Por muito tempo eu esperei o correio chegar com alguma carta sua. Por muito tempo dentro de mim não foi um bom lugar para se viver. Por muito tempo eu me perguntei quando finalmente eu conseguiria ser mais amor a mim que amor a você, embora soubesse que qualquer das duas coisas sempre seria mera ilusão. Sou um caso eterno de amor não correspondido. Não retribuo nem o amor que tenho a mim mesma, mas tento ser o mais sincera possível quando penso: hoje eu vou ser feliz, vou jogar na lata de lixo as mágoas e durezas da vida e recomeçar um novo dia. Já escrevi tanta poesia-desabafos-versos-baratos por algo que eu sabia que não valia uma única linha de sentimentos jogados fora; fui e voltei muitas vezes nesse impasse de seguir em frente ou continuar mantendo o olhar preso ao passado, em uma eterna busca por um adeus que nunca existiu. Me repeti tantas vezes em um drama extremamente descartável, que me enojava, me impedia de encarar minha face sem vergonha e sem juízo no espelho, me prendia em um movimento cíclico de volúpias desnecessárias e choros falsos. Percebe como tudo isso me destruía? Era a força que rompia a cada dia uma nova parte da minha alma, me maltratando por dentro – e ainda assim eu continuava, por amor, por fé, por consideração, por dívida com aquilo que nunca foi, por alguém que nunca existiu, por tudo que eu queria ter sentido. Continuei, porque sou destrutiva até o último segundo, sou insistente até a burrice, sou capenga e ridícula sem receio algum. Até que bastou. Até que tanta indiferença e algumas palavras duras e dispensáveis atingiram o meu ínfimo a ponto de me fazer pensar: o que eu acho que estou fazendo comigo? O que querem agora, depois de me ter rasgado ao meio e ter tirado de mim toda a carga de coisas boas que um dia eu pensei em oferecer? Isso é tão inadmissível que ferve o sangue. Não é isso que vai honrar todas as palavras que eu já desperdicei ou o tempo que eu passei me lamentando por quem não sentia a minha falta. Não é isso que vai trazer alguém que nunca tive de volta para mim. Nunca deixei claro, mas não espero nenhum tipo de recompensa por todo o sofrimento que tive que encarar, muito menos um pedido de desculpas ou o adeus que desisti de esperar. Não vou brindar ao fracasso, se é isso que esperam. Sou muito orgulhosa de ter enfrentado tudo, mesmo sem ajuda alguma, e sem me esconder ou fingir que está-tudo-bem-vamos-continuar-a-viver. Eu não precisei me afogar em cerveja barata, não mudei minha rotina, não procurei conforto em outros corpos e outras bocas e, acima de tudo, sempre fui fiel a mim mesma, embora isso não tenha sido por causa de você. Enfim, entendi que as coisas simplesmente não deram certo e a culpa não é minha, porque fiquei mais fria, ou sua, porque ficou mais distante... Nós não quisemos que as coisas dessem certo, foi isso que aconteceu e ponto final de uma vez por todas, então não venha perturbar a minha paz dificilmente conquistada com convites à meia-noite de sábado carregados de malícia e ironia. Eu finalmente me vi livre dessas amarras e, pronta para continuar, tracei um caminho digno ao meu estado de espírito e todas as essas coisas bonitas que nós passamos a vida inteira procurando. Então, me perdoe a descrença que qualquer um desses seus sentimentos repentinos sejam sinceros, mas dessa vez eu prefiro não por meu coração à prova. Prefiro não amar alguém para ser abandonada no dia seguinte. Vou, sim, aproveitar esse dia de sol maravilhoso que se apresenta a mim cada dia – a vida agora é minha amiga e a ela eu dou as mãos. E fecho as portas ao passado e a tudo que a ele pertence, sem arrependimentos e sem o desejo que voltar atrás.

Dê, acho que esse foi um dos mais lindos que já li por aqui! Aquele começo então, arrasou: "Sou um caso eterno de amor não correspondido. Não retribuo nem o amor que tenho a mim mesma", porque isso é muita verdade! Queremos que sejam recíprocos a nós, mas nós mesmas esquecemos de nos ser recíprocas! Beijos!
ResponderExcluirUm dia a gente simplesmente cansa. Cansa de tentar remendar os trapos velhos, de refazer a pintura desbotada, cansa de voltar atrás. Seria estranho se não fosse normal. Ficar e estar cansado acaba fazendo parte de nosso dia a dia e nossas relações rompem-se quase ao mesmo tempo em que esse cotidiano se desenrola. Não devia ser assim, mas só nos cabe deixar pra lá e prestar atenção em quem realmente nos quer por perto. Aliás, está mais do que na hora de aproveitar esse dia de sol, antes que a tempestade teime em aparecer de novo!
ResponderExcluirComo sempre, belíssimo texto.
Obrigado pelos comentários sempre pertinentes lá no Senhor do Tempo. Gosto demais (:
Beijo!
passei por tantos momentos assim...
ResponderExcluirmas a vida nos obrigava e estar juntos e fomos nos reconstruindo e hoje somos amor.
Adorei o texto (será que é a coisa certa a dizer? não sei se é bom gostar de um texto que conta da dor de outra pessoa, sem que eu mesma tenha sentido essa dor, mas você saberá julgar). A referência ao Rei Leão no final foi fantástica! Beijo.
ResponderExcluirÉ incrível como seu texto se encaixou muito bem na minha vida, você andou vasculhando o passado do meu coração? (; Depois de muito tempo, do sofrimento dia e noite, as lágrimas de todos os dias, eu posso dizer isso: "E fecho as portas ao passado e a tudo que a ele pertence."
ResponderExcluirMuito obrigada pela visita, gostei muito do seu blog, e tô te seguindo :D Beijo.
Que texto lindo! Minha vida (mais uma vez) perfeitamente descrita.
ResponderExcluirFortíssimo o texto. Gostei do passeio que você faz dentro de si, como se estivesse limpando e atirando pela janela o que não serve mais.
ResponderExcluirObrigado pelo comentário lá no blog, me alegrou. =)
Beiijos