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sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Neofobia e outras desculpas

Mais de um mês desde a última vez que eu vim aqui. Não consigo mesmo ser estável. Droga.
Não é exatamente como se os outros sentissem a minha falta, mas ocorre que eu sinto falta da pessoa que eu sou depois que entro aqui, digo uma ou duas baboseiras e saio leve, para mim e para o mundo. Mas nem para dizer coisas sem sentido eu tive tempo durante Agosto, que foi um mês que passou por mim como um susto. É, definitivamente não haveria definição melhor. Agosto foi o meu soco no estômago, o meu sonho com face de realidade. Preciso dizer, Agosto por mim valeu por um ano inteiro, me trouxe (e, porque não?, me tirou) mais coisas que os últimos cinco verões. Agosto surgiu com tanta importância que para mim se tornou Agosto, o substantivo próprio. Agosto veio e passou e só deixou em mim esse não entendimento das coisas.
Em Agosto eu me formei, com direito a capelo, beca, uma semana de festas e baile de formatura. É, eu sei, já está todo mundo cansado dessa ladainha do "como será daqui para frente?". Eu estou cansada, vale dizer. Também sei que todo mundo já passou por isso, só que não adianta as pessoas ficarem me repetindo que tudo vai ficar bem, porque por mais que isso seja gentil, em verdade não diminui em nada o meu desespero. O fato é que eu me formei e, insira aqui um palavrão muito intenso, E AGORA? Me entendam, por favor, porque eu preciso escrever sobre isso, preciso estar ciente disso, preciso falar sobre esse assunto praticamente o tempo todo até que finalmente eu vou entender o sentido real de tudo e sobre como as coisas serão daqui pra frente - porque, surpreendentemente, eu tenho um plano.
Sim, eu tenho um plano bonito e a longo prazo e, se tudo der certo, vocês não somarão a minha pessoa à estatística de desemprego. Não, o meu "e agora?" não se refere ao que eu vou fazer da vida, mas sim como e quando eu vou fazer algo a respeito. Porque por enquanto, e não me orgulho do que vou dizer, eu não tive coragem sequer de ir à faculdade requerer um certificado de conclusão de curso, muito menos de ir à OAB fazer a minha inscrição. Não porque eu não sei o que fazer da vida - isso já está escrito desde o primeiro dia no curso de Direito, afinal. O problema é que eu não sei como.
Se eu tivesse me formado em medicina, diria que estou morrendo de medo de começar a trabalhar em um hospital e acabar matando cada paciente que passar pelas minhas mãos. Perder um prazo ou elaborar uma tese ruim pode não ser tão drástico, mas ainda assim é aterrorizante. Estar em uma audiência, fazer defesa oral, impetrar um recurso... Tudo isso me tira o sono. Até parece que eu não estudei 5 anos para tudo isso, que nunca fui ao Fórum, que não passei na OAB. A sensação que eu tenho é que não aprendi nada na faculdade. Mesmo que lá no fundo eu saiba que vou me sair bem e que é absolutamente normal, no início, duvidar de mim mesma... Ainda assim essa neofobia adquirida não me deixa dar um passo sequer à frente. O novo é assustador e congelante. Eu poderia facilmente pular essa parte inicial e ir direto àquela em que sou alguém experiente no que eu faço, porque, por enquanto, ser novata nessa coisa de ser gente grande não tem me atraído nem um pouco.
Agosto foi tão definitivo que se foi há cinco dias, mas aparentemente ainda está aqui, pairando pelo ar, me empurrando para o meu próximo grande passo. A verdade é que não escrevi nada durante Agosto porque estava muito ocupada tentando viver o turbilhão de coisas que estavam reservadas a mim nos seus 31 dias. Não sei se estou pronta para setembro, que deverá ser simples, porém mais breve que qualquer outro mês que eu já vivi. Setembro é o janeiro do momento, é o recomeço de tudo, o "era um vez" da minha nova história - história essa que, Deus me proteja, não faço ideia de como começar a escrever.


Para atravessar agosto é preciso antes de mais nada paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro - e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah!, escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente. - Caio F. Abreu.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

She's so contagious

Pra você, querida Anna. 

Hoje é terça-feira, minha cara amiga, e eu até quis telefonar, mas a tarifa não tem graça e morar longe de você custa caro. Custa caro manter essa distância Maranhão – Minas Gerais, que não dá para atravessar nem de moto nem de camelo. Tem sido um inverno longo, frio e solitário, mas hoje eu espero que você saiba que estou exatamente aí, do seu lado. 

E mesmo sem te ver acho até que estou indo bem, fazendo o que posso para diminuir a saudade que me atinge em cheio em dias como hoje, feito mar quando quebra na praia e leva tudo consigo. Quero que saibas que me lembro do teu sorriso, cada um dos que vi pessoalmente, e que os guardo comigo e os relembro quando quero aquecer o coração. Você é uma menina que me ensinou quase tudo que sei sobre ser gentil, sobre amar as pessoas, sobre ver o lado florzinha do mundo, sobre acreditar que Deus escreve certo por linhas certas. Você veio para enfeitar minha vida, dizer que será tipo festa sem fim. 

Sábios em vão tentarão decifrar o que se passa na minha mente quando me pergunto "o que de bom desejo à Anna?". Não consigo enumerar tudo, mas sei de algumas coisas. 

Quero que queime as lágrimas, cante mais alto, torça e grite. Tome fôlego. Não se afobe, não, que nada é pra já. Não caia nesse mundo despedaçado em torno de você. Não pare de pensar. Não pare de sentir. Escolha uma música triste e a faça melhor. Pegue um sorriso e ponha na face da tristeza. Tenha força, tenha força e tenha força – assim, repetido três vezes, que é para você não esquecer nunca. Tenha fé e se agarre a Deus, pois junto a ele é quando você descobre do que é feito seu coração. E se você está esperando alguém com quem realizar as coisas, você não sabe que essa pessoa é exatamente você? Comece por si mesma. Seja aquilo que você quer ver no outros – porque só assim, acredite, você verá. 

