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segunda-feira, 28 de julho de 2014

I go to seek a Great Perhaps

Há alguns dias, eu fiz um compromisso de honestidade. Com quem, eu não sei exatamente, e com que intuito, muito menos. A verdade é que eu passei a vida inteira escondendo as piores coisas que se passam dentro de mim, não só pelo que as pessoas achariam se soubessem, mas por causa do que eu própria já achava de mim. Acreditem, não tenho exatamente um caso de amor comigo mesma. Não são raros os dias em que não me suporto. Por outro lado, estar aqui, hoje, me dando uma última chance, é a maior prova de amor que eu poderia me oferecer.
Um dia me disseram que desabafar faz bem, que conversar alivia a alma. Nunca experimentei a sensação, mas sei bem como é engolir a seco as próprias mágoas e garanto: não tem um gosto bom. Então ok, vamos tentar uma outra abordagem: vamos ser sinceros, de uma maneira que eu nunca fui na vida. Só Deus sabe por quanto tempo e até onde isso vai me levar.
Se é para ser honesta, aqui vamos nós: meu nome (que por sinal, eu odeio) é Deyse, tenho 22 anos e, muito embora me autodenomine advogada, a verdade é eu mesma não poderia pensar em uma titulação mais irônica - se tem alguém no mundo que hoje é incapaz de defender outra pessoa ou alguma causa, esse alguém sou eu. Atualmente, estou gravitando naquele período pós-aulas e que antecipa a colação de grau, então podemos dizer que, verdadeiramente, sou uma desocupada - e qual é mesmo aquele ditado sobre mente vazia...? Esse meu atual estado por si só é uma problemática bastante extensa, mas vamos por enquanto resumir a coisa da seguinte maneira: eu não faço ideia do que eu vou fazer com a minha vida daqui pra frente.
Tenho passado os meus dias lendo livros, vendo filmes, comprando coisas que não vou usar e escrevendo textos banais e inúteis tais como esse, que ninguém vai ler porque ninguém se importa. Talvez nem eu me importe, mas foi o que eu disse anteriormente: me sobra tempo livre e o diabo anda fazendo a festa com a minha imaginação fértil. Além disso, tenho pouca vontade de sair de casa, mas não consigo parar de odiar o fato de passar o dia de pijamas, dormindo o sono que nem mais tenho. 
Queria muito ligar para alguém, mas não saberia o que dizer e tão pouco tenho para quem ligar - e aqui vai um fato muito importante sobre mim mesma: eu tenho vivido só. Na maioria dos dias, não converso com ninguém que não seja a empregada de casa ou meu irmão - só o básico, aliás, o suficiente para o alerta vermelho deles não disparar na minha direção. Não estou me esforçando para mudar esse quadro, o que é particularmente triste, mas não o suficiente para me obrigar a fazer algo a respeito. Por isso, passo o dia conversando comigo mesma e ouvindo meus próprios conselhos o que, desconfio, é um dos principais motivos pelos quais eu tenho tido tão pouca vontade de viver.
Estou aqui para falar dos meus problemas, na esperança de que, ao tirá-los da minha mente e torná-los algo minimamente real, eu consiga encará-los e mandar todos para o quinto dos infernos. Espero que ninguém esteja aguardando qualquer texto feliz e cheio de superação, porque, pelo que pretendo, as alegrias que eu por ventura venha a ter não vão ter relação alguma com o que eu faço aqui - vão ser vividas lá fora, bem longe de toda essa carga negativa que vez ou outra eu deposito nesse espaço. É por isso que eu decidi separar bem as coisas: sou feliz do outro lado desse muro; aqui, eu sou só mais uma garota fodida pela vida, pelas pessoas e por si mesma.

Nunca pensei que fosse tão fácil ser sincera. E tão absurdamente vergonhoso.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Sobre ser quem eu sou


Verdade seja dita: não sei exatamente o quê me fez voltar aqui.
Talvez tenha sido o término da faculdade, a inquietude de alguns afastamentos, a força de novas decepções, o tempo livre em excesso... Ou talvez eu seja apenas irremediavelmente cíclica. Acho que foi muita pretensão minha achar que nunca mais iria precisar desse lugar ou de usar as palavras para justificar os pensamentos que se amontoam na minha cabeça, até o ponto em que eu me ausento do mundo exterior e passo a viver dentro de mim. Eu sempre precisei escrever para conseguir existir. Sempre. Por que seria diferente agora? Não é nenhum pecado, afinal.
Ou, pelo menos, é isso que venho dizendo a minha mesma, em uma tentativa ridícula de justificar aquilo que eu chamo carinhosamente de "o meu grande fracasso". Voltei para a estaca zero, meus amigos. Cá entre nós, fazia muito tempo que eu não visitava essa sensação de vazio e não posso dizer que estava exatamente com saudades. Mas essa não é a grande graça da vida, afinal? Ela simplesmente é, sem dar bola para aquilo que deveria ser. E o que a gente queria que fosse, oras, nunca deixa de ser apenas aquilo que a gente queria que fosse.
Atualmente, eu classificaria o meu estado como "preocupante". A partir desse estágio é só ladeira abaixo e eu, que conheço essa queda como ninguém, preciso urgentemente evitar que ela aconteça. Então eu olho para a folha em branco, esperando que algo magicamente se revele e me mostre o próximo passo em direção à ascensão ou a qualquer outro caminho que não me derrube de vez.
O problema é que eu preciso me reinventar, porque ser a mesma desde que eu me lembro de ser alguém é algo que vem me aborrecendo. Talvez, dessa vez, eu apele para a honestidade - o que, para quem entende o nome desse blog, pode parecer uma promessa inútil. Não é segredo para ninguém que eu sempre tive mais a intenção de soar poética de que soar verdadeira e talvez seja por isso que, por mais que eu fale, ainda não consegui por em palavras metade do que eu sinto... Mas será que alguém consegue?
Ai, droga. Até as lamúrias são as mesmas. É quase como se eu não soubesse crescer. Ou estivesse morrendo de medo aprender. Vai que é isso: não sei ser uma nova versão de mim mesma e isso me obriga a todo o tempo recorrer àquela versão antiga, que não se apega a ninguém, que não ama ninguém, que apenas bebe e se lamenta e lê e escreve o tempo todo, como se se esconder debaixo de uma pilha de textos sem sentido fosse uma válvula de escape eficaz.

Acho que me perdi de novo em mim e voltei aqui para ver se me encontro novamente.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Como não tratar a sua vida


Incrível como as coisas podem mudar da noite para o dia e mais incrível ainda como se pode passar um mês sem que você consiga sair no mesmo buraco onde se enfiou. 

A última vez que eu vim aqui eu chorei todas as pitangas acumuladas que tinha para chorar. Não que qualquer coisa tenha melhorado, mas eu acho que a gente acaba se acostumando com toda a pressão e o terror que preveem o término e início de tudo. Aliás, acho que nós acabamos nos acostumando com qualquer coisa, principalmente quando é um caminho sem volta. E, meus amigos, a responsabilidade é um caminho sem volta. Uma vez que você a tenha, pode dar um adeus definitivo a toda a sua inocência e ignorância. O conhecimento sobre as coisas e sobre a vida é mesmo algo que não tem devolução. Talvez seja por isso que eu me martirize tanto por ter querido a todo custo, o mais breve possível, ser dona do meu nariz e tomar minhas decisões independente do que fulano ou ciclano achavam. Eu queria tanto "ser quem eu sou" que sequer parei para pensar na questão principal: e por acaso já descobri quem é esse "eu" que eu tanto quero ser? Alguém deveria ter me avisado que, uma vez eu tendo começado a cuidar de mim mesma, não poderia voltar e pedir para alguém me cuidar quando fosse conveniente. Alguém teria que ter me avisado que “ter responsabilidade” é um dos poucos estados definitivos pelo quais passamos ao longo da vida. 

Nunca mais vai chegar aquele dia em que eu vou poder respirar e dizer: é, hoje eu não tenho absolutamente nada para fazer. Sempre vai ter alguma tarefa acumulada em cima da mesa, uma meta esperando para ser atingida, um prazo para cumprir. Essa é uma conclusão meio patética, na verdade, mas sabe quando as obviedades sempre são adiadas? Foi assim a minha vida toda, até essa verdade, a de que eu tenho mesmo uma vida para cuidar, cair de paraquedas no meu colo. E a gente é tão bobo por tanto tempo sobre “ter uma vida” e cuidar dela, já repararam? Quando a gente é adolescente e acha que tem alguém falando mal de nós pelos corredores da escola, começamos a reclamar que tem gente demais “cuidando da nossa vida”. Hoje em dia, um ou outro sempre dispara pelas redes sociais algo como “ninguém tem louça pra lavar ao invés de cuidar da minha vida?”. “Cuidar da minha vida” sempre foi um termo tão vulgarizado, tão subestimado. Acaba que cuidar da sua vida, controlá-la em todos os seus aspectos, é muito mais que fazer fofoca ou dizer o que está certo ou errado – e isso, infelizmente, você só descobre quando percebe que existe coisa mais importante no mundo além daquilo que os outros pensam sobre você. Acaba que ninguém cuida verdadeiramente da vida de ninguém – nós queremos fugir até mesmo na hora de cuidar das nossas próprias. Hoje, eu, que sempre falei mal das intrometidas, daria tudo para ter alguém verdadeiramente cuidando da minha vida por mim. Mas lembra de o que eu disse sobre responsabilidade não ter devolução? Pois é. Só me resta engolir o choro.

