Escrever às vezes me parte o coração. Queria eu poder dizer que fazer um bom texto é fácil como reconhecer um outro tão bom, escrito por alguém. Escrever um texto cotidiano, banal como essas linhas, é como contar uma história inventada na hora: você não sabe como começar, mas depois de se engajar no ritmo, flui como se desde o início você já soubesse exatamente como terminar. Literariamente falando, as coisas são mais complexas. Quando estou feliz, a minha linda de produção se esgota; deixo de enxergar as coisas como ponto de partida de um texto e passo a vê-las como algo que simplesmente existe, que eu não preciso reproduzir ou transformar em um ou dois pares de frases bonitas.
Quando estou triste, por outro lado, as palavras parecem água jorrando de um poço que transborda. Quando minha alma está chorosa, eu não consigo me conter, e mesmo quando tento, sinto que estou sufocando dentro de mim mesma. Isso existe, morrer de silêncio? Se sim, eis aqui a minha prova: escrever me dói como se fosse anti-natural, como se eu tentasse andar por um mundo de cabeça para baixo. Escrever me dói como a certeza que depois de findo o texto, ele se perderá no tempo das pessoas e no meu próprio esquecimento. Pior: depois de finda a origem da dor, as linhas dos textos se embaralham e não fazem sentido algum, como se não tivessem sido escritas por mim. E insistentemente eu me pergunto: por que não desistir das palavras?
Quase me convenço que sim, melhor abandoná-las no fundo da gaveta.
Mas então acontece. Depois de tanto doer, por um único segundo, surge aquele momento maravilhoso em que escrever me liberta e me faz alcançar aquele ponto que só atinjo depois de sofrer tanto. Escrever dói tanto que, naquele segundo, me paralisa os sentidos e a única coisa compreensível em meio a tanta escuridão é um fiapo de luz distante, que passa a ser perseguido como se fosse a última palavra daquele texto. Ultimamente, me encontro imparcial no meio dessa guerra onde alguém tem que vencer. De um lado, a dor que precisa existir para que eu, concretamente, sinta algo; de outro lado, a paz que me seduz porque simplesmente existe, sem provas escritas.
Sim, escrever me dói como um tiro nas costas dado por um amigo, me parte em duas antes que eu perceba que não sou eu que controlo as palavras, mas que elas, até onde puderem, me controlarão. Ocorre que talvez eu esteja descobrindo aos poucos que a dor que eu sinto tem o seu objetivo próprio. Ela não simplesmente dói, mas dói com um motivo forte o suficiente que transforma essa dor em beleza. Doer é um mal à minha escrita, mas também é a sua essência. Escrever me dói como nascer no mundo e sobreviver a ele.

Que não encontrem a cura pra essa doença NUNCA.
ResponderExcluirIncrível, essa é a palavra pra esse texto.
ResponderExcluirVocê falou realmente aquilo que sinto, porque nós não dominamos as palavras, elas nos dominam e nos controlam, de um jeito doído.
Mas escrever é derreter-se em palavras, é existir, é, parafraseando você, "Escrever me dói como nascer no mundo e sobreviver a ele."
A vontade que eu to é de copiar e colar esse texto em tudo quanto é canto, pra eu lê-lo sempre.
Adorei mesmo!
Parabéns
Beijos
Dedê, tão maravilhoso e verdadeiro que foi parar no meu mural. Escrever dói demais! Mas antes sofrer pra botar pra fora do que morrer de silêncio. Isso fatalmente me aconteceria. Por enquanto, prefiro morrer pela boca, do que morrer por mantê-la fechada... Em alguns casos, pelo menos.
ResponderExcluirTe amo! Beijo
Deyse,
ResponderExcluirQuanta paixão em um texto só! Que coisa linda e sincera. Concordo um pouco com você quando diz que em momentos de alegria é difícil encontrar a inspiração para escrever, mas quando a tristeza chega, aí, é palavra que não acaba mais, né? No meu blog antigo, escrevia bastante como forma de desabafo e a sensação depois do ponto final de cada um dos textos era de alívio, leveza, paz. Hoje, quase não escrevo textos como aqueles, mas, por outro lado, sinto que minha alma está mais leve. Aí, fico pensando se não preciso de um momento de baixos na montanha-russa que é a vida, para ver se consigo escrever algo tão belo e apaixonante quanto o seu texto!
Ah, assista "Django Livre" sim. Mesmo com toda a violência e a duração longa, é um ótimo filme! E, "Cartas para Julieta" não é assim tão enrolado; é mais para o final. Parece que enrolam até chegar ao grande final, mas vale a pena sim. Só assista preparada :)
Beijos e boa semana,
Michas
http://michasborges.blogspot.com
Dede, eu sinto a sua dor. Acho que todas nós sentimos. E talvez seja por causa dela que tenhamos nos unido tanto. Escrever dói mesmo, sangra, arde. Mas é uma dor necessária. É uma dor que cura. Não dizem por aí que o que arde cura? É exatamente assim. Sempre quando eu termino um texto daqueles escritos pra sossegar a alma, sinto que mesmo que seja um pouquinho, meu coração está mais em paz.
ResponderExcluirTe amo <3
E que a escrita nos salve da morte silenciosa. Sempre.
P.S: Amiga, acabei de terminar um livro de contos traduzidos pelo Caio e que talvez você curta ler. Se chama "A Balada do Café Triste". Achei muito bem escrito!
Texto maravilhoso. Escrever é a maior dádiva do mundo *-* escreva sempre, por favor.
ResponderExcluirTexto simplesmente MA-RA-VI-LHO-SO! Fiquei emocionada aqui, Deyse!
ResponderExcluirAs vezes penso sobre isso também, em como a felicidade não nos entrega muito "material" para a escrita. Parece que o mundo é tão legal que devemos sair para aproveitar e não escrever nossas revoltas.
Já nos momentos tristes, é quase como um vômito de palavras. E dói, hein? Dói muito, não só pelos acontecimentos propícios à tristeza, mas por sofrer tudo aquilo mais uma vez ao colocar para fora. Mas não é que melhora? E esse alívio que é o mais sensacional de tudo! Eu nunca abriria mão disso!
Se for para sentir dor, que seja escrevendo!
Beijão :*