domingo, 19 de julho de 2009

Tudo acaba em playgroud

Eu ainda sou criança. Sabia disso desde o momento em que tinha decidido não ser mais. Sabia que aqueles pensamentos de mente adulta, as opiniões decididas, o impulso de tomar para si a vida... Nada me pertencia – era apenas mais uma criança querendo brincar usando salto alto. As lembranças ainda se conservam ali, límpidas, impedindo que eu me esqueça da mente pura e idiotamente ingênua que ainda habita minha cabeça. São as lantejoulas penduradas em cada canto livre do meu quarto, os adesivos que brilham no escuro colados no teto, os enfeites para cabelo guardados com cuidado no fundo da gaveta do guarda-roupa; pode ser que eu perceba quando me pegar comendo chocolate e usando a Internet escondido em uma madrugada fria de julho – cadê a adulta que estava ali? Cadê a mente madura por trás de projetos de pesquisas, de ensaios monográficos, de seminários exaustivos? Está oculta, por trás dos olhos que ainda faiscam quando vêem as luzes do parque brilharem ou, quem sabe, a razão está ali, gritando aos meus ouvidos, que naquele instante estão ocupados demais só escutando a música do desenho animado na televisão. E quando você acha que não pode amadurecer mais, que está pronta para o futuro planejado meticulosamente, você descobre que plano nenhum era realmente um plano; nada passava de um capricho. Capricho de criança que foi proibida e, por isso, foi lá e fez.
Eu fiz. Eu agi, briguei, refiz, escolhi, voltei, menti, trai e surtei, não necessariamente nessa ordem. E agora, bom, agora eu estou deitada na cama, em mais uma madrugada fria de julho e a única coisa que eu ouço – nem a razão nem o desenho animado – é só, ao fundo, uma música de Michael Jackson – tão distante que parece um som mudo, como tem sido toda a minha vida: uma voz tão longínqua que chega a se calar. E, no fim, tudo é questão de escolha. O vestido, o anel, a comida, o curso, o emprego, o noivo, a hora, o dia, o prédio, o lugar.
Eu não estou pronta. Eu sei que não estou. Mas o mundo não vai esperar até que eu esteja e, do fundo do meu coração, eu sei que ainda vou errar muito. E, sem querer banalizar nada que eu possa fazer, eu só espero que não sejam erros tão graves assim. Crianças já não sabem lidar muito bem com escolhas, o que dirá com problemas.

domingo, 5 de julho de 2009

Projeto de fuga - fugir para o mesmo lugar?

- Quer saber? Deixa rolar. Põe em baixo do tapete, balança as mãos e dá as costas. Para mim, chega. – eu disse e saí, sem medo algum de voltar atrás. Saí, sem medo de errar ao tentar consertar um erro que nem existia ainda. E saí, sem medo de me arrepender. Porque eu sabia, dessa vez eu sabia, que não teria volta – não naquele momento surreal em que eu despontei de mim e fui só mente.

(''No entanto, para dizer a verdade, hoje em dia a razão e o amor quase não andam mais juntos'').

E eu sabia, acima de tudo, que eu não me deixaria voltar, porque apesar de atingir com crueldade cada célula do meu corpo, era o que eu precisava fazer. Eu sabia que era o correto; às vezes, você só entende que está fazendo certo porque ser sensato trás a dor instantânea que os erros só nos causam com o passar do tempo.

(Mas eu sabia, de forma indiscutível, que eu estava perdendo o medo das coisas erradas).

- Certo, desista. Mas, veja bem: você pode desistir do que quiser, mas não pode pedir o mesmo dos outros. Tá no seu olhar, na forma com que você segurou as minhas mãos... Está na sua postura, no seu tom de voz... Você não nasceu para perder. Não porque você não tente, mas porque você não consegue. Mas se quiser arriscar, vá em frente; sofrer e viver são sempre escolhas nossas. - E me mandaram criar vergonha na cara, exatamente com essas palavras. Quem eu acho que eu sou para desistir de sonhos que não pertencem exclusivamente a mim? Eu posso desistir de tomar o café da manhã, de ver um filme na tevê aberta, de dormir a tarde toda... Mas eu não posso desistir da minha faculdade, dos meus projetos e, principalmente, eu não posso desistir das pessoas. Porque está todo mundo, todo mundo, acreditando em mim. E eu não posso decepcionar ninguém, não só porque isso machucaria os outros... Mas porque aí não seria eu.

