolve, desde as paixões que tenho aos medos que escondo. Enfim, não sou eu deixando de ser quem eu sou: sou eu descobrindo que sou mais do que achava que era; que sou várias e, acredito, ainda não tenho em mim toda uma imensidão que posso alcançar.
As coisas mudaram – eu mudei. Podem chamar isso de amadurecer, de tomar consciência de que se é alguém no mundo ou até mesmo de tentativa de autopreservação. Eu só acho que a gente faz o que pode, meus caros: desafia, põe a cara a tapa e ainda sobrevive, porque por trás de toda a peleja, tem um céu tão azul que faz tudo valer mais do que se imaginava. E talvez seja nesse momento, eu me arrisco a dizer, que você se descubra assim como eu: todo incerto. Um dia vento e outro, tempestade – um dia céu nublado e outro, sol de verão. Um dia sonho e outro, realidade – um dia como você, outro dia como quem quiser.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Ser feliz é não ser feliz

Estou de um jeito facilmente agradável, mas ninguém me apresenta uma série de tv nova, nenhum autor original chama minha atenção, nenhuma discografia desconhecida aparece na minha lista de download; estou aberta à inovação, ao que possa ser descoberto, do bonito e puro ao horrendo e desgastado, mas ainda assim me some toda e qualquer chance de ir além das quatro paredes que me cercam todas as noites.
Acho tão desanimador eu estar aqui, segurando meu letreiro piscando em néon onde está escrito ''oi, Vida, eu preciso de atenção'', e ainda assim parecer muito discreta a minha penúria de ser descoberta – é ambicionar em excesso o fato de eu querer ser mais que isso, essa coisinha cotidiana? Seria pecado a minha repugnância a essa falta de obrigação de construir mais, que vencer demais?
E como isso me dói o juízo e me quebra o pensamento, mas ainda me atrevo a criar conflitos com bases infundadas, onde tudo que preciso é de um pouco de emoção para esse coração que está quase perdendo o ritmo: espero que esteja claro o quanto bem resolvida eu sou e o quanto eu me revolto com isso. Não acho comum, não aceito naturalmente falando, que a cabeça confusa que eu tenho e a vida complexa que eu sustento se apresentem a mim da forma simples que vem sendo.
Pulei todas as fases de profunda depressão: sem o choque da vida de pré-universitária, sem os traumas de amores não-correspondidos (por Deus, eu nunca tive um desses! Como isso é possível?) ou a dor de uma família desequilibrada, hoje eu sinto falta, acreditem se quiserem, de um pouco de preto e branco nessa minha vida colorida e cheirando a flores do campo. Não estou pedindo choros por toda a noite e tão pouco uma novela mexicana; mas nunca cheguei a perdi a perfeição: não me atrai, não me seduz e muito menos me convence.

Talvez eu pare de correr atrás de todos os meus sonhos de uma vez, já que a medida que vou conseguindo realizá-los, passa em mim o interesse de tê-los. Talvez eu queira isso, para sempre: desejar, sem nunca conseguir; desejar e quase ter; desejar, mas não ter certeza jamais. Talvez eu nunca queira parar de ir atrás, talvez eu nunca queira apagar os faróis.

sábado, 7 de agosto de 2010

Alguma coisa sobre paixão

Ah, pois quando olho seu sorriso
Quem me dera poços profundos
E ainda que assim se acabe o mundo
Viveria contente por ter seu sorriso

Ah, mas se me invade o seu corpo
Me prendo e não me solto de puro desejo
E se me dá um abraço, se me repousa um beijo
Solto de mim as palavras com realejo

Se te choca, menino, só quero que saiba
Não mais aqui eu guardo segredo
Mas tenho em mim, enterrado fundo
A paixão que fulmina dentro do meu peito

E no fim, mais no fim,
Me ponho em rimas toscas
Cruel fim das paixões sem correspondência
E sinta o que sinto – de viver assim, às moscas.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Se o meu destino fosse a minha vontade

Por mim, eu passava o dia inteiro
Deitada na rede fria da varanda de casa
Pousava a mão quente no rosto ardente
Do pequeno menino que escolhi para mim

Se dependesse de mim, se eu pudesse escolher
A cor da cortina da sala de estar
Os sinos que tocam na manhã que ilumina
O seu sorriso estridente a me avistar

Se fosse por mim, veja como seria
Tentaria evitar tantas dores cruéis
Tantas chuvas de vento na minha janela
Tantas trovoadas valentes por todo o quintal

Mais pobre de mim, que nada prevejo,
Ainda que me dessem tamanha sorte
E minha figura a ti parecesse forte
Eu nada seria além duma amante de ti.