sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Palavras de um cético

Então, se existe um deus, ele que me ache. Ele que venha até me mim e peça-me perdão pelos os dias de esquecimento, por todas as mágoas vãs que hoje racham meu coração de forma irregenerável. Ele que se ajoelhe a meus pés, mestre da sátira, e me responda tantas indagações das quais estou lotada, esperando para despejar culpas e acusações. Ah, é, e se existe um deus, ele que se atreva. Duvido muito, digo logo: me curvei diante de menores, fui subjugada em um mundo de trevas e, ainda sim, obrigada a sorrir em face dura, transparecer confiança onde só existia um vácuo. Então, se existe um deus, ele que se prove como um tal. Ele que seja impetuoso e venha até mim, arqueado, satisfeito por sua tirania da felicidade. Se existe um deus e se o mesmo é justo, ele me deve isso. Deve-me a explicação de, porquê? Eu, isso, desse jeito? E nesse dia eu direi: escolheste a mim, prova de como podes ser cruel e impuro da áurea que o cerca. E eu provei que és perfeito mesmo sem quereres: eu, criatura tua, fraca como um peixe em lago seco, respirei em chamas. E sobrevivi.

sábado, 22 de novembro de 2008

Relato de uma alma com dor

Eu não tenho méritos.
Na verdade, tudo o que eu fiz foram medidas subjugadas a pensamentos alheios sobre o meu conceito de ser o que sou. Não tenho algo que possa chamar de meu, propriamente meu. Tenho alcances adquiridos ao acaso, ao estar no lugar certo na hora certa, ou simplesmente porque a autoria restou a mim. Não tenho pessoas ao meu redor aplaudindo, me glorificando; na verdade, não tenho pessoas fazendo nada ao meu redor. Tenho extensão de companhias, corpos instáveis que rondam o meu, agora tão imóvel e trêmulo diante dos demais. Não tenho feições, não tenho letras, versos ou paródias. As rimas me confundem, os sonhos me aterrorizam e a ave que pousa em meu ombro se espanta com a minha face, pálida, caricatura do que um dia foi. A minha voz me trai, então me calo, presa ao um mundo onde ninguém pode entrar, de onde eu já não posso sair. Abaixo a cabeça para vitórias e derrotas, como se fossem semelhantes, e já não me encanto por promessas.
A verdade é que finjo. Finjo o que sou, finjo o que sinto, finjo o que faço. E exatamente isso que me faz digna de viver: a ciência de que apesar de adotar anseios que não me pertencem, minha alma continua intocada o suficiente para admitir isso.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Que o mar levou

Olhei a minha figura esquelética no espelho e não sabia o que sentir. Talvez não estivesse à altura de qualquer sentimento; meu coração pobre hoje chorava, mais que qualquer outro tristonho no mundo, por ter perdido você. A brisa vinda do mar exalava seu cheiro no ambiente, seu perfume intrínseco em cada profundidade do meu ser. Cada palavra pronunciada por teus lábios, hoje vagava como sombras em minha mente, pestanejando dúvidas, chovendo reclusões. Eu respirava uns ares pesados, que entravam em meus pulmões rasgando todo o meu interior, fatiando cada parte minha que, relutante, ainda tentava se manter inteira. A luz que irradiava do sol, quase poente, queimava-me os olhos, passava por minha retina como a verdade pura e dura que em minha face cuspia a solidão, já tão óbvia que chegava a ser repetitiva. E o mar em meus pés, ah, o mar. Este era o que mais doía, de todos os motivos, por atingir a base de todo o meu eu que já não existia mais. Balançava toda a estrutura, pertinaz, insistente arma corpórea que persistia em existir, quando porque já não havia mais.
Você partira. E não havia nada que eu pudesse fazer a respeito, a não ser conferir minha alma em um choro eterno; jogá-la em oceanos límpidos, para que a lavassem e, talvez se resgatada, fosse capaz de se entregar novamente.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Comemoração

Felizmente, posso dizer que hoje eu acordei e senti. O brilho da manhã que iradia de todos os cantos do céu, os sons das gaivotas beijando a margem dos rios, o ritmo da dança das andorinhas nas clareiras. Que bom, amor, estar de volta à vida.

