sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Versos antigos de um sentimento morto


Hoje te vi atravessando a rua e não gritei teu nome, não forcei os olhos para te enxergar melhor, não acompanhei teus passos quando você saiu do meu campo de visão. Seria isso te deixar ir? Depois de todas as despedidas mal sucedidas, das tentativas em vão de apagar seu número da minha agenda telefônica, depois de ser clichê até não ser mais nada além de uma personagem simples e vulgar... Será o fim algo banal como um caminhar cotidiano, veloz como o seu transpassar de pernas? Não achei que fosse ser plateia do fim quando ele chegasse, mas para contragosto do meu orgulho eu estou aqui, de mãos atadas e coração idem, engolindo a seco o ardor da despedida sem me manifestar... Sem reticências. 

Ridículo como, por muito tempo, eu fiz sala ao fim, o convidei inúmeras vezes para uma visita, deixei a porta aberta, estendi tapete vermelho, comprei-lhe rosas. Quando chegou, porém, fui incapaz de sequer estender-lhe a mão, de dizer "demorou, mas (en)fim"; fui incapaz de deixar claro que o fim, para mim, era mais definitivo que o começo. Quando o fim chegou, foi mesmo como um último dia de carnaval: um porre de doer a alma e uma lembrança de dias que parece que nem existiram. Quando o fim chegou e foi embora com você, o lapso de um milésimo de segundo entre a partida e um novo começo foi o mesmo que meu piscar de olhos; se eu não estivesse atenta, se eu não soubesse que em breve ele fosse chegar, se eu estive esperando mais um capítulo dessa história que só por utopia iria se estender infinitamente... Se o fim não fosse tão previsível como sempre defendi que o é, ele partido sem que eu o tivesse visto. 

Eu sei que sempre nos falta atenção. Sei que muitos de nós carregam nas costas "histórias mal resolvidas" como se essas se estendessem infinitamente pela memória; a verdade é que essas não passam de um fim não visto, de um encerramento tão brevemente substituído por um novo começo que foi impossível de notar. Não, não existe qualquer lapso temporal entre o fim e um novo começo. É tudo imediato, quase inconcluso, um tanto desorganizado. Se você é do tipo que diz piscar os olhos para não admitir que fechou-os a verdade, como eu, muito dificilmente vai ver o novo começo, que vem de carona com o velho fim. E depois nos queixamos que não sabemos por onde "começar" - nós, que dormimos no ponto, perdemos a linha, nos atrasamos na caminhada. 

Nós, que sempre teimosos achamos que a vida tem um botão de pause, que nunca aprendemos que o tempo de um suspiro já nos rende um atraso na nova história que se inicia com presa, com sede, desesperadamente fugindo do seu fim que vem logo atrás. Sei que fugimos do fim como se. 

Ps.: Achei esse texto, escrito em outubro do ano passado, no fundo de uma gaveta velha e pensei que ele não deveria ser esquecido – nunca fui boa em menosprezar e ignorar sentimentos, por mais antigos e ultrapassados que eles sejam. É incrível como eu sou eu a qualquer tempo. 

Ps².: Eu deveria, mas não vou declarar que o blog está morto ou que as palavras não me servem mais – elas sempre vão me servir. Acontece que, ultimamente, o silêncio tem sido uma companhia mais agradável. Quem sabe um dia, “por descuido ou poesia”, eu não volte a aparecer?

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Como não tratar a sua vida


Incrível como as coisas podem mudar da noite para o dia e mais incrível ainda como se pode passar um mês sem que você consiga sair no mesmo buraco onde se enfiou. 

A última vez que eu vim aqui eu chorei todas as pitangas acumuladas que tinha para chorar. Não que qualquer coisa tenha melhorado, mas eu acho que a gente acaba se acostumando com toda a pressão e o terror que preveem o término e início de tudo. Aliás, acho que nós acabamos nos acostumando com qualquer coisa, principalmente quando é um caminho sem volta. E, meus amigos, a responsabilidade é um caminho sem volta. Uma vez que você a tenha, pode dar um adeus definitivo a toda a sua inocência e ignorância. O conhecimento sobre as coisas e sobre a vida é mesmo algo que não tem devolução. Talvez seja por isso que eu me martirize tanto por ter querido a todo custo, o mais breve possível, ser dona do meu nariz e tomar minhas decisões independente do que fulano ou ciclano achavam. Eu queria tanto "ser quem eu sou" que sequer parei para pensar na questão principal: e por acaso já descobri quem é esse "eu" que eu tanto quero ser? Alguém deveria ter me avisado que, uma vez eu tendo começado a cuidar de mim mesma, não poderia voltar e pedir para alguém me cuidar quando fosse conveniente. Alguém teria que ter me avisado que “ter responsabilidade” é um dos poucos estados definitivos pelo quais passamos ao longo da vida. 