Sei que às vezes a idade nos trás o peso de olhar o passado e pensar no que já foi construído. Sei também que a gente tá engolindo cada sapo no caminho. Mas se isso deixar o seu coração mais leve nos momentos de angústia, pensa que a gente segue nessa vida se amando que, também, sem um carinho ninguém segura esse rojão. Ninguém nasce sabendo como ter 18, 19, 20 anos, mas você pode aprender com o tempo. E temos todo o tempo do mundo. 

Fique sabendo de ti que não me esquecerei, porque amores são sempre amáveis. 

Amor é tudo que você precisa. E você o tem.

ps.: juro que não sei a lista de todas as músicas que usei para compor o texto, mas aqui tem The Beatles, Vanguart, Switchfoot, Legião Urbana e Chico Buarque.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Aproveita que eu acordei feliz

Porque não é todo dia. Assim como não é todo dia que eu viajo 2992km, chego saltitando em um aeroporto e sou recebida com plaquinhas de identificação. Não é todo dia que banho com medo de molhar o banheiro e janto pizza até desmaiar de sono na melhor cama de edredom do mundo. Não é todo dia que eu acordo com ordem pra estar de pé antes do pão chegar à mesa, que como aquele bolo de chocolate (fofinho e com cobertura escorrendo pelos cantos, sabe?) no café da manhã, que misturo pão de queijo e mortadela.

Não é todo dia que alguém cuida do meu pé ferido, que me espera quando eu não acompanho o ritmo, que carrega as minhas coisas quando eu já estou a cara da derrota. Não é todo dia que alguém me dá colo quando faço burrada na balada, não é todo dia que alguém diz o quanto gosta de mim assim, sem eu ter feito nada de especial. Não é todo dia que alguém me adota só porque eu reclamo no meio da estação de metrô que não tenho mãe. Não é todo dia que é 26 de dezembro.

Mas devia, tudo isso, em looping infinito.

Porque todo dia deveria ser Renata Day. Ou todo mundo deveria ter, todos os dias, um pouquinho da Renata – como eu tenho. Ao menos uma vez na vida, alguém deveria receber um Abraço dela – Abraço de verdade, daqueles que quase ninguém mais dá, porque hoje em dia Abraço virou “bom dia” dado por cortesia. O dela não. Você tem que batalhar pra conseguir um Abraço dela. E a confiança? Vixe, põe tempo até ela deixar de achar que você é fake. E quando ela diz “eu concordo com você”? Bate aquela emoção no peito, aquele orgulho de que, por ao menos um milésimo de segundo, a Renta madura, organizada e responsável concorda com você. E quando ela ri de algo que você falou ou adora uma ironia sua? Soltem fogos de artifício, porque a Renata engraçada, rainha do sarcasmo, a Deusa-mor das tiradas fantásticas te achou (pausa dramática) divertida.

A verdade é que eu queria muito que a Renata gostasse de mim – louco é quem não quer. Quando viajei para conhecê-la, meu maior medo era que ela me olhasse, mandasse a Pandora me arranhar e depois me atirasse pelo 22º andar, gritando “você não é nada do que eu pensei”. Mas sempre foi lógico que ela não ia fazer isso, porque a Renata, aquela de quem eu tenho o maior orgulho, aquela cuja personalidade me inspira, aquela que sabe o jeito certo de te dar bronca e consegue por ordem na casa... A Renata sempre é melhor do que eu penso. A Renata sempre me surpreende positivamente. A Renata me faz até querer ser legal - mas só com quem merece. E olhe que eu não sou fofa. E nem digo "eu te amo" pra todo mundo. Mas ela consegue tudo isso.

É, mundo, aproveita que eu acordei feliz porque hoje é Renata Day.

As bravas também amam.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Vienna waits for you

Disseram por aí que ela não tinha nada de passarinha negra; que, se fosse para lhe dar um codinome, que fosse beija-flor – pequeno e belo, aparentemente inofensivo e, quando necessário, de uma resistência que reflete sua sintonia com a vida. Mas saibam vocês que os corvos, por exemplo, estão sendo cada vez mais reconhecidos pela sua exímia inteligência. Admito que foi por essa particularidade que, primeiramente, eu a distingui dos demais. Nela, essa característica – a enorme astúcia com a vida, com as pessoas e com si mesma – é algo que surpreende qualquer um que tem a sorte de perceber a luz dos olhos de boneca que ela tem. Ela, que carrega no nome a missão de enfrentar o que as circunstâncias exigem; ela, que pelos dias como que todos eles fossem sempre dias de ser sonhadora. Mesmo quando a vida quer brincar de ser séria, mesmo quando o medo é inevitável, Ela dança na frente das adversidades como quem desafia um inimigo – às vezes o seu compasso é um pouco mais veloz, às vezes é mais tímido... Mas ela jamais perde o ritmo.

Milena.

Se fosse por mim, eu seria nascida e criada nessa lua que você mora. Teria dormido aos teus pés muitas outras noites, tentaria te acordar outras tantas vezes só pra ver você preferir dormir a provar nossa janta; se dependesse de mim, e não da distância, faríamos mais noites do pijama e eu dormiria ao som da tua risada só pro dia nascer feliz, sempre. Quase sem querer ou sabendo que eu não resistiria, você invadiu os meus dias, me cultivou inúmeros sorrisos e me provou que eu estava errada cada vez que pensei “não, Ela não pode ser ainda mais fantástica”. O dia 10 de outubro está marcado no meu calendário como “o dia da única Milena do mundo”. Ainda que venham outras, nenhuma jamais será tão valente e persistente, tão alegre e sensível, tão espirituosa e ajuizada... Tão Milena. Obrigada por dividir comigo os seus dias, os seus medos, suas alegrias, suas ideias geniais, seu abraço apertado de “até logo”. Obrigada por me deixar ser parte do seu infinito. 

