quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O amor está no poço

Para ler ao som de Shiver,
Coldplay.

Sempre achei o amor a maior queda livre rumo ao fundo de um poço. Você pula no poço. Se joga e vai direção abaixo, mesmo sabendo que não há muitas direções a seguir, mesmo aguardando o fim que uma hora chega, mesmo consciente de que tudo que o espera é um chão duro e frio, mesmo que tenha deixado para trás milhares de pessoas lhe dizendo repetidas vezes “não pule, não pule, que no fim do poço só há dor e solidão”. Não adiantava torcer para que não se machucasse muito quando chegasse ao fim, porque a queda era fatal e a doer era certeira. Relacionamentos que envolvem corações sempre me pareceram uma contagem regressiva ao fundo do poço – por isso, demorei muito a ter coragem de me atirar. Tinha medo do escuro, do imprevisível, de não haver volta. Só quando o fiz é que eu percebi que o fim do poço é uma ilusão. Você mergulha esperando um choque contra o chão, mas o que encontra é um mundo que você jamais conheceria se não tivesse se jogado. E você começa a gostar daquele poço, do formato do poço, da extensão do poço, do jeito do poço, do cheiro do poço. E quando você acha que finalmente vai atingir o fundo, você descobre que o poço não tem fim. O fim é uma ilusão de quem nunca pulou no poço, é o mito dos que nunca tiveram coragem de enfrentar o monstro do poço, daqueles cujo coração foi fraco para enfrentar a queda. O fim do poço não existe – você acha que está lá, mas se continuar de olhos abertos e teimar em ir em frente, só encontrará mais águas, terra úmida e talvez algumas flores que só existam no mundo do poço. Quando se está no poço, de uma forma absolutamente lúcida, ficamos cegos pela loucura de ir em frente sem medo de um dia não ser mais como foi. O amor não está no medo do mergulho nem na precaução de sequer se jogar. O amor não tem nada a ver com as possibilidades fora do poço, e se você não pulasse, e se o poço não fosse a saída, e se você agisse como se o poço nunca tivesse estado ali, e se mais uma desculpa qualquer. O poço existe, é real, mas o amor requer mais que uma simples existência cheia de oportunidades. O amor só começa quando você decide se jogar. O amor continua e se estende quando você esquece que existe um fundo e lembra só do poço. O amor está na coragem dos que pularam sem saber onde vão parar, no atrevimento dos que mantém os olhos, o coração e a mente abertos e não se deixam fraquejar pelo desconhecido. O amor acontece quando você se deixa entrar em queda livre, sem rédeas, sem freios, numa direção única, contínua e sem fraquejar. O amor existe em se deixar ir.

7 comentários:

  1. "O amor acontece quando você se deixa entrar em queda livre, sem rédeas, sem freios, numa direção única, contínua e sem fraquejar."

    É exatamente assim, o amor. Nem sei descrever melhor.

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  2. Ahh, que coisa mais linda, Deyse! Tá vendo como é difícil comentar nos seus posts? Eles são profundos demais para as reles palavras de moi!

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  3. Falar o que depois desse post? Só que eu amei, chorei, ri. E amei o blog, também! Primeiro comentário de muitos que virão, com certeza. Parabéns! Bom final de semana! :D

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  4. É preciso arriscar a pular nesse poço, e se não der certo, pode ter certeza, a gente aprende muito por lá.

    "O amor está na coragem dos que pularam sem saber onde vão parar, (...)." Perfeito. Beijo =*

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  5. Ficou incrível seu texto. Sua descrição do amor é fantástica. Muito bom!

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  6. Se o site do amigo secreto disser que eu tirei você, vou jogar a toalha. Não basta apenas escrever lindamente pra ser Deyse Batista. Tem que saber exatamente o que é o amor.

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