sexta-feira, 27 de abril de 2012

É esse o fim?


Eu não sou a heroína
Dessa história 
E tão pouco você 
Mas acho que chegou a hora 
De salvarmos um ao outro. 

Há tempestade lá fora e também aqui dentro de mim, mas ele nunca percebeu a minha chegada berrante pela porta de entrada ou pela dos fundos. Para ele, nunca fez muita diferente – experimentei passar noites fora, sumir como todas as roupas do armário, não me alimentar bem. Passei noites em claro tentando me manter acordada enquanto escrevia uma palavra ou outra que fizesse algum sentido, que pudesse explicar algo no momento em que o silêncio não bastava. Não adiantou. Nada chamaria a sua intenção, eu deveria saber antes de ter dado início a esse circo patético lotado de palhaços e de nenhuma mágica. Acho isso errado de tantas formas que desconheço se existe um jeito certo de ao menos te dizer que já basta. Gostaria de ter o poder de ao menos terminar um pensamento por mim só, mas cada tentativa fica mais distante até chega nesse ponto que é o vazio de sempre. Não acho que estamos conseguindo alguma coisa; estamos nos ferindo e cometendo o pecado de esmagar os sonhos um do outro. Não, eu não sou inocente. É claro que eu já fingi um beijo ou um abraço que queria prender só para mim e não deixar feito pássaro livre para ser preso por outra pessoa. É claro que eu já menti, e muitas vezes – ou ele achou mesmo que ia entregar tão facilmente o meu coração? Tanto cuidado para apenas ter uma pilha de acusações na consciência e alguma canção triste para compor. Você consegue sentir? Eu sinto – o frio, a TV chiando, uma gota caindo na pia da cozinha, a janela da sala rangendo. Você vê? É o fim?

sábado, 21 de abril de 2012

Um momento distante

para ouvir: Sweet disposition - The Temper Trap



song of desperation,
I played then for you...

a moment, a love,
a dream, a laugh,
a kiss, a cry,
our rights, our wrongs... 



Nos últimos tempos, o único que não me traiu foi o mar. Aquele vai e vem de ondas nunca me deixou esperando, nunca me deixou só, nunca me decepcionou: sempre haveria volta. À beira mar eu me sentia em uma espécie de solidão acompanhada – existe isso, solidão sem estar só? Olhei para os lados pensando se haveria alguém que valesse a pena, que eu pudesse chamar de companheiro, pra quem eu pudesse dar abrigo, quem pudesse me oferecer um ombro, um abraço ou uma verdade, ainda que dolorida. Não havia. Pensei, então: estou acompanhada pela solidão. Estaria também em paz, se a música da última noite não tivesse ecoado em minha mente. Como se ninguém estivesse te observando, ecoava em meus ouvidos, me importunada a paciência, me deixava contrariada. Eu sei, eu sinto cada passo sendo monitorado – tive que admitir. Sinto o desapontamento, também. Cada vez que nos cruzamos no corredor e os olhares perigosamente e sem querer se encontram, eu sinto exatamente isso: uma necessidade tremenda de um momento que nunca mais aconteceu. Um sonho, uma risada, uma combinação de pensamentos... Como dois anos podem mudar tanto em dois meses? Como pode haver tanto desencontro entre duas pessoas separadas por uma avenida, alguns carros, muitas coisas não ditas e tanto sentimento oculto? A nova circunstância entre nós é o silêncio – logo ele, que nunca foi nosso companheiro, é o único que ainda torna tudo isso suportável. O silêncio é aquilo que adia mais um pouco o fim que se torna cada vez mais nítido. Eu consigo enxergar, você não? Já posso até prever e tenho ensaiado em frente ao espelho um “oi, como você está?” sem nenhuma pretensão que minha pergunta casual seja de alguma forma respondida. Eu sei que ainda posso te ligar. Sei que a qualquer momento isso será ridiculamente superado e seguiremos as nossas vidas com uma expressão rude no rosto e o pensamento de “o que mais se poderia fazer?”. Mas eu não quero, porque ouvir sua voz só por uma linha telefônica é incômodo demais para quem queria mesmo era as palavras de um silêncio presente, daqueles que parecia fazer carinhos em nós quando, sem dizermos absolutamente nada, já havíamos dito tudo. Nunca fui dessas que superam facilmente as dores como se no dia anterior não estivesse com o peito dilacerado e abraçado a decepção. Nada me incomoda mais que o excesso de coisas não ditas. Nunca fiz questão de coisas facilmente ou falsamente perdoáveis. Tenho, sim, vontade de bater mais uma vez à sua porta e sem descaminhos, indagar que porra é acha que estamos fazendo. Assim mesmo: sem orgulho ou vergonha alguma, eu renunciaria inclusive a essa minha sensação de que só eu estou tentando ver as coisas pelo lado bom. Mas eu tenho medo de algo mais terrível acontecer: que não haja nada a ser dito. Que não tenha remédio e que o fim já tenha chegado sem eu me dar conta. Sei que somos jovens e irritantemente parecidas – sei que temos outros problemas e outras vidas e outros abraços. Mas não me peça apenas para ficar aqui, esperando você chegar; não me peça para ver ir embora todos os momentos em que precisei de você até só ficar aquilo no que você é absolutamente dispensável. Não me peça para esquecer, nem que seja por pouco dias, porque minha memória ainda não aprendeu com o mar. Porque nada é mim é tal como uma onda. Porque nem tudo que vai, volta - mesmo que volte, não há garantia de que seja como um dia foi. Isso de fato soa como uma canção de desespero para você. Cante-a, se quiser. E não pare até que tudo isso tenha um fim.

