domingo, 28 de dezembro de 2008

Últimas leis de um ano infrator

Deitava na grama verde, vivendo o último crepúsculo do doce inverno que já jazia junto a um ano passado, morto em momentos. Passava em seu mente os tais flashes de uns instantes que não voltavam mais, que tinham sido consumidos pela fome dos doze meses gastos com suor, com choro, com gritos.
As perdas de esvaiam junto a leve brisa que tocava seu rosto, sedutora. As conquistas já haviam migrado para o ano seguinte e lá a esperavam, já saudosas de sua dona, excitantes com o que viria a seguir. As indiferenças ficaram perdidas em um tempo quaisquer, indignadas com tal falta de consideração, tamanha falta de esmero perdida em peitos doloridos. E tudo, mas tudo mesmo vagava em parte de seu ser, que respirava como se o ar fosse rarefeito, como se viver o amanhã fosse doer.
E talvez doesse mesmo. Provavelmente, deixar e partir seriam as coisas mais difíceis a se fazer nessa vida. Para ela, eram. Deixá-los atrás de portões azuis, em baixo de covas frias, além de pálpebras fechadas em um choro constante... Era o mais dilacerador para o seu pobre coração, tantas vezes batendo em um átimo que sobrevivência, tantas vezes se encharcando do ilustre sangue que em suas veias corria, tão sofrido, tão lutador, tão sôfrego.
Experimentou de tudo. Tocou seu corpo em partes desconhecidas e que doeram e sentiram cada andar dos momentos agora jogados ao tempo, para que os levassem. E ela, que tantas vezes fora fraca, ingênua, egoísta. Ela, que percebeu que nada era isso ou aquilo, que perdeu ganhando e que não deixou ninguém ver a cor de seus olhos... Ela se consumia.
Tinha idéias na cabeça. Tinha pretensões. E mais trezentos e sessenta e cinco anos para serem vividos. Não iria fazer isso ali, deitada, analisando os últimos fiapos do sol. Levantou, respirou fundo e saiu para viver. E, nesse ano, de verdade.

Ou assim esperava, como esperara no ano passado e no passado e no passado...

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