domingo, 8 de julho de 2012

Felicidade na mala

A fachada que me encantou. Além do cheiro do café, que era um tanto incomum, de verdade tudo me parecia normal: aquelas paredes de tijolo velho, as cortinas vermelhas com laços amarelos enormes amarrando-as e uma mesa no fundo, no canto da parede. Sob ela, a luz fraca parceira para esses dias obscuros. Entrei e quando o fiz, pensei imediatamente: é hoje. Nem me dei ao trabalho de abrir o Gabriel García Márquez que na mala pesada carregada na mão esquerda, porque seria inútil tentar entender qualquer jogo de sentimentos sem antes observar por um tempo ínfimo aquela situação que eu me encontrava. Quando a garçonete caminhou até mim, sem trajar um daqueles uniformes bem passados e me servindo uma xícara de café frio, eu percebi que aquele local terrível que eu estava admirando, que o serviço mal feito e o gosto fraco do pó de café desenhavam o único desfecho que caberia a mim. É claro como automaticamente se rejeita alguém que é triste pelo simples fato de o ser. Essa obrigatoriedade que é imposta de sorrir mesmo quando se tem vontade de correr em desespero nunca me convenceu, mas ultimamente vinha me sufocando como aquela falta de ar que a gente sente em locais fechados e cheios de gente que gosta de beber cerveja barata e vinho de supermercado. Andam falando que os meus textos estão tristes demais. Por isso eu resolvi mergulhar nessa esperança de que agosto chegará logo e que a nuvem  estática de julho simplesmente passará. Tirei da gaveta todos aqueles textos antigos, cheios daquelas palavras tortas, e me deu uma vontade tão grande de rir de mim mesma: como eu posso ser assim, tão drástica e trágica? É um terrível filme preto e branco, um monólogo chato onde só eu grito, só eu sinto, só eu sofro. Contento-me em viver de retalhos de uma alma nada nobre e acho que isso é o justo a mim mesma; incremento essa vida com perguntas cujas respostas eu sinceramente não faço a mínima questão de saber. Mas o que seria de um bom sofrimento se não fosse aquilo que sempre te atormenta e consome e destrói? Depois é que a gente percebe que não há nada a ser descoberto ou desvendado. É tal fácil perceber que está tudo aqui em nossas mãos: o café, o colorido do céu, o filme francês, o jornal de ontem, o brownie, o cd de The Smiths... Tudo aquilo que supostamente precisamos para atingir qualquer nível de um contentamento pessoal. Não é preciso sentir tanta falta, acumular tragédias e morrer de saudade. Está tudo aqui, a dois passos, e a cegueira é incrivelmente forte que só possibilita enxergar a beleza das coisas por questões de segundos; logo depois, lá está o peso de julho de novo em nossas costas, como se o mês não fosse acabar semana que vem. Mas ainda assim, medindo e pesando as minhas queixas e cada vez tendo mais certeza que eu deveria parar de boicotar a mim mesmo e ser feliz de uma vez – dar graças a Deus por tudo de bom e justo que vem acontecendo – eu ainda consigo encontrar um sabor delicioso em viver sozinho, amargurado e escrevendo como se isso fosse salvar a minha vida – que nem precisa ser salva, por fim. Cansei de explicar porque sinto esse gozo de me tirar do mundo cada vez que eu me entrego à misantropia, aos livros, às frases clichês e aos sentimentos mais fétidos porque, oras, não há nada a ser compreendido, aceitado ou concordado. É só o meu jeito de ver as coisas e a minha capacidade de me recuperar e dar a volta por cima quando eu cansar dessa arte de viver uma tristeza que não é minha – e quem poderá me julgar por isso? Quem poderá me condenar por não querer viver essa vida perfeita e preferir me sentir humano, vez ou outra, quando percebo que ainda sangro e ainda morro de amor? Assim, sem (querer fazer) sentido ou ter direção, eu escrevi por horas. Sem pensar nada, sem opinião, só mesmo por prazer. Só o puro e incontrolado desenhar de palavras, uma coisa meio sem fim, sabe? Essa vontade incompreensível que a gente tem de colocar tudo imediatamente para fora como se fosse parar de doer – e vemos que não para, mas sobra essa indignação, que também tem que ser mostrada, das coisas infelizmente não serem exatamente como nossa mente imagina, nem para mim nem para o resto do mundo que tenta me encaixar nesses padrões que eu visivelmente não suporto. No tempo que estive aqui, só parei para pensar como as janelas abertas me fazem respirar muito mais fácil. Esse ambiente de paz me faz sentir muito mais que uma simples tranqüilidade; é quase uma possibilidade de libertinagem, de se permitir sem qualquer interrupção, de ser capaz de gostar até do repugnante, de sentar numa cadeira velha e sentir que tudo bem com isso. Tem coisa melhor do que ser viver sem restrições? De viver sem rótulos, sem a necessidade de dizer “estou feliz” ou “estou triste”, de não ter medo de sentir o que for, de não distinguir o choro do sorriso, de não evitar abraçar você mesmo sem vergonha de não ser exatamente o que devia? Ainda não provei algo que me fizesse mais bem, até quando aparentemente faz mal. Mas nos poucos instantes que passei por aqui, notei que a calmaria realmente existe e para chegar lá, basta paciência e um pouco de fé – e isso eu tenho em mim mesmo, e de sobra, acreditem. Basta eu dizer: agora é a hora. 

 Agora, posso ler o meu livro?

