segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Verdade bem contada

Hoje eu me surpreendi com algo que eu mesma disse. Não foi exatamente alguma coisa demais, nenhuma frase profunda e muito menos alguma reflexão filosófica. Eu simplesmente disse algo como ''eu nunca escrevo nada pessoal e se o fiz, foi apenas uma vez'', me referindo a um trecho de texto postado aqui há quase um ano. Por um minuto eu achei que eu estivesse mentindo – para mim e para uma pessoa que, convenhamos, não merece mais receber mentira alguma, principalmente assinada pela minha já manchada pessoa. De qualquer forma, eu parei e pensei: ''Opa, Deyse, como assim? E todos os textos de 2009 que você publicou? E todos aqueles desabafos chorosos e as lamúrias sem fim?''. Pois eu respondo: não era eu.
Já me reencontrei. Descobri em mim a menina que eu perdi há um ano, que desamparei em um banco de praça de shopping. E confesso: não foi difícil abandoná-la. Parece coisa de mãe desnaturada: pega o filho, põe numa caixa de papelão e deixa na porta da casa de um estranho. Mais ou menos isso que eu fiz. Eu só não contava com um detalhe: a mãe que abandona não é presa, assim que descobrem seu crime? Então, também sou digna de receber uma condenação. Mas não quero chegar nesse ponto, até porque isso merece outro texto – ou não. A questão é que eu descobri que eu tinha feito a mim mesma algo que já fizeram comigo e, adivinhe, eu odiei: me enfiei dentro de uma bolha de proteção e comecei a ter minha ilusão de vida de dentro dela.
Quisera eu que alguém tivesse me despertado para isso, tivesse tentado me impedir – mas a única pessoa que era capacitada de fazer isso não tinha a menor noção do que acontecia comigo. E foi assim, de dentro dessa bolha, que nasceram cada um dos textos de 2009: eu podia atingir todo mundo de dentro dela, mas sempre que alguém tentava me atingir, era impedido por minha bolha superprotetora – e isso, tudo isso que eu chamei de paixão, amor, dor, decepção e ilusão durante um ano inteiro foi apenas a minha maneira, às vezes doentia, de dizer: ''Opa, você tentou, mas está apenas perdendo o seu tempo. Me distraindo, ainda não percebeu?''.
Não me julguem por isso. Veja bem: eu fui tão falsamente satisfeita, me enchi tão de repente de um utópico surto de determinação que eu consegui até me enganar, pobrezinha que achava que tinha mudado, mas continuo a mesma romancista-felizes-para-sempre que venho sendo desde que entendi que sim, essa história de amor para vida toda existe. No fim, não adiantou coisa alguma tentar me abandonar como quem corta uma mecha de cabelo e joga fora: aquele meu pedacinho que pensei ser inútil, que considerei descartável, um dia achou de retornar, nem que seja só para me fazer pensar o seguinte: ''Como eu sobrevivi tanto tempo incompleta desse jeito?''.
Isso aconteceu comigo, claramente, muito provável que tarde demais. E dói – é, de fato, uma parte sua que está lutando para se reintegrar novamente. Eu poderia muito bem renegá-la, abandoná-la em um lugar mais distante, de uma maneira que a mesma não encontrasse o caminho de volta - ainda que isso fosse o mesmo que, burramente, cometer o mesmo erro de há um ano. Mas dessa vez, ao menos dessa vez, eu decidi assumi o meu erro e fazer uma coisa inédita na minha vida: tentar reescrever cada uma das minhas verdades mal contadas.

Ps.: Assim eu tenho, na verdade, o terceiro (o primeiro foi esse e o segundo foi esse) texto do blog em que não omito nem controlo nenhum fato. Deixei sair, apenas. E, sim, a pessoa a que dedico cada linha é a mesma nos três casos.

Um comentário:

  1. adorei seus textos, tomei a liberdade de colocar a imagem com seu link no meu.. inté...verdade é ou não mentira... muito bom!

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