sábado, 14 de abril de 2012

Antiga(mente)


How many special people change? 
How many lives are living strange? 

Tenho repetido o roteiro dessa história sempre com as mesmas palavras e sentimentos. Falar sobre o modo com que me relaciono comigo e com ou outros virou um desses dramas clichês que nos fazem deixar o cinema antes de chegar na metade da história – os personagens não sabem interpretar nem a si mesmos e ficam em um eterno movimento cíclico de mesmas escolhas, mesmos erros, mesmas lamentações, mesma falta de compreensão sobre aquilo que já é café morno até para si próprio. Não interessa se busco entender os problemas de um dia ou um ano atrás – é sempre a mesma ordem inevitável de coisas que só me fazem chegar à conclusão de que estou mesmo condenada a mim mesma, que sou a perdição da minha própria mente, que sou prisioneira da minha falta de vontade de conduzir a dança sem ninguém pisando nos meus sapatos e me dizendo que não gosta da música que está tocando. Queria tanto ter a paz e o silêncio de ouvir o que minha alma grita, mas sempre acabo em um desses shows de rock onde ninguém consegue dar atenção aos próprios pensamentos – é só aquela a gente ao seu redor julgando o jeito como você se veste, sem sequer lhe dar a chance de explicar porque está ali daquela forma, com aquelas companhias e com aquela expressão de que nada no mundo compensa tanta desordem. No fim, fica só o velho disco arranhando na vitrola, deixando escancarada no ar a pior das verdades: sou a única que ainda acredita nas mentiras que conto. Na última vez que eu disse que seria a última vez, pude sentir pelas minhas costas as risadas de todos que já sabiam que, em poucos dias, a única coisa que viria seria outro desabafo como esse. No início de tudo é tão fácil. Eu juro a mim mesma que me boicotar é coisa do passado e me convenço de que tenho em mãos todas as armas para sentir uma felicidade contagiante – e tenho mesmo, ainda que não pareça. Mas é com facilidade que rompo as minhas próprias promessas e traio todos os planos que tracei. Minha mente começa a trabalhar em auto-ataque e entra em choque por tudo que anda acontecendo – e pelo irreal, também. Jogo ao vento as convicções de que é possível vencer a mim mesma, até que novamente me dou conta de que há a chance de ser feliz com o que se tem e não somente com aquilo que se acha que deveria ter. É nesse momento que viro a metamorfose ambulante não muito nos moldes do que o velho Raul previa; ergo as mãos aos céus, me ajoelho num canto do meu quarto e só peço para que o que tiver de vir, que seja para acrescentar e jamais para destruir. Nem busco mais entender o que me leva a tanto extremos e por desistir de uma auto-compreensão é que percebo tantos olhares de dúvidas destinados a mim. Está escrito no olhar de quem me vê que a grande maioria acha que eu nunca vou conseguir encontrar em mim mesma alguma paz. Pois eu digo a todos que se eu estiver meditando à beira mar ou mesmo contando os grãos de areia para descobrir com quantos se faz um castelo é porque não desisto de viver ainda que isso implique em castigar a mim mesma até que eu pague a dívida de um dia ter ousado pensar que a verdade sobre mim está em outro alguém. Sou mais independente que essa minha vontade de estar sempre ligada a algo e na falta de pessoas que acreditem em mim, eu resolvi achar aqui dentro a coragem que preciso para recomeçar mesmo quando a luta parece vencida antes do seu início. Ainda ouço uns ou outros que me destinam algumas das frases mais clichês de Caio Fernando – vai passar, tu sabes que vai passar, talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? – mas tudo tem acontecido quando me ponho a pensar que guardar mágoas é um desperdício de espaço de memória e do coração e que se todos os dias eu dou uma nova chance a mim mesma, porque não dar oportunidade às outras pessoas, também? Se esperavam um novo rumo pra mim, se enganaram em pensar que por um único segundo eu cogitei a hipótese de desistir de mim mesma. Hoje, eu abraço os meus erros como quem acolhe um amigo que te leva sempre aos mesmos passeios, mas que no fim do dia te trás de volta para casa – foi o que o destino sempre quis e eu aprendi a ser muito bem assim. Talvez seja mesmo uma nova espécie de paz essa que eu tenho: boa o suficiente para trazer alegria, mas nunca duradoura ao ponto de me fazer acomodar. E cá estou eu, flutuando insegura no meio de tantas conclusões, reaquecendo o café e pensando que talvez seja essa a única saída: acreditar que não se pode ir mais em frente para, logo em seguida, ter vontade de ir muito mais além.