Muitos diriam que ainda é cedo para a dimensão do sentimento, mas depois de te encontrar e te ver partir, sim, eu preciso dizer que te amo. É. Eu preciso dizer que te amo. Tanto.



De: Analu, Annoca, Dedê, Renata e Tary.

http://www.4shared.com/rar/XGbpqu8H/Milena_Tape.html

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Temos nosso próprio tempo




Eu sempre fui feita de muitos conflitos interiores que eu gostaria de reverter, de conduzir ao meu modo, de relativizar. O mais contraditório de todos eles, porém, foi quando eu decidi fazer em umas das paredes do meu quarto um mural de fotos em formato de coração, colocando lá todos os rostos que iluminam o coração de verdade. O meu maior medo foi que chegasse o dia em que eu olharia para aqueles retratos e não fizesse sentido alguns eles estarem colados lá de um jeito tão permanente e difícil de retirar. Sempre tive um medo irracional de colocar pessoas no meu coração para ter que arrancá-las logo em seguida – literalmente ou não. 
Acontece que hoje eu acordei sozinha, sem barulho, sem vento frio, sem café da manhã digno de hotel. Acordei e não tinha ninguém com quem dividir o banheiro, não tinha mochila pesada nas minhas costas e muito menos tinha mala pra arrumar. Hoje, quando eu saí de casa, não cantei músicas no carro, não peguei metrô, ninguém me indicou o caminho e, quando cheguei ao prédio onde trabalho, ele não era na Avenida Paulista. Hoje, quando fui almoçar, não era Mc Donald’s e quando chegou a tarde, não havia Bienal, nem passeio no shopping, nem compras divertidas. E se eu cansasse dessa melancolia e saísse cantando Legião Urbana enquanto andava na rua, seria taxada de louca desvairada, inclusive por mim mesma, porque não é mesmo compreensível querer ser feliz sozinha. E quando chegou a noite, essa danada, a lua me pareceu mesmo feita de pedra, a pizza do jantar sem gosto, as músicas soavam estranhas como se nunca tivessem sido ouvidas e minha cama, antes estreita e quente, era grande demais só para mim. 
Não sei se dois dias é muito ou pouco tempo, mas sei que é suficiente pra reconhecer no olhar das pessoas aquilo – e muito mais – que eu sempre imaginei que elas fossem. Encontrar as minhas meninas foi um presente que Deus me preparou com cuidado e demorou 20 anos para entregar, porque de certo Ele queria ter confiança de que eu estava preparada para reconhecer em um simples encontro de corpos uma reunião de almas gêmeas. Sei que amor não é feito de saudade, muito embora o nosso esteja cheio dela; mas sei também que a vontade do reencontro é o que constrói os dias e que quando não há o que se esperar, a vida não passar de uma repetição do mesmo. Acabado do fim de semana mais surreal da minha vida, eu vejo as nossas fotos pra em seguida fechar os olhos daquele jeito de quem quer olhar para dentro e voltar devagar no tempo, desde o instante do pouso do avião até o último “a gente se vê em breve, viu?”. 
Eu poderia dizer muito mais sobre a nossa história, mas recentemente aprendi que "como todas as histórias de amor de verdade, ela vai morrer com a gente, como deve ser". E para quem me pergunte, eu me limito a dizer: nós somos amor, do tipo que transborda. Hoje eu estou no meu habitat – está calor, o céu está pintado em um azul lindo e a brisa do mar refresca minha alma. Mas eu nunca me senti tão fora de órbita. Nunca me senti tão fora de casa. Hoje, o meu lugar não é aqui; o meu lugar é com as minhas estrelas. 

E sem conflito interior algum, eu formaria um coração inteiro só com os sorrisos de vocês.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A cidade nos venceu

Hoje se tornou impossível ser feliz nessa cidade. Não há uma esquina sequer que me faça sentir algo que valha a pena. Acredito que as coisas tenham saído do eixo tão logo se iniciaram – como já poderiam prever, não duraria tempo suficiente nem para que pudesse acabar. Os dias parecem durar cada vez menos e o momento que o sol se põe sempre foi o mais dramaticamente dispensável para mim, porque quando a noite chega, as pessoas parecem perder o juízo, porque os sentimentos se maximizam ao ponto de fugir do falso controle sob qual eram mantidos, porque as razões se perdem e só resta uma vontade desenfreada de, se escondendo pelas sombras, ser algo que a luz do dia revelaria como insuportável e repugnante. Tudo continua o mesmo, o lixo ainda é recolhido à meia-noite, os carros atravessam os sinais e cortam as avenidas a 120 quilômetros por hora e meu vizinho continua ouvindo aquelas músicas terríveis que só me deixa ainda mais descrente em relação à humanidade. Nada mudou, exceto a mim, que desaprendi a lidar com aquilo que não suporto. E te ver envolto em meio a tudo isso sem apresentar nenhum descontento foi como inspirar fundo a fumaça preta que sai do ônibus lotado. Não sabia o que dizer ou como agir, mas no instante que te vi, pensei: “foi-se o último que valia a pena”. Eu vi que precisava me conter, porque nem você nem eu precisávamos de mais um daqueles meus discursos alargados de como você deixou a vida te vencer com uma vantagem esmagadora. Tentei evitar, porque era algo forte demais para se conviver, mas não marcante o suficiente para ser inesquecível. Mas agora, que estou em uma casa nova onde não há poluição ou buzinas de carros ou telefones tocando o tempo todo, eu penso que nunca me senti tão culpada por estar sem você e ainda assim ser capaz de coisas que eu nunca fui quando estava ao seu lado. Me sinto mal por me sentir bem mesmo sabendo que a vida te consome de fora para dentro e que você continua sendo sufocado por aquilo que é incapaz de enfrentar. Sentir-me bem nunca pareceu tão egoísta, quando eu me sinto covarde por ter seguido em frente. Acontece que por mais que seja dura a impressão pessimista das coisas, onde mais parece que eu te abandonei com uma promessa de retorno que não cumprirei, eu prefiro encarar com a coragem que me resta que você e eu estamos protagonizando histórias distintas, mas com enredo semelhante. Você deixou a cidade te vencer e eu corri para longe do medo que senti dela. Eu fugi, você permaneceu. Ela ganhou de mim no primeiro round, ela continua destroçando você e se consagrando vitoriosa. Nenhum de nós foi mais nobre que o outro, por isso eu te digo: deixe quem quiser cantar vitória que o faça, porque ter para si as próprias derrotas é o primeiro passo para não mais ser vencido. Quanto a mim, prefiro acreditar que a partida ainda tem volta e que nenhum adeus é permanente; sei que a cidade foi cruel, mas também admito que não fui muito justa quando ela quis me estender uma oportunidade de belas fotos e nascer do sol à beira mar. Talvez um dia eu seja capaz de voltar e, sorrindo, deixar o vento levar os motivos pelos quais um dia eu parti. Hoje se tornou impossível ser feliz nessa cidade, mas quem sabe amanhã os problemas se tornem passado e para o futuro reste a esperança de um dia cravar os pés de novo na terra do parque e pensar: voltei para ficar.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Dois dedos de café frio