Esse provavelmente é um dos textos mais pessoais, mais melancólicos e mais absolutamente sem nexo que esse blog já viu, mas eu precisava passar por esse processo quase de aceitação para prosseguir para algo mais agradável. Depois de tanto drama, agora a gente pode voltar a falar de coisa boa.

sábado, 16 de março de 2013

Cresci. E agora?


Tem sempre aqueles dias que a gente cansa de viver como se tudo fosse uma grande aventura. Eu sou uma pessoa que nasceu sem fé alguma na vida e Deus sabe como tenho lutado para mudar. Como tenho me esforçado para acreditar mais em mim mesma, acreditar mais nos outros e ter aquela persistência inatingível que invejo em muita gente. Nem preciso dizer que sou um verdadeiro fracasso quando tento ser alguém forte. Desnecessário dizer que quando acontecem coisas que acabam com todos os meus planos, eu tenho uma séria dificuldade em recomeçar. Eu entro em negação diante de um recomeço. Eu tenho raiva, tento barganhar, entro em uma depressão de não querer sair da cama e, por fim, eu aceito o inevitável, quase como se precisasse passar pelas cinco fases do luto diante de toda perda, grande ou pequena.

Acho que estou na fase da barganha. Ando negociando comigo mesma um recomeço que vem sendo adiado há semanas. Por quanto tempo a gente pode enrolar a vida até ter que parar de fingir que ela não é real? Até quando podemos voltar a ter 10 anos, sem responsabilidade nenhuma e só o dinheiro dos pais no bolso? Para mim, isso tem prazo de validade: até eu me formar. Um ano e 4 meses até lá. Um ano e 4 meses até eu passar pelo último caminho da obrigação de crescer. Isso vem me deixado em pânico, quase uma vontade de voltar para o primeiro período e ser protegida pela carapuça de uma caloura. E se eu me formar e for só isso? E se eu não conseguir um emprego? E se eu não passar na prova da OAB? E se eu não passar em um concurso? E se eu fizer 30 anos morando na casa comprada pelos meus pais, tendo que conviver com a decepção deles? 

Não consigo parar de pensar em como gostaria que a minha vida fosse um livro. Acho que talvez isso me garantisse a certeza de alguma coisa. Assim, eu poderia fazer comigo o que faço sempre que estou lendo a história de uma garota até legal, mas que insiste em se dar mal na vida: traindo a ordem de leitura, corro até o meio ou até mesmo ao final do livro para saber se ela já está melhor, se conseguiu o emprego, se o cara se declarou a ela, se os problemas com a família acabaram. E quando eu vejo que tudo vai ficar bem com a tal moça, a sensação é incrível: o peso sai dos meus ombros e eu leio o livro com um sentimento muito melhor... Uma sensação de “tudo bem isso acontecer, porque sei que vai acabar bem”. Queria ter a mesma certeza comigo. 

Queria poder avançar algumas páginas até o fim da minha linha cronológica só para saber se todas as dificuldades vão se justificar. Mais uma vez, infelizmente, minha vida não é um livro para ampla consulta. Parece mais um livro que ainda está sendo escrito ou apenas o primeiro volume de uma trilogia. E eu jamais vou ter segurança alguma de qualquer acontecimento que seja. Então eu penso em mim mesma com 10 anos, dizendo para todo mundo que eu queria ser pediatra (isso foi antes de ter aulas de química e biologia, claro) quando crescesse. Alguém tinha que ter me dito que não era tão simples. Alguém tinha que me dizer, antes do vestibular, que o meu futuro não está na escolha, mas sim no que eu vou fazer com ela. Alguém tinha que me dizer que as nossas perguntas nunca se esgotam e que as respostas são cada vez mais escassas. E, por fim, alguém tinha que me dizer que as nossas intenções são sempre as melhores e nossos objetivos sempre justos, mas que o caminho até tudo isso nunca é breve, nunca é fácil e tão pouco é previsível.


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Encontrando o lado bom da vida

Ou: O que eu preciso aprender com Pat Peoples 

"O lado bom da vida" é o livro popular do momento, essencialmente, por conta da sua adaptação cinematográfica, que foi indicada ao Oscar e tem a queridinha Jennifer Lawrence no elenco. Mas eis que sua história é a seguinte: Pat Peoples, um cara com problemas mentais que passou um tempo internado em uma clínica psiquiátrica, finalmente volta para casa. Pat tem um único objetivo de vida: se tornar uma pessoa melhor, já que o seu "eu" antigo causou mais estragos do que ele consegue lembrar. Assim, Pat emagrece e fica com um corpo sarado, passa a ser atencioso com as pessoas e controla sua obsessão por futebol. Pat só é apoiado pela mãe, enquanto seu pai o ignora e seu irmão e seus amigos meio que fingem que Pat nunca esteve doente. No meio dessa confusão toda surge Tiffany, que também passou um período tomando rivotril e derivados após a morte traumática do seu marido. Sabe quando dizem que remédio para doido é um doido e meio? Então, não é por acaso que Pat e Tiffany constroem uma amizade, com perdão do trocadilho infeliz, meio maluca. 


Vocês entendam quão bizarro é o cenário desse livro? Mas depois de um final sem cara de fim e de uma adaptação cinematográfica horrorosa, sabe qual é a mensagem que “O lado bom da vida” me deixa? As pessoas podem mudar, não importa o quão oposto elas sejam daquilo que querem ou precisam ser. Foi isso que o Pat fez. Ele mudou por ele mesmo. Ele mudou porque não aguentava mais ser quem ele era, porque tinha se tornado auto-destrutivo, porque a vida estava acontecendo sem que ele pudesse controlar. Eu sei que nem a ideia do livro nem o que eu estou falando são novidades - mas não posso negar que a carapaça me serviu perfeitamente, porque eu queria ter toda aquela coragem de dizer para mim mesma: você vai melhorar e vai fazer as coisas melhorarem e isso vai acontecer agora.

A base dessa mudança toda é a filosofia de vida do Pat, que é a seguinte: prefira ser gentil a ter razão. Não é mesmo a coisa mais equilibrada e sã já dita por cara com problemas mentais? Parando para pensar, é algo absurdamente simples; mas, como tudo que é simples, os seres humanos deram um jeito de complicar e acabaram invertendo a ordem dos valores da frase. Eu mesma faço isso; tenho o costume de travar guerras com quem quer que seja só para ter razão sempre - e só, para no fim do dia, descobrir que isso nada me acrescentou ou só me impediu de ser uma pessoa melhor. E eu não vou nem falar de todas as metas e objetivos que eu traço diariamente e abandono ao longo da semana. Não é exagero dizer que passei a última madrugada em claro, pensando em tudo que não dá certo na minha vida só porque eu tenho preguiça, porque me falta força de vontade, porque ainda não estou determinada a fazer. É ridículo admitir que tudo em mim tem um potencial muito grande que eu desperdiço.


E sabe o que me incomoda mais em tudo isso? As coisas só são assim porque eu, você, o resto do mundo queremos. Porque eu ainda não movi um dedo para fazer diferente. Porque eu me conformei de uma forma assustadora e deixei tudo para depois. Sabe quando você era criança e começava a montar um objeto não identificado com suas peças de lego? Então, essa sou eu vivendo a minha vida. Essa sou eu pegando pedacinhos que poderiam me ajudar a construir o que eu quisesse e os desperdiçando com coisas sem sentido. Essa foi a pior metáfora da minha vida, mas ainda bem que não é tão ruim quanto parece, porque eis que o Pat me ensinou também que nada precisa fazer muito sentido ao longo do caminho, se você souber determinar onde quer chegar e não se perder disso. E assim a minha ficha caiu e eu percebi que se eu resgatar o fundo de força de vontade que ainda me resta, muita coisa pode ser salva, ainda que aos poucos. Ainda preciso me preparar muito até conseguir fazer certas coisas, mas eu sei que já está nossa de assumir responsabilidade por aquilo que já sou capaz.

