quarta-feira, 28 de abril de 2010

Acho mais bonito o lado de dentro

E na maior parte das noites, é o mesmo ritual: a arte de deitar na cama e não conseguir decidir se durmo ou se sonho. E dentro de mim, em poço de questões, me afundo em mais um desses lapsos circunstanciais, em todo um ritmo de intensificar a dor, a dúvida, a vergonha, a pré-disposição a coisas não tão cotidianas.

Abro os olhos e não vejo nada, não faz diferença se estou andando na rua ou dentro do quarto escuro. Eu abro os olhos e não vejo nada. Aí eu volto a fechá-los. E esqueço – não quero o mundo de fora, não quero corações poluídos.

Só quero paz, quero paz, quero paz, porque isso de felicidade instantânea eu acho uma grande ilusão.

domingo, 25 de abril de 2010

Conquistar dia após dia

Você e suas manias inviáveis. Não percebe que assim não funciona, meu bem? Sou bicho doído; carrego em mim um coração endurecido de cicatrizes, marcas fundas de tiros que o perfuraram seguidas vezes, sem um instante de descanso que ainda fosse por pena. Sou gente criada sozinha; fui largada, fui expulsa, fui apontada. E em mim, se me cabe o uso de tanta sinceridade, restaram as poças secas de onde havia lágrimas e hoje só há frieza, o gélido ar de líquido evaporado há tempos. Diante de tamanha construção de alma de vidro, porque insistes assim? Achas que cabe a ti me acostumar a essa novidade de ''importar-se com alguém a não ser você mesmo''?
Desculpe-me, de coração, mas acho que tal feito a mim não se emprega. Queria muito poder lhe dizer que sou adaptável, que te aceito assim, tão delicado, todo cheio de mimos e palavras que soam como canções belas e ritmadas aos meus batimentos cardíacos, descompassados de forma tão tola. Mas assim, meu querido, a mim parece ilusão masoquista; não digo que não mereço, só digo que nunca tive. E mais: digo que nunca esperei, nem por um nanosegundo de romantismo de raiz, ter comigo alguém que pudesse chama de ''meu, indubitavelmente meu''.
Ah, não, não me julgue, porque eu não o faço; concentro em mim todo o bom entendimento que me foi destinado – coisa de gente acomodada, como preferir. Não penso em mudar, não sei se um dia o farei inconscientemente, que o seja; confiar em sentimentos, das coisas abstratas e definitivas, dias após dia? Não me cabe tanta segurança; sou órfã de paz, sou parida das forças do contra. E você, pequeno insistente, não se culpe: sou difícil, a todos pareço quase impossível... Mas daremos um jeito.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O que me parece falso

Acho muito fácil.

Muito fácil explicar minhas dores. Olhar para os meus problemas e elaborar um discurso de cinco minutos que vai apresentar todas as saídas – óbvias, como ainda eu ainda não tinha percebido? – para cada uma das dificuldades fúteis que pertencem exclusivamente a mim, já que são frutos da minha necessidade de inquietude.
Muito fácil dizer que não devo achar que estão errados – aqueles, todos aqueles que não me ouvem, que fingem que estão de acordo, mas que no fim do dia vão me bombardear de questionamentos. É, muito fácil dizer que me acho a dona de uma verdade que nem existe, muito fácil expor suas ideias sem se sentir na obrigação de escutar o pensamento de mais ninguém – inclusive o meu, que, segundo o que dizem, soa como se eu fosse a última e maior vítima de pura crueldade da conspiração negativa do universo - muito fácil dizer que eu não sou exatamente isso.
Muito fácil dizer que minhas confusões são bobagens – não há nada mais simples que duvidar da dúvida alheia, do que dizer que as fobias dos outros são nada mais que ilusões dessa imaginação-bem-mais-que-fértil de alguém que tem compulsão por questionar o inquestionável - muito fácil dizer que eu tenho aquilo que cultivei, sem nem por um segundo se perguntar coisas básicas como ''como?'' ou ''porque?''. Muito fácil descartar motivos e circunstâncias.
Muito fácil dizer que tenho a vida que muitos queriam e poucos têm: papai que me dar tudo que quero, namorado à la príncipe encantado, cursos superiores bem encaminhados. Extremamente fácil ignorar minhas vontades mínimas, minhas precisões mais ínfimas de alguém que é mais que dinheiro, beijos e livros – de alguém que é vida e no entanto é presa por essa chave de achismos doentios, obscurecida por um manto de ''não sei do que você está reclamando''.

