sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Vislumbres do pesar

Um dia eu tive um sonho.
Estávamos de mãos dadas, em um velho clichê adolescente, andando sós pela praia, envolvendo os pés descalços na maré calma, que ia e vinha no mesmo ritmo da batida de nossos corações. E que corações! Pulsantes, num átimo de um olhar pareciam ansiar saltar à boca, cobiçando expressar todo o sentimento que o cérebro sozinho não resumia em palavras. Você me olhava, sereno; parecia ler em meus olhos o reflexo da lua, que via além da doce ilusão de um pálido, sofrível e único amor.
Conversamos disparates que jamais alcançaríamos; os filhos que não teríamos, a viagem que jamais chegaríamos a realizar, os momentos que nos foram suprimidos. Mas naquele momento, ah, no instante de devoção, de clareamento de paixões, deixamos nos levar pela singela aparência de que seria possível, ainda que as ondas que batiam em nossos pés nos fizessem ficar despertos, insistentes em pensar em um futuro que jamais chegaria ao presente, que sequer seria relembrado no nosso pretérito solitário, rubrico em desfalecimento de almas.
E então eu acordei, olhei para o lado e cama estava vazia; que pena, amor, você se foi e não deixou uma carta ou a porta aberta... Você se foi e só deixou saudade.

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