sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Xadrez na Terra do Nunca

Comigo, você pode ser o que quiser. Pode ser impetuoso, arrogante e sádico. Mas não me venha ser hipócrita, porque hipocrisia eu não engulo. Não me fale de ideais; que droga de ideais? Admita, não passamos de peças de um jogo sem regras, peões que defendem o seu rei sem medo da morte. Nem me diga que tinha sonhos para meu futuro ou coisa parecida, isso soa como uma agressão aos meus ouvidos. Ser taciturno, admissível; ser grosso, suportável; mas falsidade não, por favor. Não me faça acreditar em promessas extravagantes, em um conjunto de viveres sem nexo. Não adianta; sei bem que nenhum de nós desceu dos céus, ou de onde quer que tenhamos vindo, simplesmente para chegar na terra e fazer o que quisermos como se fosse a coisa mais simples do mundo saciar-se de vontades. Comigo isso não funciona. Que 'pra sempre', o quê?! Tenha dó. Seja um pouco mais modesto e aceite que nada disso foi verdade, que cada palavra dita foi com a mera intenção de criar a terra dos - seus - sonhos, prender todo seu eu em um só nós, para que você pudesse viver em seu mundo primoroso, com suas marionetes esculpidas de falta de anseio. Onde, em um mundo tão absurdo, já se viu tamanho excesso de impostura? Tanta falta de devoção entranhada em um só ser, capaz de manipular entes de seu coração duro, antes carne, hoje pedra. Comigo, você pode ser o que quiser. Pode ser infeliz, ranzinzo e egoísta. Mas não me venha ser todo charlatão; a vida é breve, as verdades são urgentes. A sede do que realmente é fato cobre a nós, despojados sobreviventes no império dos poderosos.

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