domingo, 30 de setembro de 2012

Nada é maior que o meu amor

Não sei quanto tempo se passou entre o momento que eu li aquele bilhete e a minha primeira reação diante dele. Só acordei da espécie de transe em que entrei no momento em que senti o meu estômago afundar e as coisas ao meu redor de repente pareceram estranhamente irreais – aliás, o que de “real” vinha acontecendo nos últimos tempos? A verdade é que eu sabia que não dava para parar e refletir sobre essa e tantas outras questões que rondavam na minha mente; a verdade, aliás, era uma só: eu perderia para o tempo se continuasse onde estava, fingindo que além das paredes daquele hospital não havia uma série de coisas erradas a serem consertadas. 
Não pensei na minha saúde, na minha disposição ou muito menos se seria pega; levantei-me da cama, vesti minhas roupas que estavam guardadas no armário do quarto e abri a porta. Sempre soube que isso de quando as pessoas querem fugir de hospitais os corredores estão absolutamente vazios era história de filme, por isso não me surpreendi quando coloquei a cabeça para fora do quarto e vi enfermeiros e médicos andando por todos os lados. Indignada, fechei a porta, olhei ao redor e a solução se iluminou à minha frente, além da janela de vidro oposta à porta: meu quarto era no primeiro andar. 
Pulei pela janela, segui por um corredor estreito e dei de cara com os fundos do hospital. Por lá estava lotado de funcionários trabalhando absortos nas mais diversas funções, de modo que eu consegui me misturar sem muita dificuldade. Quando consegui cruzar o portal de entrada do hospital, me dei conta de que não sabia para onde seguir – mas foi um instante breve de incompreensão. Óbvio que não existia outra saída, nunca houve; a resposta para todos os problemas que surgiram estava tão estampada à minha frente desde a primeira vez que a vi que era até difícil acreditar que eu tinha sido tão trouxa. 

