quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Temos nosso próprio tempo




Eu sempre fui feita de muitos conflitos interiores que eu gostaria de reverter, de conduzir ao meu modo, de relativizar. O mais contraditório de todos eles, porém, foi quando eu decidi fazer em umas das paredes do meu quarto um mural de fotos em formato de coração, colocando lá todos os rostos que iluminam o coração de verdade. O meu maior medo foi que chegasse o dia em que eu olharia para aqueles retratos e não fizesse sentido alguns eles estarem colados lá de um jeito tão permanente e difícil de retirar. Sempre tive um medo irracional de colocar pessoas no meu coração para ter que arrancá-las logo em seguida – literalmente ou não. 
Acontece que hoje eu acordei sozinha, sem barulho, sem vento frio, sem café da manhã digno de hotel. Acordei e não tinha ninguém com quem dividir o banheiro, não tinha mochila pesada nas minhas costas e muito menos tinha mala pra arrumar. Hoje, quando eu saí de casa, não cantei músicas no carro, não peguei metrô, ninguém me indicou o caminho e, quando cheguei ao prédio onde trabalho, ele não era na Avenida Paulista. Hoje, quando fui almoçar, não era Mc Donald’s e quando chegou a tarde, não havia Bienal, nem passeio no shopping, nem compras divertidas. E se eu cansasse dessa melancolia e saísse cantando Legião Urbana enquanto andava na rua, seria taxada de louca desvairada, inclusive por mim mesma, porque não é mesmo compreensível querer ser feliz sozinha. E quando chegou a noite, essa danada, a lua me pareceu mesmo feita de pedra, a pizza do jantar sem gosto, as músicas soavam estranhas como se nunca tivessem sido ouvidas e minha cama, antes estreita e quente, era grande demais só para mim. 
Não sei se dois dias é muito ou pouco tempo, mas sei que é suficiente pra reconhecer no olhar das pessoas aquilo – e muito mais – que eu sempre imaginei que elas fossem. Encontrar as minhas meninas foi um presente que Deus me preparou com cuidado e demorou 20 anos para entregar, porque de certo Ele queria ter confiança de que eu estava preparada para reconhecer em um simples encontro de corpos uma reunião de almas gêmeas. Sei que amor não é feito de saudade, muito embora o nosso esteja cheio dela; mas sei também que a vontade do reencontro é o que constrói os dias e que quando não há o que se esperar, a vida não passar de uma repetição do mesmo. Acabado do fim de semana mais surreal da minha vida, eu vejo as nossas fotos pra em seguida fechar os olhos daquele jeito de quem quer olhar para dentro e voltar devagar no tempo, desde o instante do pouso do avião até o último “a gente se vê em breve, viu?”. 
Eu poderia dizer muito mais sobre a nossa história, mas recentemente aprendi que "como todas as histórias de amor de verdade, ela vai morrer com a gente, como deve ser". E para quem me pergunte, eu me limito a dizer: nós somos amor, do tipo que transborda. Hoje eu estou no meu habitat – está calor, o céu está pintado em um azul lindo e a brisa do mar refresca minha alma. Mas eu nunca me senti tão fora de órbita. Nunca me senti tão fora de casa. Hoje, o meu lugar não é aqui; o meu lugar é com as minhas estrelas. 

E sem conflito interior algum, eu formaria um coração inteiro só com os sorrisos de vocês.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Agradecimentos monográficos