Daí você pensa: nossa, Deyse, isso é só um livro, claro que na vida real a gente não acorda um dia e realmente faz diferente... E eu estou dizendo que isso ocorre de um dia para o outro? Estou dizendo que é fácil, afinal? Não foi fácil para o Pat. Não é nem um pingo fácil para mim e olhe que eu ainda nem comecei pra valer a minha "grande mudança". E não me venham com desculpas como "mas esse é meu jeito" ou "esse é meu destino", que tudo isso é coisa de gente conformada. Tudo isso é o tipo de coisa que eu não quero mais repetir. E sabe por que é tão difícil mudar o que quer que seja? Porque as pessoas, as circunstâncias, tudo que nos cerca vai contra a nossa mudança. Porque quase ninguém acredita em gente que muda. Porque o mundo julga e eterniza as pessoas por aquilo que elas foram. Porque você pode até se dar uma segunda chance, mas quase sempre estará sozinho nessa empreitada. Mas ninguém, absolutamente ninguém consegue as coisas sem ajuda. E no fim, a gente se entrega e fica nessa zona de (des)conforto da qual é tão difícil sair. É tipo um ciclo vicioso de conformismo, do qual eu vou lutar para pular fora antes que fique tonta de tanto dar voltas a ponto de não conseguir mais me manter em pé.

E no meio disso tudo, qual seria o lado bom da vida? Talvez seja porque depois da "grande mudança", que às vezes nem precisa ser tão grande assim, exista um lado bom, afinal. E eu sei que já disse isso antes, mas não custa nada acreditar mais uma vez: se existe esse lado bom, vou começar a procurá-lo já.

E se o obstáculo for muito grande, não se esqueça de rir bem na cara dele.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Escrever é uma doença sem cura

Escrever às vezes me parte o coração. Queria eu poder dizer que fazer um bom texto é fácil como reconhecer um outro tão bom, escrito por alguém. Escrever um texto cotidiano, banal como essas linhas, é como contar uma história inventada na hora: você não sabe como começar, mas depois de se engajar no ritmo, flui como se desde o início você já soubesse exatamente como terminar. Literariamente falando, as coisas são mais complexas. Quando estou feliz, a minha linda de produção se esgota; deixo de enxergar as coisas como ponto de partida de um texto e passo a vê-las como algo que simplesmente existe, que eu não preciso reproduzir ou transformar em um ou dois pares de frases bonitas. 

Quando estou triste, por outro lado, as palavras parecem água jorrando de um poço que transborda. Quando minha alma está chorosa, eu não consigo me conter, e mesmo quando tento, sinto que estou sufocando dentro de mim mesma. Isso existe, morrer de silêncio? Se sim, eis aqui a minha prova: escrever me dói como se fosse anti-natural, como se eu tentasse andar por um mundo de cabeça para baixo. Escrever me dói como a certeza que depois de findo o texto, ele se perderá no tempo das pessoas e no meu próprio esquecimento. Pior: depois de finda a origem da dor, as linhas dos textos se embaralham e não fazem sentido algum, como se não tivessem sido escritas por mim. E insistentemente eu me pergunto: por que não desistir das palavras? Quase me convenço que sim, melhor abandoná-las no fundo da gaveta. 

Mas então acontece. Depois de tanto doer, por um único segundo, surge aquele momento maravilhoso em que escrever me liberta e me faz alcançar aquele ponto que só atinjo depois de sofrer tanto. Escrever dói tanto que, naquele segundo, me paralisa os sentidos e a única coisa compreensível em meio a tanta escuridão é um fiapo de luz distante, que passa a ser perseguido como se fosse a última palavra daquele texto. Ultimamente, me encontro imparcial no meio dessa guerra onde alguém tem que vencer. De um lado, a dor que precisa existir para que eu, concretamente, sinta algo; de outro lado, a paz que me seduz porque simplesmente existe, sem provas escritas. 

Sim, escrever me dói como um tiro nas costas dado por um amigo, me parte em duas antes que eu perceba que não sou eu que controlo as palavras, mas que elas, até onde puderem, me controlarão. Ocorre que talvez eu esteja descobrindo aos poucos que a dor que eu sinto tem o seu objetivo próprio. Ela não simplesmente dói, mas dói com um motivo forte o suficiente que transforma essa dor em beleza. Doer é um mal à minha escrita, mas também é a sua essência. Escrever me dói como nascer no mundo e sobreviver a ele.


sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Por hoje

Eu me repetia achando que tinha chance, me dava uma chance achando que tinha escolha, escolhia algo fingindo um livre-arbítrio. Hoje, não sou pássaro solto, não sou pena ao vento, não sou chuva de verão – vem quando quer, se vai em mesma velocidade. Sim, sim, andei pensando que a curva da alegria é mais aberta e que muito cedo virei escrava da felicidade. Tudo que faço é em nome dela e, quando finjo não ser, é quando mais a procuro. Vez em quando saio de dentro de mim para me dar uma olhada e me surpreendo ao constatar que a postura está ereta, que o sorriso não é falso, que o olhar não está distante. Será mesmo isso possível? Será que a vida, afinal, é menos injusta do que sempre pareceu? Sempre fui poeta das dores, sempre cantei minha infelicidade como quem canta o coro da própria morte; acontece que há muito tempo não tenho mais voz para os meus urros, não tenho dores que expressem palavras e a única música que ouço é a voz da consciência dizendo para seguir em frente sem medo e sem olhar para trás. Sei que sou dona dessas fases que duram somente o tempo suficiente para que eu me abrigue novamente dentro de mim e me sinta, mais vez, estranha, desencaixada, fora de órbita. Minha vida virou uma página de livro rasgada pela metade, uma frase interrompida ao meio, uma vontade que nunca dura o tempo suficiente para ser real. Um susto. Mas quem eu quero enganar? Não quero mentir e dizer que espero que a próxima brisa me leve de volta ao descaminho, porque o aconchego de um lugar e a vontade de permanecer é o mais próximo que eu cheguei da satisfação plena. Sim, sou pássaro de asas quebradas, sou tempestade de inverno. Sei que estou dizendo nada com coisa alguma. Mas nunca fiz tanto sentido. 

Não encontrei um amor que me tire a razão, não fiz amizade com uma estrela do rock e muito menos fugi para onde sempre quis. Mas continuo me surpreendendo, todas as noites. Dentro de mim.