Eu sei de uma coisa que vai te fazer esquecer a última briga e me ligar, eu queria tanto que o pedido que faço peito adentro não fosse em vão e, por favor, você poderia me ligar? Porque eu sei de uma coisa que te faria pedir desculpas, ainda que fosse bem baixinho para depois dizer que não foi aquilo que queria falar e eu continuar achando que você é mesmo esse poço todo de resistência e de sentimentos eu nunca são revelados, mas eu queria tanto que você soubesse de uma coisa que chego a sentir as minhas mãos pulsarem sob o telefone, praticamente pedindo para eu discar o seu número, mas o que eu queria mesmo era que você me ligasse para provar que mesmo com a distância os nossos pensamentos ainda estão conectados e mesmo com palavras duras, o muro de proteção onde guardamos o carinho é tão forte quanto ele precisa ser e, por Deus, será que você pode me ligar? Isso me faz lembrar aquela vez que fomos a Paris e marcamos de nos encontrar em um café cujo nome não me lembro, mas de gosto e cheiro memorável, e foi quando eu me dei conta de que não sabia o seu número de telefone e não tinha como saber o endereço do local. Estava quase chorando ao pensar que não seria dessa vez que eu seria uma personagem do Woody Allen quando você de repente me liga e diz: o que eu preciso fazer para te trazer até mim? E agora eu só consigo pensar: sinta Paris no seu coração e me ligue outra vez, porque eu sei de uma coisa que você precisa saber, algo que mudaria o seu jeito de olhar a ordem dos astros e que poderia até gerar a descoberta de uma nova constelação. Eu sei de uma coisa que parece boba, hoje em dia banal, mas uma coisa que eu nunca disse, que você nunca disse, que nós nunca ouvimos e por isso mesmo eu sei que você gostaria de saber de uma coisa que eu tenho para te dizer. Não queria simplesmente te escrever e mandar mais uma carta para ficar envelhecendo na tua gaveta e você nunca gostou muito da minha letra, mesmo, mas sempre elogiou minha voz e eu sinto que precisarei de toda a ajuda que puder quando você me ligar e eu puder te dizer uma coisa que eu sei que você precisa saber, mas não sei se quer e paro agora para pensar o quanto você odeia surpresas e sempre me disse que preferia que eu esquecesse o seu aniversário a lhe preparar uma daquelas festas na área comum do condomínio e por isso agora eu deixo o telefone de canto e passo a me perguntar se eu quero mesmo que você me ligue e, pensando bem, eu tinha tanta coisa pra te dizer, mas acho que são dessas coisas que ficam engasgadas no coração até que o tempo dissolva essa vontade de expurgar aquilo que nunca deverá ser descoberto. Deito no meu lado da cama – preciso para de achar que você é o dono do outro lado – e tiro o telefone do gancho, porque eu não quero que você me ligue, não quero que você me pergunte e eu sei que tem uma coisa que eu queria ter te tido, mas agora não faz mais sentido, nós não fazemos sentido e o esforço pra entender é a vontade de ser vencido pela falta de compreensão. E tudo o que eu queria agora era saber de algo que evitasse todas as outras descobertas inúteis e as vontades em vão, porque está frio aqui no quarto, porque fevereiro é sempre muito injusto e porque amanhã ainda é terça-feira e eu já estou cansada de todos os dias e semanas e meses e anos sempre achando que minhas palavras podem salvar algo que está perdido antes mesmo de eu começar a achar que eu sei de uma coisa que.