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O prédio parecia abandonado, como se qualquer preocupação em vigiá-lo houvesse desaparecido. Perguntei-me a razão daquilo, mas não me ative muitos nesses detalhes. Segui diretamente para o terceiro andar, como se minha intuição me guiasse até onde eu precisava ir. Não pensei no caminho, sequer tracei-o – apenas segui a passos firmes em direção ao terceiro andar e, chegando lá, diretamente até aquela porta, cuja sala eu já conhecia bem melhor do que eu gostaria. 
- Você é tão previsível. Claro que seria essa sala. – eu disparei sem me conter, assim que entrei. 
Camila, que estava parada no centro da dala, virou para me encarar, sorrindo de orelha a orelha. Ela estava linda, como se um raio de luz a tivesse atingido desde a última vez que nos vimos. Mas o meu olhar não demorou muito nela, porque instantaneamente disparou para o lado oposto da sala, em uma cama isolada, onde Alex estava estendido. Vi o seu peito inflar de longe – ele respirava. E não tinha nenhum fio eletrônico ligado a si, o que me fez concluir automaticamente aquilo pelo quê eu torci todos esses dias: finalmente ele estava bem. 
- Não queria complicar muito as coisas para você. – ela respondeu de ombros, como se fosse aquilo o previsível de se dizer - Não me parece muito inteligente. 
- E o seu prédio me parece muito abandonado. – eu tentava provocar para ganhar tempo enquanto pensava no que fazer. Por que diabos a gente tem essa mania fazer as coisas sem pensar no que fazer em seguida? - Não está subestimando quem está fora dos muros? 
- Não existe ninguém para ser subestimado. – ela fez uma cara de nojo enquanto me encarava – A única pessoa que já foi insolente o suficiente para me enfrentar foi você. Mas isso acaba hoje. Você está aqui. Aliás, quanta demora, hein? 
- Se me queria logo aqui, por que postergou tanto esse encontro? – eu falava calmamente, tentando não demonstrar que dentro de mim algo estava prestes a explodir - Não acha que a ideia de clonar o Alex é um pouco absurda demais, mesmo vindo de você? 
- Eu precisava de tempo. – o marasmo da voz dela me irritava - Você quase o matou, sabia? – perguntou, com ar de superior, virando-se um segundo para olhar para o Alex - É muito cinismo da sua parte ainda insistir em bancar a heroína quando você mesmo o destrói mais e mais a cada dia... 
- Não sei como pude acreditar em você, com essa conversa de irmãzinha abandonada que queria ajudar aquele que foi criado de você. – eu não queria dizer isso, não queria bancar a ingênua enganada, mas nada me parecia ser o certo a dizer naquele momento - Estava escrito no jeito que você se portava, na maneira com que falava comigo... 
- Você é mesmo muito fácil de enganar. – ela me interrompeu, agora com um ar divertido, como se fosse uma grande surpresa o fato de ela estar por trás de tudo - Todos vocês, aliás. 
- Você não sabe do que está falando. – minha voz tremia de forma involuntária, porque estava mesmo impossível de me conter - Não sabe o que é amar alguém sem exigências, sem limites... 
- Sem exigências? Você acha mesmo que não exige nada dele? – ela sibilou as frases com visível escárnio – Quase matá-lo não é exigência suficiente? Isso já não é ultrapassar todos os limites humanamente aceitáveis? Entenda de uma vez, Diana: não importa o quanto você negue, nós duas sabemos que você nunca será a mulher que ele merece. 
- Do que você está falando? – eu começava a ficar histérica com tantos disparates sendo repetidos sem contenção – Quem você sugere que fique ao lado dele, então? Você?- e nessa hora eu só conseguia sorrir, um riso de deboche. 
- Você é tão obtusa que não consegue perceber o que está cristalino, não é? – ela sorriu de volta, como se a lunática da situação fosse eu. 
- Ele não ama você! – eu gritei o melhor dos meus argumentos, o mais inviolável, o que ninguém poderia mudar. 
- É EXATAMENTE POR ISSO! – ela berrou de volta, como se sentisse raiva por eu ainda não ter compreendido o que quer que ela tenha concluído – O fato de ele não me amar o faz forte! Eu posso dedicar o meus dias a amá-lo o quanto mais ele precisar e o seu saldo será sempre positivo, ele será sempre o homem que foi criado para ser. Eu não sou egoísta como você, uma mera humana ridícula que acha que só porque dá amor merece o mesmo de volta. Entenda, Diana: humano nenhum nasceu para ser amado em menor medida e você, querida, não é exceção à essa regra. 
Então eu me encolhi a essa verdade. Calei-me porque sabia que era verdade; no fundo, abaixo do meu orgulho e de toda a minha esperança, eu sabia que Camila estava certa. Sabia que se existia alguém naquela sala que faria bem ao Alex, esse alguém com certeza não era eu. Depois de todas as tentativas, de todos os sufocos pelos quais havíamos passado... Nada adiantava; sempre acabávamos naquela sala branca, onde as coisas tinham o mesmo início e fim. Não conseguia compreender porque ela havia me trazido até lá, afinal – talvez para me exterminar, talvez para me transformar novamente em Zumbot, talvez simplesmente para me fazer enxergar o óbvio. Eu só sei que diante do meu silêncio, ela sorria estonteante. Saboreava tanto a vitória que essa mesma pose de vencedora trouxe o seu fracasso. 
Camila estava tão distraída em fitar-me enquanto em me encolhia em tristeza que sequer percebeu ele entrando furtivamente por uma porta que surgiu em meio a parede branca. Eu quis gritar, mas me faltou voz. A agilidade dele me assustou e em um piscar de olhos, a seringa que ele trazia em mãos foi aplicada diretamente no coração de Alex. Imediatamente, Camila virou-se para encarar os dois, como se a picada que Alex sofreu a tivesse atingido também – ele permanecia imóvel, mas algo nela já começava a mudar. Rapidamente, Camila foi ficando envelhecida, sua pele enrugando em uma velocidade inacreditável e, em um segundo, ela me encarava com aqueles olhos miúdos, quase fechados, tempo suficiente para demonstrar aquilo que ela não tinha tido tempo de dizer. Ela me odiava, eu sabia, mas de nada isso adiantava. O corpo de Camila endureceu e caiu ao chão, espatifando-se como vidro. 

