sábado, 12 de dezembro de 2009

Leitura do chão

Eu passei aproximadamente 17 anos e 9 meses da minha vida achando que tinha algo de errado comigo. Acho triste, mas acho inevitável o fato de você, as pessoas, se sentirem estranhas, excluídas e anormais quando o seu comportamento não condiz exatamente com aquilo que é esperado. Eu fui um bebê que não gostava da Xuxa, uma criança que preferia carros a bonecas, uma pré-adolescente que não passou anos planejando uma festa de 15 anos e, olhe lá, estou sendo uma adolescente que passa os sábados à noite em casa, que odeia lugares cheios, que não se importa com popularidade, que não vai às festas da faculdade.

Eu lembro que desde muito pequena eu já observava esse meu comportamento. Enquanto todos os meus amigos saiam para banhar de piscina na casa de alguém no domingo, eu ficava em casa, enrolada em um lençol, o ventilador no rosto e a televisão ligada no filme da tarde da Globo. Eu também não posso dizer que muito me incentivaram a não ser assim; acho que a maior felicidade da minha mãe foi quando eu decidi, aos 16 anos, ficar em casa em pleno carnaval. E, sinceramente, eu vivia muito bem assim. Não sentia necessidade de ir além do portão de casa, me confortava com minha pilha de livros que crescia cada dia mais e não tinha pressa de conhecer o que eu só ouvia todo mundo falar.
Então, daí que eu estou quase fazendo 18 anos e talvez, finalmente, eu tenha decidido que preciso sair do casulo. Eu estava pensando com os meus botões que eu já fiz tanta coisa ruim nessa vida que esqueci de ter as experiências boas – acho que as poucas vezes que dei uma espiada no mundo, ele me assustou. E eu ainda quero tanta coisa! Eu quero terminar meu curso de inglês e viajar em intercâmbio, passar frio na Inglaterra e conhecer algum britânico que parta meu coração quando eu tiver que voltar para o Brasil. Eu quero passar o reveillon na praia, pular sete ondas quando for meia-noite, beijar alguém que valha a pena e beber uma taça de champagne em um gole só. Quero viajar no carnaval com os meus amigos pra algum desses interiores perdidos por aqui, ficar em uma casa alugada e bagunçada, dividir um banheiro com 15 pessoas, beber a noite toda e sair andando de madrugada elas ruas desertas. E tudo isso e mais uma lista de coisas que eu desejo está aqui, na minha porta, pedindo para entrar; o esforço é pequeno, a conquista é grande. Quantas vezes isso realmente acontece na vida de alguém?
Mas daí eu lembro de quem eu era. Lembro da menina contida, da rotina simples, dos objetivos traçados desde que eu tinha 12 anos e saí da casa dos meus pais para estudar na capital. Eu lembro que eu acostumei mal a todos – qualquer, qualquer extravagância minha seria simplesmente o marco do início de uma guerra de gênios na minha casa, onde meus pais tentariam me mostrar quão boa eu era e eu tentaria mostrar quem eu sou de verdade. Eles mostrariam ética, moral, valores e posturas; eu mostraria liberdade e histórias para contar. E quando eu dou uma espiadinha nesse confronto e vejo que eu iria perder, eu me aquieto; só mais um pouco, mais um pouco e eu terei 18 anos, mais um pouco e estarei formada, mais um pouco eu terei um emprego e pagarei minhas contas. Quanto é ''mais um pouco''? Ainda falta muito para chegar lá?

Eu disse que soaria ao contrário do que era para ser. Quando eu deveria estar adquirindo todas as certezas da minha vida, eu caí em um conflito entre o que eu quero e o que eu posso que é tão juvenil que me dar vergonha. E não, eu não tenho calma, não tenho vontade de ficar parada vendo as coisas se arrumarem; alguém já entendeu que eu quero VIVER? Isso significa ser traída? BELEZA! Significa me arrepender? VAMOS LÁ. Significa sofrer? Foi pra isso que eu NASCI. Só não me prenda. Não me limite. Me deixe ser.

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“O desejo pode ferrar com a sua vida. E por mais duro que seja querer muito uma coisa, as pessoas que mais sofrem são aquelas que sequer sabem o que querem”.

Meredith Grey.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Hoje não monto minha árvore de Natal