domingo, 8 de julho de 2012

Felicidade na mala

A fachada que me encantou. Além do cheiro do café, que era um tanto incomum, de verdade tudo me parecia normal: aquelas paredes de tijolo velho, as cortinas vermelhas com laços amarelos enormes amarrando-as e uma mesa no fundo, no canto da parede. Sob ela, a luz fraca parceira para esses dias obscuros. Entrei e quando o fiz, pensei imediatamente: é hoje. Nem me dei ao trabalho de abrir o Gabriel García Márquez que na mala pesada carregada na mão esquerda, porque seria inútil tentar entender qualquer jogo de sentimentos sem antes observar por um tempo ínfimo aquela situação que eu me encontrava. Quando a garçonete caminhou até mim, sem trajar um daqueles uniformes bem passados e me servindo uma xícara de café frio, eu percebi que aquele local terrível que eu estava admirando, que o serviço mal feito e o gosto fraco do pó de café desenhavam o único desfecho que caberia a mim. É claro como automaticamente se rejeita alguém que é triste pelo simples fato de o ser. Essa obrigatoriedade que é imposta de sorrir mesmo quando se tem vontade de correr em desespero nunca me convenceu, mas ultimamente vinha me sufocando como aquela falta de ar que a gente sente em locais fechados e cheios de gente que gosta de beber cerveja barata e vinho de supermercado. Andam falando que os meus textos estão tristes demais. Por isso eu resolvi mergulhar nessa esperança de que agosto chegará logo e que a nuvem  estática de julho simplesmente passará. Tirei da gaveta todos aqueles textos antigos, cheios daquelas palavras tortas, e me deu uma vontade tão grande de rir de mim mesma: como eu posso ser assim, tão drástica e trágica? É um terrível filme preto e branco, um monólogo chato onde só eu grito, só eu sinto, só eu sofro. Contento-me em viver de retalhos de uma alma nada nobre e acho que isso é o justo a mim mesma; incremento essa vida com perguntas cujas respostas eu sinceramente não faço a mínima questão de saber. Mas o que seria de um bom sofrimento se não fosse aquilo que sempre te atormenta e consome e destrói? Depois é que a gente percebe que não há nada a ser descoberto ou desvendado. É tal fácil perceber que está tudo aqui em nossas mãos: o café, o colorido do céu, o filme francês, o jornal de ontem, o brownie, o cd de The Smiths... Tudo aquilo que supostamente precisamos para atingir qualquer nível de um contentamento pessoal. Não é preciso sentir tanta falta, acumular tragédias e morrer de saudade. Está tudo aqui, a dois passos, e a cegueira é incrivelmente forte que só possibilita enxergar a beleza das coisas por questões de segundos; logo depois, lá está o peso de julho de novo em nossas costas, como se o mês não fosse acabar semana que vem. Mas ainda assim, medindo e pesando as minhas queixas e cada vez tendo mais certeza que eu deveria parar de boicotar a mim mesmo e ser feliz de uma vez – dar graças a Deus por tudo de bom e justo que vem acontecendo – eu ainda consigo encontrar um sabor delicioso em viver sozinho, amargurado e escrevendo como se isso fosse salvar a minha vida – que nem precisa ser salva, por fim. Cansei de explicar porque sinto esse gozo de me tirar do mundo cada vez que eu me entrego à misantropia, aos livros, às frases clichês e aos sentimentos mais fétidos porque, oras, não há nada a ser compreendido, aceitado ou concordado. É só o meu jeito de ver as coisas e a minha capacidade de me recuperar e dar a volta por cima quando eu cansar dessa arte de viver uma tristeza que não é minha – e quem poderá me julgar por isso? Quem poderá me condenar por não querer viver essa vida perfeita e preferir me sentir humano, vez ou outra, quando percebo que ainda sangro e ainda morro de amor? Assim, sem (querer fazer) sentido ou ter direção, eu escrevi por horas. Sem pensar nada, sem opinião, só mesmo por prazer. Só o puro e incontrolado desenhar de palavras, uma coisa meio sem fim, sabe? Essa vontade incompreensível que a gente tem de colocar tudo imediatamente para fora como se fosse parar de doer – e vemos que não para, mas sobra essa indignação, que também tem que ser mostrada, das coisas infelizmente não serem exatamente como nossa mente imagina, nem para mim nem para o resto do mundo que tenta me encaixar nesses padrões que eu visivelmente não suporto. No tempo que estive aqui, só parei para pensar como as janelas abertas me fazem respirar muito mais fácil. Esse ambiente de paz me faz sentir muito mais que uma simples tranqüilidade; é quase uma possibilidade de libertinagem, de se permitir sem qualquer interrupção, de ser capaz de gostar até do repugnante, de sentar numa cadeira velha e sentir que tudo bem com isso. Tem coisa melhor do que ser viver sem restrições? De viver sem rótulos, sem a necessidade de dizer “estou feliz” ou “estou triste”, de não ter medo de sentir o que for, de não distinguir o choro do sorriso, de não evitar abraçar você mesmo sem vergonha de não ser exatamente o que devia? Ainda não provei algo que me fizesse mais bem, até quando aparentemente faz mal. Mas nos poucos instantes que passei por aqui, notei que a calmaria realmente existe e para chegar lá, basta paciência e um pouco de fé – e isso eu tenho em mim mesmo, e de sobra, acreditem. Basta eu dizer: agora é a hora. 

 Agora, posso ler o meu livro?

* esse texto faz parte do meme "Recicle o título", onde um texto seria produzido a partir de um título colhido de postagem de outro blog.

sábado, 21 de abril de 2012

Um momento distante

para ouvir: Sweet disposition - The Temper Trap



song of desperation,
I played then for you...

a moment, a love,
a dream, a laugh,
a kiss, a cry,
our rights, our wrongs... 



Nos últimos tempos, o único que não me traiu foi o mar. Aquele vai e vem de ondas nunca me deixou esperando, nunca me deixou só, nunca me decepcionou: sempre haveria volta. À beira mar eu me sentia em uma espécie de solidão acompanhada – existe isso, solidão sem estar só? Olhei para os lados pensando se haveria alguém que valesse a pena, que eu pudesse chamar de companheiro, pra quem eu pudesse dar abrigo, quem pudesse me oferecer um ombro, um abraço ou uma verdade, ainda que dolorida. Não havia. Pensei, então: estou acompanhada pela solidão. Estaria também em paz, se a música da última noite não tivesse ecoado em minha mente. Como se ninguém estivesse te observando, ecoava em meus ouvidos, me importunada a paciência, me deixava contrariada. Eu sei, eu sinto cada passo sendo monitorado – tive que admitir. Sinto o desapontamento, também. Cada vez que nos cruzamos no corredor e os olhares perigosamente e sem querer se encontram, eu sinto exatamente isso: uma necessidade tremenda de um momento que nunca mais aconteceu. Um sonho, uma risada, uma combinação de pensamentos... Como dois anos podem mudar tanto em dois meses? Como pode haver tanto desencontro entre duas pessoas separadas por uma avenida, alguns carros, muitas coisas não ditas e tanto sentimento oculto? A nova circunstância entre nós é o silêncio – logo ele, que nunca foi nosso companheiro, é o único que ainda torna tudo isso suportável. O silêncio é aquilo que adia mais um pouco o fim que se torna cada vez mais nítido. Eu consigo enxergar, você não? Já posso até prever e tenho ensaiado em frente ao espelho um “oi, como você está?” sem nenhuma pretensão que minha pergunta casual seja de alguma forma respondida. Eu sei que ainda posso te ligar. Sei que a qualquer momento isso será ridiculamente superado e seguiremos as nossas vidas com uma expressão rude no rosto e o pensamento de “o que mais se poderia fazer?”. Mas eu não quero, porque ouvir sua voz só por uma linha telefônica é incômodo demais para quem queria mesmo era as palavras de um silêncio presente, daqueles que parecia fazer carinhos em nós quando, sem dizermos absolutamente nada, já havíamos dito tudo. Nunca fui dessas que superam facilmente as dores como se no dia anterior não estivesse com o peito dilacerado e abraçado a decepção. Nada me incomoda mais que o excesso de coisas não ditas. Nunca fiz questão de coisas facilmente ou falsamente perdoáveis. Tenho, sim, vontade de bater mais uma vez à sua porta e sem descaminhos, indagar que porra é acha que estamos fazendo. Assim mesmo: sem orgulho ou vergonha alguma, eu renunciaria inclusive a essa minha sensação de que só eu estou tentando ver as coisas pelo lado bom. Mas eu tenho medo de algo mais terrível acontecer: que não haja nada a ser dito. Que não tenha remédio e que o fim já tenha chegado sem eu me dar conta. Sei que somos jovens e irritantemente parecidas – sei que temos outros problemas e outras vidas e outros abraços. Mas não me peça apenas para ficar aqui, esperando você chegar; não me peça para ver ir embora todos os momentos em que precisei de você até só ficar aquilo no que você é absolutamente dispensável. Não me peça para esquecer, nem que seja por pouco dias, porque minha memória ainda não aprendeu com o mar. Porque nada é mim é tal como uma onda. Porque nem tudo que vai, volta - mesmo que volte, não há garantia de que seja como um dia foi. Isso de fato soa como uma canção de desespero para você. Cante-a, se quiser. E não pare até que tudo isso tenha um fim.

sábado, 14 de abril de 2012

Antiga(mente)


How many special people change? 
How many lives are living strange? 

