domingo, 1 de abril de 2012

O tempo passa, mas não passa

Você passou pela porta e eu fiquei acenando da janela, você ficando menor e menor a cada passo, minha mão indo para lá e para cá mais e mais lentamente. Ao cruzar o portão, virou o rosto para me encarar mais uma vez; eu já ia abrir a boca para dizer as palavras mais duras que guardei, mas antes disso você sorri de canto, pisca o olho e me priva de fazer tudo aquilo que já há muito tempo eu deveria ter feito.

Quando não consegui mais te ver, saí da janela e peguei o telefone – talvez você me ligasse. Logo o tic tac do relógio começou a caçoar de mim, mais e mais alto, mas o meu orgulho foi superior e virei a cara sem olhar uma única vez, como se não fosse comigo. Talvez não fosse comigo. Comecei a andar pela casa, liguei e desliguei o rádio para ver se esquecia. Não esqueci. Vaguei até a cozinha, passei um café, passei dias, passei semanas. A gente esquece que o tempo faz essa coisa engraçada com o estômago, essa coisa que não me deixa engolir o café sem você. Encaro o telefone sabendo que não sou corajosa o suficiente para te ligar e admitir o que quer que seja. Um olhar de relance no espelho e a verdade omitida explode no meu rosto: aqui dentro existe uma vontade de te deixar ir embora, te deixar ir para fora de mim – e isso seria culpa sua, completamente sua. É você que parte sem deixar bilhetes nem abraços nem adeus – é você que, entre tudo que poderia me oferecer, escolhe deixar apenas saudade. O problema é que você sempre teve um cuidado muito grande em não me deixar te esquecer. Você que me ensinou a me embriagar de ti até as suas palavras me soarem como arranhões melódicos e o teu cheiro ficar impregnado no travesseiro, nas minhas roupas e na minha memória. Quanto mais eu corro, mas eu te encontro nas esquinas, nos comerciais de TV, na roupa suja espalhada pelo chão do quarto. Vez ou outra alguém me recomenda: pare de cultivar as más lembranças. Como se apenas as más lembranças doessem. Deito no sofá e fecho os olhos. Penso em tudo e em nada, em todas as coisas e em coisa alguma. Acho que cochilo – ou hiberno. Acordo, antes de a vida me dar uma daquelas lições em forma de sonho, querendo saber que ano é hoje. Que ano é hoje e se o café ainda está quente. Que ano é hoje e quando é que você volta. Já não passou da hora de anoitecer?

Abro e fecho um livro. Resolvo que é melhor começar pelas orelhas. Não tenho tempo de ler uma frase inteira, o portão te denuncia. Olho para a porta como uma criança olha um presente. Você entra com o pacote de pão fresco pedindo desculpas pela demora, respondo que não tem problema, que nem percebi. Mas você já sabe que é uma mentira e sorri para ela e para mim.

15 comentários:

  1. Bonito, realmente bonito. Mas lembrei dos meus pais....A lembrança não foi boa, mas eu gostei muito do texto porque vi a vida real ali.

    ResponderExcluir
  2. Muito bom o texto! Parabéns! Beijos!

    ResponderExcluir
  3. Que sentimento mais intenso esse do texto...! Muito bonito!
    Beijossss

    ResponderExcluir
  4. OMG! Que texto lindo!
    Tipo, muito!!

    ResponderExcluir
  5. Foi bem intenso, bem seu estilo, Dê. Parabéns pelo texto, e é um parabéns ao quadrado :)

    ResponderExcluir
  6. Dê, acho que agora tenho uma noção de quanto o seu blog é importante pra você. De quando as suas palavras e os seus sentimentos são valorizados. Você tá certa. E deu muito certo.
    Peguei os sentimentos seus e os que podem ser seus e guardei junto com os meus. Tá tudo uma confusão agora.
    Beijo! <3

    ResponderExcluir
  7. Gente, transbordou sentimento. Muito mesmo. Lindo, em todos os sentidos.

    ResponderExcluir
  8. Tem continuação esse negócio aqui? Eu quero, hein! E tipo, tô falando sério!

    Amei, Dê! ;*

    ResponderExcluir
  9. Vi você em cada pequena minúcia desse texto. E fiquei imaginando o que aconteceu depois que ele voltou...tô tão romântica hj. hauhauahauh

    ResponderExcluir
  10. Ah, essas pessoas que não nos permitem que nós as esqueçamos :(

    ResponderExcluir
  11. Achei lindo, Dê. Totalmente seu estilo.
    Tem gente que faz questão de não se deixar esquecer.
    Beijos

    ResponderExcluir
  12. Também com saudade daqui :\ Apesar de nunca mais ter postado nada, sempre que der quero ler queridos blogs como o seu, só que agora tô sem tempo (faculdade sabe? rs).

    Mais uma vez escreveu uma preciosidade. Um belíssimo texto, e mesmo algumas lembranças sendo más, a gente não consegue se livrar delas, às vezes...

    Beijo!

    ResponderExcluir
  13. nossa que coisa mais linda.
    cheia de frases que eu quero colecionar pra mim *-*

    ResponderExcluir