(Posso. Sei. Desisto. Insisto. Prossigo. Invisto. Cansei. Acredito. Duvido).

Às vezes você engana. Mente, desmente, omite, corrompe, interpreta, reescreve, teima, acha. Mas você sente. Você sempre sente.

(''Culpa, a pobre mulher sente, e mais: sente medo. Nem sabe de quê, mas sente. Medo de não merecê-lo, medo de perdê-lo, medo do dia seguinte, medo das estatísticas, medo dos exemplos das outras mulheres (...) essa criatura feliz e apaixonada, é ao mesmo tempo infeliz e temerosa porque teve a sorte de ser premiada com aquilo que tanta gente busca e pouco encontra: o tal amor como se sonha'').

Eu sinto que eu escolho viver, com todas as implicações e complicações que isso pode me trazer.

(Você não vive para fazer sentido hoje. Você vive para poder ter um amanhã).

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Conviver: do verbo aguentar ao (não) desistir

Talvez essa seja uma das poucas coisas que a gente tem que fazer desde pequeno e uma das únicas que a gente nunca aprende por completo: conviver. Estar lado a lado, mas sem atravessar a linha tênue que existe entre intimidade e falta de respeito. Estar distante, mas sabendo diferenciar a liberdade e a ausência.
Já me disseram muitas vezes que eu sou altamente complexa de se conviver. E, sinceramente, sou mesmo. Sou do tipo que adora ser bajulada, mas que não costuma fazer isso por ninguém. Eu faço umas besteiras e, mesmo sabendo que eu estou certa e que faria tudo exatamente igual, eu me arrependo e acaba me dando uma raiva tremenda de mim mesma – raiva essa que, acredite, eu acabo descontando em alguém que às vezes nada tem a ver com meu infortúnio, meu despeito e minha falta de coerência. Como se não bastasse, eu tenho a terrível mania de tratar mal quem eu amo. Trato mal mesmo e não consigo me controlar – como se eu já tivesse tentado. E, ainda por cima, eu sou a maior 'dona da razão' que eu conheço; escuto todo mundo, mas eles estão sempre errados.
Então acontece o óbvio: eu, como belo ser egoísta que sou, acabo seguindo minhas convicções e deixando as dos outros para depois – eu já disse como me aborrece a quantidade de 'depois' que existe na minha vida? Só que o problema é que desistir dos ideais de alguém também pode significar desistir dessa pessoa e aí vem o dilema: é pior desistir de si mesmo ou de alguém que você ama? Ou seria muito radicalismo viver só do que você acha ou ser uma esponja de idéias alheias?
Eu não sei. Às vezes me esquivo, às vezes me empolgo, mas estar no perfeito equilíbrio é mais difícil do que se imagina, principalmente pra alguém que costuma viver de excessos e de faltas. Simplesmente não dá para se frear ou se instigar a fazer algo por alguém – nem por você mesmo. Mesmo que eu saiba que aquilo é preciso, que é para o bem da tal convivência, em algum momento o meu instinto, minha teimosia ou meu orgulho vai falar mais alto e eu vou acabar fazendo o que todo mundo faz, porque, em questão de saber lidar com os outros, todos nós estamos seguindo em uma mesma linha de frustrações e tentativas vãs.
Isso torna tudo mais pesado. Chega um momento que a gente só aguenta porque ama e amamos porque nos aguenta. Ainda assim, eu não desisto de tentar. Não desisto de me arriscar em ajustar minhas idéias nas suas, ainda que eu saiba que são peças de encaixe diferentes. Não desisto de me sujeitar a te entender, de nos fazer entender, mesmo que eu saiba quanto uma convivência pode ser impossível. E eu não desisto. E espero que você também não.

Made a meal and threw it up on sunday,
I've gotta lot of things to learn,
Said I would and I'll be leaving one day,
Before my heart starts to burn (...)
Stand by me,
Nobody knows the way it's gonna be;
If you're leaving will you take me with you.

Oasis.