Ou: Como dizer “obrigada por tudo” a quem se ama 

 Ao som de There is a light that never goes out – The Smiths 

Ao longo da minha curta existência eu fui recendo lições demasiadamente preciosas e que foram categóricas para determinar a pessoa que eu viria a me tornar. Porém, nada até hoje foi mais precioso que um ensinamento que só recentemente eu consegui compreender e é por finalmente ter aprendido essa lição tão bonita que hoje eu agradeço a todos aqueles que a cultivaram em mim. 
Ao meu grande Pai, maior que qualquer adversidade e que esteve ao meu lado todos os dias dessa jornada. Graças à companhia dele eu pude trilhar esse longo caminho sempre em paz, em segurança e certa de que estava realizando um sonho. Ao Meu Deus, que foi perfeito em tudo que fez na minha vida. 
Aos meus pais, Nizete e Edson, que desde o início fizeram o possível e o impossível para que eu continuasse firme na minha jornada sempre cansativa rumo à universidade, sem me deixar fraquejar por um só segundo. Obrigada pelas palavras de apoio e por cultivarem incondicionalmente o meu amor pela literatura. Eu serei eternamente grata por tudo e por mais que eu me esforce, nenhuma retribuição a vocês será digna o suficiente. 
 Ao meu namorado, Francisco, o melhor amigo e companheiro, que sempre foi a pessoa que acreditava eu mim quando nem eu mais conseguia fazê-lo. Obrigada por me fazer forte, fiel às minhas convicções e por sempre me impedir de desacreditar na minha capacidade. Obrigada por me fazer ser sempre melhor. Sem o seu apoio eu não teria escrito uma linha sequer. Por você, minha gratidão e meu amor serão eternos. 
Às amigas do curso de Direito da UNDB, Carol, Juliana, Viviane e Marynelle, que me suportaram em todas as minhas crises existenciais. A minha vida não teria a mesma graça se não fossem as noites dividas com vocês. A próxima vez que eu escrever um TCC será pela UNDB e eu tenho certeza que, se existe uma forma suportável de passar por todo esse processo de criação novamente, é com vocês ao meu lado. 
 Aos meus companheiros de twitter, Fernanda, Klerianne, Vanessa, Diana e Wendel, que dividiram comigo até às vésperas da apresentação deste trabalho a angústia e a ansiedade que só conhece quem por a escrita de uma monografia já passou. O apoio de vocês foi incondicional, a ajuda foi mútua e o conforto que eu sentia após cada conversa trocada foi imensurável. Obrigada por me fazerem rir até nos momentos de mais extremo nervosismo. Finalmente chegamos ao ponto em que eu sabia que chegaríamos desde o princípio. Nós conseguimos! 
Às amigas do curso de Letras da UEMA, especialmente Lays, nas quais eu sequer consigo pensar sem que meus olhos se afoguem em lágrimas. Meninas, vocês foram a minha maior fonte de inspiração para a vida ao longo dos quatro anos em que me ensinaram a ser uma pessoa muito melhor do que eu julgava ser quando fui aprovada no vestibular; vocês são a prova que na universidade aprendemos muito mais que teoria e prática. Por tudo que passamos juntas, eu sempre me lembrarei de vocês com um sorriso no rosto e uma saudade sem fim no coração. 
Às professoras Iranilde Almeida Costa, Sílvia Furtado, Vanda Rocha e, especialmente, à minha orientadora, Andrea Lobato. A todos os professores que depositaram em mim algum conhecimento ao longo de quatro anos de graduação. Não existem palavras possíveis de descrever o tamanho da contribuição de todos vocês para o meu desenvolvimento pessoal e intelectual. O curso de Letras da UEMA mudou completamente a minha vida para algo melhor do que eu imaginei. 
Às amigas que eu encontrei graças ao amor pelas letras e pela escrita. Às irmãs de alma que me provam diariamente que você não precisa estar cara a cara com alguém para dizer um verdadeiro “eu te amo”; que me mostram que distância é um elemento cada vez mais insignificante; que acolhem todas as minhas loucuras e abraçam meus devaneios como delas próprias. À Máfia, enfim. 
Se hoje eu posso dizer “infinitamente, obrigada” é porque vocês seguraram minhas lágrimas ao me despertar um sorriso, sustentaram minhas pernas frágeis com um abraço, passaram algum tempo comigo mesmo quando este parecia escasso e, principalmente, me ensinaram a lição mais bonita que eu poderia aprender ao longo dos meus vinte anos: não há nada no mundo que substitua a maravilha de nunca estar só.