sábado, 6 de agosto de 2011

Toda minha mágoa e amor de sempre


Venho sonhando com luzes fortes e carros em movimento; deito a cabeça no travesseiro e automaticamente surgem os sons do vinho sendo aberto, do seu sorriso estridente e do meu coração palpitante. Mês passado eu jurei ter juntado a última leva de todas essas sensações, empacotado e endereçado a você – como se eu soubesse o seu endereço. O correio devolveu e novamente eu abri meu coração a tudo o que mais me dói – um boicote de mim mesma, um rasga fora do pouco amor próprio que ainda me restava. Você não me deixou nem um resquício de sentimento bom, nem um traço do caminho que eu desenhei tão cuidadosamente para nós; não sobrou nem minha dignidade para que eu pudesse juntar todos os pedaços de mim e viver daqui pra frente uma espécie de faz de conta, uma mistura de solidão, mal me quer e desejo de retomar minhas ilusões infantis de quem nada sabe sobre a vida, amores e partidas. Você escreveu bem a tragédia de história que nós iríamos viver e ao final dessa peça mal ensaiada, o que resta a nós é essa sensação de perda de tempo, de “poderíamos ter feito melhor, se tivéssemos querido”. Se você tivesse querido.
Nunca fui de desejar mal a ninguém, mas seria a pior das hipocrisias se eu dissesse que espero lhe ver feliz e satisfeito, com outras paixões e outras histórias que não a nossa; porém, tão pouco vou perder minha força e os meus dias lhe despejando mil e unas sementes de vingança. Quero mais é que você apareça à minha porta uma última vez; não me dê bom dia, não pergunte como estou – se não quiser uma resposta ríspida – e tão pouco me deseje qualquer coisa como se lhe importasse de algum modo o que tenho ou deixo de ter – apenas recolha suas coisas, esvazie sua existência da minha vida, saia da minha sala, do meu quarto, dos meus livros e das minhas boas músicas; recolha suas fotografias e quando acabar, nem precisa dizer adeus. Deixa no ar essa vagueza de uma despedida não concluída. Deixa eu sentir saudade de você, morrer de solidão se for preciso; mas não volte, não ouse pensar em me fazer uma visita, não passe à minha rua quando eu estiver na calçada. Deixa eu chorar e me afogar em mágoas próprias, deixa eu destinar mil cartas mal escritas a você, deixa eu amargurar minha alma idosa e reclamar horas a fio para as paredes. Deixa eu achar que tenho o direito de tentar escolher a quem amar e com isso dizer: nunca mais, não desse jeito, não com essa dor. Deixa eu aprender a viver sem você.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Tudo que faltou para você ser

Ninguém sabe que aqui dentro, por trás de todas as vitórias e troféus em coleção, eu carrego comigo a pior das minhas verdades mal contadas. Aquela que você faz questão de não me deixar esquecer sempre que aparece na minha vida assim, sem aviso, sem motivo... Só para não deixar eu me acomodar, só para não me deixar lhe esquecer. Não sei o que se passa com você e muitas vezes eu lhe proferi palavras de desprezo que, de forma ingênua, achei que meu coração fosse capaz de ouvir. Mas depois de um “adeus” um tanto dramático e de uma repulsa que não convence ninguém – principalmente a mim mesma –, a única coisa que fica é o seu sorriso.
Nossa, eu nunca lhe disse, mas como eu sou apaixonada pelo seu sorriso. Como eu sou louca pelo seu sarcasmo e por cada palavra carregada de ironia que sai da sua boca. Como você me faz perder a cabeça cada vez que você se refere a mim com esse ar de superioridade, testando a minha arrogância, sabendo eu que você espera que eu responda em mesmo tom, para ficarmos nesse eterno jogo, em uma tensão que paira entre nós, sempre e sempre e sempre, até que a realidade me joga um balde de água fria e eu percebo que você não está mais aqui – está longe, realizando os seus sonhos, construindo a sua vida, amando outras pessoas. Então, eu lhe pergunto, porque voltar de forma tão avassaladora? Porque não me encontrar e simplesmente ser simpático e educado, não é isso que todos os outros fazem? Precisa, de fato, me lembrar de quem um dia você foi para mim e me deixar nessa eterna dúvida de: será que continua sendo?
E por mais que racionalmente eu diga “não quero, não posso”... Por mais que estupidamente eu ainda fantasie uma situação que, você e eu sabemos, é impossível por uma série de fatores, uma porção de decisões – em maior parte, suas – que nos limitou a tanta coisa... Por mais que eu saiba que tudo isso também é minha maior carga de vergonha, arrependimento e loucura... Por mais que exista distância e outros amores e outras vidas... Por mais que eu queira estar na sua vida, mas não queira fazer parte do que hoje você tem... Eu ainda não consigo deixar de pensar em você como a minha maior chance de ir além de mim mesma. Não consigo entender como alguém pode ser exatamente aquilo que eu não quero e, ainda assim, conquistar minha vontade. Não consigo esquecer que um dia eu me permiti corromper tudo que havia construído por um sentimento que eu jamais vou entender.
E quando eu acabo de pensar tudo isso e finalmente percebo o quão irracional eu estou sendo, sento solitária para chorar pelas palavras que você nunca mereceu e que você nunca chegará a ouvir.

''Uma coisa que eu aprendi na vida:
Deus não te tira as coisas, Ele te livra delas".

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Querido,


Percebe como tenho lhe escrito muito, ultimamente? Não sei, acho que todos nós usamos as armas que temos e você tem sido a minha mais fiel válvula de escape. Porque tudo o que eu preciso, principalmente esses dias, é fugir. Você sabe bem como se faz isso, não? Juntar umas roupas velhas em uma mala qualquer, pegar os melhores escritos, todos os textos com palavras usadas e cadernetas com folhas em branco. Juntar tudo e cair fora – mergulhar no desconhecido, não olhar para trás, não ter peso nas costas, não ter hora para voltar. Como deve ser bom, hein, menino? Quantas e quantas vezes você já não deve ter sentido essa mesma sensação de não pertencer a lugar algum e, ainda assim, sentir-se em casa – onde quer que esteja. Quantas vezes você já não deve ter achado que a vida não tinha mais jeito, que a única saída era escapar desse redemoinho de confusão e adeus, bye bye. Tenho certeza que sempre esteve certo. E se hoje eu lhe perguntasse o que seria o certo a fazer, você me mandaria passar o melhor perfume, pegar o metrô e escrever uma bobagem qualquer, sentada em um banco entre as estações 9 e 10. Ou sair da cidade. Ou mudar de país, trocar o telefone, pintar o cabelo, emagrecer 10 quilos. Tudo que me tirasse do velho quadro pintado à tinta óleo – tudo que não lembrasse a mim mesma. Vai ver é isso, menino: preciso fugir desse lugar, mas também preciso fugir de mim. E preciso me encontrar longe daqui, distante desses erros e repetições. Porque eu já não agüento mais ser a mesma. Não agüento a rotina de encontrar o mesmo rosto cansado, todos os dias. Quero tirar férias de mim. Quero me perder e me encontrar um bom tempo depois, bem melhor, bem mais forte, bem mais como você.

