terça-feira, 29 de novembro de 2011

Por tudo ache graça


Há muito tempo eu venho falado de dor como se fosse a única coisa que me habitasse. Já fui muitas vezes proibida por pessoas que sequer me conheciam a não deixar a felicidade escapar. Sou taxada por aí de louca – um mister entre a benção e o desperdício. Na mente dos outros, tudo culmina em desagrado. Acho muita ousadia de quem sabe apenas o que acontece na superfície e, ainda assim, despeja frases cruéis como “você não merecia a sorte que tem”. 
Para quem assiste de fora é muito mais cômodo, sempre foi. Você o ama, Ele faz tudo por você; não o trate assim, Ele não merece; como alguém pode ser tão bobo por você?; não o faça sentir outro rasgo no estômago; deixe-o em paz. Tudo ecoa em forma de discurso infinito na minha cabeça, como forma de me manter firme e alerta a tudo e todos que parecem compreender o que se passa aqui dentro mais que a mim mesma – mais que nós mesmos, aposto. É quase aceitável: nós e nossa humana necessidade de colocarmos a culpa em quem está ao nosso redor como uma desculpa por não saber enfrentar os mesmos problemas que achamos tão simples. 
Mesmo com algo tão duro, acredito que, se ao menos por um segundo, você deixa de ser tão obcecado por um domingo de praia e sol, você consegue perceber a beleza em uma tarde chuvosa. Sempre fui exigente quanto ao sentido das coisas, mas não com aquilo que me levava à compreensão. Nada melhor que parar, de uma vez por todas, de mensurar o bem e o mal que existe em tudo; sou mais independente que isso, sou feita de muito mais que demonstrações românticas ensaiadas com base no último filme hollywoodiano
Quero ver a graça na briga sem motivo no estacionamento do shopping; quero chorar ao telefone pedindo para o homem da minha vida não me abandonar, porque sem ele nada tem graça; quero receber o pedido de desculpas que eu mereço e gritar que estou me doendo até fundo da alma. Nós sabemos nos recuperar desses loopings e ainda com um sorriso no rosto que deixa bem claro o quanto ficamos melhor, depois de tudo. Isso, para mim, também é ser feliz para sempre, porque se eu nunca encontrar uma alegria ofuscada pelo meu choro desmedido, todo o resto estará perdido no instante que o encanto se quebrar. 
Se você aprende a ser triste, todo o resto é mais fácil, mas se você está acostumando só com novo e o belo, se prepare para o choque quando a pintura começar a descascar. Eu não sofro sem motivo, eu não estou triste o tempo inteiro e muito menos tenho sempre algo pelo quê lamentar; na verdade, estou exatamente o oposto disso e é nesse contrário que eu encontro motivos para me afundar na dor e ressurgir logo em seguida. “O poeta precisa de sofrimento tanto quanto da sua máquina de escrever”, e eu apostaria todas as minhas fichas em Bukowski sem achar que isso seja a desculpa de um covarde. 
Tenho essa cara de quem está sempre com algum problema, mas no fundo só estou pensando em como posso fazer para as coisas serem (ainda) melhores. Só não confio nas pessoas, não confio em mim: uma vez que eu me entregue a essa história feliz, vou esquecer o caminho da volta; não quero correr o risco de não lembrar que da mesma forma que eu tenho uma capacidade enorme de sorrir, o choro também vez fácil. Não quero esquecer como é ser triste de vez em quando para não correr o risco de ser triste sempre. Quero chorar sem motivo antes que eu arrume razões de fato para dar companhia à lágrima solitária que deixo escapar. E enquanto minhas palavras me traem e expressam a maior dor que sou capaz de sentir, fora e dentro de mim vai sendo construída uma base mais forte, mais realista, melhor para Ele, melhor para mim.

7 comentários:

  1. Cada vez mais tenho a impressão de que você está escrevendo sobre mim, Dê!

    É muita identificação, Braseel!!!

    Amei!

    bjbj <3

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  2. Deyse, você arrasou menina! Adoro ler textos que parecem que foram escritos para mim! Muito, muito, muito bom! Beeeijos <3

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  3. Eu quase nunca comento aqui, sou leitora anonima, confesso. Mas precisei agora. Me identifiquei muito com teu texto Deyse. Lindo mesmo. :)
    Até compartilhei no face. hahaha
    Beijo!

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  4. Me dá um abraço, vai!
    Seu texto falou TAAAAANTO comigo, e com os últimos meses que tenho vivido, que você não faz ideia.

    beijones!

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  5. você sempre acerta, De :)

    quanto a ser feliz: é muito mais difícil do que ser triste. aprendi a muito custo e acabei me conformando, que é uma situação, apenas. gosto da sua consciência de que tudo passa, e que sempre precisamos tentar tornas as coisas melhores. acho que se todo mundo pensasse dessa forma, entenderíamos mais facilmente como aproveitar a felicidade.

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  6. Tô com a Isadora e com as outras meninas: tá ótimo. E provavelmente eu vá usar seu texto pra explicar pras pessoas o que acontece comigo quando elas aparecem com aquele papo nada a ver de sempre, de criticar, de tudo isso.

    Muito bom. VEMK DAR UM ABRAÇO *hug*

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  7. Me ganhou só com o título, dona Deyse! ARRASOU!!

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