domingo, 18 de janeiro de 2009

Testamento

Então, para mim tudo bem. Sinceramente, o que você muito provavelmente pensa de mim pouco me importa agora. Quando a morte chega, a escuridão lhe cega e você perde a noção de mundo, centrada no futuro que você não consegue mais ver.
Eu podia ter passado a noite acordada. Enquanto isso, acenderia um cigarro, tragava; tragava um cigarro, acendia um próximo. Podia escutar heavy metal até acha que os vizinhos iriam se incomodar o bastante para chamar a polícia, e eu seria presa junto àqueles marginais fedorentos. E quando fosse solta, eu poderia entrar em um bar de quinta categoria que ficaria na esquina, ficaria bêbada e acabaria saindo para um motel com um estranho que me pagou uma dose de alguma coisa que eu não iria me lembrar o que era.
Poderia fazer uma tatuagem e, no dia seguinte, fazer outra; na verdade, eu poderia encher o meu corpo de tatuagens. E piercing, se achasse necessário. Poderia deixar a escola e, porque não, a faculdade e então você teria uma filha desocupada em sua casa ou uma filha sem teto nas ruas da cidade. Eu poderia tentar roubar uma calcinha da loja de conveniências do shopping, poderia acabar amiga daqueles que você passou a vida me ensinando a evitar.
Poderia colocar um top e uma minissaia e sair à noite escondida para dançar em uma boate, não como visitante, mas como atração. Poderia cometer suicídio – e, afinal, não só posso como estou fazendo. Dramático, não? Mas, ao invés de cortar os pulsos no banheiro, eu poderia me jogar na frente de um carro na avenida principal ou pular do último andar do prédio mais alto que eu encontrasse. E, na verdade, eu poderia tantas coisas que nem eu mesma sei bem do que eu sou capaz.
E ainda assim, você não vê? Poderia fazer coisas que acabariam comigo em instantes e ainda assim você resolveu se preocupar exatamente com aquilo que me fazia feliz. Mas realmente, não faz diferença, não agora, porque a única coisa que eu poderia e queria, simultaneamente, me foi tirada. E apesar de que despertarei sem caminhos iluminados com chance de renovação, eu tenho o conforto de saber que ainda levo comigo três coisas que você, no auge dos seus 16 anos, jamais pensou em ter: sonhos, princípios e caráter.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Últimas leis de um ano infrator

Deitava na grama verde, vivendo o último crepúsculo do doce inverno que já jazia junto a um ano passado, morto em momentos. Passava em seu mente os tais flashes de uns instantes que não voltavam mais, que tinham sido consumidos pela fome dos doze meses gastos com suor, com choro, com gritos.
As perdas de esvaiam junto a leve brisa que tocava seu rosto, sedutora. As conquistas já haviam migrado para o ano seguinte e lá a esperavam, já saudosas de sua dona, excitantes com o que viria a seguir. As indiferenças ficaram perdidas em um tempo quaisquer, indignadas com tal falta de consideração, tamanha falta de esmero perdida em peitos doloridos. E tudo, mas tudo mesmo vagava em parte de seu ser, que respirava como se o ar fosse rarefeito, como se viver o amanhã fosse doer.
E talvez doesse mesmo. Provavelmente, deixar e partir seriam as coisas mais difíceis a se fazer nessa vida. Para ela, eram. Deixá-los atrás de portões azuis, em baixo de covas frias, além de pálpebras fechadas em um choro constante... Era o mais dilacerador para o seu pobre coração, tantas vezes batendo em um átimo que sobrevivência, tantas vezes se encharcando do ilustre sangue que em suas veias corria, tão sofrido, tão lutador, tão sôfrego.
Experimentou de tudo. Tocou seu corpo em partes desconhecidas e que doeram e sentiram cada andar dos momentos agora jogados ao tempo, para que os levassem. E ela, que tantas vezes fora fraca, ingênua, egoísta. Ela, que percebeu que nada era isso ou aquilo, que perdeu ganhando e que não deixou ninguém ver a cor de seus olhos... Ela se consumia.
Tinha idéias na cabeça. Tinha pretensões. E mais trezentos e sessenta e cinco anos para serem vividos. Não iria fazer isso ali, deitada, analisando os últimos fiapos do sol. Levantou, respirou fundo e saiu para viver. E, nesse ano, de verdade.

Ou assim esperava, como esperara no ano passado e no passado e no passado...

domingo, 21 de dezembro de 2008

Amores, vírgula

Não se fazem mais amores como antes, de sentar na lanchonete da esquina, tomar o bom café de fim de tarde, comentando um best-seller. Não se fazem mais amigos como no tempo de minha avó, com ombros tão largos para que você ficasse confortável mesmo na hora de apoiar-se e chorar. Não se fazem, principalmente, forças dentro de nós como antes; hoje somos fracos, somos descartáveis, completamente controláveis. Não se fazem mais músicas, contos, encontros, filmes e conversas. Aliás, não se faz mais nada nesse mundo de meu Deus, largado ao belo prazer dos que vêem charme em folhas de papel, em apetrechos de enfeite.
Nasci na época errada, acho. Ou talvez só ainda carregue no peito, um coração. Vai saber.