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Nós dois estávamos sentados à beira da cama de Alex, que parecia bem, mas ainda não tinha acordado – eu estava calma, porém, porque ele havia me garantido que isso aconteceria em breve. Eu ainda não tinha dito nada e não sabia como começar, de modo que agradeci em pensamento quando ele começou a falar. 
- Eu sabia que você ia aparecer. – ele disse, a voz arrastada, dando de ombros - Desde o dia em que vi o Alex e soube que ele não era aquele clone maldito... Eu soube que um dia você iria aparecer. E nesse dia eu estaria pronto para lhe ajudar. 
- Eu não compreendo, Dr. Oliver. – eu não sabia explicar metade das coisas que eu sentia naquele momento – Eu o conheci e não posso dizer que foi a experiência mais agradável da minha vida... 
- Você nunca me conheceu, Diana. Desde que o Alex começou a namorar você, a Camila mudou drasticamente. Quando eu soube que o maior dos meus projetos estava tomando rumos próprios eu decidi que já era hora de avançar um pouco mais na minha pesquisa... Decidi que era a hora de descobrir como torná-lo humano. – ele respirou fundo, como quando se pensa em um sonho – Claro que a Camila foi contra, porque tornar o Alex humano significaria o fim para a Camila. Ela sobrevivia porque parte dela era a parte Zumbot que era o Alex, mas com o fim disso... Escute, não me entenda mal, não ache que eu queria o fim de Camila. Não era a morte dela que estava em jogo, mas sim a vida do Alex. A vida dele ao seu lado. 
Era tanta informação que o meu cérebro não conseguia processar. Eu não tinha capacidade sequer de formular perguntar, porque as dúvidas surgiam em minha mente de forma desordenada – exatamente como a bagunça que foram os últimos tempos. 
- Eu consegui fugir daqui e Camila, achando que eu não lhe faria nenhum mal, simplesmente me substituiu, sem pretensão de me exterminar. Mas eu me dediquei nos estudos, esperando que quando o momento certo surgisse, eu estivesse pronto. Não existia oportunidade melhor que essa que surgiu hoje: você estava aqui e o prédio estava vazio. Camila foi inocente demais ao me esquecer. Enquanto ela se preocupava exclusivamente com você, eu tive tempo suficiente para desenvolver aquilo que Alex e você precisavam para serem felizes. 
Eu tinha medo de perguntar. Mas eu precisava saber. Respirei fundo e encarei a única questão que, após isso tudo, importava de fato. 
- E você acha que conseguiu? Acha que quando o Alex acordar será humano? 
O Dr. Oliver sorriu levemente e pôs uma das mãos em meu ombro. 
- Eu não tenho dúvidas quanto a isso. 
Eu encarei o meu Alex, estendido naquela cama, respirando suavemente. Sua expressão era serena, a cor de sua pele parecia natural – enfim, ele poderia estar simplesmente dormindo e ninguém saberia a diferença. Tão logo olhei para os seus olhos fechados, suas pálpebras começaram a se mover levemente. E como que acorda com um susto, Alex abriu os seus olhos, que saltavam de tanto brilho, esbanjando vida. Ele segurou a minha mão mais próxima de si de maneira forte e a apertou. Então eu senti: algo era diferente. Ele era mais quente, mais macio, mais forte. Os seus olhos encontraram os meus e percebi que um misto de felicidade e alívio inundou-os. E, por fim, seus lábios se moveram para formar o nome que eu conseguia achar lindo quando dito em sua voz. 
- Diana. 



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Esse conto celebra o primeiro aniversário da Máfia. Ele começou com a Rafaella, passou por mais 27 pares de mãos e hoje acaba comigo, a 29ª pessoa a contar essa história - cujo final ficou enorme, aliás, mas espero que digno da ideia maravilhosa que foi compartilhar o mesmo pensamento com essas meninas que eu tanto amo. Máfia, parabéns por mais essa - nós merecemos!

7 comentários:

  1. Ownnn, que lindooo!! Agora temos que fazer a 2ª temporada! kkkk.
    Adorei Dê!! Todas arrasaram nessa história!

    Beijosss

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  2. É sério, tô muito emocionada. Pelo fato de termos conseguido fazer isso; Pelo fato de ter saído lindo e diferente e, claro, pelo fato de que o amor sempre vence. Dane-se que seja uma frase clichê. No final um salvou o outro, quer prova de amor maior do que essa? Lindo. Diana & Alex, cara. Somente. <3

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  3. MORRI! Meu Deus, QUE PERFEITO, GÊ!! Achei lindo demais, ficou maravilhoso. Dr. Oliver me surpreendeu!! *-*
    Te amo!! Beijos

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  4. Incrível, Dedê! Teve trabalho, mas fechou com chave de ouro! Eu jamais arriscaria o último dia, você é uma diva! Te amo!!

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  5. +1 em tudo que foi dito até agora.

    Amei o confronto da Di com a Camila, demais, demais, demais. Consegui ouvir os diálogos enquanto lia, assim como o tom de desprezo na voz da Camila.

    Aos trancos e barrancos, acho que conseguimos criar uma coisa linda. <3

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  6. Dr. Oliver foi capaz de matar a própria filha pra salvar uma experiência? QUE SACANA!!!! Nossa, que cara imprestável!!! Tudo bem que foi bom pra Diana ficar com o Alex, mas eu realmente fiquei com pena da Camila. Ela já não tinha mãe, o pai era um lunático e o Alex era tudo que ela tinha, daí ela ficou obcecada por ele e o trouxa do pai preferiu salvar a experiência do que a própria filha! O mundo realmente está repleto de gente que não presta, viu? Lamentável.
    Estou emocionadíssima aqui. Não acredito que acabou. Quero a segunda temporada logo. E cara, tu escreve muito bem, parabéns <3

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  7. Ficou lindo o final Deyse, amei!!! :)

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