terça-feira, 28 de setembro de 2010

O que espera por você

Sr. Indiretas,

Não sei se você sabe, mas eu gosto de escrever cartas. Queria ter lhe mandado alguma, inclusive, mas não consigo imaginar qual seria a sua reação – talvez não pensasse nada ou então um soltasse um ''como ela entrega sentimentos às coisas'' carregado de desdenho. Quanto à última, estaria quase certo porque, sim, eu entrego a cada detalhe o melhor ou ao menos o mais profundo de mim. Não gosto de desperdiçar chances de sentir algo, entende?
Acima de tudo, eu gosto de contar histórias. Mas, não se engane: não seremos protagonistas de nenhum conto romântico ou de uma novela recheada de dramas e conversa, porque qualquer coisa do tipo iria refletir uma entrega a você que, felizmente ou não, eu não cheguei a atingir. Não estou desmerecendo a sua importância e tal pouco subtraindo de você as suas conquistas diante da nuvem de sentimentos que me envolve, mas não vou lhe atribuir, sinto muito, o papel de ''o homem mais importante da minha vida'' porque ainda que você o pudesse ser, aqui já não tinha mais vaga.
Eu não vou dedicar lhe uma linha sequer ou à sua mania de tentar me confundir como se antes de lhe conhecer eu não tivesse uma vida – como se depois de lhe olhar, lhe abraçar e trocas algumas poucas e nada definitivas palavras com você, eu fosse desfazer todos os meus planos que vão funcionar muito bem, obrigada, com ou sem a sua interferência. Acho muito vaga e incerta a sua permanência na minha vida e eu agradeço sempre por já ter passado da fase das aventuras amorosas – gosto de coisas precisas e se a você parece sedutor esse jogo de ironias que pode resultar em uma relação séria tão bem como é possível que acabe em absolutamente nada, a mim parece uma inconfundível perda de tempo.
Sempre acabo sendo meio rude, me desculpe por isso. Só quero evitar desentendimentos que muitas vezes são originados de uma palavra errada dita na frase errada – enfim, se a minha sinceridade o machuca, muito mais estrago fariam as minhas mentiras. Eu o admiro, o respeito e tenha certeza que de mim sempre terá um afeto imensurável, mas não posso deixar que toda a minha admiração me cegue diante da sua tentativa de me desestruturar – será benvindo em minha vida quando puser a cabeça e o coração no lugar. Até lá, meu querido, pare de brincar comigo, porque isso não tem a menor graça.

De alguém que muito apreço lhe reserva,
Beijos e abraços.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Só por hoje

Hoje me deu uma vontade de chorar.
Porque nem todo dia a vida é colorida, meu querido, e hoje o céu me pareceu tão preto e branco que não me pareceu fazer sentido erguer os ombros e ir à luta. Nem todo dia, mas ultimamente muito deles, tem sido assim: sem definição. E eu, veja bem, que determino cada gota que tempera a minha existência, hoje não soube dizer de onde veio esse gosto de lágrima, de riso morto pela metade porque eu, de uma ousadia tremenda, interrompi a glória com o pranto. E, talvez por isso, tenha me dando tanta vontade de gritar o que eu sei que muita gente espera ouvir, ansiosamente: ok, eu me rendo.
Hoje me deu vontade de chorar porque me entreguei – aqui dentro, em meio a tanta distração bonita, desisti de fugir das complicações, das coisas inusitadas e muito menos das atitudes errôneas. Fui me entregando a esse emaranhado de podridão porque estava tudo tão certo que eu fiquei com preguiça de dar pause na minha vida anos 50 para simplesmente consertar uma coisinha aqui e outra cá – não fiz manutenção, meu querido. Perdi a garantia. E agora, tem conserto?
Vai sair caro, eu sei que vai; não sei por onde começar, tô perdida em meio a ligações-surpresa, frases confusas, cercadas de indiretas, e uma confusão que não me deixa sossegada um minuto sequer – e ainda ter que pensar nisso tudo, eu diria que magicamente, sem perder o foco da perfeição que eu finalmente parecia ter atingido. Ou era conto de fadas? Ou era irreal? Ou era fora da realidade, que simplesmente espera a oportunidade ideal para me mostrar que nada é tão fácil como eu estava pensando? Ah, vida, me enganou direitinho: por um ou outro instante pensei ter te vencido e cheguei até a me vangloriar que, ah, tudo resolvido, agora é só aproveitar.

