quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Encontrando o lado bom da vida

Ou: O que eu preciso aprender com Pat Peoples 

"O lado bom da vida" é o livro popular do momento, essencialmente, por conta da sua adaptação cinematográfica, que foi indicada ao Oscar e tem a queridinha Jennifer Lawrence no elenco. Mas eis que sua história é a seguinte: Pat Peoples, um cara com problemas mentais que passou um tempo internado em uma clínica psiquiátrica, finalmente volta para casa. Pat tem um único objetivo de vida: se tornar uma pessoa melhor, já que o seu "eu" antigo causou mais estragos do que ele consegue lembrar. Assim, Pat emagrece e fica com um corpo sarado, passa a ser atencioso com as pessoas e controla sua obsessão por futebol. Pat só é apoiado pela mãe, enquanto seu pai o ignora e seu irmão e seus amigos meio que fingem que Pat nunca esteve doente. No meio dessa confusão toda surge Tiffany, que também passou um período tomando rivotril e derivados após a morte traumática do seu marido. Sabe quando dizem que remédio para doido é um doido e meio? Então, não é por acaso que Pat e Tiffany constroem uma amizade, com perdão do trocadilho infeliz, meio maluca. 


Vocês entendam quão bizarro é o cenário desse livro? Mas depois de um final sem cara de fim e de uma adaptação cinematográfica horrorosa, sabe qual é a mensagem que “O lado bom da vida” me deixa? As pessoas podem mudar, não importa o quão oposto elas sejam daquilo que querem ou precisam ser. Foi isso que o Pat fez. Ele mudou por ele mesmo. Ele mudou porque não aguentava mais ser quem ele era, porque tinha se tornado auto-destrutivo, porque a vida estava acontecendo sem que ele pudesse controlar. Eu sei que nem a ideia do livro nem o que eu estou falando são novidades - mas não posso negar que a carapaça me serviu perfeitamente, porque eu queria ter toda aquela coragem de dizer para mim mesma: você vai melhorar e vai fazer as coisas melhorarem e isso vai acontecer agora.

A base dessa mudança toda é a filosofia de vida do Pat, que é a seguinte: prefira ser gentil a ter razão. Não é mesmo a coisa mais equilibrada e sã já dita por cara com problemas mentais? Parando para pensar, é algo absurdamente simples; mas, como tudo que é simples, os seres humanos deram um jeito de complicar e acabaram invertendo a ordem dos valores da frase. Eu mesma faço isso; tenho o costume de travar guerras com quem quer que seja só para ter razão sempre - e só, para no fim do dia, descobrir que isso nada me acrescentou ou só me impediu de ser uma pessoa melhor. E eu não vou nem falar de todas as metas e objetivos que eu traço diariamente e abandono ao longo da semana. Não é exagero dizer que passei a última madrugada em claro, pensando em tudo que não dá certo na minha vida só porque eu tenho preguiça, porque me falta força de vontade, porque ainda não estou determinada a fazer. É ridículo admitir que tudo em mim tem um potencial muito grande que eu desperdiço.


E sabe o que me incomoda mais em tudo isso? As coisas só são assim porque eu, você, o resto do mundo queremos. Porque eu ainda não movi um dedo para fazer diferente. Porque eu me conformei de uma forma assustadora e deixei tudo para depois. Sabe quando você era criança e começava a montar um objeto não identificado com suas peças de lego? Então, essa sou eu vivendo a minha vida. Essa sou eu pegando pedacinhos que poderiam me ajudar a construir o que eu quisesse e os desperdiçando com coisas sem sentido. Essa foi a pior metáfora da minha vida, mas ainda bem que não é tão ruim quanto parece, porque eis que o Pat me ensinou também que nada precisa fazer muito sentido ao longo do caminho, se você souber determinar onde quer chegar e não se perder disso. E assim a minha ficha caiu e eu percebi que se eu resgatar o fundo de força de vontade que ainda me resta, muita coisa pode ser salva, ainda que aos poucos. Ainda preciso me preparar muito até conseguir fazer certas coisas, mas eu sei que já está nossa de assumir responsabilidade por aquilo que já sou capaz.

Daí você pensa: nossa, Deyse, isso é só um livro, claro que na vida real a gente não acorda um dia e realmente faz diferente... E eu estou dizendo que isso ocorre de um dia para o outro? Estou dizendo que é fácil, afinal? Não foi fácil para o Pat. Não é nem um pingo fácil para mim e olhe que eu ainda nem comecei pra valer a minha "grande mudança". E não me venham com desculpas como "mas esse é meu jeito" ou "esse é meu destino", que tudo isso é coisa de gente conformada. Tudo isso é o tipo de coisa que eu não quero mais repetir. E sabe por que é tão difícil mudar o que quer que seja? Porque as pessoas, as circunstâncias, tudo que nos cerca vai contra a nossa mudança. Porque quase ninguém acredita em gente que muda. Porque o mundo julga e eterniza as pessoas por aquilo que elas foram. Porque você pode até se dar uma segunda chance, mas quase sempre estará sozinho nessa empreitada. Mas ninguém, absolutamente ninguém consegue as coisas sem ajuda. E no fim, a gente se entrega e fica nessa zona de (des)conforto da qual é tão difícil sair. É tipo um ciclo vicioso de conformismo, do qual eu vou lutar para pular fora antes que fique tonta de tanto dar voltas a ponto de não conseguir mais me manter em pé.