É, acho muito fácil lidar, aceitar, contornar e viver apenas com a superfície do mar, sem saber o que se passa nas profundezas. Afinal, é algo que está acontecendo comigo – muito fácil, assim, para quem está só assistindo de fora.
Queria ver se fosse com você.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Diminutivo de mulher, aumentativo de interrogações

Ela era desses tipos cheios de interiores; labirintos internos onde se perdem razões, consequências, palavras e sentidos. Tinha esse processo contínuo de auto-entendimento – e, porque não, auto-atendimento de quem nunca chegava a lugar nenhum, por mais que refletisse sobre questões do tipo ''o quê, exatamente, eu penso que estou fazendo?''. Típico, eu diria. Mulherzinha assumida; não à vulgaridade, mas sim à pequenez que por si só a rotulava como caixa de Pandora – surpresa ambulante para quem achava que em pequeno corpo só cabiam pequenos problemas, esquecendo que é na diminuição das causas que nascem os maiores equívocos irremediáveis.
Ela tinha o mundo; não em suas mãos, como lhe parecia ser mais útil, mas em seus olhos: duas pequenas esferas, nem sempre brilhantes como deveriam. Por ali e por onde mais lhe fosse possível, fazia a medição de ponta a ponta de cada um que lhe passava; o pobre coitado que pensava lhe atravessar despercebido mal poderia imaginar a leitura de vida que ela lhe fazia. E mesmo com tanta força em julgamentos – porque se tinha algo que ela fazia bem era em apontar o dedo minúsculo a uma face e enumerar erros – jamais foi capaz de voltar para si, de encarar um espelho e perceber algo além daquela expressão que nunca queria dizer nada.
Mistérios à parte, ela sabia tudo o que precisava: inútil era a tentativa (e apenas isso: ten-ta-ti-va) de entendê-la, porque para o tipo dela ainda não inventaram explicação.

domingo, 18 de abril de 2010

Mongolisses com amor

Pela primeira vez, antes de escrever, eu tive expectativas.
Eu queria um texto bem revelador, algo que deixasse claro porque eu nunca cansei Dele, mesmo depois de lhe aturar desde o momento que eu nasci até os dias atuais – longos 18 anos. Mas eu queria também um texto simples para que Ele pudesse parar de dizer que eu falo muito difícil – simples e sem embolação como as nossas reconciliações, cheias de ''eu não te entendo, Deyse'' e ''não tente me entender, só acredite em mim''.
Pois bem, eu desisti – de esperar grandes resultados, não do texto em si, até porque, se tiver algo que eu aprendi é que nada que você pense em relação a Ele acaba do jeito imaginado – e, ainda assim, você jamais de decepciona. Estou certa que muitos têm julgamentos prontos sobre Ele; a maioria, não tenho dúvida, carrega consigo várias críticas prontas, que só esperam ser despejadas na primeira oportunidade. Mas se eu, Deyse, tivesse a chance de dizer algo, seria apenas o seguinte: vocês aí, que o julgam... Estão todos errados.
Eu tive muito tempo para perceber de quem eu falo, então não pense que eu estou iludida: conheço bem O Cara com quem eu dividi a minha infância, vivi a minha pré-adolescência, passei a minha adolescência e, não duvide, com quem eu repartirei cada instante da minha vida adulta. E se Ele tiver algum defeito, será apenas o seguinte: é flamenguista. Daqueles insuportáveis mesmo, sabe? Mas isso é uma conversa futebolística que deixo para outra ocasião.
Somos a (não tão) típica situação: nós sempre vivemos juntos – eu fazia trabalhos de escola na casa Dele, eu lhe dava conselhos sentimentais de como conquistar a menina mais bonita da turma, Ele me apresentava o que havia de melhor de música na época – se um dia eu ouvi Linkin Park, CPM 22 e Charlie Brow Jr., a culpa foi Dele. Bom, foram-se os anos: eu refinei meu gosto musical e ele mudou de cidade. É, foi embora e me deixou assim: eu, 11 anos, pré-adolescente confusa e sem o melhor amigo. Trágico, não?
Não. Ou melhor: poderia ter sido. Poderíamos ter escolhido fingir que os passeios de bicicleta e as brigas dentro do táxi que nos levava para a escola nunca tinham existido; poderíamos ter escolhido um monte de coisas, mas entre todas as nossas opções, a que pareceu mais suportável foi a seguinte: seremos amigos. Mandamos um ''dane-se'' bem grande para a distância; enquanto existirem feriados para reencontros, férias, MSN, telefone e outras coisas assim, nada nos separa. E, mesmo que não existisse nada disso, Ele tratou de cultivar bem o seu lugar no meu coração antes de partir; nada – digo e repito: nada – nesse mundo iria apagar algo que foi criado e cuidado com tanto cuidado como a nossa amizade.
É, amizade. Amigo desses de falar besteira até não aguentar mais, de lhe contar tudo, de lhe oferecer ajuda mesmo quando você sabe que, na verdade, ele não pode ajudar em nada. Amigo desses que lhe perturba quando o seu time perde, que faz você chorar de raiva depois de cada briga - que não foram poucas - e que faz você sorrir de alívio sempre que fazem as pazes. Amigo desses que um dia você confunde com paixão – amigo desses que lhe ensinam que, sim, uma menina é capaz conhecer um cara a vida inteira e querê-lo muito bem, mas não querê-lo para si. Amigo desses que faz você parar e pensar: Ele é mais que amigo – Ele é irmão.

E, sabe, eu vou dizer que eu o amo. Não vou evitar palavras com medo delas saírem erroneamente românticas por olhares maliciosos ou pouco sinceras por julgamentos desconfiados.