Hoje me deu uma vontade de chorar. Mas só por hoje.
Amanhã eu dou um nó nos problemas, revitalizo minha paciência e começo a respirar teorias otimistas. Pode apostar.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Revolucionários sem causa

Sempre digo que não carrego comigo poder nenhum, o que dirá moral suficiente, para sair por aí julgando quem quer que seja – mesmo que seja aquela fulana que, cá entre nós, bem que merecia ouvir umas boas verdades ou, ainda, o ciclano que há tempos anda merecendo um bom choque de realidade. Por isso, eu tento controlar bem o meu veneno – que há tempo não vem sendo expelido – e conservando dentro de mim a decepção com a raça humana sempre que vejo um ou outro comportamento indigno se proliferando por aí. Dessa forma, seríamos todos muito mais felizes, correto?

Não.

Porque tá errado. Tá errado esse mutirão de coisas que vem acontecendo por aí e que não faz ninguém, absolutamente ninguém, se manifestar a respeito. Não cabe a mim dizer o quê, onde e com quem: eu já sou dona das minhas próprias causas, assim como todos nós somos bons entendedores do que pode ser moral, ética ou até mesmo vergonha na cara; então, não me peça para escreve um manual de condutas a serem religiosamente seguidas. E, se tem algo que me enoja, é ver a quantidade de pessoas que deixaram de acreditar em algo que existe dentro de si para ser seguidor de um pensamento alheio – e ainda se acham seguidores de algo, como se fossem raras as vezes que eu vejo alguém se revoltando contra uma atitude que a própria pessoa tem ou sendo contrário a algo sem ter nenhum motivo concreto.
Não estou me isentando de culpa alguma. Eu mesma já fui uma dessas meninas que sentava em um bar porque isso me fazia sentir ''melhor''; ficava com uns caras sem me importar em magoá-los, matava aula sem dó nem piedade e fazia questão de estar no grupo dos ''tô nem aí pro que acontece ao meu redor''. Até que um dia eu finalmente percebi que ao invés de transmitir a imagem de ''descolada'' que eu pretendia, eu estava mais parecendo uma grande idiota. Não condeno ninguém que tem esse estilo de vida, mas a questão é: eu não fazia isso por mim e sim em detrimento do meio que eu gostaria de estar inclusa. Acho que cabe a cada um determinar se há motivações por trás de suas ações.
O que de fato acontece é que se eu vejo algum comportamento e o julgo errado, já sou tachada de careta ou então vista como alguém que ''já se acha grande'' ou ''pensa que é a dona da razão''. Infelizmente, eu não tive alguém pra me dizer o que hoje eu considero como certo: viver sem objetivo algum é o mesmo que viver em vão. Aproveitar a adolescência, curtir o momento ou simplesmente dar um tempo nas responsabilidades, entendam, é diferente de existir por existir. E o pior: ninguém (ninguém!) parece se importar com isso. Reformulando: se importam com o fato de existir alguém que se importa! Dá pra entender? Eu sei, o mundo tá mesmo de cabeça para baixo.
Assim como ninguém tem obrigação de concordar comigo. Se você acha que está tudo certo com o mundo, ok, vá em frente e continue com essa sua fé enorme que eu invejo. Mas eu, ainda que soe bem pessimista, prefiro acreditar que pra muita gente não tem mais jeito: nasceram limitadas e vão morrer limitadas. De qualquer forma, eu venho tentando fazer a minha parte: tracei uma meta e tô trabalhando pra chegar até lá – sem passar a perna em ninguém, sem agressão e, isso é muito importante, me preocupando unicamente com a minha vida. Porque, afinal, eu dispenso qualquer momento de banalidades.

Eu só colho aquilo que planto, meus queridos, e não posso me dar ao luxo de plantar sementes ruins pra depois colher frutos podres.

Não sei, não sei; acho que tem gente que nasce mesmo com vocação para viver de graça.