quarta-feira, 8 de abril de 2009

Deleite de (des)conversar

Então, de fato, o que seria recitar? Sentar em uma cama quente, olhar para o papel em branco e faltar-lhe palavras para tamanhos sentimentos? Ah, que grande trovador sou! Dos mais francos, dos mais bucólicos.
Se vou falar de amor, falo de amor. Isso, sem meia volta ou metáforas que escondem a pureza do amar por nada, amar singelo, amar sem precedências, sem consulta ao SPC ou exame de sangue. Falo de amor como ele é, como deixa de ser ou como fingi ser. De como ele destrói, de como habita nós, meros mortais que nascemos apenas para amar e morrer, senão sofrer de amor. E falo de amor como de fato se falam ao montes por aí: sem saber que se fala do sentir mais mutável de todos, cujo conceito, válido hoje, seria ultrapassado no amanhã mais recente.
Se vou falar de vida, falo de vida. Ensino a viver. Aliás, que fazes aqui, lendo e se deleitando em palavras afogadas no subjetivismo? Saia, comece a viver. E tenha a verdadeira leitura, a leitura da alma do que seria conjugar viver em todas suas pessoas, em todos os seus tempos. E se for para falar de vida, ora. Não perco o meu tempo falando sobre tal desafio, não me atrevo a desvendá-lo. Que charme haveria em mistérios tão indecifráveis se estes deixassem de ser mistérios indecifráveis?
Se vou falar de tristeza, falo de tristeza. Mas não procuro falar muito sobre isso, antes que acabe me consumindo e eu esqueça como se fala de amor e de vida, verdadeiramente. Se vou falar de amizade, falo de amizade, apesar desta ser algo mais raro de ser visto, portanto, algo mais raro de ser relatado com a mesma veracidade que todo o resto.
E, claro, se vou falar sobre o tal falar... Procuro mentir em um todo, porque todo o homem é feito, metade falsidade, metade sonhos. O aleive, ah, esse tem que sair. E os sonhos, esses ficam comigo, para não serem contaminados por amor, viver, amizade e muito menos pela tristeza. Afinal, sonhos que é sonho que se preze não sente nada que é de verdade, apenas idealiza de uma forma tão perfeita que, falando sem falar, recitar é impossível.

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