domingo, 16 de novembro de 2008

À galera mais pesada que já existiu - Terceirão 2008, Reino Infantil

Antes de mais nada, aquele tradicional 'bom dia'. Tudo bem com vocês? Tudo na santa paz? É, assim que tem que ser. Escuta, no nosso encontro recente, nós nos despedimos. É, cabeça de mamão, tão cedo como começou, chegou ao fim.
Acho que todo mundo lembra no nosso primeiro dia de aula nesse ano, quando em plena segunda-feira, primeiro a barriga, depois resto do corpo de Mário adentraram na nossa querida sala do 3ºB. Ele veio logo com aquele discurso chato e de paizão que sempre teve, dizendo que esse ano passaria voando e tudo mais sobre vestibular que nenhum de nós queríamos ouvir. Acho que metade da turma não prestou atenção como deveria a isso. Porém, o fato é que realmente o velho Mário tinha razão; hoje é hoje, amanhã é amanhã, ontem foi ontem, então hoje é o amanhã do ontem. E o depois de amanhã já vai começar.
É inegável que aprendemos muito, seja por osmose, permutação ou substituição de variáveis. Aprendemos que Renilde pode ser cruel quando quer, mas que só por vir aos domingos para o Reino fiscalizar prova enquanto ler Casa & Jardim, Contigo!, Caras ou então pinta as unhas, ela já merecia o Nobel da Paz. Aprendemos que você pode enjoar de uma pessoa ou não, independente se ela tem nove ou só um horário com você por semana. Aprendemos que não importa quantos saltos quânticos nós ainda vamos dar, muitos de nós se encontrarão em camadas mais internas ou externas, sempre sendo os mesmos elétrons de sempre. Aprendemos o valor de viver cada um no seu quadrado, ou no quadrado do vizinho, tanto faz; o interessante é que sempre dançamos no mesmo ritmo. Aprendemos que 1+2+3 pode ser igual a 108, se você não tiver o azar de Vilson corrigir sua questão. E, mais importante: aprendemos a ficar gelo, porque tudo vai dar certo.
É, neném, acabou. Foram-se o interclasse, a quadrilha, a viagem, a formatura... Nada mais de cinco questões de texto e cinco questões de grammar. Nada mais das piadas intelectuais do Padre Régis. Nada de ar-condicionado quebrado (até porque, para onde a maioria de nós vai, ar-condicionado é tecnologia de um futuro bem distante). Nada de escutar Lisbôa cantando 'yesterday' ou 'it's raining man', nada de questionar as teorias filosóficas de Sufócates, e nada, nadica de nada de re-correção de provas, aulas no sábado e reposição nas nossas tardes.
Atrás de nós, ficaram momentos impagáveis. Quem não vai rir sempre que lembrar da experiência quase morte que foi a queda em lançamento oblíquo de Olímpio? E das histórias de terreiro Saul? E por acaso tem como substituir a maneira, digamos que única de Neres quando vai narrar um livro? Nada a ver. Não procede. Vilson esfregando o nariz no vidro da porta para tentar expulsar Ney Matogrosso (quer dizer, Márcio Leitte) da sala é algo sem igual, neném. Nem uma macumba feita por Saul seria capaz de alterar geneticamente uma pessoa para que ela fosse merminho, igualzinho, identiquinho a qualquer um dos nossos mestres. É o tipo da coisa: aulas como aquelas, ou é ou deixa de é.
Nós fomos rudículos, fomos congelados, fomos alegres sem pisar no sabonete e demos uma bela dor de cabeça para Marcos. Mas como já disse, se foi. Nos restam fotos, uma DELÍCIA de ser ver. Nos restam lembranças, LINDAS! E, claro, nos restam SHEN, ALCE, SEGUNDO, HUMM?! e mais uma série de pérolas que jamais serão esquecidas; nada tirado de apostilas, de prova do ITA ou de um livro de 1702: tudo veio do convívio diário, que só podia acabar em histórias que merecem serem narradas para sempre.
Vai deixar um buraco no peito, claro. Uma saudade elevada a n fatorial, quando n tende ao infinito. Só que agora, coisa feia, é hora de aproveitar o raciocínio violento que nós adquirimos, porque daqui há muito é a nossa vez de mostrar que tanto sacrifício, tantas aulas e tantas provas tinham um propósito maior que nos torturar, pobres e indefesos alunos que somos. Agora, é pedir para Deus guiar nossa mão e arrebentar nesse vestibular, arrebentar na vida. E dar muitos motivos para todas esses cabeças de mamão tomarem muitos barris de choop. E como dizia Sufócates, só acaba quando termina. Bem, como já terminou, eu vou acabando por aqui. Até porque, não pode vacilar coisa feia, que enquanto a gente brinca a concorrência tá estudando.

Beijo da gorda.

Nota importante: toda essa galera vai fazer HISTÓRIA!

Um ABRAÇO!

