segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Baseados em fatos literários - ou não

Faço parte do time que acredita que livros e suas adaptações não são exatamente comparáveis, porque, por óbvio, cada um requer uma linguagem própria, fator esse que pode exigir, digamos, certos ajustes. Isso me faz relevar muita coisa que os críticos mais exigentes condenam sem nem pestanejar. Porém, não dá pra ser flexível sem um limite, né? O mínimo que eu espero é fidelidade com a essência da história – ou que outra justificativa se tem para um filme ser homônimo e ter mesma sinopse que um livro? 

Também sou do time que jamais, em hipótese alguma, nem em situações de desespero assiste a um filme antes de ler o livro no qual ele foi baseado. Quer dizer, admito duas exceções: ou porque não tenho mesmo nenhum plano de ler ao livro ou porque não sabia que existia uma obra que tenha inspirado aquela história. Não sei se essa minha “ordem a seguir” melhora meu ponto de vista sobre as coisas, mas sei que também não a restringe: nem sempre os livros saem ganhando, porque já vi muito filme melhor que o seu livro-base (alô Nicholas Sparks). Em outras palavras: minha opinião quanto a livros e suas adaptações não sofre (pré)conceitos. 

Eis que aproveitei o carnaval para assistir a duas adaptações de dois livros muito bons que li esse ano. A primeira foi “Tão forte e tão perto”, versão cinematográfica para “Extremamente Alto & incrivelmente Perto”. Fica parecendo que a Rocco, editora do livro, está me pagando para fazer lavagem cerebral em vocês e os incitarem a só viver em paz quando lerem essa história; mas acontece que o livro é bom mesmo e quando eu saio aconselhando a leitura a quatro ventos é porque sei do que estou falando. 

Chorei e não foi pouco.

Não vou dizer que “Tão forte e tão perto” é a melhor adaptação que eu já vi – mas posso garantir que tem tudo que uma adaptação precisa ter. É bem verdade que ela dá uma boa resumida em alguns fatos e os levemente modifica para que, diante dessa síntese, mantenham uma coerência... Mas não fica aquela coisa bizarra, sabe? Você consegue assistir ao filme e reconhecer que já viu aquela história em outro lugar. Consegue ver o Oskar (Thomas Horn, que o interpreta, tem uma atuação assustadora de tão boa) do filme e pensar: “quando li o livro, imaginei o Oskar bem assim”.

O Omelete, que faz umas críticas que eu respeito muito, pegou bem pesado com essa adaptação – alegando, entre outras coisas, que o filme não capta os melhores recursos utilizados pelo livro, como os gráficos, imagens, anotações e códigos numéricos. Eu sou obrigada a discordar. Além de o filme fazer o que pode para se valer desses recursos, ainda explora outros tantos que só enriquecem a história – as atuações de Sandra Bullock e de Max Von Sydow compensam muita coisa que foi tirada na adaptação simplesmente por não ser viável utilizar certos recursos em filmes como é em livros. Mas o grande segredo desse filme, o que o faz uma das minhas adaptações favoritas da vida, é algo muito mais simples que qualquer elemento grandioso: a forma com que a sua história foi preservada.

Max Von Sydow merecia mais que uma
indicação como melhor ator coadjuvante.

Depois, assisti ao “O lado bom da vida”. Não vou me aprofundar muito sobre o livro nesse post, mas basta que vocês saibam que é uma obra onde as personalidades dos personagens são extremamente marcantes e praticamente constroem o enredo sozinhas. Não é bem a história sobre um cara que tem problemas mentais e precisam superar isso – é mais sobre alguém que precisa de pessoas, por mais improváveis que elas sejam, para seguir em frente e reconstruir a vida. É um livro sobre como nada ou ninguém são dispensáveis e sobre como o nosso final feliz depende do ângulo que olhamos. O livro não é algo único, mas eu levo nos favoritos e recomendo.

Eis que o David O. Russel, por algum motivo que só os velhotes do Oscar devem ter entendido, achou por bem mudar toda a história. E quando eu digo toda a história, quero dizer toda a história. Personagens essenciais foram simplesmente ignorados e os três que considero o tripé da obra tiveram os seus jeitos e suas relações modificadas de forma imperdoável. Foi o primeiro filme da Jennifer Lawrence que eu assisti e, coitada, nem consegui gostar da atuação da menina, porque a personagem que ela faz é diferente demais da personagem do livro a ponto de eu meio que desprezar a atuação. 

Atores bons com papéis ruins: até quando?

Daí o Érico Borgo, de novo do Omelete, que provavelmente não leu o livro de “O lado bom da vida”, vai lá e tece elogios ao filme – algo que eu até entendo, porque é mesmo um filme interessante se você ignorar o fato de que é uma (suposta) adaptação. A crítica do Borgo fala inclusive em encontrar o humor da depressão – o que eu não acho nem de longe que seja o ponto chave do livro e que, por óbvio, não deveria ser o do filme. Aliás, a cena que o crítico cita como a melhor do filme sequer existe no livro – foi uma inclusão que só serviu pra mudar ainda mais o rumo da história, até chegar ao cúmulo de o final do livro e do filme serem diferentes. Isso mesmo: os finais são diferentes (insira aqui todos os xingamentos que você conseguir lembrar). Depois disso tudo, só posso dizer que o que eu vi, infelizmente, foram duas horas de erros seguidos, um verdadeiro massacre com a história comovente que o Matthew Quick criou. 

