Fugir. Sair da cidade na segunda à tarde, sem previsão de volta e sem sentir culpa alguma – apenas porque é gostoso, porque é bom, porque é leve. Por muito tempo eu quis escapar de mim mesma; hoje, eu só quero ser cuspida por esse mundo cheio de desgostos, que não me aceita em uma forma mais simples de ser, se assim eu quiser. Ninguém está preparado para ser feliz nem para ser amado, coisas hoje que eu busco desesperadamente; estão todos presos aos seus dramas sem fim, em um ímpeto incomum de se sentir incompleto. É um ultraje da minha parte querer descomplicar boa parte dessas coisas que por si só já são difíceis – porque o normal é querer sentir o gosto do veneno impregnando o seu estômago, você mesmo dar cabo a qualquer chance de terminar essa história com um final feliz.
De fato, eu sou também masoquista assim e não sei com que direito estou me comportando como se amanhã, na hora de realmente fugir, eu não fosse dar para trás e resolver que minha cama e meu edredom são mais seguros. Mas, por enquanto, eu sinto coragem o suficiente para não aceitar esse mundo covarde como está; por enquanto, “trago no peito o saudável defeito de ainda acreditar na vida”; por enquanto, eu sinto vontade de ir além do que eu posso ser, de me dar ao direito de sonhar com Paris, samba e amor, de atingir os corações de todos com essa vontade danada de sorrir até ficar sem ar.
Me confundindo nas minhas próprias palavras, eu retifico: amanhã, eu não sei se serei triste, feliz ou poeta. Talvez tudo perca a graça, talvez tudo esteja mais difícil; talvez surja um problema, talvez eu receba à porta um aglomerado de soluções. Amanhã, eu não sei. Mas o “por enquanto” me soa tão bonito e justo, que a fé infla tão grandemente e só posso pensar: há de ser sempre bom, há de ser.

Para atravessar agosto é preciso, antes de tudo, paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro – e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah! Escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.
Olá,
ResponderExcluirComecei na blogosfera a pouco tempo (2 dias pra ser exata) convido voce a visitar meu espaço
p.s.: adorei teu blog.
bjos
Sigo-te
Há de ser. Assim como esse texto do Caio F. é bom.
ResponderExcluirque delicia de texto!
ResponderExcluirobrigada pela visita (:
"Amanhã, eu não sei. Mas o “por enquanto” me soa tão bonito e justo, que a fé infla tão grandemente e só posso pensar: há de ser sempre bom, há de ser."
ResponderExcluirMenina, que texto bonito!
Adorei, fiquei feliz em conhecer seu blog! (:
Devia ter a opção "disse tudo que eu sempre pensei", ou algo que o valha.
ResponderExcluirVocê conseguiu falar de fé sem parecer igreja, de esperança sem parecer livro de auto-ajuda, de seguir em frente sem parecer filosofia barata.
Eu vejo tanta gente cuspindo palavra por aí, que dá até gosto ler um texto como o seu. Lindo demais, demais, demais. Sinceramente. Embora deteste essa rima maldita de "desgosto" com o meu amado mês de aniversário, cheguei ao final do seu texto com a mesma paz interior que sinto quando não sei do "amanhã", não me ligo no "ontem" e me delicio no "por enquanto".
Adorei.