Tenho vontade de ser assim, livre feito gaivota. Mas tem sempre aquilo que te prende e prende e prende. Tô de mãos atadas, menino. Tô precisando de alguém pra vir me salvar.

Mais ainda nas dores,


Para sempre tua.

''Preciso muito que alguma coisa muito muito boa aconteça na minha vida… Alguma coisa, alguma pessoa. Acho que tenho medo de não conseguir deixar que o passado seja passado, de aceitar verdades pela metade, de viver de ilusão! Eu preciso muito muito deixar acontecer o momento da renovação, trocar de pele, mudar de cor. Tenho sentido necessidades do novo, não importa o quê, mais que seja novo, nem que sejam os problemas. Preciso deixar a casa vazia para receber a nova mobília! Fazer a faxina da mente, da alma, do corpo e do coração! Demolir as ruínas e construir qualquer coisa nova, quem sabe um castelo''.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Tudo velho de novo


Nós fomos ficando tão iguais, afinal. Mas, diferente de você, me falta a fé para dar mais que dois passos por dia – sento no sofá, espero outro tanto, respiro fundo e rezo para que as coisas se arrumem sozinhas. Porque estou sem forças, meu amigo. Mais que isso: ando satisfeita com pouca coisa, não está dando para se exigir muito. Fico feliz em ter ao menos a chance de conversar assim, com você. De ser ouvida, para todos os modos. E de me sentir ainda no direito de sofrer como a ocasião pede – nós sempre fomos muito bons nisso. Sempre tivemos dificuldade em sorrir, mas se o momento pede um copo de vinho, muita análise interior e um pouco de pessimismo, para variar, nós sempre fomos os melhores. Acho que por isso, nesse instante, eu só posso recorrer a você. Porque para mim, todas as outras portas se fecharam. Porque elas – as pessoas – cansaram desse melodrama barato de quem só tem talento para amargura e insatisfação. Você, até você, poderia dizer, mas minha querida, está na hora de erguer a cabeça e continuar, há tantos lugares, tantas outras vidas menos exigentes e um mundo inteiro para o qual você deveria olhar com mais gratidão. Sim, sim, eu lhe diria, mas hoje eu só queria deitar no seu colo e ouvir que as coisas vão ficar bem. Mesmo que não fiquem. Mesmo que amanhã seja só uma continuação mais fria e cruel de hoje. Mesmo que, na verdade, seja sempre esse ciclo de não-alcances, porque é nisso que eu começo a acreditar. Só por hoje, eu gostaria de não ter que decidir que caminho seguir, que pessoas gostar, que coisas fazer. Só por hoje você poderia me iludir com a possibilidade da dor passar. Só por hoje a gente poderia brincar de ser feliz, até que a hora da distração se fosse e eu voltasse ao meu buraco, onde me afundo e só pergunto: porque, porque, porque?

A saudade de sempre, que aperta nessas horas de desentendimento,

Para sempre tua.



Just because I'm losing,
doesn't mean I'm lost,
doesn't mean I'll stop,
doesn't mean I'm across...

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A cada despedida, um recomeço

Hoje – só por hoje – eu abro mão de você como quem sorri para a solidão; abraço esse espírito de amores efêmeros para que as dores também o sejam e espero sentada à varanda que a noite não me traia e que os sonhos continuem a vir. Porque felicidade não se resume só aos momentos em que você é feliz. Porque paixão nenhuma existe apenas enquanto durar. Porque a minha espera sempre vai ser maior que qualquer destemperança que vier. Porque nós sempre vamos viver esse ciclo de quem não sabe fazer uma busca mais sincera dentro de si e então conserva as mesmas palavras de antes, um grito calado de desespero que sempre acaba em algo como: e se tentássemos mais uma vez?



'' (...) já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloquentes como "sempre" ou "nunca". Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicídio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituímos expressões fatais como 'não resistirei' por outras mais mansas, como 'sei que vai passar'''.

[15 anos sem] Caio Fernando Abreu.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Estupidamente livre



Querido Caio,

Os dias têm sido longos, se arrastado. A dor que me doía mais já parece não doer tanto e a mudança de foco tem se tornado constante. Isso tem me deixado confusa – é como se eu não tivesse mais sequer o direito de sofrer o quanto posso, de me afundar nas belas doses de conhaque tarde da noite e não sentir culpa alguma. Porque é bom, e você sabe. Aliás, todos acham bom, mas como ninguém faz, eu sinto esse cargo em admitir minha perdição. Entre a culpa e a dor, eu preferi não sentir nada – repetia sem parar.
Algo assim, se é que dá para entender. As minhas buscas ficaram boiando nesse mar de dúvidas, onde eu não sei se mergulho de vez ou se fico aqui, só admirando a paisagem. O bonito, afinal, foi ficando tão pouco subjetivo que não sei mais nem do que gosto – não sei sequer se isso valeria de algo. O agradável é o que todos acham e ponto; não serei eu, que nem ainda fui descoberta pelo mundo, que irei contrair a ditadura de opiniões. Sei que vai me repudiar por isso, mas, meu caro, se você tinha medo de sentir coragem, eu tenho a coragem de sentir medo. E não acho que isso me faça pior, não; só me faz diferente nesse mundo onde todo mundo deseja ser igual a todo mundo.
Não estou aqui para criticar minhas decepções com a humanidade, não é isso – até porque nunca esperei nada de admirável da mesma. Aliás, não tenho me surpreendido com nada, ultimamente. Diferente do que sempre se espera, minha alma foi contagiada por uma procrastinação e anda tão lacônica que chega a ser inacreditável. Ando com preguiça de ter sentimentos exacerbados – de sofrer demais, amar demais, lutar demais. Ando sendo um pouco “de menos”, onde já se viu, e sem inquietação alguma.
Se eu sinto vergonha? Não é bem essa a palavra. É mais algo como libertinagem de espírito. Talvez eu só esteja tendo, pela primeira vez na vida, aquilo que as pessoas chamam de paz – e estou confundindo, estupidamente, com essa frieza que, na verdade, nada passa além de um não-sofrer. Acho que você me entederia, sabe? Assim como eu, você sempre sofreu mais que o necessário. Mas até nós sempre soubemos a hora de parar.

