sábado, 25 de outubro de 2008

Asfixia

--- Você é tão dramático!
--- E você é exagerada. Vai, esquece isso. A gente vai brigar de novo?
--- E o que mais sabemos fazer?
--- Um monte de coisas, se você quisesse...
--- Ah, me larga, vai.
--- Eu te largo, você reclama. Eu fico, você reclama. Tá ficando doida?
--- Talvez.
--- Tu acha que assim vai resolver as coisas?
--- E tem como resolver?
--- Para tudo se dá um jeito...
--- Então me diz que jeito é esse, porque eu tô sem perspectiva. Tô sem chão.

(silêncio mórbido)

E assim morreu o amor, que de tão grande, acabou se sufocando.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Além da minha casa...

No jardim, hoje eu resolvi cantar. Um lá-lá-lá sem motivo, sem precedências.
Incrível como hoje resolvi ser feliz. Ser eu mesma, irradiar o mundo com o meus porquês sem lógica e sem motivo. Acordei e vi que de nada me adiantava lamentações regadas de muito chocolate e filmes de romance; vi, e como não poderia ser, que o céu é bem mais límpido se visto do lado de fora da minha janela. E, para falar a verdade, assumi um monte de compromissos comigo mesma. Nada de 'sinto muito' ou 'adeus', muito melodramático para o meu atual ser. Apenas um simples 'boa sorte, aproveite, até breve'. Isso, ao som de Hey Jude, me dizendo don't be afraid tem um gostinho bom, o de saber que desde o acordar até o respirar, tudo tem a ver com a tal felicidade.
Hoje, resolvi relativizar. Por isso, peguei minha mochila, coloquei-a nas costas e saí para ver o mundo, que até hoje estava oculto por uma cortina em minha face.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Ao nosso fim

Ah, não se iluda, isso não é sobre você.
Na verdade, é sobre as situações errôneas da vida, e como elas entraram em convergência com o meu existir. De certo, eu não pretendia: meus planos eram continuar deitada em minha rede, relendo meu romance preferido enquanto aguardava um outro alguém me ligar. Só que, nesse momento do espetáculo, você entra em cena e faz o que eu mais temia: corta o filme.
Seria interessante uma continuação, mas não temos mais história para contar.
Como eu disse, nada disso era sobre você, porque chegamos ao nosso fim. E depois disso, só resta os créditos: dedicado à você, que não soube me amar.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Fórmula de uma essência

É bobagem dizer que as pessoas não são mutáveis; somos um (in)constante varias de ações, objetivos e pensamentos, em um gráfico irregular e cheio de 'achismos'. Entre um piscas de olhos e o tragar de um cigarro, deixamos de ser os mesmos do instante anterior, não pertencemos a quem seremos no próximo pulsar. Mudamos enquanto cantamos Beatles no chuveiro, tomamos um ovomaltine ou contamos as estrelas; evoluímos ou retrocedemos pela amiga, o namorado, a madrasta, o cachorro. Nos reversamos e substituímos, por influência das estações, por força das circunstâncias inexoráveis ou só por querer renovar - e, porque não?, surpreender. E mudamos por estarmos cansados de um estar e achar previsíveis, cheios de momentos já formados por sua identidade, lotados do seu eu. (...)

domingo, 5 de outubro de 2008

Saber voar

Não era para ser assim.
Ah, não, não se enganem, não há nada de satisfatório nessa sociedade fantasiada de um utópico bem-estar. Devíamos ter o direito. Direito de viver no nosso sentido de ético, usufruir do nosso amor sem pudor.
Devíamos poder tirar a roupa em praça pública e gritar, da liberdade, ah, desejo-a! Nada de pseudos, do faz de conta que impera. Larguem de falsidade: ninguém é liberto, todos somos marionetes do sistema de o que tem que ser. Tudo é limitado, no sentido mínimo ao amplo, do sorriso ao discurso.
Devíamos poder gritar ao mundo: hai de ti, onde estás? Vinde a mim! Devíamos poder saltitar, rodopiar, pular da ponte e nadar no rio. Devíamos poder dizer o que pensa sem ter medo de perder o emprego, perder o amigo, o marido. Devíamos poder nos exibir sem medo das críticas, devíamos poder criticar sem se exibir. Devíamos poder quebrar as regras, chegar atrasado, ficar careca, correr no meio da rua.
Sorte que em manhãs sofríveis e tardes entediantes, há quem se lembre que não há momento melhor que o agora para viver grandes casos de amor. Então, vou me libertar; e os céticos que me deixem, me larguem, desistam!

