Hoje lhe disseram uma verdade. Dessas que dói fundo, sabe, que lhe atinge como bofetada na cara que você até queria não sentir, mas sabe que está merecendo e que, olha, você até gostaria de não pensar nisso, mas deveria ser assim faz tempo porque você não tem jeito, menina. Não tem solução nenhuma que arrume esse seu mal e você vai ficando assim, toda murcha, como se a culpa não fosse sua, como se a escolha não fosse sua, como se todas as falhas e erros e necessidade absurda de não se contentar com o suficiente não partisse de você, daí de dentro, dessa coisa que você chama de coração. E fica assim, essa coisa mal resolvida que você carrega há anos, que se arrasta cada dia mais, que polui qualquer sintoma de felicidade que você possa ter porque quando acha que finalmente, ah, estou satisfeita, vem aquela pontada lá fundo e lhe lembra que o erro continua ali, martelando o juízo, prendendo toda e qualquer possibilidade de soltar as amarras. E então sabe o que acontece? Você morre por dentro, menina, porque não é nem de longe tão forte como pensa, não é tão esperta, nem tão única e muito menos tão dona de si. O que lhe custa admitir é que não sabe bem a causa, o motivo ou até mesmo se um dia vai ser capaz de descartar essa vida – não consegue esquecer essas velhas mágoas que lhe trazem palavras, fotografias e uma vida inteira que, por algum motivo, cruzou a sua e lhe contaminou com essa coisa sem explicação, esse veneno que mata aos poucos e qualquer hora dessa lhe consome até que não reste nada de ti. Não há quem lhe entenda, menina. Segue nesse passo de um dia vitorioso, no outro de mãos atadas e no segundo seguinte, frágil frágil. E se lhe perguntarem, ainda dirá que não sabe viver sem – que acha que odeia, mas no fundo não consegue esquecer porque vê ali alguém que, ainda que muito no passado, você quis ser. E sabe do que mais? Você está aqui, chorando migalhas, enquanto há gente que dorme tranquila, vivendo uma paz sem fim e que já lhe extraiu da própria existência no instante que nela você adentrou. Porque as pessoas cansam de você, menina – só você que não cansa desse jogo de sofrer cada dor como se morresse se não o fizesse e não o contrário. E fica isso, essa coisa sem sentido, essa escolha em padecer e em cultivar um pesadelo que já teve fim no instante que começou – e só você não vê.
Talvez não me traga bem algum, talvez eu continue martelando naquilo que mais me faz infeliz para sustentar o meu pior vício, para me alimentar do sangue que jorra da ferida cada vez que eu vou até ela e, masoquista, insisto mais um pouco no erro – talvez. Mas, por enquanto, tô botando pra fora as lágrimas da noite.
