Sei lá eu quantos anos eu tinha quando ganhei minha primeira câmera. Uns nove, talvez? Não lembro nem o modelo. A única coisa que sei ao certo é que eu gastava toda a fortuna que eu ganhava de mesada (era feliz com 20 reais por mês, acreditem) com filmes e revelações. E como eu sou apegada, ainda colecionava os rolos de negativos do filme fotográfico. Minha mãe achava a maior loucura do mundo; desconsiderando todos os meus sentimentos, certa vez ela jogou no lixo todos os meus negativos. Como resposta, eu, no auge da minha maturidade, resolvi fazer greve “de não tomar refrigerante” até que ela admitisse que fotografia, pra mim, era um lance sério. Óbvio que ela não me deu bola.
Quando eu fiz 12 anos, mamãe achou que eu merecia um pouco mais de atenção, então eu ganhei minha primeira câmera digital. Era um modelo ridículo de ruim da Olympus, mas eu achava o último lançamento. Levava a câmera escondido pra escola e quando chegava em casa, ao invés de estudar, almoçar ou fazer qualquer outra coisa de gente normal, pegava a câmera e começava a mexer naquelas configurações que eu nem sabia o que significavam. Como eu nunca tive talento pra ser autodidata, não saia nada de útil. Foi nessa época também que eu dediquei horas a tirar foto em frente ao espelho, fazendo biquinho e o sinal da paz. Quem nunca, não é?
Mas como felicidade de pobre dura pouco, minha câmera quebrou (na verdade, eu derramei perfume sobre ela) e eu passei uns péssimos 2 anos sendo fotógrafa com câmera alheia. Quando eu estava no 2º ano do Ensino Médio, mamãe cansou de me ouvir reclamar na vida e me deu uma super (uau) cyber-shot da Sony. Todo mundo já teve uma dessas, acho que até hoje é um clássico. Mas essa durou menos ainda que a anterior. Quando viajei na formatura do 3º ano, obviamente levei a minha companheira, mal sabendo que estava destinando-a a morte: como fui para Camocim, onde tem dunas, a areia da cidade inteira entrou na minha câmera. Depois de lutar bravamente, a coitada pifou e mais uma vez eu fiquei órfã.
Como isso foi perto do meu aniversário, tratei de pedir outra cyber-shot no lugar da antiga. O problema é que eu nunca tive sorte com eletrônicos, então essa minha câmera vivia com defeito que assistência nenhuma resolvia. Depois de 1 ano entre idas e vindas de consertos, a câmera resolveu morrer assim que a garantia acabou. Dessa vez mamãe não ficou com pena de mim e disse que não me daria mais câmera nenhuma até eu deixar de ser irresponsável. Mães às vezes não compreendem nada, né? Ela acha mesmo que eu ia quebrar minhas câmeras de propósito? Por favor, né. Nisso, eu acabei passando 2 anos sem câmera, uma espécie de castigo por tudo de ruim que já tinha feito na vida até então.
Passei metade de 2011 juntando dinheiro pra comprar uma câmera – óbvio que eu não queria mais cyber-shot depois de tantos traumas. Tinha decidido partir pra uma câmera com lentes intercambiáveis, mas como a mais modesta delas custava muito mais do que eu podia pagar, fiquei na minha. Até que em março de 2012 Deus resolveu trabalhar ao meu favor. Papai me deu uma quantia razoável de dinheiro como presente de aniversário e, juntando com minhas economias, consegui arrecadar o suficiente para minha sogra, que ia pra Miami, comprar minha câmera por lá – um modelo recém-lançado da Nikon que eu vinha namorando desde que anunciaram. Minha sogra conseguiu comprá-la tranquilamente e ela foi carinhosamente batizada de Kate. E se você espera alguma história triste sobre o fim da minha câmera, esqueça, porque ela ainda está em perfeito estado – pelo menos por enquanto.
O fato é que ontem, em um jantar de família, um primo, ao me olhar usando minha câmera, me perguntou por que eu cuidava dela tanto e a segurava como se fosse de vidro. Eu não contei toda essa história pra ele, claro, então simplesmente respondi “porque ela foi cara” (o que não deixa de ser verdade). Mamãe ainda olha de um jeito torto pra minha câmera e diz que eu joguei dinheiro fora comprando uma lente nova – mas também não pode me ver tirando fotos que pede logo uma dela, porque a minha câmera “deixa até a gente mais bonito, né?”. E essa semana eu recebi, como prêmio de um concurso fotográfico, uma câmera analógica, a minha primeira em todo esse tempo desde a era digital. E quando eu começar a revelar minhas fotos, quero é ver quem dessa vez vai jogar meus rolos de negativo no lixo. Ouviu, mãe?