Tenho repetido o roteiro dessa história sempre com as mesmas palavras e sentimentos. Falar sobre o modo com que me relaciono comigo e com ou outros virou um desses dramas clichês que nos fazem deixar o cinema antes de chegar na metade da história – os personagens não sabem interpretar nem a si mesmos e ficam em um eterno movimento cíclico de mesmas escolhas, mesmos erros, mesmas lamentações, mesma falta de compreensão sobre aquilo que já é café morno até para si próprio. Não interessa se busco entender os problemas de um dia ou um ano atrás – é sempre a mesma ordem inevitável de coisas que só me fazem chegar à conclusão de que estou mesmo condenada a mim mesma, que sou a perdição da minha própria mente, que sou prisioneira da minha falta de vontade de conduzir a dança sem ninguém pisando nos meus sapatos e me dizendo que não gosta da música que está tocando. Queria tanto ter a paz e o silêncio de ouvir o que minha alma grita, mas sempre acabo em um desses shows de rock onde ninguém consegue dar atenção aos próprios pensamentos – é só aquela a gente ao seu redor julgando o jeito como você se veste, sem sequer lhe dar a chance de explicar porque está ali daquela forma, com aquelas companhias e com aquela expressão de que nada no mundo compensa tanta desordem. No fim, fica só o velho disco arranhando na vitrola, deixando escancarada no ar a pior das verdades: sou a única que ainda acredita nas mentiras que conto. Na última vez que eu disse que seria a última vez, pude sentir pelas minhas costas as risadas de todos que já sabiam que, em poucos dias, a única coisa que viria seria outro desabafo como esse. No início de tudo é tão fácil. Eu juro a mim mesma que me boicotar é coisa do passado e me convenço de que tenho em mãos todas as armas para sentir uma felicidade contagiante – e tenho mesmo, ainda que não pareça. Mas é com facilidade que rompo as minhas próprias promessas e traio todos os planos que tracei. Minha mente começa a trabalhar em auto-ataque e entra em choque por tudo que anda acontecendo – e pelo irreal, também. Jogo ao vento as convicções de que é possível vencer a mim mesma, até que novamente me dou conta de que há a chance de ser feliz com o que se tem e não somente com aquilo que se acha que deveria ter. É nesse momento que viro a metamorfose ambulante não muito nos moldes do que o velho Raul previa; ergo as mãos aos céus, me ajoelho num canto do meu quarto e só peço para que o que tiver de vir, que seja para acrescentar e jamais para destruir. Nem busco mais entender o que me leva a tanto extremos e por desistir de uma auto-compreensão é que percebo tantos olhares de dúvidas destinados a mim. Está escrito no olhar de quem me vê que a grande maioria acha que eu nunca vou conseguir encontrar em mim mesma alguma paz. Pois eu digo a todos que se eu estiver meditando à beira mar ou mesmo contando os grãos de areia para descobrir com quantos se faz um castelo é porque não desisto de viver ainda que isso implique em castigar a mim mesma até que eu pague a dívida de um dia ter ousado pensar que a verdade sobre mim está em outro alguém. Sou mais independente que essa minha vontade de estar sempre ligada a algo e na falta de pessoas que acreditem em mim, eu resolvi achar aqui dentro a coragem que preciso para recomeçar mesmo quando a luta parece vencida antes do seu início. Ainda ouço uns ou outros que me destinam algumas das frases mais clichês de Caio Fernando – vai passar, tu sabes que vai passar, talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? – mas tudo tem acontecido quando me ponho a pensar que guardar mágoas é um desperdício de espaço de memória e do coração e que se todos os dias eu dou uma nova chance a mim mesma, porque não dar oportunidade às outras pessoas, também? Se esperavam um novo rumo pra mim, se enganaram em pensar que por um único segundo eu cogitei a hipótese de desistir de mim mesma. Hoje, eu abraço os meus erros como quem acolhe um amigo que te leva sempre aos mesmos passeios, mas que no fim do dia te trás de volta para casa – foi o que o destino sempre quis e eu aprendi a ser muito bem assim. Talvez seja mesmo uma nova espécie de paz essa que eu tenho: boa o suficiente para trazer alegria, mas nunca duradoura ao ponto de me fazer acomodar. E cá estou eu, flutuando insegura no meio de tantas conclusões, reaquecendo o café e pensando que talvez seja essa a única saída: acreditar que não se pode ir mais em frente para, logo em seguida, ter vontade de ir muito mais além.

domingo, 1 de abril de 2012

O tempo passa, mas não passa

Você passou pela porta e eu fiquei acenando da janela, você ficando menor e menor a cada passo, minha mão indo para lá e para cá mais e mais lentamente. Ao cruzar o portão, virou o rosto para me encarar mais uma vez; eu já ia abrir a boca para dizer as palavras mais duras que guardei, mas antes disso você sorri de canto, pisca o olho e me priva de fazer tudo aquilo que já há muito tempo eu deveria ter feito.

Quando não consegui mais te ver, saí da janela e peguei o telefone – talvez você me ligasse. Logo o tic tac do relógio começou a caçoar de mim, mais e mais alto, mas o meu orgulho foi superior e virei a cara sem olhar uma única vez, como se não fosse comigo. Talvez não fosse comigo. Comecei a andar pela casa, liguei e desliguei o rádio para ver se esquecia. Não esqueci. Vaguei até a cozinha, passei um café, passei dias, passei semanas. A gente esquece que o tempo faz essa coisa engraçada com o estômago, essa coisa que não me deixa engolir o café sem você. Encaro o telefone sabendo que não sou corajosa o suficiente para te ligar e admitir o que quer que seja. Um olhar de relance no espelho e a verdade omitida explode no meu rosto: aqui dentro existe uma vontade de te deixar ir embora, te deixar ir para fora de mim – e isso seria culpa sua, completamente sua. É você que parte sem deixar bilhetes nem abraços nem adeus – é você que, entre tudo que poderia me oferecer, escolhe deixar apenas saudade. O problema é que você sempre teve um cuidado muito grande em não me deixar te esquecer. Você que me ensinou a me embriagar de ti até as suas palavras me soarem como arranhões melódicos e o teu cheiro ficar impregnado no travesseiro, nas minhas roupas e na minha memória. Quanto mais eu corro, mas eu te encontro nas esquinas, nos comerciais de TV, na roupa suja espalhada pelo chão do quarto. Vez ou outra alguém me recomenda: pare de cultivar as más lembranças. Como se apenas as más lembranças doessem. Deito no sofá e fecho os olhos. Penso em tudo e em nada, em todas as coisas e em coisa alguma. Acho que cochilo – ou hiberno. Acordo, antes de a vida me dar uma daquelas lições em forma de sonho, querendo saber que ano é hoje. Que ano é hoje e se o café ainda está quente. Que ano é hoje e quando é que você volta. Já não passou da hora de anoitecer?

Abro e fecho um livro. Resolvo que é melhor começar pelas orelhas. Não tenho tempo de ler uma frase inteira, o portão te denuncia. Olho para a porta como uma criança olha um presente. Você entra com o pacote de pão fresco pedindo desculpas pela demora, respondo que não tem problema, que nem percebi. Mas você já sabe que é uma mentira e sorri para ela e para mim.

domingo, 4 de março de 2012

Cada falta é um mistério

A vida é cheia de atos de desaparecimento. Se algo que a gente não sabia que tinha, desaparece… A gente vai sentir falta?


Descobri uma verdade terrível sobre mim: eu sinto pelo que não existe. Choro o tempo todo por decepções que talvez eu nunca chegue a ter. Sou apegada a promessas, de todos os tipos – compras desnecessárias, viagens que não acontecerão, shows que nunca chegarei a ir. Tudo que não existe me fascina. Tudo que é impossível, porque as impossibilidades existem dentro dos limites humanos e naturais, me encanta, me tira o sono, protagoniza meus pesadelos.
Sinto vontade de voltar aos lugares que eu nunca conheci. Eu sinto saudade de pessoas que nem cheguei a conhecer. Sinto falta da desconhecida que poderia ser minha melhor amiga ou mesmo do fulano que mora na rua ao lado, que nunca me deu bola, mas que até que é um bom rapaz. Sinto falta de pessoas que eu evitava conhecer, inclusive. Eu fugi de muitos e nem esses escapam da minha necessidade de me embriagar de todos os tipos de amor, do mais efêmero ou mais ridiculamente impensado. Sinto falta daquilo que eu mal vivi. Sinto saudade do que eu escolhi não viver. Sinto vontade de viver aquilo que sei que não deveria e por isso mesmo não vou, mesmo sentindo vontade de acabar com a falta.
Tantas noites eu fui dormir de coração vazio mesmo tendo ao alcance das mãos algo que o preenchesse. Tudo isso por preferir o que não existe, o irreal, o que não dura nem o tempo necessário para começar. Porém, se é verdade que vivemos de ilusão, é verdade também que a realidade é uma grande utopia dançando valsa sob a melodia da esperança de estar certo que algo existe além dos portões do imaginário. O tempo todo, a linha tênue entre a ficção e o real me põe andando em corda bamba e eu pareço ser incapaz de distinguir uma coisa da outra. Não sei se o sonho que sonhei foi um sonho foi apenas isso ou se foi uma realidade fantasia de outro sonho qualquer.
As minhas palavras, que costumavam ser a única coisa concreta e explícita por aqui, já parecem me trair e iniciam um movimento cíclico que me impede de achar o começo de tudo ou o fim de alguma coisa. A música toca lá fora ou aqui dentro, mas eu só escuto um único som na minha mente: o da loucura que me embriaga e confunde aquilo que é com o que deveria ser, deixando no ar essa mistura entre o que jamais será e o que ainda pode ser. Sou mestre em fantasiar o que se passa na minha própria mente e se acreditar em qualquer coisa que seja – no que está em frente aos seus olhos, no que doe lá no fundo, no que corta a carne e sangre até todo o sentimento se esvair – for o preço a pagar por um pouco de lucidez no meio dessa confusão, pois que seja assim.
Depois de muitas noites assim foi quando eu senti, mais uma vez, que viver não tem saída e que a vida que eu carrego sempre sentirá a inveja mais profunda da outra parte de mim que foi suprimida para que esta que aqui está pudesse surgir. É perturbador ser só metade, mas será possível ser inteiro?

