De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa, ficou um pouco.
(...) e sob tu mesmo e sob teus pés já duros,
(...) e sob tu mesmo e sob teus pés já duros,
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.
Drummond, em 'Resíduos' - porque de tudo fica um pouco, mesmo que o pouco que fique não seja nem parecido o muito de antes.
E foi ontem de madrugada, sentada na ponta da minha cama e ouvindo música, que eu me senti pequena, tão mais miúda do que eu normalmente sou. Foi uma sensação de inutilidade tão grande e tão poderosa que eu cheguei a acreditar fielmente que eu não ia suportar ver o sol dessa manhã – ou porque não chegaria a essa manhã ou porque tanta luz vinda em minha direção acabaria por cegar-me (ou porque nessa bendita cidade não faz um sol digno há muito tempo).
Mas, a verdade, é que minha boçalidade me consumiu. Eu fiquei horas no espelho, olhando fundo nos meus olhos e tentando enxergar minha nova alma. Tão orgulhosa, eu estava; era a alma que eu sempre quis, livre de amarras e correntes. Era uma alma puramente minha – e, ainda que fosse de outro, continuaria sempre sendo mais dentro de mim do que fora. E, acima de tudo, era a alma que me restara depois de uma alma maior ter sido tantas vezes partida, dilacerada e evaporado diante de todas as coisas fatais que eu já passei.
O engraçado é que, no meu espelho, eu sempre via a mesma alma bonita, dia após dia... Até que me apresentaram outro espelho e eu percebi que bonitos, talvez, fossem apenas os meus olhos ou minha imaginação. Não sei; só parei e observei minha alma nova e brilhante lado a lado com minha negritude de outrora – a mesma negritude que me consumiu, me fez chorar as lágrimas da injustiça e depois me atirou ao fogo dos subjugados à animosidade. E, assim, ficou difícil voar, correr, andar ou respirar. Eu só conseguia observar minha alma límpida; queria tirá-la dali, para que não fosse contaminada, mas eu descobri que ela não é tão avulsa e alforriada de ligas e laços como eu pensei; queria tê-la pra mim, ela e nada mais, para mim e ninguém além. Mas quando que você poderá ter uma vida feita apenas de você e do seu presente?
E, saindo do meu 'eu' prático e olhando em volta, é simples de entender e difícil de aceitar: você pode até mudar quem você é, mas jamais mudarás as coisas que você fez. Não é o seu orgulho, sua teimosia e suas mentiras que você levar consigo durantes os anos; é apenas a consequência de tudo isso, que fica tatuada na sua forma mais intrínseca e particular. E, mesmo quando você troca de alma, a carcaça da antiga continua ali, presente, bem como todos os erros cometidos – talvez, para evitar que os faça novamente ou então para, simplesmente, continuar a plantar a semente do remorso e do pesar.
Eu tenho certeza que eu nunca vou me livrar dos meus fantasmas – o máximo que posso conseguir é deixar de ter medo deles, o que não é garantia de que eu possa deixar de assustar os outros sempre que minha carcaça de alma saltar-me aos olhos. Sim, eu aprendi muito, do jeito difícil e pelo caminho mais complicado que eu podia escolher e, definitivamente, eu tenho vergonha de ter errado e mais ainda de ter que assumir esses erros. Porém, é melhor se acostumar: você pode se livrar de amores, paixões, amigos e momentos, mas aquilo que fica na sua alma, seja ela a nova ou não... Isso lhe persegue pra sempre.
Drummond, em 'Resíduos' - porque de tudo fica um pouco, mesmo que o pouco que fique não seja nem parecido o muito de antes.
E foi ontem de madrugada, sentada na ponta da minha cama e ouvindo música, que eu me senti pequena, tão mais miúda do que eu normalmente sou. Foi uma sensação de inutilidade tão grande e tão poderosa que eu cheguei a acreditar fielmente que eu não ia suportar ver o sol dessa manhã – ou porque não chegaria a essa manhã ou porque tanta luz vinda em minha direção acabaria por cegar-me (ou porque nessa bendita cidade não faz um sol digno há muito tempo).
Mas, a verdade, é que minha boçalidade me consumiu. Eu fiquei horas no espelho, olhando fundo nos meus olhos e tentando enxergar minha nova alma. Tão orgulhosa, eu estava; era a alma que eu sempre quis, livre de amarras e correntes. Era uma alma puramente minha – e, ainda que fosse de outro, continuaria sempre sendo mais dentro de mim do que fora. E, acima de tudo, era a alma que me restara depois de uma alma maior ter sido tantas vezes partida, dilacerada e evaporado diante de todas as coisas fatais que eu já passei.
O engraçado é que, no meu espelho, eu sempre via a mesma alma bonita, dia após dia... Até que me apresentaram outro espelho e eu percebi que bonitos, talvez, fossem apenas os meus olhos ou minha imaginação. Não sei; só parei e observei minha alma nova e brilhante lado a lado com minha negritude de outrora – a mesma negritude que me consumiu, me fez chorar as lágrimas da injustiça e depois me atirou ao fogo dos subjugados à animosidade. E, assim, ficou difícil voar, correr, andar ou respirar. Eu só conseguia observar minha alma límpida; queria tirá-la dali, para que não fosse contaminada, mas eu descobri que ela não é tão avulsa e alforriada de ligas e laços como eu pensei; queria tê-la pra mim, ela e nada mais, para mim e ninguém além. Mas quando que você poderá ter uma vida feita apenas de você e do seu presente?
E, saindo do meu 'eu' prático e olhando em volta, é simples de entender e difícil de aceitar: você pode até mudar quem você é, mas jamais mudarás as coisas que você fez. Não é o seu orgulho, sua teimosia e suas mentiras que você levar consigo durantes os anos; é apenas a consequência de tudo isso, que fica tatuada na sua forma mais intrínseca e particular. E, mesmo quando você troca de alma, a carcaça da antiga continua ali, presente, bem como todos os erros cometidos – talvez, para evitar que os faça novamente ou então para, simplesmente, continuar a plantar a semente do remorso e do pesar.
Eu tenho certeza que eu nunca vou me livrar dos meus fantasmas – o máximo que posso conseguir é deixar de ter medo deles, o que não é garantia de que eu possa deixar de assustar os outros sempre que minha carcaça de alma saltar-me aos olhos. Sim, eu aprendi muito, do jeito difícil e pelo caminho mais complicado que eu podia escolher e, definitivamente, eu tenho vergonha de ter errado e mais ainda de ter que assumir esses erros. Porém, é melhor se acostumar: você pode se livrar de amores, paixões, amigos e momentos, mas aquilo que fica na sua alma, seja ela a nova ou não... Isso lhe persegue pra sempre.
ouvir: In my place - Coldplay
Caramba, que forte! Mas eu amei demais suas palavras. Se fosse em outra época, me identificaria muito com elas. POrém hoje, não posso dizer o mesmo.
ResponderExcluirAhh e COldplay é show! Amo demais! As mensagens não percebi. É ela em portugues? Não vi ainda, mas vou ver.
Beijos
Queria que houvessem palavras que chegassem ao menos perto de dizer tudo o que tenho me sentido nos últimos dias, meses.
ResponderExcluirDe qualquer forma, você e Drummond são ótimos.