E no meio disso tudo, qual seria o lado bom da vida? Talvez seja porque depois da "grande mudança", que às vezes nem precisa ser tão grande assim, exista um lado bom, afinal. E eu sei que já disse isso antes, mas não custa nada acreditar mais uma vez: se existe esse lado bom, vou começar a procurá-lo já.

E se o obstáculo for muito grande, não se esqueça de rir bem na cara dele.

16 comentários:

  1. Eu não li esse livro e confesso que não tenho vontade, mas não achei o filme tão ruim assim. Não é o melhor do mundo e com certeza não merece um oscar, mas também não é aquela coisa terríiiiivel, justamente porque é capaz de passar bem a sua mensagem, que para mim, é basicamente tudo isso que você disse, ou seja, a vida tem um lado bom, basta que a gente se disponha a procurá-lo.
    Abraços!

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  2. Primeiro: ler suas resenhas faz mal para minha conta bancária, Deyse! Como não querer ler um livro que você resenha, criatura, como?!!

    Segundo: ano passado notei que andava extremamente conformada com tudo na vida e, sabe, eu me senti infeliz grande parte do ano. Daí decidi que iria fazer uma grande mudança também e até que tô conseguindo, com bastante perseverança e um namorado pra dar todo o apoio necessário. :)

    Terceiro: achei genial você nos lembrar que as pessoas não nos dão apoio quando dizemos que queremos mudar. Muitas delas desdenham, aliás. Às vezes fico me perguntando se é porque elas não gostariam que a gente mudasse pra melhor, sabe, só por ruindade mesmo.

    No fim das contas, acho que o lado bom da vida consiste em você ter fé em você mesmo. Tudo depende de quanta dedicação e perseverança você vai por num determinado projeto.


    Beijos :))

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  3. Confesso que logo de primeira o livro não me chamou muito a atenção, e precisou ele entrar na lista de mais vendidos da cultura para eu, só então, DESCOBRIR que tinha um filme. Que eu também não assisti por pura preguiça, mas gostei muito de ler sua impressão sobre ele Dedê, me vi em muitas das suas confissões e concordo com muita coisa que tu disse aí, eu mesma tambem to lutando pra ser um pouquinho diferente, um pouquinho melhor e menos preguiçosa, mas é difícil né?

    Enfim, eu achei muito legal a metáfora dos legos viu? ♥

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  4. PRECISO ler esse livro, porque o filme mal roteirizado passou longe de me deixar com tantas reflexões assim! Amei o texto, amiga. E céus, como todos nós precisamos sair de nossas áreas de conforto. Essa de aprender a parar de discutir bobagem e aprender a ser mais gentil é uma porrada na cada de muita gente! Inclusive na minha. Bora praticar a gentileza: Conosco e com os outros!
    Quer saber um lado bem bom da minha vida? Você!
    Beijo! <3

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  5. Dedê,
    Esse livro mexeu demais comigo, mas talvez não dessa forma. Eu gostei demais de saber que não sou a única que acredita que tudo nessa vida TEM que ter um lado positivo, porque o Pat tá comigo nessa. Quanto à zona de conforto, amiga, posso dizer que tô nela e quero, desesperadamente, me mover, SÓ QUE não sei como. Ainda tô tentando descobrir o que fazer, mas tenho certeza de que preciso dar um giro na minha vida, urgentemente. ;~

    Te amo! <3
    Beijos

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  6. Este livro está na minha lista de desejados, e espero MESMO que ele me proporcione reflexões assim, tão verdadeiras. Qualquer mudança é difícil, e como disse, não é da noite pro dia, mas se não houver a vontade e o primeiro passo, não acontecerá nunca.
    Depois que eu ler, volto aqui pra contar o que achei.
    Beijão. ;)

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  7. Sério que você não gostou do filme? meu irmao assiste todos os filmes do universo, e ele gostou (olha que é dificil ele gostar de uma "comédia romantica").eu acho que você já mudou muito sabe. Todo mundo muda. E muda sem perceber.
    Todos nós estamos caminhando para ser nós mesmos. A preguiça é você também. Se você se incomoda com alguma coisa que você faz, é porque aquilo não pertence a você, e você vai descobrir como mudar em breve. Acho que todos os lados da vida são bons. Até os ruins. Sentir, chorar, amar, isso também é viver. E eu gosto muito de viver. Imagina se só sorrissemos o tempo todo? não teria graça, não seria poetico. E viver é um ótimo tema para poesias.
    Espero que você consiga fazer em você a mudança que quer ver no mundo.