domingo, 8 de julho de 2012

Felicidade na mala

A fachada que me encantou. Além do cheiro do café, que era um tanto incomum, de verdade tudo me parecia normal: aquelas paredes de tijolo velho, as cortinas vermelhas com laços amarelos enormes amarrando-as e uma mesa no fundo, no canto da parede. Sob ela, a luz fraca parceira para esses dias obscuros. Entrei e quando o fiz, pensei imediatamente: é hoje. Nem me dei ao trabalho de abrir o Gabriel García Márquez que na mala pesada carregada na mão esquerda, porque seria inútil tentar entender qualquer jogo de sentimentos sem antes observar por um tempo ínfimo aquela situação que eu me encontrava. Quando a garçonete caminhou até mim, sem trajar um daqueles uniformes bem passados e me servindo uma xícara de café frio, eu percebi que aquele local terrível que eu estava admirando, que o serviço mal feito e o gosto fraco do pó de café desenhavam o único desfecho que caberia a mim. É claro como automaticamente se rejeita alguém que é triste pelo simples fato de o ser. Essa obrigatoriedade que é imposta de sorrir mesmo quando se tem vontade de correr em desespero nunca me convenceu, mas ultimamente vinha me sufocando como aquela falta de ar que a gente sente em locais fechados e cheios de gente que gosta de beber cerveja barata e vinho de supermercado. Andam falando que os meus textos estão tristes demais. Por isso eu resolvi mergulhar nessa esperança de que agosto chegará logo e que a nuvem  estática de julho simplesmente passará. Tirei da gaveta todos aqueles textos antigos, cheios daquelas palavras tortas, e me deu uma vontade tão grande de rir de mim mesma: como eu posso ser assim, tão drástica e trágica? É um terrível filme preto e branco, um monólogo chato onde só eu grito, só eu sinto, só eu sofro. Contento-me em viver de retalhos de uma alma nada nobre e acho que isso é o justo a mim mesma; incremento essa vida com perguntas cujas respostas eu sinceramente não faço a mínima questão de saber. Mas o que seria de um bom sofrimento se não fosse aquilo que sempre te atormenta e consome e destrói? Depois é que a gente percebe que não há nada a ser descoberto ou desvendado. É tal fácil perceber que está tudo aqui em nossas mãos: o café, o colorido do céu, o filme francês, o jornal de ontem, o brownie, o cd de The Smiths... Tudo aquilo que supostamente precisamos para atingir qualquer nível de um contentamento pessoal. Não é preciso sentir tanta falta, acumular tragédias e morrer de saudade. Está tudo aqui, a dois passos, e a cegueira é incrivelmente forte que só possibilita enxergar a beleza das coisas por questões de segundos; logo depois, lá está o peso de julho de novo em nossas costas, como se o mês não fosse acabar semana que vem. Mas ainda assim, medindo e pesando as minhas queixas e cada vez tendo mais certeza que eu deveria parar de boicotar a mim mesmo e ser feliz de uma vez – dar graças a Deus por tudo de bom e justo que vem acontecendo – eu ainda consigo encontrar um sabor delicioso em viver sozinho, amargurado e escrevendo como se isso fosse salvar a minha vida – que nem precisa ser salva, por fim. Cansei de explicar porque sinto esse gozo de me tirar do mundo cada vez que eu me entrego à misantropia, aos livros, às frases clichês e aos sentimentos mais fétidos porque, oras, não há nada a ser compreendido, aceitado ou concordado. É só o meu jeito de ver as coisas e a minha capacidade de me recuperar e dar a volta por cima quando eu cansar dessa arte de viver uma tristeza que não é minha – e quem poderá me julgar por isso? Quem poderá me condenar por não querer viver essa vida perfeita e preferir me sentir humano, vez ou outra, quando percebo que ainda sangro e ainda morro de amor? Assim, sem (querer fazer) sentido ou ter direção, eu escrevi por horas. Sem pensar nada, sem opinião, só mesmo por prazer. Só o puro e incontrolado desenhar de palavras, uma coisa meio sem fim, sabe? Essa vontade incompreensível que a gente tem de colocar tudo imediatamente para fora como se fosse parar de doer – e vemos que não para, mas sobra essa indignação, que também tem que ser mostrada, das coisas infelizmente não serem exatamente como nossa mente imagina, nem para mim nem para o resto do mundo que tenta me encaixar nesses padrões que eu visivelmente não suporto. No tempo que estive aqui, só parei para pensar como as janelas abertas me fazem respirar muito mais fácil. Esse ambiente de paz me faz sentir muito mais que uma simples tranqüilidade; é quase uma possibilidade de libertinagem, de se permitir sem qualquer interrupção, de ser capaz de gostar até do repugnante, de sentar numa cadeira velha e sentir que tudo bem com isso. Tem coisa melhor do que ser viver sem restrições? De viver sem rótulos, sem a necessidade de dizer “estou feliz” ou “estou triste”, de não ter medo de sentir o que for, de não distinguir o choro do sorriso, de não evitar abraçar você mesmo sem vergonha de não ser exatamente o que devia? Ainda não provei algo que me fizesse mais bem, até quando aparentemente faz mal. Mas nos poucos instantes que passei por aqui, notei que a calmaria realmente existe e para chegar lá, basta paciência e um pouco de fé – e isso eu tenho em mim mesmo, e de sobra, acreditem. Basta eu dizer: agora é a hora. 

 Agora, posso ler o meu livro?

* esse texto faz parte do meme "Recicle o título", onde um texto seria produzido a partir de um título colhido de postagem de outro blog.