Eu sei de uma coisa que vai te fazer esquecer a última briga e me ligar, eu queria tanto que o pedido que faço peito adentro não fosse em vão e, por favor, você poderia me ligar? Porque eu sei de uma coisa que te faria pedir desculpas, ainda que fosse bem baixinho para depois dizer que não foi aquilo que queria falar e eu continuar achando que você é mesmo esse poço todo de resistência e de sentimentos eu nunca são revelados, mas eu queria tanto que você soubesse de uma coisa que chego a sentir as minhas mãos pulsarem sob o telefone, praticamente pedindo para eu discar o seu número, mas o que eu queria mesmo era que você me ligasse para provar que mesmo com a distância os nossos pensamentos ainda estão conectados e mesmo com palavras duras, o muro de proteção onde guardamos o carinho é tão forte quanto ele precisa ser e, por Deus, será que você pode me ligar? Isso me faz lembrar aquela vez que fomos a Paris e marcamos de nos encontrar em um café cujo nome não me lembro, mas de gosto e cheiro memorável, e foi quando eu me dei conta de que não sabia o seu número de telefone e não tinha como saber o endereço do local. Estava quase chorando ao pensar que não seria dessa vez que eu seria uma personagem do Woody Allen quando você de repente me liga e diz: o que eu preciso fazer para te trazer até mim? E agora eu só consigo pensar: sinta Paris no seu coração e me ligue outra vez, porque eu sei de uma coisa que você precisa saber, algo que mudaria o seu jeito de olhar a ordem dos astros e que poderia até gerar a descoberta de uma nova constelação. Eu sei de uma coisa que parece boba, hoje em dia banal, mas uma coisa que eu nunca disse, que você nunca disse, que nós nunca ouvimos e por isso mesmo eu sei que você gostaria de saber de uma coisa que eu tenho para te dizer. Não queria simplesmente te escrever e mandar mais uma carta para ficar envelhecendo na tua gaveta e você nunca gostou muito da minha letra, mesmo, mas sempre elogiou minha voz e eu sinto que precisarei de toda a ajuda que puder quando você me ligar e eu puder te dizer uma coisa que eu sei que você precisa saber, mas não sei se quer e paro agora para pensar o quanto você odeia surpresas e sempre me disse que preferia que eu esquecesse o seu aniversário a lhe preparar uma daquelas festas na área comum do condomínio e por isso agora eu deixo o telefone de canto e passo a me perguntar se eu quero mesmo que você me ligue e, pensando bem, eu tinha tanta coisa pra te dizer, mas acho que são dessas coisas que ficam engasgadas no coração até que o tempo dissolva essa vontade de expurgar aquilo que nunca deverá ser descoberto. Deito no meu lado da cama – preciso para de achar que você é o dono do outro lado – e tiro o telefone do gancho, porque eu não quero que você me ligue, não quero que você me pergunte e eu sei que tem uma coisa que eu queria ter te tido, mas agora não faz mais sentido, nós não fazemos sentido e o esforço pra entender é a vontade de ser vencido pela falta de compreensão. E tudo o que eu queria agora era saber de algo que evitasse todas as outras descobertas inúteis e as vontades em vão, porque está frio aqui no quarto, porque fevereiro é sempre muito injusto e porque amanhã ainda é terça-feira e eu já estou cansada de todos os dias e semanas e meses e anos sempre achando que minhas palavras podem salvar algo que está perdido antes mesmo de eu começar a achar que eu sei de uma coisa que.segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Dois dedos de café frio
Eu sei de uma coisa que vai te fazer esquecer a última briga e me ligar, eu queria tanto que o pedido que faço peito adentro não fosse em vão e, por favor, você poderia me ligar? Porque eu sei de uma coisa que te faria pedir desculpas, ainda que fosse bem baixinho para depois dizer que não foi aquilo que queria falar e eu continuar achando que você é mesmo esse poço todo de resistência e de sentimentos eu nunca são revelados, mas eu queria tanto que você soubesse de uma coisa que chego a sentir as minhas mãos pulsarem sob o telefone, praticamente pedindo para eu discar o seu número, mas o que eu queria mesmo era que você me ligasse para provar que mesmo com a distância os nossos pensamentos ainda estão conectados e mesmo com palavras duras, o muro