Você passou pela porta e eu fiquei acenando da janela, você ficando menor e menor a cada passo, minha mão indo para lá e para cá mais e mais lentamente. Ao cruzar o portão, virou o rosto para me encarar mais uma vez; eu já ia abrir a boca para dizer as palavras mais duras que guardei, mas antes disso você sorri de canto, pisca o olho e me priva de fazer tudo aquilo que já há muito tempo eu deveria ter feito.
Quando não consegui mais te ver, saí da janela e peguei o telefone – talvez você me ligasse. Logo o tic tac do relógio começou a caçoar de mim, mais e mais alto, mas o meu orgulho foi superior e virei a cara sem olhar uma única vez, como se não fosse comigo. Talvez não fosse comigo. Comecei a andar pela casa, liguei e desliguei o rádio para ver se esquecia. Não esqueci. Vaguei até a cozinha, passei um café, passei dias, passei semanas. A gente esquece que o tempo faz essa coisa engraçada com o estômago, essa coisa que não me deixa engolir o café sem você. Encaro o telefone sabendo que não sou corajosa o suficiente para te ligar e admitir o que quer que seja. Um olhar de relance no espelho e a verdade omitida explode no meu rosto: aqui dentro existe uma vontade de te deixar ir embora, te deixar ir para fora de mim – e isso seria culpa sua, completamente sua. É você que parte sem deixar bilhetes nem abraços nem adeus – é você que, entre tudo que poderia me oferecer, escolhe deixar apenas saudade. O problema é que você sempre teve um cuidado muito grande em não me deixar te esquecer. Você que me ensinou a me embriagar de ti até as suas palavras me soarem como arranhões melódicos e o teu cheiro ficar impregnado no travesseiro, nas minhas roupas e na minha memória. Quanto mais eu corro, mas eu te encontro nas esquinas, nos comerciais de TV, na roupa suja espalhada pelo chão do quarto. Vez ou outra alguém me recomenda: pare de cultivar as más lembranças. Como se apenas as más lembranças doessem. Deito no sofá e fecho os olhos. Penso em tudo e em nada, em todas as coisas e em coisa alguma. Acho que cochilo – ou hiberno. Acordo, antes de a vida me dar uma daquelas lições em forma de sonho, querendo saber que ano é hoje. Que ano é hoje e se o café ainda está quente. Que ano é hoje e quando é que você volta. Já não passou da hora de anoitecer?
Abro e fecho um livro. Resolvo que é melhor começar pelas orelhas. Não tenho tempo de ler uma frase inteira, o portão te denuncia. Olho para a porta como uma criança olha um presente. Você entra com o pacote de pão fresco pedindo desculpas pela demora, respondo que não tem problema, que nem percebi. Mas você já sabe que é uma mentira e sorri para ela e para mim.

Amei, Dê <3
ResponderExcluirBonito, realmente bonito. Mas lembrei dos meus pais....A lembrança não foi boa, mas eu gostei muito do texto porque vi a vida real ali.
ResponderExcluirMuito bom o texto! Parabéns! Beijos!
ResponderExcluirQue sentimento mais intenso esse do texto...! Muito bonito!
ResponderExcluirBeijossss
OMG! Que texto lindo!
ResponderExcluirTipo, muito!!
Foi bem intenso, bem seu estilo, Dê. Parabéns pelo texto, e é um parabéns ao quadrado :)
ResponderExcluirDê, acho que agora tenho uma noção de quanto o seu blog é importante pra você. De quando as suas palavras e os seus sentimentos são valorizados. Você tá certa. E deu muito certo.
ResponderExcluirPeguei os sentimentos seus e os que podem ser seus e guardei junto com os meus. Tá tudo uma confusão agora.
Beijo! <3
Gente, transbordou sentimento. Muito mesmo. Lindo, em todos os sentidos.
ResponderExcluirTem continuação esse negócio aqui? Eu quero, hein! E tipo, tô falando sério!
ResponderExcluirAmei, Dê! ;*
DEMAIS. Não sei nem o que falar.
ResponderExcluirVi você em cada pequena minúcia desse texto. E fiquei imaginando o que aconteceu depois que ele voltou...tô tão romântica hj. hauhauahauh
ResponderExcluirAh, essas pessoas que não nos permitem que nós as esqueçamos :(
ResponderExcluirAchei lindo, Dê. Totalmente seu estilo.
ResponderExcluirTem gente que faz questão de não se deixar esquecer.
Beijos
Também com saudade daqui :\ Apesar de nunca mais ter postado nada, sempre que der quero ler queridos blogs como o seu, só que agora tô sem tempo (faculdade sabe? rs).
ResponderExcluirMais uma vez escreveu uma preciosidade. Um belíssimo texto, e mesmo algumas lembranças sendo más, a gente não consegue se livrar delas, às vezes...
Beijo!
nossa que coisa mais linda.
ResponderExcluircheia de frases que eu quero colecionar pra mim *-*