sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Para a dor que não sinto

Ah, nem é tão ruim assim. O máximo que pode estar acontecendo aqui sou eu me assistir afundar em mais um dos meus melodramas mexicanos, como sempre, dignos de filmes de final feliz e muito brigadeiro tarde da noite.
Eu tenho que admitir: já estive pior, então nem adianta tentar me fazer de coitadinha, principalmente para mim mesma. É... Já tentei me matar, já pensei em fugir de casa, perdi a conta de quantas vezes atingi a porta do meu quarto com objetos inúteis, tão frios quanto o meu coração foi se tornando. Agora, eu incorporei a dor ao meu dia-a-dia. E não me interessa se deixo transparecer no meu olhar o buraco da minha alma; o fato é que só assim consegui parar de viver nessa guerra interna que parecia não ter fim.
Parar de arrastar correntes, de visualizar calvários, de traçar causas da morte – e só esperar por isso tudo – me faz um bem danado; não causa o desânimo de quem desistiu, muito menos a ira de quem foi vencido. Traz a serenidade, a conformação de quem sentou no sofá da sala e virou espectadora de uma vida inventada.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Refluxo

Iludir-se é sentir um refluxo de vontades e esperanças não digeridas que remoem ao estômago como se fossem retornar à boca. E retornam; o corpo não foi feito para engolir mentiras fantasiadas de delírios do coração.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Acontece num bar

--- Não tem nada para me dizer?
--- Tipo o quê, exatamente?
--- Ah, não sei, qualquer coisa que você tenha vontade.
--- Faz calor aqui.
--- Também sinto. Quê mais?
--- Quero voltar para casa.
--- Mas nós acabamos de chegar!
--- Sim, mas você tá estranha, não gosto disso.
--- Não tô estranha coisa nenhuma.
--- Então desembucha logo o que foi que aconteceu.
--- Bom, foi assim... Na verdade, eu falei com alguém ontem e me falaram que você tinha algo para dizer.
--- Quem te falou isso?
--- Não interessa.
--- Tá vendo como você tá estranha? Nunca falou assim comigo antes...
--- Eu não tô estranha, caramba! Só tô curiosa...
--- Curiosa para quê, meu Deus?
--- Para escutar o que você tem para me dizer.
--- Mas eu não tenho nada a dizer, porra! Será que você ainda não entendeu essa parte da conversa?
--- Você tem outra, não é?
--- Hum? Outra o quê? Conta no banco? Juro que ia lhe dar a senha...
--- Outra. Uma amante. Uma mulherzinha que você achou por aí. Você tá me traindo, não é?
--- Você fumou? Bebeu? Se drogou?
--- Claro que não!
--- E de onde tirou essa idéia, sua louca?
--- Tá vendo, até de louca já me chama! Admita, você tem outra sim... Já está tudo tão obvio, para quê esconder mais?
--- Esconder de quê, de quem?
--- Ah, então quer dizer que você vai esfregar na minha cara agora, é?
--- Esfregar o quê?! Onde?!
--- Em mim. Porque, ela tem mais peito? Ah, já sei, o bumbum dela é durinho. Vai, pode dizer, dói menos vindo de você do que se for alguma piadinha do pessoal do escritório...
--- Escritório...? Mas você nem trabalha!
--- Olha, nem mais sobre minha vida você sabe! Eu comecei a trabalhar! Hoje!
--- Mas você nem me contou... Queria que eu te contasse algo que eu nem sei...
--- Não sabe porque não queria me contar.
--- Mas você disse que falaram que eu ia te contar!
--- Está tudo acabado.
--- Onde?
--- Aqui. Chegou o fim para nós.
--- Nós?
--- É, seu besta, nós. Fique com a sua mulherzinha e seja feliz. Tchau, baby.

Ele continua a fitá-la, bestificando.
Ela caminha até o carro, põe a chave na ignição e começa a dirigir até o flat novo que comprou, onde o seu homenzinho a esperava.