Nunca mais vai chegar aquele dia em que eu vou poder respirar e dizer: é, hoje eu não tenho absolutamente nada para fazer. Sempre vai ter alguma tarefa acumulada em cima da mesa, uma meta esperando para ser atingida, um prazo para cumprir. Essa é uma conclusão meio patética, na verdade, mas sabe quando as obviedades sempre são adiadas? Foi assim a minha vida toda, até essa verdade, a de que eu tenho mesmo uma vida para cuidar, cair de paraquedas no meu colo. E a gente é tão bobo por tanto tempo sobre “ter uma vida” e cuidar dela, já repararam? Quando a gente é adolescente e acha que tem alguém falando mal de nós pelos corredores da escola, começamos a reclamar que tem gente demais “cuidando da nossa vida”. Hoje em dia, um ou outro sempre dispara pelas redes sociais algo como “ninguém tem louça pra lavar ao invés de cuidar da minha vida?”. “Cuidar da minha vida” sempre foi um termo tão vulgarizado, tão subestimado. Acaba que cuidar da sua vida, controlá-la em todos os seus aspectos, é muito mais que fazer fofoca ou dizer o que está certo ou errado – e isso, infelizmente, você só descobre quando percebe que existe coisa mais importante no mundo além daquilo que os outros pensam sobre você. Acaba que ninguém cuida verdadeiramente da vida de ninguém – nós queremos fugir até mesmo na hora de cuidar das nossas próprias. Hoje, eu, que sempre falei mal das intrometidas, daria tudo para ter alguém verdadeiramente cuidando da minha vida por mim. Mas lembra de o que eu disse sobre responsabilidade não ter devolução? Pois é. Só me resta engolir o choro.

Esse provavelmente é um dos textos mais pessoais, mais melancólicos e mais absolutamente sem nexo que esse blog já viu, mas eu precisava passar por esse processo quase de aceitação para prosseguir para algo mais agradável. Depois de tanto drama, agora a gente pode voltar a falar de coisa boa.

sábado, 16 de março de 2013

Cresci. E agora?


Tem sempre aqueles dias que a gente cansa de viver como se tudo fosse uma grande aventura. Eu sou uma pessoa que nasceu sem fé alguma na vida e Deus sabe como tenho lutado para mudar. Como tenho me esforçado para acreditar mais em mim mesma, acreditar mais nos outros e ter aquela persistência inatingível que invejo em muita gente. Nem preciso dizer que sou um verdadeiro fracasso quando tento ser alguém forte. Desnecessário dizer que quando acontecem coisas que acabam com todos os meus planos, eu tenho uma séria dificuldade em recomeçar. Eu entro em negação diante de um recomeço. Eu tenho raiva, tento barganhar, entro em uma depressão de não querer sair da cama e, por fim, eu aceito o inevitável, quase como se precisasse passar pelas cinco fases do luto diante de toda perda, grande ou pequena.

Acho que estou na fase da barganha. Ando negociando comigo mesma um recomeço que vem sendo adiado há semanas. Por quanto tempo a gente pode enrolar a vida até ter que parar de fingir que ela não é real? Até quando podemos voltar a ter 10 anos, sem responsabilidade nenhuma e só o dinheiro dos pais no bolso? Para mim, isso tem prazo de validade: até eu me formar. Um ano e 4 meses até lá. Um ano e 4 meses até eu passar pelo último caminho da obrigação de crescer. Isso vem me deixado em pânico, quase uma vontade de voltar para o primeiro período e ser protegida pela carapuça de uma caloura. E se eu me formar e for só isso? E se eu não conseguir um emprego? E se eu não passar na prova da OAB? E se eu não passar em um concurso? E se eu fizer 30 anos morando na casa comprada pelos meus pais, tendo que conviver com a decepção deles? 

Não consigo parar de pensar em como gostaria que a minha vida fosse um livro. Acho que talvez isso me garantisse a certeza de alguma coisa. Assim, eu poderia fazer comigo o que faço sempre que estou lendo a história de uma garota até legal, mas que insiste em se dar mal na vida: traindo a ordem de leitura, corro até o meio ou até mesmo ao final do livro para saber se ela já está melhor, se conseguiu o emprego, se o cara se declarou a ela, se os problemas com a família acabaram. E quando eu vejo que tudo vai ficar bem com a tal moça, a sensação é incrível: o peso sai dos meus ombros e eu leio o livro com um sentimento muito melhor... Uma sensação de “tudo bem isso acontecer, porque sei que vai acabar bem”. Queria ter a mesma certeza comigo. 

Queria poder avançar algumas páginas até o fim da minha linha cronológica só para saber se todas as dificuldades vão se justificar. Mais uma vez, infelizmente, minha vida não é um livro para ampla consulta. Parece mais um livro que ainda está sendo escrito ou apenas o primeiro volume de uma trilogia. E eu jamais vou ter segurança alguma de qualquer acontecimento que seja. Então eu penso em mim mesma com 10 anos, dizendo para todo mundo que eu queria ser pediatra (isso foi antes de ter aulas de química e biologia, claro) quando crescesse. Alguém tinha que ter me dito que não era tão simples. Alguém tinha que me dizer, antes do vestibular, que o meu futuro não está na escolha, mas sim no que eu vou fazer com ela. Alguém tinha que me dizer que as nossas perguntas nunca se esgotam e que as respostas são cada vez mais escassas. E, por fim, alguém tinha que me dizer que as nossas intenções são sempre as melhores e nossos objetivos sempre justos, mas que o caminho até tudo isso nunca é breve, nunca é fácil e tão pouco é previsível.