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A moça sensível

Era preciso mais que uma chuva de fevereiro para lhe obrigar a refazer os planos. Dia a dia, sentava sempre à mesma mesa, o mesmo livro velho embaixo do braço, o mesmo pedido de um café forte e com pouco açúcar, por favor. Não era nada comum, mas não chegava a ser obscura; era de uma estranheza agradabilíssima, dessas que se canta nas letras do rock de pubs ingleses. É normal se sentir assim, em uma solitária perdição, ela diria. Chega a ser inspirador, outros achariam. Alguns lhe destinavam sussurros baixos e reprovadores, destilando o vírus da hipocrisia social. Muitos tinham pena dela e expressavam essa compaixão oculta achando que sabem a receita para a satisfação plena – a alheia, mas jamais a própria. Eu já senti muito isso – essa vontade de socorrer alguém de si mesmo. Não sinto mais. Percebi que não sou nada além de mais uma pessoa que precisa ser resgatada, portanto, não ouso sentir nada além da própria falta de sentido. Mas ela não. Quem a via triste, jurava que não sabia sambar, mas em seu íntimo a música sempre soava; o riso de canto e o pensamento secreto: estou me guardando para o carnaval. Ela era tão diferente que incomodava. Não desejava bom dia a ninguém – costumava dizer que a maior parte das pessoas não valia sequer um “até logo”, então economizava também as palavras que sempre doem mais em quem as diz do que em quem as ouve: “adeus, até nunca mais”. Difícil mesmo, e ela nunca tinha conhecido alguém assim, era quem valesse um “para sempre” ou “foi bom estar com você”. Usava um all star sempre sujo e suas camisetas traziam frases de músicas que não estava na moda. Se chamava Carolina, mas preferia quando se referiam à ela como Isabel. Não fazia a menor questão de soar coerente. Era preciso intensidade para trocar com ela ao menos um olhar e, principalmente, coragem para enxergar o que a transparência de sua íris era capaz de revelar. Suas anotações eram seus segredos.
É carnaval, não conto de fadas. É frustrante demais só esperar que a sorte apareça na nossa vida – dê uma chance à falta de oportunidade e não formule certeza alguma, porque qualquer verdade é mais frágil que um mar de dúvidas. Se for para escolher um só bom companheiro, escolha um que saiba fazer massagem nos seus pés e que queira conhecer Paris. Desconfie dos que preferem frio a calor e também dos que não sabem fazer compras no supermercado – esses serão os primeiros a partir. Apaixone-se por literatura, por violino, por fotografia, pelos sons das folhas das árvores em outubro e também por moços de olhos castanhos e sensíveis. Tenha você olhos sensíveis – verdes, azuis, castanhos ou da cor da escuridão. Sente próxima à lareira e conte uma história engraçada – guarde algumas outras histórias só para você. Use jeans surrado e se vista como se estivesse em Londres ou Bruxelas ou Amsterdã. Escreva frases curtas todos os dias – ao fim da vida, todas juntas valerão a mais importante lição que se pode ter. Não se sinta mal por ser sábado à noite e não haver companhia ou bebidas disponíveis. Ache o prazer dentro de si mesma. Repita as roupas, os livros e os discos. Peça perdão constantemente. Perdoe sempre. Ame inclusive quem não sente a menor afeição por você - são esses os que mais precisam de afeto. A melhor resposta para tudo é sempre a serenidade e a compreensão. Não se preocupe em comer pizza gelada no café da manhã, mas diminua o açúcar. Tudo bem rir de bobagens. Tudo bem rir de si mesma.



E assim contava suas percepções sobre a vida, a verdade e a falsa máscara que colocamos no rosto todos os dias antes de sair de casa ou nos mostrarmos para alguém. Uma única vez, pediu que alguém sentasse ao seu lado, mas a moça escolhida murmurou algumas palavras inaudíveis e sentou-se em uma mesa oposta. Carolina, ou Isabel, não insistiu. Eu também não insistiria – não sou muito boa em pedir algo e tão pouco em insistir, argumentar contra alguém em favor de mim mesma. A ouvi repetir: tudo bem, tudo bem, não há mal nenhum em escolher ser sozinho. Seria patético não ser capaz de admitir que todos sonham em ser Carolina ou Isabel, ao menos que por um dia, nem que seja por um relance de segundo em que você se esvazia dos pesos desnecessários e se carrega de toda a força que precisa para encarar o caminho com compaixão e justiça. Ela sabe – percebo isso na forma com que segura a xícara de café – que dentro de si carrega uma força enorme que falta das esquinas da cidade: a força de, sem hesitar ou carregar como arrependimento, tomar as maiores decisões possíveis. Não era por acaso que aquela garota estava naquela mesa, com aquelas roupas, lendo aquele livro, escrevendo aquelas palavras e tomando aquele café. Não era à toa que estava sozinha, não era por coincidência que chamou quem quis para sentar-se com ela e aceitou sem relutar a escolha da outra pessoa. Sobra nela o que não existe na maioria de nós: força para decidir quem você quer para si, o que você quer para si e o que você vai fazer com tudo isso.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Breve perspectiva sobre o que virá

Fim de ano é uma das poucas coisas que ainda conseguem mexer comigo como se uma nova contagem de meses fosse mudar alguma coisa, mesmo que eu saiba que a diferença de um só dia não muda nada: os problemas continuam presentes como se não tivessem causas passadas, as pessoas continuam nos decepcionando e música sem graça de todos os anos toca naquelas lojas abarrotadas de gente comprando os presentes de última hora. Mas mesmo assim, aqui dentro de mim existe uma parte que nunca deixa de ser ingênua e que cria mil expectativas de como as coisas (sempre) podem ser melhores. Todo ano é sempre a mesma ilusão: penso que será diferente se eu quiser que seja e que a vida está renascendo, me entregando de bandeja uma nova chance de limpar o passado e construir um presente do qual eu me orgulhe mais. Nunca é: sempre aconteceu essa mesma dança de erros sendo valsada em um looping infinito de lamentações, mil palavras de desagrado que ficam me envenenando meses a fio e me privando de tudo que de bom venha a acontecer. Tristeza cega a qualquer um, até mesmo aos mais seguros ou independentes. Ninguém aprendeu a viver passo a passo com tanta dor e onze meses depois eu me pego perguntando o que fiz do tempo que passou e por que motivo não fiquei satisfeita. O motivo está escrito a sangue na parede: porque eu não quis. Porque. Eu. Não. Quis. Porquenãoquis, assim falado depressa, para ver se fica menos ridículo de se ouvir. Porque, pasmem, não fiquei satisfeita, não fiquei feliz ou alegre o tempo todo, não sorri todos os dias porque eu simplesmente não quis. Motivos eu tive de sobra. Incentivo nunca me faltou. Vontade eu até tenho, sinceramente. Coragem... O motivo sempre me foi a coragem. Ou a falta dela. Repetidas vezes eu já justifiquei minha melancolia como um ato de coragem que é preciso para se ser triste, mas o que sempre me sobrou, de verdade, foi um medo danado de ser feliz. Medo de conquistar coisas boas, de me unir a pessoas maravilhosas, de ser gentil com quem merece e de por uma pedra no que nada me acrescenta. Me falta mesmo é coragem para assumir que eu tenho tudo o que eu preciso e não sei aproveitar. Me falta mesmo é revigorar essa chance linda que eu tenho e que ponho fora todos os dias, quando escolho me afundar em reclamações sem fundamento. E hoje, por algum motivo, eu tive um súbito de auto-compaixão e decidi: não mais. Nem que eu tenha que relembrar quão covarde eu sou, todos os dias. Nem que eu sofra muito para não sofrer mais. Nem que a vida me bata muito para eu nunca esquecer o que é uma dor de verdade. Porque por mais que falte a coragem, a gente cansa de ser essa coisa pesada e desnecessária, esse ser humano descartável, isso que não respeita nem a si mesmo.
Cansei de desperdiçar os meus sonhos, não quero mais viver a decepção de não cumprir as minhas próprias promessas. O ano ainda não acabou, mas já sei o que espero daquele que não tarda muito e virá: novo, tudo novo. Todas as coisas e, se possível, as pessoas. Até eu mesma.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

E se eu quiser ''extraordinário''?


Eu andei muito querendo ser diferente. Entregar à vida o lado mais calmo e quieto que sei que posso encontrar em mim. Deixar de lado essas inquietudes cotidianas que só têm fundamento dentro da minha cabeça e partir para escolhas mais simples e que não precisassem tanto de dramas e choros. Quis muito ser leve, essa é a verdade. Passei a vida inteira lutando contra o melhor e o pior de mim, numa batalha longa e árdua de muitos sacrifícios e escolhas difíceis. Boa parte dessa história foi um filme de guerra onde eu vi muito sangue inocente jorrar até que sua fonte secasse. Vi muitos beijos não correspondidos e tantas esperas às quais eu poderia estar submetida até hoje, se assim fosse o caso, se assim eu tivesse escolhido. Poderia muito bem estar presa até hoje a essa ilusão que plantei em mim de que a vida é simples, basta querer. Tinha chegado ao ponto onde o único remédio que anestesiava a minha dor era a pura enganação e nisso eu me joguei de cabeça, sem saber como faria para retornar à realidade que deixei para trás. Hoje, eu temo não ser mais tão inocente a esse ponto. Desconstruí todas essas esperanças em mim, nas coisas e na vida; aprendi que as derrotas estão sempre prontas para serem jogadas na minha cara. É muito duro passar a vida inteira tentando mudar e nunca conseguir – saber exatamente quem você deveria ser e, ainda assim, ser apenas uma versão inútil e insignificante desse outro alguém. Quando se está perdido e sem rumo, é muito mais simples: qualquer lugar serve. Triste mesmo é saber para onde ir e ainda assim nunca ser capaz de chegar lá. Não ser bom o suficiente. Não ser forte para resistir. Não saber mais como continuar.


