sexta-feira, 25 de maio de 2012

Isabel, que não era Carolina

Teria sido mais fácil se ela tivesse recusado o convite, feito uma xícara de chá e sentado no sofá da sala para assistir Grey’s Anatomy – justo aquele episódio cruel em que a little Grey e o Mark se separam. Nada mais fim de romance que nem começou do que isso. Hoje, mais do que nunca, se sentia incapaz de carregar a força de ser Carolina. Preferia ser Isabel, aquela sem significado algum para alguém cética como ela. O seu plano de solidão teria sido perfeito se ele, o da noite anterior, não tivesse feito o telefonema em busca de outra dose de wisky e de paixão – não, nada de café dessa vez, nada de coisas mornas que facilmente ficam frias e desgostosas. Naquele bar e naquele encontro só tinha tido espaço para uma ou duas palavras de identificação, muitos abraços e pretensão alguma – ao menos era o que ela achava. O telefone chamou uma, duas, três vezes até eu ela resolvesse dar resposta àquilo que em duas frases bem ensaiadas poria fim ao seu indestrutível faro para um canalha bem vestido e com bom gosto para cigarros. Acabou cedendo, mesmo tendo plena consciência que no fim só caberia a acusação a sim mesma, a autopiedade e a condenação por ter sido a única culpada de romper suas verdades e aderir as mentiras alheias. Isabel, venha comigo – era impossível de denegar o convite. Juntou o necessário em uma bolsa pequena e partiu – não fez questão de salto alto, de maquiagem pesada e nem de um vestido escuro. Para quê máscaras? Era tão simples aquela complexidade. Ele falava uma ou duas palavras que no seu conceito seriam engraçadas ou convidativas – ela fingia rir enquanto se lembrava do quanto odiava Mark por ter deixado a little Grey partir. Ele expunha suas façanhas das últimas horas, apresentava o carro novo, listava diversas opções de locais para onde poderiam ir – ela concordava com a cabeça enquanto tentava lembrar se havia desligado o fogo do chá e guardado o que sobrara na geladeira. Para quê mais que isso? Era extremamente dispensável dividir contas, ter filhos para cuidar ou mesmo trocar confidências sobre como a relação estava evoluindo – quando na verdade só afundava de forma irremediável naquele abismo. Isabel, mais do que nunca, só queria por fim àquela sensação de estar só e seguir sozinha. Queria estar acompanhada, se pertinente, e depois três beijinhos, até logo, se me ligar novamente, que seja na só na semana que vem. Não que estivesse com medo – apenas não queria, por enquanto, tentar nada novo. Ali, onde os românticos não ousavam transitar e as putas ou mulheres bem resolvidas viviam sem menor pudor, era onde Carolina se perdia para ser Isabel no sentido vago que aquilo representava. Aquilo entre eles dois era alguma coisa quando tinha que ser e depois, simplesmente, não era mais nada – exatamente como deveria. Era assim que ela poderia ser absolutamente ninguém – um número na lista do telefone para as horas vagas e só. E quem poderá culpá-la por isso? Naquele momento, era pesado demais tomar conta de si próprio e também de alguém – naquele momento, o melhor era ser o mínimo que pudesse.

7 comentários:

  1. Oi Deyse. As vezes a gente acaba cedendo a tentação para algo despretensioso, algo que talvez a gente nem lembre, e talvez também não seremos lembrados, no dia seguinte. As vezes a gente precisa disso de desapegar do certinho e curtir um momento menos convencional.

    Beijo

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  2. "Fim de romances que nem começaram". Analu: a expert no assunto. HAHAHA.
    Amei o texto amiga, pra variar!

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  3. Vou ter que dividir o pódio com a Analu, então.
    E estou aqui me perguntando como deve ser conseguir deixar de ser Carolina e se esconder em uma Isabel. Nas poucas vezes que eu tentei, deu tudo errado e só sobrou culpa.
    Vamos carregando nossas Carolinas densas mesmo.

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  4. Deyse,

    Você não sabe o que acabou de acontecer! Eu me li, nesse teu texto. Você me descreveu, menina. Você saiu mostrando o avesso de tudo o que tem costurado aqui por dentro, nesses últimos dias. E sabe do que mais? Eu achei fantástico! Foi como se eu conseguisse, ao te ler, me organizar e me entender um pouquinho. Me ver por fora, em tuas letras, me fez sentir menos só em minhas decisões.

    "Queria estar acompanhada, se pertinente, e depois três beijinhos, até logo, se me ligar novamente, que seja na só na semana que vem. Não que estivesse com medo – apenas não queria, por enquanto, tentar nada novo."

    Pra que peso, quando tudo pode ser assim, leve?

    Obrigada pela leitura, tá? Você escreve lindo e eu já sei que perdi muita coisa aqui nesses tempos de ausência, infelizmente.

    Olha, é sempre um prazer recebê-la em meu canto com palavras tão gentis e doces. Sabia que me sinto igual ao estar aqui.

    Um beijo.

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  5. Gostei do conto.Bem,simples,nada dramático.Meio que me enxerguei nele xD

    Ah,sim,só uma sugestão {não fique com raiva de mim}: poderia colocar uma fonte mais escura e pôr parágrafos espaçados. Assim, parecerá mais agradável de ler #dica

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  6. "Carolina, nos seus olhos fundos guarda tanta dor..."
    Chico já sabia da dureza de ser uma Carolina! Rs
    Adorei! E adoro Greys tbm! ;)
    Abraço!

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  7. Eu queria conseguir ser Isabel só um pouquinho. Levar a vida mais leve e tal. Mas nunca consegui. Ou e consegui, não lembro, porque minha Carolina não deixa tomarem seu lugar por muito tempo.

    É. Hm. rs.


    (OBS: ainda espero sua inbox)

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