Eu te amo, Yan (Mongol) Machado, e você não merece nada menos que isso.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Sua dívida

Você está certo que nada tem a ver com minhas noites mal-dormidas, com todas as seqüências de ''e agora?'' que me cercam de todos os lados? Pois lhe digo e espero que grave nessa sua memória que repugno: se não parou para pensar, nem por um milésimo de segundo, que por trás de cada anormalidade comportamental minha está apenas você, está na hora de acordar desse seu sonho de rei bem amado e olhar ao seu redor. Acontece, meu querido, que o mundo continua, mesmo que você ache que precisa parar para tomar dois suspiros de fôlego; acontece, adivinhe só, que o tempo e as urgências são valores inversamente proporcionais na casa de quem já vive o tempo de mágoas. Então, você que inventou essa minha dor... Vem cá bem depressa, pegue a cor do paraíso e pinte na tela branca para mim.

domingo, 11 de abril de 2010

Há cinco anos ou mais

Não penses que para mim, meu menino, és poça rasa; cabe em ti toda a espessura de sentimentos que afundam os mais despreparados. Não hei de cair novamente em tolices; sei que não é fácil, que muitas vezes se pode – podemos – usar de toda a crueldade que não seria a nós cabível; entretanto, e que bom que existem ainda essas reviravoltas, sinto-me na obrigação de declarar a quem mais ainda tiver dúvidas - o que inclui eu mesma e, aposto, você também -, o seguinte:

Somos pacote completo e fechado. Sempre. Sem-pre.
Somos um desses pares de mãos dadas que não se largam, um abraço fechado em nó.
Somos a nossa visão mais longínqua, o cúmulo da determinação, o ''não sei onde, mas sei com quem''.

Sabe o cobertor em inverno? Somos nós, a cada instante que um topa com o outro no justo momento em que mais se precisava.
Sabe o conforto que se sente ao ver o único conhecido em meio à multidão? Somos nós, nos encontrando, não importa o dia, não importa onde, não se interessa quando.
Sabe o choro de desespero, o grito de alívio, a risadinha sacana de vitória, as aventuras que rendem histórias e as tantas outras emoções pelas quais se vale a pena viver? Somos exatamente isso, junto, ao mesmo tempo.

Não somos mais ''b+a=ba''; somos livro, enciclopédia, coleção de clássicos da literatura.
Não somos mais só cinema aos sábados, ligações de domingo, semana de rotina; somos ''todo o tempo, lá ou cá''.

Somos mais que aquelas - tão antigas, tão sinceras - promessas.
Somos a concretização.

E você, meu bem, se pensares em duvidar, complicar ou mesmo quando precisares que isso dentro de ti seja reforçado, veja o seguinte: se parte do amor está comigo, a outra metade só pode ser sua.

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play.: Sete anos - Ludov

sexta-feira, 9 de abril de 2010

If you love me, won't you let me know?

São tantas frases soltas misturadas a uma multidão de sentimentos que preciso de dois segundos a mais para organizar minha mente. Não, não, não era esse o ponto... O que eu queria lhe dizer era: eu sinto sua falta. E mais: eu não só sinto sua falta. Sinto impaciência quando acordo de manhã, vou para o banho, me visto e lembro que nada daquilo é para lhe encontrar e receber o melhor ''bom dia'' que existe. Sinto mau-humor – daqueles que afastam qualquer um de mim o dia inteiro. Mas que culpa eu tenho? Basta que eu lembre que hoje é, sei lá, quarta-feira e não temos como nos ver, basta que eu não consiga lhe ligar porque tenho uma tarefa importante, basta que eu pense em você e não possa lhe dizer isso. O resultado? Mau-humor para o dia inteiro. Sinto carência – surtos graves de abstinência de você, desses que me fazem ver filmes de amor-meloso-pegajoso-irritantemente-adocicado que em situações normais me fariam ter crises de enjôo, mas que sem você só me ajudam a afundar em uma tigela absurdamente engodativa de sorvete.
E saiba que, se fosse apenas isso e outras coisas do tipo, eu me orgulharia; e mais, faria questão que todos soubessem: tenho em mim metades, porque eu, no meio de tanta gente solitária, encontrei quem me roubasse de mim mesma. Eu, que já recebi tantos ''não'' de tantas formas, tenho o mais difícil: alguém que eu ame. Sim, eu faria isso, acredite, se não fosse uma última questão: sinto rejeição - não sou o tipo que precisa de atenção a cada cinco minutos e que prefere muito mais ser ignorada pela maioria das pessoas. Mas você, se não me liga para dizer que está com saudades, se não me conta como foi o seu dia, se não se importa se estou bem, se me ignora como ato de rotina... Você me destrói aos poucos, me pisa e esfrega em brasa quente o meu rosto choroso.

E é por isso, meu bem, que tudo o que eu sinto congela quando me dou conta de que a noite está fria, chove lá fora e a sua indiferença é minha companhia – de hoje, de sei lá até mais quando. Portanto, a você, de mim, só cabe uma coisa: boa noite.

Play: Violet Hill – Coldplay