song of desperation,
I played then for you...
a moment, a love,
a dream, a laugh,
a kiss, a cry,
our rights, our wrongs...
Nos últimos tempos, o único que não me traiu foi o mar. Aquele vai e vem de ondas nunca me deixou esperando, nunca me deixou só, nunca me decepcionou: sempre haveria volta. À beira mar eu me sentia em uma espécie de solidão acompanhada – existe isso, solidão sem estar só? Olhei para os lados pensando se haveria alguém que valesse a pena, que eu pudesse chamar de companheiro, pra quem eu pudesse dar abrigo, quem pudesse me oferecer um ombro, um abraço ou uma verdade, ainda que dolorida. Não havia. Pensei, então: estou acompanhada pela solidão. Estaria também em paz, se a música da última noite não tivesse ecoado em minha mente. Como se ninguém estivesse te observando, ecoava em meus ouvidos, me importunada a paciência, me deixava contrariada. Eu sei, eu sinto cada passo sendo monitorado – tive que admitir. Sinto o desapontamento, também. Cada vez que nos cruzamos no corredor e os olhares perigosamente e sem querer se encontram, eu sinto exatamente isso: uma necessidade tremenda de um momento que nunca mais aconteceu. Um sonho, uma risada, uma combinação de pensamentos... Como dois anos podem mudar tanto em dois meses? Como pode haver tanto desencontro entre duas pessoas separadas por uma avenida, alguns carros, muitas coisas não ditas e tanto sentimento oculto? A nova circunstância entre nós é o silêncio – logo ele, que nunca foi nosso companheiro, é o único que ainda torna tudo isso suportável. O silêncio é aquilo que adia mais um pouco o fim que se torna cada vez mais nítido. Eu consigo enxergar, você não? Já posso até prever e tenho ensaiado em frente ao espelho um “oi, como você está?” sem nenhuma pretensão que minha pergunta casual seja de alguma forma respondida. Eu sei que ainda posso te ligar. Sei que a qualquer momento isso será ridiculamente superado e seguiremos as nossas vidas com uma expressão rude no rosto e o pensamento de “o que mais se poderia fazer?”. Mas eu não quero, porque ouvir sua voz só por uma linha telefônica é incômodo demais para quem queria mesmo era as palavras de um silêncio presente, daqueles que parecia fazer carinhos em nós quando, sem dizermos absolutamente nada, já havíamos dito tudo. Nunca fui dessas que superam facilmente as dores como se no dia anterior não estivesse com o peito dilacerado e abraçado a decepção. Nada me incomoda mais que o excesso de coisas não ditas. Nunca fiz questão de coisas facilmente ou falsamente perdoáveis. Tenho, sim, vontade de bater mais uma vez à sua porta e sem descaminhos, indagar que porra é acha que estamos fazendo. Assim mesmo: sem orgulho ou vergonha alguma, eu renunciaria inclusive a essa minha sensação de que só eu estou tentando ver as coisas pelo lado bom. Mas eu tenho medo de algo mais terrível acontecer: que não haja nada a ser dito. Que não tenha remédio e que o fim já tenha chegado sem eu me dar conta. Sei que somos jovens e irritantemente parecidas – sei que temos outros problemas e outras vidas e outros abraços. Mas não me peça apenas para ficar aqui, esperando você chegar; não me peça para ver ir embora todos os momentos em que precisei de você até só ficar aquilo no que você é absolutamente dispensável. Não me peça para esquecer, nem que seja por pouco dias, porque minha memória ainda não aprendeu com o mar. Porque nada é mim é tal como uma onda. Porque nem tudo que vai, volta - mesmo que volte, não há garantia de que seja como um dia foi. Isso de fato soa como uma canção de desespero para você. Cante-a, se quiser. E não pare até que tudo isso tenha um fim.