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Xadrez na Terra do Nunca

Comigo, você pode ser o que quiser. Pode ser impetuoso, arrogante e sádico. Mas não me venha ser hipócrita, porque hipocrisia eu não engulo. Não me fale de ideais; que droga de ideais? Admita, não passamos de peças de um jogo sem regras, peões que defendem o seu rei sem medo da morte. Nem me diga que tinha sonhos para meu futuro ou coisa parecida, isso soa como uma agressão aos meus ouvidos. Ser taciturno, admissível; ser grosso, suportável; mas falsidade não, por favor. Não me faça acreditar em promessas extravagantes, em um conjunto de viveres sem nexo. Não adianta; sei bem que nenhum de nós desceu dos céus, ou de onde quer que tenhamos vindo, simplesmente para chegar na terra e fazer o que quisermos como se fosse a coisa mais simples do mundo saciar-se de vontades. Comigo isso não funciona. Que 'pra sempre', o quê?! Tenha dó. Seja um pouco mais modesto e aceite que nada disso foi verdade, que cada palavra dita foi com a mera intenção de criar a terra dos - seus - sonhos, prender todo seu eu em um só nós, para que você pudesse viver em seu mundo primoroso, com suas marionetes esculpidas de falta de anseio. Onde, em um mundo tão absurdo, já se viu tamanho excesso de impostura? Tanta falta de devoção entranhada em um só ser, capaz de manipular entes de seu coração duro, antes carne, hoje pedra. Comigo, você pode ser o que quiser. Pode ser infeliz, ranzinzo e egoísta. Mas não me venha ser todo charlatão; a vida é breve, as verdades são urgentes. A sede do que realmente é fato cobre a nós, despojados sobreviventes no império dos poderosos.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Coquetel

Era grande sua sede.
Mas não se tratava de sede de um gole de martine, uma dose de uísque, um punhado de cerveja, algumas garrafas de vodca. Tão pouco era sede de carinho, de atenção, de luxúria, de ganância. Não era sede de retratos, músicas, beleza, viagens e pessoas.
Não era nada disso; era grande sua sede de espírito.
E preencher seu coração, que era o maior do mundo.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Cedo ou tarde

(In)Felizmente, todos se vão, um dia, ao acaso do que busca.
Se vão na força do momento, no ímpeto da razão, no movimento dos lábios que dizem adeus. Se vão no ritmo da dança, seguindo a direção dos ventos, indo contra a maré. Se vão, no procurar de uma mão que busca a outra, mas mão já não há para segurar; no impulso do abraço que encontra como amigo o tempo, que lhe afaga as lágrimas, engana o coração. Se vão para voltar, se vão para nunca mais - ainda que nunca mais seja muito tempo. Se vão por completo, se vão no abstrato, se vão e mesmo assim ainda permanecem - você.
Evidentemente,todos se vão, um dia, por descaso dos que ficam. A não ser a mim, é claro. Talvez por comodismo, talvez por segurança, tudo o que eu faço é sentar no beiral da janela e esperar. Chegará um momento, quem sabe, em que ninguém mais precisará ir... A andorinha encontra em uma só árvore todos os galhos para construir seu ninho; o beija-flor que encontra em uma só rosa o aroma que enfeitiça por toda a eternidade - que agora, nem lhe é suficiente.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Vislumbres do pesar

Um dia eu tive um sonho.
Estávamos de mãos dadas, em um velho clichê adolescente, andando sós pela praia, envolvendo os pés descalços na maré calma, que ia e vinha no mesmo ritmo da batida de nossos corações. E que corações! Pulsantes, num átimo de um olhar pareciam ansiar saltar à boca, cobiçando expressar todo o sentimento que o cérebro sozinho não resumia em palavras. Você me olhava, sereno; parecia ler em meus olhos o reflexo da lua, que via além da doce ilusão de um pálido, sofrível e único amor.
Conversamos disparates que jamais alcançaríamos; os filhos que não teríamos, a viagem que jamais chegaríamos a realizar, os momentos que nos foram suprimidos. Mas naquele momento, ah, no instante de devoção, de clareamento de paixões, deixamos nos levar pela singela aparência de que seria possível, ainda que as ondas que batiam em nossos pés nos fizessem ficar despertos, insistentes em pensar em um futuro que jamais chegaria ao presente, que sequer seria relembrado no nosso pretérito solitário, rubrico em desfalecimento de almas.
E então eu acordei, olhei para o lado e cama estava vazia; que pena, amor, você se foi e não deixou uma carta ou a porta aberta... Você se foi e só deixou saudade.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Abaixo aos pseudoviventes

E nunca disse que seria simples e em nenhum instante pensei que pudesse ser. Nesse vai e vem de moldes psicológicos e apelos corporais, há tantos céticos perdidos em nossa límpida e ímpar forma de respirar. Eles se esquivam do que, de maneira ilusionista, chamam de pudor; fazem economia de demonstrações calorosas e se incluem no grupo dos seres inanimados que existem e esquecem de viver, os politicamente corretos de aleive. Eu, por minha vez, mesmo distante de ondas violentas e abismos profundos, prefiro arriscar. Sou errada e o destino, se for mais forte que minha paixão, que se atreva a tentar me impedir. Será uma diversão.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Quebrando o gelo

Eu poderia cantar a música que escrevi,
os versos que criei.
Eu poderia sorrir para o sol,
dançar na chuva,
vagar em pensamentos.
Eu bem que devia,
vai saber,
navegar em sonhos,
plantar rosas no caminho,
trovejar alegria em desamparados.
Ah, eu deveria,
poderia,
conseguiria.
Mas hoje,
mal consigo me mover.
Previro estagnar no tempo,
refletir o momento,
só pensar em você.