de proteção onde guardamos o carinho é tão forte quanto ele precisa ser e, por Deus, será que você pode me ligar? Isso me faz lembrar aquela vez que fomos a Paris e marcamos de nos encontrar em um café cujo nome não me lembro, mas de gosto e cheiro memorável, e foi quando eu me dei conta de que não sabia o seu número de telefone e não tinha como saber o endereço do local. Estava quase chorando ao pensar que não seria dessa vez que eu seria uma personagem do Woody Allen quando você de repente me liga e diz: o que eu preciso fazer para te trazer até mim? E agora eu só consigo pensar: sinta Paris no seu coração e me ligue outra vez, porque eu sei de uma coisa que você precisa saber, algo que mudaria o seu jeito de olhar a ordem dos astros e que poderia até gerar a descoberta de uma nova constelação. Eu sei de uma coisa que parece boba, hoje em dia banal, mas uma coisa que eu nunca disse, que você nunca disse, que nós nunca ouvimos e por isso mesmo eu sei que você gostaria de saber de uma coisa que eu tenho para te dizer. Não queria simplesmente te escrever e mandar mais uma carta para ficar envelhecendo na tua gaveta e você nunca gostou muito da minha letra, mesmo, mas sempre elogiou minha voz e eu sinto que precisarei de toda a ajuda que puder quando você me ligar e eu puder te dizer uma coisa que eu sei que você precisa saber, mas não sei se quer e paro agora para pensar o quanto você odeia surpresas e sempre me disse que preferia que eu esquecesse o seu aniversário a lhe preparar uma daquelas festas na área comum do condomínio e por isso agora eu deixo o telefone de canto e passo a me perguntar se eu quero mesmo que você me ligue e, pensando bem, eu tinha tanta coisa pra te dizer, mas acho que são dessas coisas que ficam engasgadas no coração até que o tempo dissolva essa vontade de expurgar aquilo que nunca deverá ser descoberto. Deito no meu lado da cama – preciso para de achar que você é o dono do outro lado – e tiro o telefone do gancho, porque eu não quero que você me ligue, não quero que você me pergunte e eu sei que tem uma coisa que eu queria ter te tido, mas agora não faz mais sentido, nós não fazemos sentido e o esforço pra entender é a vontade de ser vencido pela falta de compreensão. E tudo o que eu queria agora era saber de algo que evitasse todas as outras descobertas inúteis e as vontades em vão, porque está frio aqui no quarto, porque fevereiro é sempre muito injusto e porque amanhã ainda é terça-feira e eu já estou cansada de todos os dias e semanas e meses e anos sempre achando que minhas palavras podem salvar algo que está perdido antes mesmo de eu começar a achar que eu sei de uma coisa que.
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Sabe quando você lê um texto e não sabe o que dizer, nem ao menos o que sentir? É exatamente assim que estou agora. Seu texto me roubou as palavras e confundiu minhas emoções.
ResponderExcluiro post é incrível. Beijos.
Obrigada pelo elogio, Deyse! É sempre bom encontrar pessoas originais no que escrevem e sensíveis no que veem. Acho que você tem os dois. Gostei muito do fluxo de pensamentos que usou no texto. Seguindo. Beijos, Sil
ResponderExcluirUm daqueles textos feitos pra ser lido de uma só vez, rápido e sem pausas.
ResponderExcluirÓtimo.
uou que texto. Nem sei direito o que comentar, por isso vou acabar nem comentando nada, sorry.
ResponderExcluir:O
Deyse, você é o Caio e sabe disso.
ResponderExcluirMas eu voto sempre pra você falar, porque vai que essa coisa vai trazer a descoberta de uma nova constelação mesmo. E vai que você vira um personagem do Woody Allen no final das contas. Nunca se sabe se o telefone vai tocar com mais uma vírgula (nem era o ponto final).
Li o título e fiquei com vontade de beber café gelado. Mas depois que li o post nem sei mais o que quero. Que lindo, que profundo, sei lá. Tive um dejavú de alguma coisa que nem vivi lendo seu texto. LINDO!
ResponderExcluirMeu Deus, que perfeito menina! Já tive tanta vontade de receber essa ligação, e fiquei esperando isso por muito tempo. Mas o telefone nunca tocou pra eu dizer a dura verdade que eu tanto queria. Aí, essa texto mecheu comigo, e formou um misto de saudades por dentro. Beijo Deyse =*
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