Não quis indicar nada com essas palavras, a não ser uma completa falta de compreensão com aquilo que nos cerca e insiste em nos sufocar. Se alguém quiser me dar um abraço ou um aperto de mão e conversar sobre essas obscuridades repentinas que nos cegam de horror, pode vir que a casa está arrumada e o café está na mesa. Mas não tenho sido morada tranquila nem para mim mesma, deixo todos avisados antes de cruzarem a porta. Ainda assim, não sou presa tão fácil. Sou essa montanha-russa espiritual: a falta de tempo entre um suspiro e outro, para em seguida dar uma volta mais uma vez.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Fechada para balanço

Como se houvesse sentido nisso, se fosse o caso de sobrepesar o que ocorre dentro de mim, eu responderia a quem perguntasse com uma simples frase: não há vagas. Me sinto como o Grande Hotel da cidade do interior. São muitas pessoas dentro de mim e tantas que já não consigo mais situá-las nas minhas palavras e nos gestos sem nexo: perdi a minha última tentativa medíocre de me esvaziar um pouco. Por isso, a cada um que me pergunte, respondo com urgência: não há vagas. Não me peça um pouco mais de amor, que já estou com estoque baixo; não me venha com uma mala cheia de mágoas e choro, que não há mais um espaço livre no saquão; não me peça para entrar e tomar um chá, como visita, porque mesmo para esses que vem e vão como se não fossem deixar marcas, eu estou completamente lotada. Não há mais espaço em mim para essas histórias mal resolvidas, então estou pondo fim a (quase) todas; vou economizar lugares se ficar sem essas lembranças doloridas, que hoje ocupam aquele espaço que poderia ter um quadro novo ou então um sofá bem bonito. Qualquer coisa mais útil e que me faça maior bem que esse cheiro eterno de coisa estragada, de mofo, de móveis cheios de poeira. Qualquer coisa, porque eu preciso economizar espaços. Eu precisos de coisas novas e frescas e elas vêm chegando com uma velocidade tão grande que eu temo não ter como acomodar todas. Desculpa, felicidade, mas a última vaga que eu tinha está ocupada pelo Joaquim, aquele que não soube me amar. Ou então: sua vaga estava reservada, querida, mas aquela biscate que um dia se fez de amiga ainda não fez o check out. Não gosto de correr riscos, nunca gostei. Sou muito apegada à sensação de acordar pela manhã e saber a quem amar, para o quê viver, quais os motivos para sorrir ou chorar. Sou muito intimamente ligada às certezas da vida para por meu coração sempre em jogo. Por isso, é hora da faxina dentro de mim. É hora de por fora todos os hóspedes que não pagam suas diárias. É hora de queimar aquelas contas de mais de cinco anos, de doar as roupas velhas, de jogar no lixo as comidas vencidas. É hora de por pintura nova na casa, mudar os móveis, contratar novos funcionários e quem sabe até mudar o nome do lugar. É hora de deixar para trás todas essas histórias que deixaram esse lugar caindo aos pedaços de tal velho e gasto. O que merece sua estada, fica; o que muito atrapalha e nada acrescenta, está com malas prontas e na fila da saída. Mas até por fim nessa loucura típica de mim, para segurança de todos e por precaução a mim mesma, estou bem assim: agradeço a todos pelo interesse e se quiserem, a porta logo estará aberta. Mas, por enquanto, não há vagas.

"Mas chega, se não houve troca, chega, porque amar sozinho é solitário demais, 
abandono demais, e você está nessa vida para evoluir, mas não para sofrer".

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Paradise is like hell


Menos de vinte anos, alguns metros cúbicos de lágrimas e cá estou eu, tentando fazer a coisa certa ao menos uma vez. O meu entendimento em relação ao resto do mundo tem sido cotidianamente reconstruído e eu não sei se as mesmas palavras de ontem não passam, hoje, de um sentido superficial do que ainda está por vir. “Ainda está por vir” é o termo mais certeiro que eu tenho me atrevido a utilizar, a propósito. Acho que abandonei – finalmente – essa minha tentativa vã de parecer determinada em alguma coisa: sou uma contradição em mim mesma, um movimento cíclico daquilo que ainda não aconteceu, mas que se espera e espera e espera, não me perguntem até quando. Há muito tempo eu desisti de entender o que qualquer uma dessas coisas significa – se não haveria um sentido oculto por trás de tudo e se as respostas certas não estariam escritas em letras grafais em neon, bem à minha frente. Dizem que nós somos cegos em relação ao que de melhor está por vir, mas eu garanto, com toda a minha honestidade de quem nunca aceitou bem a decepção de esperar o que não tem que ser esperado: nada de excepcional está por vir. Talvez, no máximo, surja a chance de umas belas voltas por Copacabana, com aquele vento maravilhoso que talvez só faça igual aqui por minha terra; talvez uns goles de café, minha única e amiga bebida, que me façam revigorar e reconstruir todas as forças que não encontro mais em mim mesma; e, por fim, algumas dessas palavras cruéis que não têm um significado em si mesmas, mas que no fim acabam por formar um sentido único: não tenham pena de mim, não me mandem cartas nem recados de despedidas. Eu estou – muito – satisfeita até mesmo com os tombos que tenho levado, o que dirá das alegrias que vez ou outra batem à minha porta, pedindo passagem. São momentos raros esses que eu saio do meu corpo cansado e me permito flutuar nas luzes que invadem a noite – é uma ótima sensação, vocês deveriam experimentar. E depois eu retorno, para a mesma vida, o mesmo jogo, o mesmo resultado. E, não sei bem como dizer, isso tem satisfeito a minha fome de viver. Porque não dá para brincar com a verdade. A realidade não é um leque de opções. Existe essa força acima de tudo que lhe deu as cartas e, bom, tudo o que eu sei é: faça o melhor jogo que puder.


"São tudo histórias, menino. A história que está sendo contada, cada um a transforma em outra, na história que quiser. Escolha, entre todas elas, aquela que seu coração mais gostar, e persiga-a até o fim do mundo. Mesmo que ninguém compreenda, como se fosse um combate. Um bom combate, o melhor de todos, o único que vale a pena. O resto é engano, meu filho, é perdição."

domingo, 2 de outubro de 2011

Esbravejo essa necessidade de entender


Eu ainda tinha muito a fazer, mas o modo com que me atirei ao sofá anunciava que eu estava me entregando por hoje. Ainda era dia, mas a taça de vinho nas minhas mãos já indicava a preparação para outro momento, algo mais estrelado e misterioso. Porque eu gosto de me esconder no sombrio. Gosto de ficar por trás da luz, sem revelar nada, só esperando as coisas serem mostradas. Talvez por isso me incomode tanto quando eu não consigo enxergar nada além de mim – quando somos só eu e não eu e o resto do mundo, entende? É quase uma necessidade boa de sempre ter companhias, mesmo que elas não lhe notem. Fucei algumas fotografias velhas, assisti 500 days of Summer, pus The Smiths para tocar, tudo a espera de algo que me indicasse o caminho. Mas ninguém nunca vai lhe indicar o caminho, essa é que a verdade. Você sempre fica sentada ao sofá, esperando que a noite chegue e você possa finalmente fazer tudo aquilo que não tem coragem quando a luz brilha no seu rosto. É à noite que nos esquecemos de nós mesmos e nos permitimos ser quem nos quisermos. Aí eu ponho a cara na rua e grito como sou hipócrita, como o mundo é hipócrita e como somos uns tolos por aceitarmos ser assim. Ninguém me olha e mesmo se olhassem, não ouviriam, porque estão todos preocupados demais com os seus demônios internos e seu vinho e sua boa música. Como eu disse: hipocrisia. Esse é meu ciclo de vida, mas eu acho que estou preparada para algo mais... Grandioso. Algo que me choque, me pegue de surpresa. É, acho que essa é a palavra: novidade. Tudo que eu tenho é muito bonito e foi conquistado na maior dureza, sob tapas e choros, de verdade; mas nada é bom o suficiente ao ponto de você nunca mais sentir vontade de despertar com aquele cheio de novo inebriando sua cabeça, invadindo todo o apartamento, o seu coração, sua vida. Acho que sou viciada numa boa novidade, nem que seja em um livro recém descoberto ou então em uma banda que, sinceramente eu não sei como passei a vida inteira sem ouvi-la. Coisas bobas, mas que me tiram dessa rotina enlouquecedora. E quando eu acabo de gritar à varanda todos os meus desafetos, olho para o lado e vejo me vizinho me encarando da varanda dele. “E qual o sentido disso?”, ele pergunta, enquanto me oferece um cigarro. Eu aceito (e essa nossa necessidade de estarmos sempre anestesiados da vida, como se explica?) e retribuo lhe oferecendo a minha taça de vinho. “Eu não tenho feito muito sentido ultimamente”, respondo. A minha certeza é que o vinho quente lhe rasgou a garganta assim como a fumaça do cigarro me tirou o ar. Que bom que ainda somos capazes de sentir alguma coisa, embora ele faça uma careta e não pareça tão feliz. Me devolve a taça (eu não devolvo o cigarro) e entra no seu apartamento, na sua vida de faz de conta, me deixando sozinha outra vez. Hipocrisia, eu sussurro, é disso que estou morrendo. Volto à minha sala e me atiro novamente ao sofá. Eu tenho medo de fechar os olhos, tenho medo que tudo se acabe ao meu redor e eu não possa sequer ver a última cara de desespero daqueles que passaram a vida se enganando ao achar que tudo isso era para sempre. Nada é para sempre, seus grandes otários. Nem eu, nem você, nem toda essa bobagem que você chamam de vida ou qualquer outra coisa que acreditem. Sinto vontade de sorrir ao pensar em toda aquela fortaleza desmoronando e fecho os olhos, me entregando em pensamentos. Quem sabe até eu não consigo sonhar.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Ode à monografia

