Teria sido mais fácil se ela tivesse recusado o convite, feito uma xícara de chá e sentado no sofá da sala para assistir Grey’s Anatomy – justo aquele episódio cruel em que a little Grey e o Mark se separam. Nada mais fim de romance que nem começou do que isso. Hoje, mais do que nunca, se sentia incapaz de carregar a força de ser Carolina. Preferia ser Isabel, aquela sem significado algum para alguém cética como ela. O seu plano de solidão teria sido perfeito se ele, o da noite anterior, não tivesse feito o telefonema em busca de outra dose de wisky e de paixão – não, nada de café dessa vez, nada de coisas mornas que facilmente ficam frias e desgostosas. Naquele bar e naquele encontro só tinha tido espaço para uma ou duas palavras de identificação, muitos abraços e pretensão alguma – ao menos era o que ela achava. O telefone chamou uma, duas, três vezes até eu ela resolvesse dar resposta àquilo que em duas frases bem ensaiadas poria fim ao seu indestrutível faro para um canalha bem vestido e com bom gosto para cigarros. Acabou cedendo, mesmo tendo plena consciência que no fim só caberia a acusação a sim mesma, a autopiedade e a condenação por ter sido a única culpada de romper suas verdades e aderir as mentiras alheias. Isabel, venha comigo – era impossível de denegar o convite. Juntou o necessário em uma bolsa pequena e partiu – não fez questão de salto alto, de maquiagem pesada e nem de um vestido escuro. Para quê máscaras? Era tão simples aquela complexidade. Ele falava uma ou duas palavras que no seu conceito seriam engraçadas ou convidativas – ela fingia rir enquanto se lembrava do quanto odiava Mark por ter deixado a little Grey partir. Ele expunha suas façanhas das últimas horas, apresentava o carro novo, listava diversas opções de locais para onde poderiam ir – ela concordava com a cabeça enquanto tentava lembrar se havia desligado o fogo do chá e guardado o que sobrara na geladeira. Para quê mais que isso? Era extremamente dispensável dividir contas, ter filhos para cuidar ou mesmo trocar confidências sobre como a relação estava evoluindo – quando na verdade só afundava de forma irremediável naquele abismo. Isabel, mais do que nunca, só queria por fim àquela sensação de estar só e seguir sozinha. Queria estar acompanhada, se pertinente, e depois três beijinhos, até logo, se me ligar novamente, que seja na só na semana que vem. Não que estivesse com medo – apenas não queria, por enquanto, tentar nada novo. Ali, onde os românticos não ousavam transitar e as putas ou mulheres bem resolvidas viviam sem menor pudor, era onde Carolina se perdia para ser Isabel no sentido vago que aquilo representava. Aquilo entre eles dois era alguma coisa quando tinha que ser e depois, simplesmente, não era mais nada – exatamente como deveria. Era assim que ela poderia ser absolutamente ninguém – um número na lista do telefone para as horas vagas e só. E quem poderá culpá-la por isso? Naquele momento, era pesado demais tomar conta de si próprio e também de alguém – naquele momento, o melhor era ser o mínimo que pudesse.
sexta-feira, 25 de maio de 2012
sábado, 5 de maio de 2012
Enlouquecida(mente)

Driving in your car
I never never want to go home
Because I haven't got one
Anymore
Me leve para fugir essa noite. Cale minhas reclamações e as transforme em sorriso. Me leve para algum lugar onde as luzes brilhem tanto que doa aos olhos de quem não quiser enxergar o colorido da avenida. Me ponha em movimento dentro de um carro, dentro de um abraço, dentro de uma roda de música e pessoas cantando alto, soltando a alma em um ritmo que não me faça querer parar. Me cerque do rock britânico dos anos 80 e do balaio dos violões com suas cordas quase rompendo de tanta euforia. Você sabe, eu nunca quis sair do meu mundo, mas, de qualquer forma, me apresente o seu. Me dê a chance de escolher algo diferente que me faça querer sair de casa e correr pelas ruas da cidade. Me leve para fugir essa noite porque eu quero ver o que de tão fabuloso e ao mesmo tempo cruel existe por trás das janelas do seu carro. Me leve para ver pessoas de verdade. Me apresente lágrimas e risadas. Faça com que eu sinta coisas boas. Faça com que eu sinta alguma coisa. Me leve para beber até perder o bom senso e me deixe sentada ao meu fio, cantando enlouquecidamente alguma cantiga que acabei de aprender. Não, não me deixe em casa. Não me ponha na cama, estenda o cobertor e me faça dormir. Eu não quero dormir essa noite; eu quero enlouquecer sem motivo algum e acordar amanhã com uma dor de cabeça que tenha valido a pena. Pensando bem, não me deixe voltar. Não quero ser mais benvinda no meu mundo, eu quero ser parte do seu. Quero pegar a sua mão e correr pelo meio das ruas, desviando de motos e ônibus, colidindo apenas com você. Esperar amanhecer ao seu lado é uma forma linda de uma noite chegar ao seu fim. E se a noite não acabar, e se o delírio permanecer, e se a realidade jamais retornar, bem, o prazer e o privilégio de viver essa loucura opcional ao seu lado terá sido todo meu. Mas me leve para fugir essa noite. Me leve para qualquer lugar, não precisa me dizer para onde, não precisa me dizer com quem, não precisa haver hora para voltar. Me transporte por meio de suas passagens secretas até chegar a um lugar que me faça pensar: esperei tanto para estar aqui. E se um medo inaceitável for aparente em meu rosto, novamente: cale minhas reclamações e as transforme em sorriso. Não deixe que nada nos detenha. Me leve para fugir essa noite e juro como nada mais me importa. Me leve para fugir essa noite e não me traga de volta. Me leve para fugir essa noite e se perca comigo em algum lugar. Me leve para fugir essa noite com você.
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