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  8. Dê, esse texto foi uma faca afiada dentro de mim. Por acaso você é minha consciência? Você esteve na minha casa esse fim de semana? Hahah!
    Eu tinha dito que tinha gostado do filme, esse sim no quesito preconceituoso de filme água com açúcar (ao contrário do High School). É um bom filme água com açúcar, divertido e meio conturbado, especialmente quando você pensa em outros filmes cocôs do gênero (tipo aquele do Dia dos Namorados com dez mil atores). Então acho esse filme bom assim, pra ver na telecine pela metade daqui a alguns meses.

    Agora, voltando ao livro: adorei essa frase e já anotei aqui na minha parede. E olha, concordo com a Larie, suas resenhas fazem mal para a minha conta bancária. Outro livro agora que preciso...

    Beijo! Beijo!
    (preciso confessar que a ideia de você na minha casa num fim de semana me deixou super feliz! Vem! Eu faço brigadeiro <3)

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  9. Acabei de ver o filme e nao gostei muito, e adoro comedias dramas e comances e mashups disso tudo. Mas faltou quimica, pedaços, peças chaves, faltou algo.

    Talvez o livro seja muito melhor. Quando ele entrar em promoção vou comprar.

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    1. Thamy, não posso te garantir que vai gostar do livro, porque isso é algo muito pessoal, né? Mas com certeza a obra não tem essas peças chaves faltando como tem no filme - concordo muito com você em relação a isso.
      Enfim, pode não ser um livro fantástico para muitos, mas com certeza é mais bem construído que o roteiro desse filme.
      Beijo!

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  10. ps: esqueci de dizer que te apoio e concordo com tudo isso sobre mudanças, apoio zero dos outros e de fato, grandes mudanças acontecem lentamente sabe? Acho que tambem nao estou dando 100% da minha capacidade.

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  11. Que texto mais lindo.

    Eu acredito que tudo é você quem determina. Eu também tenho certos problemas, certos desafios que eu conseguiria vencer se eu parasse de empurrá-los com a barriga. Atualmente ando tentando mudar o que me desagrada. Não dou 100% de mim, porque não sei o que sou capaz de fazer. Mas, aos poucos, tenho certeza que tudo vai se ajeitar.

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  12. você sabe, eu estou pra ler este livro há uma eternidade e não o vejo. também quero fazer o mesmo com o filme e não o faço. e aí, lendo esse seu post delicioso de ler, me deparei com uma realidade indesejada: deixo de fazer muitas coisas que quero. e isso vai conta o que eu vivo dizendo pras pessoas, sabe? eu acho que a felicidade mora no ser aquilo que queremos e aí me pergunto quando vou conseguir.
    o primeiro passo de tudo, com certeza é querer. mas fazer vem logo em segundo e eu vivo esquecendo dessa colocação.

    beijoca

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  13. Ai, Deyse, você já sabe o que eu achei do filme, né. Assim, é interessante e tal, mas não me cativou tanto quanto a maioria das pessoas. Claro que livro e filme são coisas bem diferentes, e somente por causa disso ainda mantive a ideia de ler "O lado bom da vida". E sua resenha também me deu uma motivação extra, claro! E é tão bom quando conseguimos tirar lições que nos colocam vontade de sacudir a vida! Esses são os casos mais especiais que podemos ter com a literatura. E te juro, vou fazer um esforcinho com esse livro. =]
    Beijo!

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  14. Deyse,

    Já devo ter dito, mas vou repetir: você me deixou com vontade de ler o livro. Terei que fazer isso em breve.

    Sobre o assunto de suas reflexões, eu concordo, em partes, com você. Ficar sentado se lamentando sobre o quão a sua vida é lastimável não vai melhorar em nada a situação. Se tem alguém que pode mudar as coisas, é você, certo? A dificuldade está, justamente, em conseguir persistir quando todos ao seu redor fazem o possível para n]ao te ajudar. Normalmente, pessoas já conformadas que acreditam que todos são assim...Ninguém disse que mudar é fácil e rápido. É uma coisa que vai acontecendo aos poucos, com força de vontade...o importante é não desistir de lutar, né?

    Beijos e boa semana,

    Michas
    http://michasborges.blogspot.com

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  15. Adorei o texto. Ficou fantástico, sério.

    Li o livro e tive sensações semelhantes. A maior lição que a gente aprende é que se o Pat, mesmo tendo sua mente como adversária, consegue chegar lá, você também deveria tentar fazê-lo. Terminei a leitura motivada e feliz, pensando em tudo o que eu queria mudar também.

    Concordo muito com o que você disse sobre empurrar as coisas com a barriga. E a metáfora foi muitíssimo bem usada. Boa sorte com a sua tentativa. Vou estar torcendo por você do lado de cá do pc.

    Beijos!

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