Eu leio Caio Fernando Abreu há algum tempo – 5 anos, para sermos mais exatos. O curioso da história é que eu descobri o autor extremamente por acaso e mais por acaso ainda comecei a pesquisar sobre a sua obra. No fim das contas o meu amor virou trabalho, porque, sim, minha monografia é sobre uma obra de Caio Fernando Abreu.
Eu poderia passar o resto do dia dizendo como escrever um trabalho tão extenso é atribulado – na verdade, eu não poderia, porque tenho que escrever um projeto para ser entregue na semana que vem para a minha orientadora. Mas eu não vou perder o meu tempo crucificando a tal da monografia, até porque todo mundo já faz isso sem a minha ajuda – e também porque estou tentando fazer uma ode, ora bolas. E, sendo sincera, essa é a tarefa “árdua” mais gostosa que eu já tive em toda a minha e eu posso afirmar com toda a certeza que eu nunca fui tão feliz com o meu curso como eu sou hoje.
Tenho uma amiga que diz que meus olhos brilham quando eu falo de Caio Fernando e que parece que eu sou a melhor amiga dele há anos – é como se nós tivéssemos trocamos cartas e farpas e sido vizinhos de porta a vida toda. Porque é assim: escrever uma monografia é fazer os seus olhos brilharem; é conhecer aquele assunto mais do que você conhece a si mesmo; é respirar teorias e textos exaustivos de forma repetitiva, mas sempre querendo mais; é nunca estar satisfeito com uma linha escrita que parece fora do lugar, porque aquilo que você está fazendo é tão belo que merece o esforço máximo para estar o mais perto possível da perfeição.
Eu não consigo pensar em outra coisa: é quase como se eu tivesse 15 anos e começasse a namorar o cara que eu sempre quis, mas que nunca me deu bola. É quase como se eu tivesse descobrindo pela primeira vez o final de Harry Potter. Cinco em cada dez assuntos que eu tenho são referentes à monografia. Estou a dois passos de abandonar o resto da minha vida e viver de ler e escrever sobre o assunto. Logo eu, que sempre tive tanto medo de nunca encontrar algo que me fizesse sentir tanto prazer... Lembro que quando estava no início do curso, uma professora minha fez aquele discurso inicial sobre escolhas e se entregar a uma área de pesquisa. Eu fiquei apavorada com aquilo, quase pensando em já desistir; então, no fim da aula, fui até ela e perguntei: “como eu posso saber que encontrei algo que eu posso me entregar de verdade, sem abusar a pesquisa na semana seguinte?”. E ela olhou para minha cara de caloura desespera e simplesmente disse: “você vai saber”.

É. Agora eu sei.

ps.: o título provisório da minha monografia é “Um escritor irremediável: uma leitura melancolia em Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu”. É a única monografia da região norte/nordeste já escrita sobre ele e, quer saber? Em tempos de modinhas de quem não sabe valorizar uma boa escrita quando a vê, eu tenho um orgulho imenso disso.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Metaforizando lágrimas e sorrisos

Estou vivendo uma versão de mim mesma, no mínimo, muito desagradável. Essa mania que a gente tem de nos repetir sempre em nossas piores versões sempre ferra com tudo, mesmo. Sempre tem aquele pedacinho insignificante de maldade, dor e muita saudade pra lembrar que a felicidade não é tão fácil assim. Sempre tem aquele fantasma que te assombra e não te deixa concluir a tua noite de sonhos; sempre se tem o que temer, no que desacreditar, por quem sofrer. Foi nesse ritmo meio descompassado que eu guardei fundo o meu atrevimento de querer controlar minha própria vida e fui ao poucos murchando o meu peito que, não sei porque, andava estupidamente inflado. Esse meu orgulho besta de qualquer coisa nunca me levou a lugar nenhum, e agora mais do que nunca eu sinto vontade de me esconder no escuro do meu quarto e chorar como se não houvesse dias nem noites. Não sinto vontade de ouvir a voz de ninguém, porque outras pessoas atrapalham essa minha necessidade de ser triste; eu me empenho em sofrer com todos os milímetros do meu corpo e me dou ao direito de ser assim porque cada um sabe quando não pode mais suportar. Então eu fico nesse êxtase que todos analisam como sem causa alguma e descubro que quanto mais eu me entrego à dor, mais motivos eu tenho para abraçá-la. Não entendo como tanta gente consegue sorrir e viver normalmente enquanto carrega, sem incômodo nenhum, um buraco tão grande no peito; eu não sou assim e nem faço questão. Então, se eu tiver que morrer um pouco para continuar vivendo, é isso que farei. O que não dá é para brincar com as situações como se tudo fosse um grande motivo de graça; tristeza não é poesia, dor não é ilusão. E às vezes acho que vou ficar lançada nisso para sempre. Nunca falei sobre isso com ninguém e nem acho que as pessoas realmente se importam. A uns poucos, que bem mais por educação que por carinho me estendem um “você está bem?” tímido e sem interesse, eu me limito a responder com um breve “vou levando”. E vou mesmo, não sei para onde e não sei por quanto tempo. Às vezes eu acho que me perdi no caminho; dizem que a tristeza cega as pessoas e não é que talvez seja assim? Quem sabe eu não esteja dando apenas voltas em um mesmo caminho e talvez por isso insista em tropeçar nas mesmas pedras: não porque os problemas são os mesmos, mas porque eu ainda sou a de muito tempo atrás. Não adianta fingir que as coisas são diversas, porque dentro de mim a verdade grita: ainda sou a mesma menina de 15 anos que me marcou o resto da vida. E isso não tem nada a ver com azar, pessimismo, esperança, coragem; é como se eu quisesse fazer a única coisa em que sou assumidamente boa. É como se eu tivesse cansada de perder aos poucos e tivesse resolvido arriscar tudo uma última vez. É como se eu tivesse caminhado quilômetros em busca do precipício e agora que eu o encontrei, não sei se pulo ou se volto atrás. É como se depois da chance de ser feliz, eu descobrisse que é preciso muita coragem para ser triste, também.

Sempre soube que minha vida é cercada de metáforas, então por isso segue o meu maior conselho: ouça o que eu digo, mas não entenda o que eu escrevo.


"Agora não dá mesmo para ser feliz, é impossível. Mas quem disse que a gente precisa ser sempre feliz? Isso é bobagem. Como Vinícius cantou: 'é melhor viver que ser feliz'. Porque, para viver de verdade, a gente tem que quebrar a cara. Tem que tentar e não conseguir. Achar que vai dar certo e ver que não deu. Querer muito e não alcançar. Ter e perder. Tem que ter coragem no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e dizer uma coisa terrível, mas que tem que ser dita. Tem que ter coragem de olhar no fundos dos olhos de alguém que a gente ama e ouvir uma coisa terrível, mas que tem que ser ouvida. A vida é incontornável. A gente perde, leva porrada, é passado pra trás, cai. Dói, ai, dói demais. Mas passa. Está vendo essa dor que agora samba no seu peito de salto agulha? Você ainda vai olhá-la no fundo dos olhos e rir da cara dela. Juro que estou falando a verdade. Eu não minto. Vai passar".