domingo, 28 de agosto de 2011

Lembrança nenhuma, nunca mais


Hoje eu não vou escrever uma carta para você. Já fiquei por tantas vezes acordada até tarde da noite tentando reunir em um papel em branco as palavras certas, as frases perfeitamente conjugadas e os sentimentos escritos que fariam você voltar para mim; mas hoje, não. Tudo o que eu digo me parece em seguida tão estupidamente masoquista e cruel que acabo rasgando tudo dentro de mim, me corroendo, me arranhando, estapeando a minha alma em uma busca desesperada por me livrar de uma vez de toda inexatidão que você trás. Quem gostaria de viver eternamente assim, menino? Eu vivo. Eu busco a cada dia a discórdia de pensamentos entre a realidade de viver sem você e o sonho atroz de que algo bom ainda possa existir. Eu vivo essa peça teatral, esse drama mudo do silêncio que você guardou para mim, do adeus que eu nunca mereci, do fim cheio de incógnitas e mistérios que até hoje deixa essa curiosidade doentia no ar. Afinal, menino, o que você fez comigo? Isso não foi amor, não foi paixão, não foi qualquer tipo de relação que envolvesse duas pessoas que sentissem afeto uma pela outra. Você tentou encontrar em mim algo que sequer eu sei se existe e é tão bom quando a gente encontra alguém que consegue ver em nós além dessa imagem simples e superficial que encaramos dia a dia no espelho. É tão bom quando essa pessoa nos mostra que por baixo dessa pedra que colocamos no lugar do coração, ainda se esconde aquele resquício de inocência e crença em qualquer coisa que seja boa. É tão bom não precisarmos nos procurar porque há sempre alguém que nos encontre em nós mesmos, em si próprios. Ruim mesmo é a hora de partir. Ruim é esse vento frio que entra pela janela e leva embora o calor do seu corpo que inutilmente eu tento prender à cama. Ruim é ter que sair do sonho de nós dois e encarar uma realidade não tão bonita e justa. Gosto de te escrever como se você fosse saber dessas palavras porque isso me dá a certeza de que foi real, de que existimos, de que eu ainda tenho algo para dizer, de que ainda tenho muito para sentir. Mas hoje eu não vou escrever uma carta para você, porque faz frio, porque é agosto, porque há dor e solidão e porque por mais que eu goste de saber que há algo de você em mim, eu preciso sentir se ainda há algo de mim aqui dentro, também.

7 comentários:

  1. Muito interessante o texto;

    Parabéns!

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  2. uau, que texto mais lindo!
    Primeira vez aqui e adorei.

    Beijinhos

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  3. Caramba, muito intenso. O final me lembrou tanto algum tempo atrás, quando eu vivia exatamente o que você transcreveu aí... Às vezes nos sentimos tão do outro - ainda que este outro não esteja ao nosso lado - que parece que somos mais dele do que de nós mesmas. É aqui que acho que vale repensar, olhar um pouco mais para dentro da gente, como bem deixou claro.
    Beijos!

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  4. Nossa, que texto lindo *---*
    Cheio de emoção, de sentimento!
    você realmente deixou bem claro, que precisamos sentir nós mesmas, antes de sentirmos da pessoa.

    Lindo, lindo, lindo!
    sucesso!
    se cuida, boa semana
    Beijos :*

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  5. não escreve para os outros, não. escreva pra você ;)


    (hey, eu mudei a url do blog, acho que vc não está recendo as atualizações ;))

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  6. Se amar, antes de amar o próximo, já diz alguém muito sensato. Cada um sabe o que faz, né? E espero que a pessoa que fez o que fez se dê conta da mancada, porque olha...

    Ai, que saudade de vir aqui! Espero arrumar mais tempo pra aparecer, Deyse!

    Beijos :*

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  7. A pior parte é justamente quando vc fala de ter que sair do "sonho de nós dois" ter que mandar tudo o que foi vivido, tudo o que foi planejado pro lixo nunca é fácil. A parte boa é que isso sempre nos deixa mais fortes.
    Beijos!

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