Ou: O que eu preciso aprender com Pat Peoples
"O lado bom da vida" é o livro popular do momento, essencialmente, por conta da sua adaptação cinematográfica, que foi indicada ao Oscar e tem a queridinha Jennifer Lawrence no elenco. Mas eis que sua história é a seguinte: Pat Peoples, um cara com problemas mentais que passou um tempo internado em uma clínica psiquiátrica, finalmente volta para casa. Pat tem um único objetivo de vida: se tornar uma pessoa melhor, já que o seu "eu" antigo causou mais estragos do que ele consegue lembrar. Assim, Pat emagrece e fica com um corpo sarado, passa a ser atencioso com as pessoas e controla sua obsessão por futebol. Pat só é apoiado pela mãe, enquanto seu pai o ignora e seu irmão e seus amigos meio que fingem que Pat nunca esteve doente. No meio dessa confusão toda surge Tiffany, que também passou um período tomando rivotril e derivados após a morte traumática do seu marido. Sabe quando dizem que remédio para doido é um doido e meio? Então, não é por acaso que Pat e Tiffany constroem uma amizade, com perdão do trocadilho infeliz, meio maluca.

Vocês entendam quão bizarro é o cenário desse livro? Mas depois de um final sem cara de fim e de uma adaptação cinematográfica horrorosa, sabe qual é a mensagem que “O lado bom da vida” me deixa? As pessoas podem mudar, não importa o quão oposto elas sejam daquilo que querem ou precisam ser. Foi isso que o Pat fez. Ele mudou por ele mesmo. Ele mudou porque não aguentava mais ser quem ele era, porque tinha se tornado auto-destrutivo, porque a vida estava acontecendo sem que ele pudesse controlar. Eu sei que nem a ideia do livro nem o que eu estou falando são novidades - mas não posso negar que a carapaça me serviu perfeitamente, porque eu queria ter toda aquela coragem de dizer para mim mesma: você vai melhorar e vai fazer as coisas melhorarem e isso vai acontecer agora.
A base dessa mudança toda é a filosofia de vida do Pat, que é a seguinte: prefira ser gentil a ter razão. Não é mesmo a coisa mais equilibrada e sã já dita por cara com problemas mentais? Parando para pensar, é algo absurdamente simples; mas, como tudo que é simples, os seres humanos deram um jeito de complicar e acabaram invertendo a ordem dos valores da frase. Eu mesma faço isso; tenho o costume de travar guerras com quem quer que seja só para ter razão sempre - e só, para no fim do dia, descobrir que isso nada me acrescentou ou só me impediu de ser uma pessoa melhor. E eu não vou nem falar de todas as metas e objetivos que eu traço diariamente e abandono ao longo da semana. Não é exagero dizer que passei a última madrugada em claro, pensando em tudo que não dá certo na minha vida só porque eu tenho preguiça, porque me falta força de vontade, porque ainda não estou determinada a fazer. É ridículo admitir que tudo em mim tem um potencial muito grande que eu desperdiço.

E sabe o que me incomoda mais em tudo isso? As coisas só são assim porque eu, você, o resto do mundo queremos. Porque eu ainda não movi um dedo para fazer diferente. Porque eu me conformei de uma forma assustadora e deixei tudo para depois. Sabe quando você era criança e começava a montar um objeto não identificado com suas peças de lego? Então, essa sou eu vivendo a minha vida. Essa sou eu pegando pedacinhos que poderiam me ajudar a construir o que eu quisesse e os desperdiçando com coisas sem sentido. Essa foi a pior metáfora da minha vida, mas ainda bem que não é tão ruim quanto parece, porque eis que o Pat me ensinou também que nada precisa fazer muito sentido ao longo do caminho, se você souber determinar onde quer chegar e não se perder disso. E assim a minha ficha caiu e eu percebi que se eu resgatar o fundo de força de vontade que ainda me resta, muita coisa pode ser salva, ainda que aos poucos. Ainda preciso me preparar muito até conseguir fazer certas coisas, mas eu sei que já está nossa de assumir responsabilidade por aquilo que já sou capaz.
Daí você pensa: nossa, Deyse, isso é só um livro, claro que na vida real a gente não acorda um dia e realmente faz diferente... E eu estou dizendo que isso ocorre de um dia para o outro? Estou dizendo que é fácil, afinal? Não foi fácil para o Pat. Não é nem um pingo fácil para mim e olhe que eu ainda nem comecei pra valer a minha "grande mudança". E não me venham com desculpas como "mas esse é meu jeito" ou "esse é meu destino", que tudo isso é coisa de gente conformada. Tudo isso é o tipo de coisa que eu não quero mais repetir. E sabe por que é tão difícil mudar o que quer que seja? Porque as pessoas, as circunstâncias, tudo que nos cerca vai contra a nossa mudança. Porque quase ninguém acredita em gente que muda. Porque o mundo julga e eterniza as pessoas por aquilo que elas foram. Porque você pode até se dar uma segunda chance, mas quase sempre estará sozinho nessa empreitada. Mas ninguém, absolutamente ninguém consegue as coisas sem ajuda. E no fim, a gente se entrega e fica nessa zona de (des)conforto da qual é tão difícil sair. É tipo um ciclo vicioso de conformismo, do qual eu vou lutar para pular fora antes que fique tonta de tanto dar voltas a ponto de não conseguir mais me manter em pé.
E no meio disso tudo, qual seria o lado bom da vida? Talvez seja porque depois da "grande mudança", que às vezes nem precisa ser tão grande assim, exista um lado bom, afinal. E eu sei que já disse isso antes, mas não custa nada acreditar mais uma vez: se existe esse lado bom, vou começar a procurá-lo já.
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| E se o obstáculo for muito grande, não se esqueça de rir bem na cara dele. |