* esse texto faz parte do meme "Recicle o título", onde um texto seria produzido a partir de um título colhido de postagem de outro blog.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Isabel, que não era Carolina

Teria sido mais fácil se ela tivesse recusado o convite, feito uma xícara de chá e sentado no sofá da sala para assistir Grey’s Anatomy – justo aquele episódio cruel em que a little Grey e o Mark se separam. Nada mais fim de romance que nem começou do que isso. Hoje, mais do que nunca, se sentia incapaz de carregar a força de ser Carolina. Preferia ser Isabel, aquela sem significado algum para alguém cética como ela. O seu plano de solidão teria sido perfeito se ele, o da noite anterior, não tivesse feito o telefonema em busca de outra dose de wisky e de paixão – não, nada de café dessa vez, nada de coisas mornas que facilmente ficam frias e desgostosas. Naquele bar e naquele encontro só tinha tido espaço para uma ou duas palavras de identificação, muitos abraços e pretensão alguma – ao menos era o que ela achava. O telefone chamou uma, duas, três vezes até eu ela resolvesse dar resposta àquilo que em duas frases bem ensaiadas poria fim ao seu indestrutível faro para um canalha bem vestido e com bom gosto para cigarros. Acabou cedendo, mesmo tendo plena consciência que no fim só caberia a acusação a sim mesma, a autopiedade e a condenação por ter sido a única culpada de romper suas verdades e aderir as mentiras alheias. Isabel, venha comigo – era impossível de denegar o convite. Juntou o necessário em uma bolsa pequena e partiu – não fez questão de salto alto, de maquiagem pesada e nem de um vestido escuro. Para quê máscaras? Era tão simples aquela complexidade. Ele falava uma ou duas palavras que no seu conceito seriam engraçadas ou convidativas – ela fingia rir enquanto se lembrava do quanto odiava Mark por ter deixado a little Grey partir. Ele expunha suas façanhas das últimas horas, apresentava o carro novo, listava diversas opções de locais para onde poderiam ir – ela concordava com a cabeça enquanto tentava lembrar se havia desligado o fogo do chá e guardado o que sobrara na geladeira. Para quê mais que isso? Era extremamente dispensável dividir contas, ter filhos para cuidar ou mesmo trocar confidências sobre como a relação estava evoluindo – quando na verdade só afundava de forma irremediável naquele abismo. Isabel, mais do que nunca, só queria por fim àquela sensação de estar só e seguir sozinha. Queria estar acompanhada, se pertinente, e depois três beijinhos, até logo, se me ligar novamente, que seja na só na semana que vem. Não que estivesse com medo – apenas não queria, por enquanto, tentar nada novo. Ali, onde os românticos não ousavam transitar e as putas ou mulheres bem resolvidas viviam sem menor pudor, era onde Carolina se perdia para ser Isabel no sentido vago que aquilo representava. Aquilo entre eles dois era alguma coisa quando tinha que ser e depois, simplesmente, não era mais nada – exatamente como deveria. Era assim que ela poderia ser absolutamente ninguém – um número na lista do telefone para as horas vagas e só. E quem poderá culpá-la por isso? Naquele momento, era pesado demais tomar conta de si próprio e também de alguém – naquele momento, o melhor era ser o mínimo que pudesse.

sábado, 5 de maio de 2012

Enlouquecida(mente)




Driving in your car 
I never never want to go home 
Because I haven't got one 
Anymore 


Me leve para fugir essa noite. Cale minhas reclamações e as transforme em sorriso. Me leve para algum lugar onde as luzes brilhem tanto que doa aos olhos de quem não quiser enxergar o colorido da avenida. Me ponha em movimento dentro de um carro, dentro de um abraço, dentro de uma roda de música e pessoas cantando alto, soltando a alma em um ritmo que não me faça querer parar. Me cerque do rock britânico dos anos 80 e do balaio dos violões com suas cordas quase rompendo de tanta euforia. Você sabe, eu nunca quis sair do meu mundo, mas, de qualquer forma, me apresente o seu. Me dê a chance de escolher algo diferente que me faça querer sair de casa e correr pelas ruas da cidade. Me leve para fugir essa noite porque eu quero ver o que de tão fabuloso e ao mesmo tempo cruel existe por trás das janelas do seu carro. Me leve para ver pessoas de verdade. Me apresente lágrimas e risadas. Faça com que eu sinta coisas boas. Faça com que eu sinta alguma coisa. Me leve para beber até perder o bom senso e me deixe sentada ao meu fio, cantando enlouquecidamente alguma cantiga que acabei de aprender. Não, não me deixe em casa. Não me ponha na cama, estenda o cobertor e me faça dormir. Eu não quero dormir essa noite; eu quero enlouquecer sem motivo algum e acordar amanhã com uma dor de cabeça que tenha valido a pena. Pensando bem, não me deixe voltar. Não quero ser mais benvinda no meu mundo, eu quero ser parte do seu. Quero pegar a sua mão e correr pelo meio das ruas, desviando de motos e ônibus, colidindo apenas com você. Esperar amanhecer ao seu lado é uma forma linda de uma noite chegar ao seu fim. E se a noite não acabar, e se o delírio permanecer, e se a realidade jamais retornar, bem, o prazer e o privilégio de viver essa loucura opcional ao seu lado terá sido todo meu. Mas me leve para fugir essa noite. Me leve para qualquer lugar, não precisa me dizer para onde, não precisa me dizer com quem, não precisa haver hora para voltar. Me transporte por meio de suas passagens secretas até chegar a um lugar que me faça pensar: esperei tanto para estar aqui. E se um medo inaceitável for aparente em meu rosto, novamente: cale minhas reclamações e as transforme em sorriso. Não deixe que nada nos detenha. Me leve para fugir essa noite e juro como nada mais me importa. Me leve para fugir essa noite e não me traga de volta. Me leve para fugir essa noite e se perca comigo em algum lugar. Me leve para fugir essa noite com você.