A história é o seguinte: fim de ano é uma merda. Ah, eu acho. Desde que a minha família começou a brigar sem parar que eu fiquei com essa ideia na cabeça: meus tios discutiam o ano todo, passavam meses sem se ver e, quando chegava o Natal, todo mundo se reunia e fingia ser a família mais feliz do mundo. Patético. Isso foi até minha avó falecer. Depois, todo mundo perdeu a compostura e hoje em dia, fim de ano significa cada um para um canto diferente no país. Isso soa mais legal – falsidade não é muito comigo, sabe como é.
Depois que a ceia de Natal que cheirava a homicídio acabou, eu achava que a minha implicância com o fim de ano também ia acabar. Que nada. Acho que meu problema não é exatamente a coisinha falsa que me soava a felicidade natalina. O que me revolta, mesmo, é o final do ano e todas as suas implicações. Talvez seja por isso que eu ando tão perdida, tão confusa e sem saber o que diabos eu faço com a minha vidinha de merda.
O que me consola é que eu sei que eu não sou a única que fica pensando sobre essas coisas. É algo tão evidente, tão no ar, que todo mundo consegue sentir o cheiro, consegue apanhar com as mãos e ver o quanto pesa, o quanto é áspero e desconfortável. Deve ser a minha natureza muito drástica, profunda e melodramática. Eu bem que gostaria de não ser 100% do tempo uma novela mexicana, mas já que eu sou, antes assumir isso e ver o que eu posso fazer para contornar.
Eu não gosto de mudar. Ah, não gosto não. Eu posso sair da rotina de escola na segunda e ir beber em um bar, posso passar a noite de sábado estudando, posso dormir o dia todo e ficar a noite em claro. Saída de rotina, acabando com o tédio. Mas mudanças, mudanças de verdade? Ah, isso eu dispenso, meu senhor. Sempre que acontece comigo, e olhe que aconteceu muito pouco, é uma coisa tão complexa, tão árdua de se adaptar. E, por isso, eu não gosto de fim de ano. Sim, para mim a história de 'ano novo, vida nova' é bem válida e, em especial esse ano, eu não tô gostando muito dessa história. Eu adorei o meu 2009, sabe? Não foi o melhor ano da minha vida, mas desde quando eu tenho um 'melhor ano da minha vida'? E, afinal, eu aprendi a ser gente esse ano. Eu me conheci e, por Deus, eu conheci pessoas maravilhosas, eu adquiri tanta história para contar! Isso tem mesmo que ser interrompido por um champanhe estourando e uma contagem regressiva?
Andei pensando, só. Daqui a menos de uns mês eu saiu de férias e vou deixar para trás, por um tempo, coisas que eu gostaria de levar comigo na mala. Nessa parte tão incerta da minha vida, que eu não sei quem eu amo, quem eu quero, o que eu desgosto... Eu só queria poder ter tudo comigo, ainda, porque o tempo foi curto demais para que eu soubesse escolher. O tempo foi curto demais para que eu pudesse gostar de todo mundo, ir para todos os lugares... O tempo foi curto demais para que eu pudesse viver, será que o próprio tempo não percebeu isso? E, se percebeu, seria pedir demais que o tal pudesse se prolongar?
É, seria. Eu não falo com um ser concreto de vontades e opiniões, que é sucetível aos meus apelos sem um pingo de lógica. Soa até um pouco rídiculo, eu acho. Pode ser que um ano maravilhoso esteja a minha espera. Pode ser que, como nos anos anteriores, eu abandone pessoas ótimas para conhecer outras melhores ainda. Mas e se, dessa vez, eu estiver, pela primeira vez na vida, satisfeita com o que eu tenho?
É tudo uma questão de medo. Medo por tudo que eu conquistei. E não me venha com a velha história de que se eu conquistei, é meu e pronto. Olha só o mundo que nós vivemos hoje - tudo vai e volta tão rápido. Eu vou e volto rápido. Só espero, sinceramente, que ao ir eu deixe emoções e, ao retornar, que eu colha... Ah, que eu tenha ao menos o que colher, vá!

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Com prazo de validade

Se eu quisesse me enrolar mais sobre o assunto, talvez eu até conseguiria. Eu poderia imaginar na minha mente, sem nenhuma dificuldade, que isso que você está fazendo é o melhor para mim. Que você sabe que errou, errou profundamente e se sente tão envergonhado que não se atreve sequer a ultrapassar o seu sincero pedido de desculpas. Você está se punindo ao não me permitir lhe dar uma segunda chance. E eu lhe diria 'Lute! Lute, seu infeliz. Eu estou aqui, estou sentada ao seu lado, esperando que você peça, que você implore por um pedido de desculpas, que você diga que vai fazer de tudo para conquistar minha confiança novamente. Grite, se odeie, reclame o mais quanto puder... Mas por tudo que é mais sagrado, lute!'. Ah, eu imagino uma cena como essa na minha cabeça sem o menor esforço. Eu poderia tê-la realizado hoje, sob o luar que nós tanto discutimos nessas semanas que se passaram.

Mas eu sei. No fundo eu sei.

Quem sabe não é assim. Quem sabe você não espera exatamente que eu permaneça intacta, encubada em uma camada espessa de ódio e rancor, que você jamais conseguirá perfurar. Talvez você simplesmente espere e deseje isso; talvez tenha planejado e agido conforme fosse previsto para que acabássemos os dois aqui, sob o luar que foi discutido em apenas mais um momento em que você fingia. Talvez o tempo todo você quisesse que tudo terminasse nessa conversa sem lógica e sem conclusão, onde você parte meu coração mais uma vez. Talvez... Talvez...

Meu Deus, você era tão bom! Era tudo aquilo que eu achava que jamais ia encontrar e, incrivelmente, você parecia estar no meu caminho, no momento certo. Era você que eu tinha escolhido para me tirar dessa boemía sem fim, desses casos sem laços, desse amor livre no qual eu me meti durante todo o ano que está quase acabando. Mas o que você fez? Fugiu aos meus gritos de raiva, que no fundo eram apenas pedidos de socorro. Socorro de mim mesma e da figura cheia de desamor que eu tenho me tornado.

Eu não vou sofrer por você. Não para ninguém ver. Mas sim, eu decidi que você ainda vai me notar muito. Vai notar cada sorriso, cada frase brilhante, cada trabalho de destaque, cada chegada. Sim, você vai notar. E EU vou decidir você é o meu remédio ou se foi mais um mal. Mas, por enquanto, vamos permanecer assim, cada um em um canto vazio, sem os sorrisos que lotavam os mesmo lugares até pouco atrás. Dê tempo ao tempo...

Dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas...