sexta-feira, 29 de maio de 2009

Às vezes você pensa assim

Que, às vezes, é tão escuro. Tão deserto e sem rumo, um preto e branco que cega. Às vezes você acorda, mas preferia jamais ter que abrir os olhos, ou então às vezes você abre os olhos, mas não consegue enxergar. Às vezes você não quer enxergar. Às vezes o sorriso se consome, o beijo desaparece, a palavra de perde, a lágrima se sobressai. Às vezes o frio vem com o primeiro vento da manhã, ou então a luz que cega chega com os raios do sol. Às vezes você torce contra, às vezes a favor; às vezes tanto faz: você entrega na mão do destino, porque às vezes não você se importa ou se importa tanto que prefere nem se importar mais. Às vezes você desiste, mesmo que ache que esse 'às vezes' não chega – ou não passa. Às vezes você sonha, mesmo que esse sonho seja disfarçado ou uma quase realidade. Às vezes você queria se esvaziar de tantos 'às vezes' que lhe enchem a cabeça de momentos tão incertos quanto seu coração. E, bem às vezes, você não percebe que é só às vezes. Mas é só às vezes. E você só apreende o quanto é diferente o nunca ou o sempre quando finalmente – e às vezes – você consegue ser feliz. E então você se pergunta: porque só às vezes?


'às vezes nunca sei em que ponto acaba a frase,
você sempre soube - eu não sabia,
toda frase acaba num riso de auto-ironia;
você sempre soube - eu não sabia,
toda tarde acaba com melancolia' - Engenheiros do Havaii.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Um pouco demais do de menos

De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa, ficou um pouco.

(...) e sob tu mesmo e sob teus pés já duros,
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.

Drummond, em 'Resíduos' - porque de tudo fica um pouco, mesmo que o pouco que fique não seja nem parecido o muito de antes.

E foi ontem de madrugada, sentada na ponta da minha cama e ouvindo música, que eu me senti pequena, tão mais miúda do que eu normalmente sou. Foi uma sensação de inutilidade tão grande e tão poderosa que eu cheguei a acreditar fielmente que eu não ia suportar ver o sol dessa manhã – ou porque não chegaria a essa manhã ou porque tanta luz vinda em minha direção acabaria por cegar-me (ou porque nessa bendita cidade não faz um sol digno há muito tempo).
Mas, a verdade, é que minha boçalidade me consumiu. Eu fiquei horas no espelho, olhando fundo nos meus olhos e tentando enxergar minha nova alma. Tão orgulhosa, eu estava; era a alma que eu sempre quis, livre de amarras e correntes. Era uma alma puramente minha – e, ainda que fosse de outro, continuaria sempre sendo mais dentro de mim do que fora. E, acima de tudo, era a alma que me restara depois de uma alma maior ter sido tantas vezes partida, dilacerada e evaporado diante de todas as coisas fatais que eu já passei.
O engraçado é que, no meu espelho, eu sempre via a mesma alma bonita, dia após dia... Até que me apresentaram outro espelho e eu percebi que bonitos, talvez, fossem apenas os meus olhos ou minha imaginação. Não sei; só parei e observei minha alma nova e brilhante lado a lado com minha negritude de outrora – a mesma negritude que me consumiu, me fez chorar as lágrimas da injustiça e depois me atirou ao fogo dos subjugados à animosidade. E, assim, ficou difícil voar, correr, andar ou respirar. Eu só conseguia observar minha alma límpida; queria tirá-la dali, para que não fosse contaminada, mas eu descobri que ela não é tão avulsa e alforriada de ligas e laços como eu pensei; queria tê-la pra mim, ela e nada mais, para mim e ninguém além. Mas quando que você poderá ter uma vida feita apenas de você e do seu presente?
E, saindo do meu 'eu' prático e olhando em volta, é simples de entender e difícil de aceitar: você pode até mudar quem você é, mas jamais mudarás as coisas que você fez. Não é o seu orgulho, sua teimosia e suas mentiras que você levar consigo durantes os anos; é apenas a consequência de tudo isso, que fica tatuada na sua forma mais intrínseca e particular. E, mesmo quando você troca de alma, a carcaça da antiga continua ali, presente, bem como todos os erros cometidos – talvez, para evitar que os faça novamente ou então para, simplesmente, continuar a plantar a semente do remorso e do pesar.
Eu tenho certeza que eu nunca vou me livrar dos meus fantasmas – o máximo que posso conseguir é deixar de ter medo deles, o que não é garantia de que eu possa deixar de assustar os outros sempre que minha carcaça de alma saltar-me aos olhos. Sim, eu aprendi muito, do jeito difícil e pelo caminho mais complicado que eu podia escolher e, definitivamente, eu tenho vergonha de ter errado e mais ainda de ter que assumir esses erros. Porém, é melhor se acostumar: você pode se livrar de amores, paixões, amigos e momentos, mas aquilo que fica na sua alma, seja ela a nova ou não... Isso lhe persegue pra sempre.

ouvir: In my place - Coldplay

sábado, 16 de maio de 2009

Juro que é verdade

Não vou mentir: nunca gostei muito de Drummond. Mas antes que eu ofenda de forma irremediável os meus queridos mineiros, me deixem esclarecer: nada pessoal com o tal poeta, cronista e contista, e que o pobre descanse em paz. O meu problema são as coisas que ele diz – ou melhor, as verdades dele que sempre me atingem, as mesmas verdades que eu tento varrer todo santo dia para debaixo do tapete. Todo seco e amargo, ele costuma me esfregar coisas na cara – umas, eu bem que precisava saber mesmo; outras, eu gostaria de esquecer e até poderia se não fosse alguns registros estupidamente bem escritos a ponto de serem impossíveis de não se ler.
Sei bem que não sou só eu – não que tem esse trauma de Drummond, mas que tem o trauma com a verdade. A maioria das pessoas foge da realidade com mais rapidez do que pode e é aí que todo mundo se enrola: você se perde – e se prende – em uma teia de histórias fantasiosas ou não, onde não consegue encontrar mais nem a si próprio. E é da pressa de correr da verdade que você acaba esbarrando em tantas outras coisas que, vai saber, se você tivesse ficado parado no seu canto, nunca teria encontrado; é nessa agonia de fugir que você se vê misturado a casos de falsidade, de desprezo e de mágoa. E, no final, só acumula mais verdades das quais desejaria fugir.
Dói, machuca e envergonha. Tem coisas que você poderia jurar que não estava em sã consciência quando fez; outras, você sabe que foi avisada que não deveria executar, mas mesmo assim deixou a teimosia te vencer. E você junta tudo isso na sua lista de fobias... A verdade de sentimentos, que são as que mais esmagam e apertam, que te põe contra a parede e te fazem escolher no momento se você deve deixar ir ou se deve abraçar de vez; as verdades de caráter, as de opções, as de coisas ditas pelas não ditas, as de vidas vividas e lotadas de mentiras, as de pessoas que só são verdades em sua forma.
E, como tudo na vida se perde, se encontra e, mais cedo ou mais tarde, se enfrenta, a única verdade unânime que existe é que a sua verdade sempre lhe descobre. Seja na esquina da rua, no bar da praça, no canto do quarto ou no leito de morte, um dia você se vê cara a cara com a verdade e percebe que, no fundo, esteve o tempo todo fugindo do lado certo de seus erros. Você afronta a verdade e, olhando fundo nos olhos dela, encontra os seus; e, se puder ler a alma da verdade, saberá que exatamente a mesma leitura que faria da sua. E só aí você percebe não esteve apenas fugindo da verdade... Esteve fugindo de si mesma.

'A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia'.

'Verdade', de Drummond – e, por enquanto, eu incrivelmente me encontro sem precisar fugir de mim ou de outra verdade qualquer.