domingo, 1 de abril de 2012

O tempo passa, mas não passa

Você passou pela porta e eu fiquei acenando da janela, você ficando menor e menor a cada passo, minha mão indo para lá e para cá mais e mais lentamente. Ao cruzar o portão, virou o rosto para me encarar mais uma vez; eu já ia abrir a boca para dizer as palavras mais duras que guardei, mas antes disso você sorri de canto, pisca o olho e me priva de fazer tudo aquilo que já há muito tempo eu deveria ter feito.

Quando não consegui mais te ver, saí da janela e peguei o telefone – talvez você me ligasse. Logo o tic tac do relógio começou a caçoar de mim, mais e mais alto, mas o meu orgulho foi superior e virei a cara sem olhar uma única vez, como se não fosse comigo. Talvez não fosse comigo. Comecei a andar pela casa, liguei e desliguei o rádio para ver se esquecia. Não esqueci. Vaguei até a cozinha, passei um café, passei dias, passei semanas. A gente esquece que o tempo faz essa coisa engraçada com o estômago, essa coisa que não me deixa engolir o café sem você. Encaro o telefone sabendo que não sou corajosa o suficiente para te ligar e admitir o que quer que seja. Um olhar de relance no espelho e a verdade omitida explode no meu rosto: aqui dentro existe uma vontade de te deixar ir embora, te deixar ir para fora de mim – e isso seria culpa sua, completamente sua. É você que parte sem deixar bilhetes nem abraços nem adeus – é você que, entre tudo que poderia me oferecer, escolhe deixar apenas saudade. O problema é que você sempre teve um cuidado muito grande em não me deixar te esquecer. Você que me ensinou a me embriagar de ti até as suas palavras me soarem como arranhões melódicos e o teu cheiro ficar impregnado no travesseiro, nas minhas roupas e na minha memória. Quanto mais eu corro, mas eu te encontro nas esquinas, nos comerciais de TV, na roupa suja espalhada pelo chão do quarto. Vez ou outra alguém me recomenda: pare de cultivar as más lembranças. Como se apenas as más lembranças doessem. Deito no sofá e fecho os olhos. Penso em tudo e em nada, em todas as coisas e em coisa alguma. Acho que cochilo – ou hiberno. Acordo, antes de a vida me dar uma daquelas lições em forma de sonho, querendo saber que ano é hoje. Que ano é hoje e se o café ainda está quente. Que ano é hoje e quando é que você volta. Já não passou da hora de anoitecer?

Abro e fecho um livro. Resolvo que é melhor começar pelas orelhas. Não tenho tempo de ler uma frase inteira, o portão te denuncia. Olho para a porta como uma criança olha um presente. Você entra com o pacote de pão fresco pedindo desculpas pela demora, respondo que não tem problema, que nem percebi. Mas você já sabe que é uma mentira e sorri para ela e para mim.