sábado, 4 de outubro de 2008

Brisa, (a)mar

E já não voltou mais.
Pés descalços na areia, - ou no mar, porque não? - o sol me disse. E a chuva a noite vem de consolo, anunciar que tudo o que nuvens escuras fazem é encobrir um céu brilhante como o meu olhar quando te vê. E tantos casos e acasos, falta de esmero. Foste tu, fui eu? Não, foi a lua que previu, o mundo clareará amanhã.
Caem as folhas, sopram os ventos.
Tudo ao seu tempo.

Mais rara via

Ah, sóis pois
Trem no trilho, ranger do circular
E hai de seguir por toda a trilha
Impetuoso do mover
Ansioso do pulsar

E encontrará, claro
De escuros túneis, os mais sombrios
Não iluda, pobre precursor
A mensagem, ah, a mensagem
É mais veloz que todos os pássaros
Mais suprema que o pulsar de artérias
Na beira de abismos
Fundo obscuro, além desmoronado
Sobe montanhas, qual for
Do leve declive da paisagem
Ao chegar do plano perfeito
Pois tudo que não for passar

Adeus, cairá
És prova primeira, cruel
Ah, fatídico de almas laçadas
Que derrubai umas as outras

Trem no trilho, ranger do circular
E hai de seguir por toda trilha
Eis a pastagem, do gado e bichos
Comestível, bebedouro na beira de rios
Tocável, alcançável
Sem pena, destruído
Atroz, encantos terríveis, pudera
Vaga à noite, durante o dia
Mais um pouco, um pouco mais
Bem menos, madrugada frígida
Pára, quebra
Conserte, se agirá por aqui!
Como pôde enferrujar?

Ah, o trem que passa e não se vê
Se vê e não se cuida
Se cuida sem pensar
Há de se limpar
Sujeira implacável

Faxineira, limpa, lava
Desintoxica
Vermes, bactérias do seu auge
Que espera que os aceite em paz
Ah, não penses tu que serei assim
Digo que sou com tal esmero
Não consuma meu vagão assim
Caro paguei, paguei por uma eternidade
Passagem inviável não será

E hei de saber aproveitar
O momento daqueles que no trem nunca andam
Outros, entretanto, não saberão aproveitar
Descem acompanhados
Descem sozinhos
Poucos jamais descem
Ah, viagem insolente
E serão seqüestros
Assaltos
Suicídios
És busca incansável, o tal trem
Que carrega, sim, de todas as feições
Passageiros de todos os mundos
Aos pares
Trios
Consigo mesmo

Trem no trilho, ranger do circular
E hai de seguir por toda a trilha do viver
Maquinista és seguro?
Não sempre vás tu, inocente criança
Confiar em um qualquer
Amor de vida?
Um único trem, um único vagão
E depois, perdeste a hora?
Adeus, vá embora

E hai de seguir por toda a trilha.
Só o trem.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Aversão ao espaço

E estar junto vai além de estar lado a lado
É estar único, não da metade, do completo
É um não estar só com letras, curvas, retalhos e compassos
É do puro, sua essência, do amor, sua razão
E estar junto não é só motivo
Complicação
É conseqüência
É que querer que converge onde não se pode alcançar
É pular o muro, atravessar o rio a nado, saltar a cerca
E estar junto, no final, é mais que presença
É vontade.