Eu sempre fui feita de muitos conflitos interiores que eu gostaria de reverter, de conduzir ao meu modo, de relativizar. O mais contraditório de todos eles, porém, foi quando eu decidi fazer em umas das paredes do meu quarto um mural de fotos em formato de coração, colocando lá todos os rostos que iluminam o coração de verdade. O meu maior medo foi que chegasse o dia em que eu olharia para aqueles retratos e não fizesse sentido alguns eles estarem colados lá de um jeito tão permanente e difícil de retirar. Sempre tive um medo irracional de colocar pessoas no meu coração para ter que arrancá-las logo em seguida – literalmente ou não.
Acontece que hoje eu acordei sozinha, sem barulho, sem vento frio, sem café da manhã digno de hotel. Acordei e não tinha ninguém com quem dividir o banheiro, não tinha mochila pesada nas minhas costas e muito menos tinha mala pra arrumar. Hoje, quando eu saí de casa, não cantei músicas no carro, não peguei metrô, ninguém me indicou o caminho e, quando cheguei ao prédio onde trabalho, ele não era na Avenida Paulista. Hoje, quando fui almoçar, não era Mc Donald’s e quando chegou a tarde, não havia Bienal, nem passeio no shopping, nem compras divertidas. E se eu cansasse dessa melancolia e saísse cantando Legião Urbana enquanto andava na rua, seria taxada de louca desvairada, inclusive por mim mesma, porque não é mesmo compreensível querer ser feliz sozinha. E quando chegou a noite, essa danada, a lua me pareceu mesmo feita de pedra, a pizza do jantar sem gosto, as músicas soavam estranhas como se nunca tivessem sido ouvidas e minha cama, antes estreita e quente, era grande demais só para mim.
Não sei se dois dias é muito ou pouco tempo, mas sei que é suficiente pra reconhecer no olhar das pessoas aquilo – e muito mais – que eu sempre imaginei que elas fossem. Encontrar as minhas meninas foi um presente que Deus me preparou com cuidado e demorou 20 anos para entregar, porque de certo Ele queria ter confiança de que eu estava preparada para reconhecer em um simples encontro de corpos uma reunião de almas gêmeas. Sei que amor não é feito de saudade, muito embora o nosso esteja cheio dela; mas sei também que a vontade do reencontro é o que constrói os dias e que quando não há o que se esperar, a vida não passar de uma repetição do mesmo. Acabado do fim de semana mais surreal da minha vida, eu vejo as nossas fotos pra em seguida fechar os olhos daquele jeito de quem quer olhar para dentro e voltar devagar no tempo, desde o instante do pouso do avião até o último “a gente se vê em breve, viu?”.
Eu poderia dizer muito mais sobre a nossa história, mas recentemente aprendi que "como todas as histórias de amor de verdade, ela vai morrer com a gente, como deve ser". E para quem me pergunte, eu me limito a dizer: nós somos amor, do tipo que transborda. Hoje eu estou no meu habitat – está calor, o céu está pintado em um azul lindo e a brisa do mar refresca minha alma. Mas eu nunca me senti tão fora de órbita. Nunca me senti tão fora de casa. Hoje, o meu lugar não é aqui; o meu lugar é com as minhas estrelas.
E sem conflito interior algum, eu formaria um coração inteiro só com os sorrisos de vocês.












