Eu ainda tinha muito a fazer, mas o modo com que me atirei ao sofá anunciava que eu estava me entregando por hoje. Ainda era dia, mas a taça de vinho nas minhas mãos já indicava a preparação para outro momento, algo mais estrelado e misterioso. Porque eu gosto de me esconder no sombrio. Gosto de ficar por trás da luz, sem revelar nada, só esperando as coisas serem mostradas. Talvez por isso me incomode tanto quando eu não consigo enxergar nada além de mim – quando somos só eu e não eu e o resto do mundo, entende? É quase uma necessidade boa de sempre ter companhias, mesmo que elas não lhe notem. Fucei algumas fotografias velhas, assisti 500 days of Summer, pus The Smiths para tocar, tudo a espera de algo que me indicasse o caminho. Mas ninguém nunca vai lhe indicar o caminho, essa é que a verdade. Você sempre fica sentada ao sofá, esperando que a noite chegue e você possa finalmente fazer tudo aquilo que não tem coragem quando a luz brilha no seu rosto. É à noite que nos esquecemos de nós mesmos e nos permitimos ser quem nos quisermos. Aí eu ponho a cara na rua e grito como sou hipócrita, como o mundo é hipócrita e como somos uns tolos por aceitarmos ser assim. Ninguém me olha e mesmo se olhassem, não ouviriam, porque estão todos preocupados demais com os seus demônios internos e seu vinho e sua boa música. Como eu disse: hipocrisia. Esse é meu ciclo de vida, mas eu acho que estou preparada para algo mais... Grandioso. Algo que me choque, me pegue de surpresa. É, acho que essa é a palavra: novidade. Tudo que eu tenho é muito bonito e foi conquistado na maior dureza, sob tapas e choros, de verdade; mas nada é bom o suficiente ao ponto de você nunca mais sentir vontade de despertar com aquele cheio de novo inebriando sua cabeça, invadindo todo o apartamento, o seu coração, sua vida. Acho que sou viciada numa boa novidade, nem que seja em um livro recém descoberto ou então em uma banda que, sinceramente eu não sei como passei a vida inteira sem ouvi-la. Coisas bobas, mas que me tiram dessa rotina enlouquecedora. E quando eu acabo de gritar à varanda todos os meus desafetos, olho para o lado e vejo me vizinho me encarando da varanda dele. “E qual o sentido disso?”, ele pergunta, enquanto me oferece um cigarro. Eu aceito (e essa nossa necessidade de estarmos sempre anestesiados da vida, como se explica?) e retribuo lhe oferecendo a minha taça de vinho. “Eu não tenho feito muito sentido ultimamente”, respondo. A minha certeza é que o vinho quente lhe rasgou a garganta assim como a fumaça do cigarro me tirou o ar. Que bom que ainda somos capazes de sentir alguma coisa, embora ele faça uma careta e não pareça tão feliz. Me devolve a taça (eu não devolvo o cigarro) e entra no seu apartamento, na sua vida de faz de conta, me deixando sozinha outra vez. Hipocrisia, eu sussurro, é disso que estou morrendo. Volto à minha sala e me atiro novamente ao sofá. Eu tenho medo de fechar os olhos, tenho medo que tudo se acabe ao meu redor e eu não possa sequer ver a última cara de desespero daqueles que passaram a vida se enganando ao achar que tudo isso era para sempre. Nada é para sempre, seus grandes otários. Nem eu, nem você, nem toda essa bobagem que você chamam de vida ou qualquer outra coisa que acreditem. Sinto vontade de sorrir ao pensar em toda aquela fortaleza desmoronando e fecho os olhos, me entregando em pensamentos. Quem sabe até eu não consigo sonhar.

Muito reflexivo seu texto... A hipocrisia e a efemeridade da vida são duas coisas que juntas não dá apra compreender muito bem... A sensação de ter tudo para fazer, mas não saber que tudo é esse também faz muito parte de mim. Ansiedade?
ResponderExcluirReflexivo, profundo, forte, bonito...
ResponderExcluirAdorei seus versos.
Nossa! Gostei muito dos seus textos e me identifiquei com tanta verdade, honestidade. Sou fã de The Smiths e 500 dias com ela. Fiquei toda boba quando os citou. rs Já estou te seguindo!
ResponderExcluirBEIJOS
Só consegui melhorar quando desisti de entender, flor.
ResponderExcluir500 dias com ela, me marcou. E é tão bom quando a gente dá um dia de férias para nós mesmos e vivemos um pouco da nostalgia de ser.
ResponderExcluirAdorei, Beijos!
Lindo texto!
ResponderExcluirÉ triste essa sensação de repulsa a esse mundo hipócrita em que vivemos... dizem-me que a resposta é aprender a lidar com ele, antes que acabemos realmente sufocados. A sensação de sufoco em você parece estar apenas começando, tente descobrir traços de vida em pequenas coisas, coisas engrandecedoras e que te satisfaçam, vai ficar bem melhor de encarar a vida então...
Nada dura para sempre, mas nós podemos fazer o nosso hoje ser eterno.
Melhoras.
;)