Sinto saudades suas, mesmo sem ter te conhecido.

Beijos na alma,
Para sempre tua.

sábado, 19 de junho de 2010

(Re)Negar

- Você? Você é absurdo: chega, assim, sem mais nem menos. Aliás, quem ao menos lhe disse que poderia chegar? Ouça bem: eu estava feliz. Eu. Estava. Feliz! Até você, todo autoritário, vir até mim e impor o que eu jamais desejei. Ou acha mesmo que por algum instante de loucura eu quis isso? Não, meu querido, a aceitação é dura como um tapa na cara. Sim, é exatamente isso: ninguém aceita o pedido de amor de ninguém.
- E muito menos se pede para ser amado. Eu não pedi e cá estou: sou tão vítima quanto você, porque se acha que a culpa é minha ou sua, eu lhe digo que a culpa é nossa – inconscientemente nossa.

E assim o amor ficou. Sem dono, sem rumo – sem pedido, sem porquê.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Um tanto mal cuidado, eu sei

Coração,

Sinto que fiquei lhe devendo algo. Podem ter sido outros daqueles momentos entre nós e todo mundo, alguns abraços, alguns beijos, quem sabe... Mas também sinto que fiquei lhe devendo palavras – explicações daquilo que já passou no tempo e aos olhos, mas que, de alguma forma, ainda continua em mim, essas palavras que jamais fui capaz de dizer mesmo que tenha sentido vontade, mesmo achando que você ia querer escutar. Não espero que com isso você sinta algo ou entenda qualquer coisa que provavelmente já desistiu de compreender – só peço que não me ignore, ainda que essa seja a última vez que vá aceitar algo de mim.
Eu me apaixonei por você. Isso nunca foi motivo de dúvida para ninguém – nem para você, que ouviu essas palavras de mim, enquanto eu olhava nos seus olhos – mesmo que eu jamais tenha recebido qualquer comentário seu sobre isso. Não lhe culpo, Coração, porque eu sei, sempre soube que isso faz parte de você – que ser assim, todo incerto, é ser você. Mas isso não é ser eu – aquela que nada sabia, que estava sempre preparada para pular fora, lembra? Não era eu, nem de longe – sempre acreditei em amor e em coisinhas melosas; sempre acreditei em merecer ter uma certeza que eu jamais tive com você, não por falta de esforço seu, mas por incapacidade minha de desviar o foco das minhas esperanças – esperanças que já estavam enraizadas muito antes de conhecer você e que não poderiam simplesmente ser arrancadas e plantadas em outro lugar.
Eu não sei se eu cheguei a ser o Amor, para você. Mas, de qualquer forma, isso não mudaria as coisas como elas foram, Coração - mesmo que até hoje você tenha o meu amor, você não é o meu Amor. Ao dizer isso, talvez possa parecer que você não tenha sido bom o suficiente, que não tenha me merecido – mas mesmo que desse modo soe, espero que saiba que não foi assim. Só não tinha espaço aqui, não tinha mais espaço em mim para você. Talvez lhe chamar assim, Coração, tenha sido até uma forma inconsciente de, todos os dias, lhe pedir desculpa pela ausência de sentimento e o excesso de razão – então, me desculpa por chamar você de algo que não lhe pertenceu por culpa estritamente minha, porque eu sei que você estava lá, pronto para aceitar.
Eu que não quis – se eu não poderia me doar por inteira, jamais iria lhe diminuir a ponto de entregar apenas as (piores) partes minhas. E ainda que não tivesse sido sua, isso foi tudo de mim que você ainda pode visualizar: exatamente aquilo que não era digno de você. Eu carrego as marcas disso, pode ter certeza: eu sei o que é viver sempre com a sensação de ter falhado com você e com todos que acreditaram em algo entre nós além do que já tínhamos – e, mais uma vez, eu espero que você saiba que a sua ausência me é de grande penitência. Por isso, hoje, eu senti vontade de dizer que tenho saudades suas – saudade do seu ''papo 'estou-dizendo-não-apenas-o-que-estou-dizendo''' que, embora tenha me causado sempre dúvidas, foi para mim o seu marco especial.
Sim, Coração, eu tenho saudades. E mesmo que isso seja apenas o fruto de escolhas minhas, eu espero que você ao menos pense por alguns segundos no seguinte: você não morreu para mim. Ainda que eu lhe ignore, não lhe veja mais todas as semanas, que não compartilhe conversas inúteis com você, ainda assim não me senti no direito de apagar qualquer lembrança minha em que você esteja presente – sempre vai ter o seu espaço aqui, (no meu) Coração. E mesmo que não seja como eu imaginei, não quero me livrar da única parte sua que me resta – a parte que ficou em mim.

Claro que você não tem culpa, Coração, caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa que pode escapar. (...) Não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar. Tem coisa mais destrutiva que insistir sem fé nenhuma?".

