
Venho sonhando com luzes fortes e carros em movimento; deito a cabeça no travesseiro e automaticamente surgem os sons do vinho sendo aberto, do seu sorriso estridente e do meu coração palpitante. Mês passado eu jurei ter juntado a última leva de todas essas sensações, empacotado e endereçado a você – como se eu soubesse o seu endereço. O correio devolveu e novamente eu abri meu coração a tudo o que mais me dói – um boicote de mim mesma, um rasga fora do pouco amor próprio que ainda me restava. Você não me deixou nem um resquício de sentimento bom, nem um traço do caminho que eu desenhei tão cuidadosamente para nós; não sobrou nem minha dignidade para que eu pudesse juntar todos os pedaços de mim e viver daqui pra frente uma espécie de faz de conta, uma mistura de solidão, mal me quer e desejo de retomar minhas ilusões infantis de quem nada sabe sobre a vida, amores e partidas. Você escreveu bem a tragédia de história que nós iríamos viver e ao final dessa peça mal ensaiada, o que resta a nós é essa sensação de perda de tempo, de “poderíamos ter feito melhor, se tivéssemos querido”. Se você tivesse querido.
Nunca fui de desejar mal a ninguém, mas seria a pior das hipocrisias se eu dissesse que espero lhe ver feliz e satisfeito, com outras paixões e outras histórias que não a nossa; porém, tão pouco vou perder minha força e os meus dias lhe despejando mil e unas sementes de vingança. Quero mais é que você apareça à minha porta uma última vez; não me dê bom dia, não pergunte como estou – se não quiser uma resposta ríspida – e tão pouco me deseje qualquer coisa como se lhe importasse de algum modo o que tenho ou deixo de ter – apenas recolha suas coisas, esvazie sua existência da minha vida, saia da minha sala, do meu quarto, dos meus livros e das minhas boas músicas; recolha suas fotografias e quando acabar, nem precisa dizer adeus. Deixa no ar essa vagueza de uma despedida não concluída. Deixa eu sentir saudade de você, morrer de solidão se for preciso; mas não volte, não ouse pensar em me fazer uma visita, não passe à minha rua quando eu estiver na calçada. Deixa eu chorar e me afogar em mágoas próprias, deixa eu destinar mil cartas mal escritas a você, deixa eu amargurar minha alma idosa e reclamar horas a fio para as paredes. Deixa eu achar que tenho o direito de tentar escolher a quem amar e com isso dizer: nunca mais, não desse jeito, não com essa dor. Deixa eu aprender a viver sem você.
lindo texto.
ResponderExcluirSabe, Deyse, uma coisa que a dor traz pra gente é a idéia de a gente NÃO pode deixar outra pessoa escrever a história da nossa vida. Se o pacote foi devolvido, pegue e guarde só o que foi bom e ponha escondidinho num baú que só você tenha a chave. Com o tempo você vai conseguir olhar pra essas coisas e perceber q elas são só lembranças de algo bom q ficou p/ trás.
ResponderExcluirBeijos!
Parece que hoje é meu dia de ler textos sobre término, decepção... Também, quem mandou eu escrever sobre?
ResponderExcluirMaravilhoso esse texto.
Beijo.
permitir a dor já é permitir-se é de alguma forma
ResponderExcluir:)
O mal é que tem certas pessoas que roubam nosso coração, escolhem sair da nossa vida e acham de direito continuar com o nosso órgão batendo em suas mãos.
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