Os dois filmes foram indicados para o Oscar na categoria “melhor filme” – não que isso revele alguma mensagem subliminar, mas eu não vejo essa semelhança com bons olhos, principalmente porque foram dois filmes que me atingiram de formas muito diferentes. Indico “Tão forte e tão perto” pra quem quiser se emocionar com atuações brilhantes e com uma história que, digam o que disserem, não vejo como um clichê. Se eu indico “O lado bom da vida”? Sim, se você não tiver lido o livro e nem pretender fazer isso ou se não for como eu, que sofro pra caramba e levo para o pessoal essa mania que os diretores ainda têm de quererem filmar algo semelhante a um livro e chamar isso de “adaptação” – façam-me o favor, viu?

7 comentários:

  1. Amiga, eu vi "O Lado bom da vida" sem nem pensar em ler o livro, e não gostei do filme. Quero muito ler o livro! E nem preciso dizer o quão desesperada estou pra ler logo esse livro do Oskar! Se a Rocco tá te pagando pra isso ou não, sei que a lavagem cerebral está funcionando brilhantemente.. <3

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  2. Eu assisti 'O Lado bom da Vida' e achei gostosinho de ver, bem honesto. Mas agora já peguei birra. Acho que fazer uma adaptação ruim é um tremendo desrespeito com quem leu o livro. Quero MUITO ler o livro da mão, amiga, mas é TÃO caro. E eu já comprei tanto livro esse ano que você não acreditaria. Nem me atrevo a dizer quantos porque é um número vergonhoso. Amo quando você fala de livros, ainda mais quando expressa esse seu lado crítico. E amo você <3

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  3. Amiga, que bom que a adaptação de "Tão forte e Tão perto" foi boa na sua opinião, porque eu gostei bastante e agora pretendo ler o livro pra amar tanto quanto você. Também achei que o Max Von Sydow merecia mais, muito mais.
    Quanto à adaptação do livro que lemos "juntas", bom, eu ainda vou fazer um post sobre isso. Mas acho que podemos aceitar que estamos JUNTAS na crítica. Puta merda. Apenas.

    Beijos, te amo!! <3

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  4. Já disse aqui que estou louca pra ler o livro "Extremamente Alto & incrivelmente perto" por sua causa, né? Pois bem, o post agora fez aumentar minhas expectativas, dá pra acreditar? Cerca de um mês pensei em baixar o filme, mas fiquei prolongando porque queria ler o livro. E olha que eu não tenho essa disposição para ler livro antes do filme e, aliás, muitas vezes me contento apenas com a parte cinematográfica mesmo (shame on me).

    Agora, esse "O lado bom da vida" me deixou intrigada, nesse caso acho que ler o livro é mais interessante, né, afinal o filme distorceu tudo. Não sei. Tô com uma pilha IMENSA de coisas pra ler que não acaba nunca, então tenho que pensar direitinho nessas coisas.

    Seu lado crítico é fantástico e convincente! Adooro! :D

    Beijos :)

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  5. Devo confessar que essas adaptações andam me angustiando bastante. Quero aprender a lidar com as frustrações HAHAHA E fico louca da vida quando a melhor cena do filme não tem no livro HAHAHA
    A primeira vez que ouvi falar de “Extremamente Alto & incrivelmente Perto” foi graças a você no Clube do Livro. Depois é que lembrei que já tinha visto um trailer de “Tão forte e tão perto” e ficado bastante tocada. Espero ter a oportunidade de ler o livro e ver o filme. Sim, também faço questão da ordem ler primeiro, assistir depois.
    Agora, to sim bancando a teimosa com “O lado bom da vida”. Quando vi o trailer no cinema eu achei muito estranho e não me interessei. Na verdade, foi estranha a manifestação do público já falando horrores do filme ali mesmo, então fiquei bem desconfiada. Então uma amiga minha leu o livro, se apaixonou e começou a me contar, mas eu achei tão diferente do que tinha ouvido falar do filme! Ela depois assistiu e achou que o filme não captou grande coisa do livro não. Pode até ser que eu tente ler o livro, mas já criei uma resistência contra o filme.
    E como lidar com essas críticas doidas que a gente vê por aí? Parei de ler coisas no Omelete faz tempo, pois só ficava confusa hehe

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  6. Deyse!!!

    Sério mesmo que o livro e o filme de "O Lado Bom da Vida" são tão diferentes a ponto de mudar o final? Ainda bem que ainda não assisti ao filme. Vou ver se leio o livro antes :)

    Sobre a Jennifer Lawrence, dê uma chance à moça. Ela tem talento, haha eu gostei dela em Jogos Vorazes, achei bem semelhante à Katniss dos livros :) E, ela fez O Inverno da Alma, que ainda não assisti, mas conheço pessoas com bom gosto que elogiaram bastante. Tanto o filme, como a atriz :)

    E, mais uma vez terei que dizer: fiquei com vontade de ler "Extremamente Alto & Incrivelmente Perto".

    Beijos e um bom final de semana para você :)

    Michas
    http://michasborges.blogspot.com

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  7. Antes de tudo: menina, fazia tempo que não lia teu blog e gostei muito do jeito que vc escreveu esse post!
    Vi só "O lado bom da vida" e minha idea mudou bastante depois de ler sua opinião. Não que eu tenha gostado muito do filme, até porque tava num clima bem pé-na-bunda e ver uma comédia com final feliz não foi exatamente a melhor ideia.
    E, por último, estou em saint louis. Vamos marcar um café?
    besos!

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