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Ao meu querido

Amor,
Agora que a frieza desses últimos dias parece estar com data marcada para ir embora, pensei que fosse o momento certo para lhe dizer como não venho passando sem você. Para você pode ter sido como um grande tempo de paz e aproveitamento que há muito não tinha; para mim, entretanto, foi a pior prova de paciência, meu mais extenso momento de espera. Amostra disso foram as maneiras absurdas de refúgio em que procurei para lhe resgatar da forma mais pura que eu pudesse – as cartas tiradas do meu baú de melhores recordações, a caixinha de veludo que não sai mais da minha mesinha, a esperança que cultivei ao ouvir tocando por aqui que you're only the best I ever had, ainda que no verso seguinte frases como you don't want me back tentassem me bombardear.
Amor, meu amor. Ainda me lembro de tantas outras vezes que nos separamos assim, de como fazíamos promessas de retornos breves de corpos – porque nossas almas, ah, essas nunca deram um passo que não fosse lado a lado. Hoje, entretanto, me vejo no aguarde do corpo que desejo e da alma que me entende. E caso não tenha notado, estou aqui para pedir que volte logo. Volte, porque já não caibo em mim de saudade, já não aturo mais a companhia ingrata da espera em tantos dias fastidiosos. E volte, porque mal vejo a hora de prova-lhe ''(...) o quanto eu te amo. Amo não mais só como uma amiga, mas também como um patriota ama a sua nação, como um católico ama o Papa, como o seu irmão ama o futebol (Como os terroristas amam o Bush... Brincadeira!). Amo como uma fã, uma amante, como uma esposa, uma namorada''. Volte, apenas volte – para cá, para mim.

Beijos e abraços como os últimos que demos,
Da sua Preta.

ps.: Carta de 16/02/2010 com partes devidamente parafraseadas d'outra carta de 21/03/2007.
ps².: a música em questão se chama Best I ever had, de Vertical Horizon.

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Talvez o final feliz seja fazer isto: passando pelas ligações não retornadas e corações partidos, por todos os erros e sinais não vistos, pela dor e vergonha... Nunca perca a esperança.

Do filme Ele não está tão afim de você.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

E me sentirei bem

Então, é isso. E eu muito bem acomodada, achando que ia passar mais uma temporada reclamando apenas das mudanças habituais que todo ser humano sofre, fui surpreendida pelo acaso – e porque não, castigo – de sofrer com distância, ausência, vazios – exatamente nessa ordem. Uma coisa muito mais objetiva, tudo menos agradável, mas que chegou, com a velha síndrome do peito apertado, a mania irritante que tenho de querer aqui, querer agora... E não poder ter. Eu esperava que não fosse demais: ora, um filme legendado na televisão, um abraço daqueles em que você se perde dentro e o cheiro de pipoca banhada à manteiga no ambiente não seria nada de excesso para alguém que – sim!, e digam o que disserem - comeu o pão que o diabo amassou, bebeu água de fontes sujas e caminhou descalça por cima de brasas. E eu diria, veja bem, que todas as regalias do mundo para mim seria nada mais que o justo. Mas exatamente, como de propósito, nos últimos pulsares de meu coração cansado, o vasto poder da vida de variar destinos me encontrou. De nada adiantou escapar de flechas e tiros, se fui acobertada de doença sem cura, de mal único, de contágio devastador direcionado para duas almas, que nenhum poder ainda têm de escolher o fazer – o que dirá o que sentir.
A morte que é brincadeira, perto de males que nos consomem aos poucos. Então que venha depressa sugar minha alma, enquanto eu solto o meu último suspiro de ''ê, saudade''.

Texto de 11/02/09.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Quando ainda se tinha amor

Eu não quero ser apenas uma ''ausência da maior parte do seu coração que ficou comigo''... A maior parte do seu coração é pouco: eu quero você por inteiro. Mas sabe o que eu realmente quero? Só ficar com você. Mesmo estudando lá na UEMA e você na UFCG, se for o caso, eu quero ficar com você. Mesmo se você for fazer trabalho voluntário em um hospital carente em Bangladesh e eu vá fazer especialização na Califórnia, eu quero ficar com você. Eu quero casar com você e, mesmo depois de trabalhar o dia todo e de colocar os nossos oito filhos pra dormir, eu quero entrar no meu quarto, deitar na cama e encontrar você do meu lado, com aquele sorriso único na cara, pronto pra fazer o que você faz de melhor na vida: me tornar a mulher mais feliz desse mundo.

terça-feira, 24 de março de 2009

Foi bom, adeus

E é claro que eu sempre sentirei sua falta. Em nenhum momento julguei o que passamos como algo falso ou raso de sentimentos; foi tudo vivido, apesar das limitações, com toda a dedicação que eu pude oferecer - prova, mais uma vez, que amor às vezes é tão insuficiente que atrapalha. Tão pouco farei de ti uma simples lembrança, que guardada nas mentes frágeis dos homens, se apaga com tanta facilidade... És hoje e sempre será a maior parte que falta ao meu coração. Nunca te esquecerei, porque mesmo que nem os amores sejam duradoudos como achamos, o bem que fizeste a mim me fez uma nova pessoa; renasci mais forte e mais decidido e talvez, só por isso, possa sobreviver sem ti.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Meu eu em você

E eu sei que saudade, tristeza e desânimo são só consequências. E que fingir que nada está acontecendo e pensar em outras coisas são válvulas de escape frágeis como a corda bamba em que me encontro. Pro que eu sinto, já inventaram nome. Hoje sei que sou outra, que encontrou sua parte idêntica e a perdeu, deixou-a fugir.
Você poderia voltar, amor, ainda que fosse para eu me sentir inteira uma única vez mais.
Eu te amo. Com todas as minhas forças, eu te amo. Pra sempre, eu tenho certeza. Mas algo me diz que eu vou ter que aprender a viver sem a metade da minha alma que se foi. Só não é pior que o esperar, o anseio do que vai, mas não volta. Cruzar os braços, fechar os olhos, existir: digno dos covardes.