Sabe quando você está passando ao lado de prateleiras de livros sem prestar atenção a nenhum especificadamente e, de repente, o seu olhar divagante se fixa em um ponto? Isso acontece comigo com frequência e foi assim que, perdido a tantos títulos desinteressantes, encontrei meu volume de "Extremamente alto & Incrivelmente perto", do Jonathan Foer. O livro não custava nenhuma pechincha e passei uns bons 30 minutos abraçado com ele, presa no dilema entre comprar ou não comprar. Cá entre nós, eu só estava me fazendo de difícil, pois desde o momento que encarei aquela capa maravilhosa cada centímetro do meu corpo já estava rendido. Paguei o que tinha que pagar, fiquei sem dinheiro o resto do mês e fui pra casa com a esperança de algo fantástico na sacola.
"Extremamente alto & Incrivelmente perto" é essência dos mais diversos sentimentos que foram impressos e postos em minhas mãos, como se eu soubesse o que fazer com tamanha carga emocional. Oskar ("esse é o meu nome, cuidado para não gastar!") é um garoto de 9 anos que perdeu o pai nos atentados terroristas de 11 de setembro e, por isso, se dá o direito de sofrer. A orelha do livro define o menino como muitas coisas: "inventor, desenhista e fabricante de joias, francófilo, vegan, origamista, pacifista, percussionista, astrônomo amador, consultor de informática, arqueólogo amador e colecionador de moedas raras, borboletas que morrem de causas naturais, cactos em miniatura, memorabilia dos Beatles e pedras semipreciosas". É o mesmo texto que está impresso no cartão pessoal que ele entrega às pessoas. Mas eis o que eu penso sobre o Oskar: todas essas especificações são meros detalhes.
Não pense que coisas saber fatos curiosos sobre elefantes ou ter um eloquência de dar inveja tornam Oskar um garoto racional; por baixo de toda a camada de conhecimento e determinação, há um menino que se irrita porque a mãe, depois de mais de um ano da morte do pai, já se atreve a sorrir; que odeia ir ao terapeuta; que queria muito saber se seu pai morreu pulando de uma das Torres Gêmeas ou esmagado por ela; que faz roxos no próprio corpo quando a dor é tão grande que precisa ser visível. O pai do menino era o seu melhor amigo e o vácuo que sua morte deixou é imensurável. O maior amigo que Oskar faz ao longo da narrativa é um senhor de 103 anos, jornalista em todas as guerras do século anterior, que passa a ajudá-lo na empreitada que move a história. É incrível a forma com que ele, uma criança, estabelece relações com pessoas mais velhas por conseguir fazer perguntas aparentemente infantis, mas com respostas grandiosas.
Mesmo sendo criança, Oskar tem uma visão muito concreta dos seus problemas e da necessidade de entendê-los ao invés de simplesmente engolir a dor e seguir vivendo. A agonia é tão imensa que a única coisa que o move durante os dias é uma oportunidade que surge de, segundo ele, ficar mais próximo do pai. É a história de um garoto preso em um mundo no qual não consegue viver, mas também é a história sobre como se entregar à dor nos cega e nos deixa debilitados ao ponto de gerar situações irremediáveis. No fundo, é a vida que todos nós protagonizamos, ainda que só em nosso interior, quando a perda de alguém é realmente difícil de enfrentar: enterramos fundo a saudade, focamos em outros assuntos e nos dedicamos a reconstruir o que ficou abalado. Com Oskar não existe essa possibilidade; ele não entende porque as pessoas têm essa necessidade de superar a dor como se ela fosse um incômodo que dá e passa. Pra ele, toda agonia se repete ao longo dos dias e essa angústia precisa ser honrada, porque o seu pai morreu e isso é um motivo justificável para ser triste.
Oskar sente muito coisa o tempo todo e não esconde isso: quando suas emoções são negativas, suas botas ficam pesadas; por outro lado, quando algo é bom, é cem dólares. Suas perguntas às vezes partem de pontos onde aparentemente não havia sobre o quê se questionar e acabam resgatando em quem o acompanha questionamentos sobre absolutamente tudo que move nossas vidas; quantas milhares de vezes eu não tive que parar a leitura para tentar responder uma das questões que Oskar me levantava? Desnecessário dizer que não encontrei resposta útil para a maioria. Qualquer um gostaria de se sentir lido pelos olhares daquele garoto e, se ele acha alguém interessante ou minimamente curioso, o leitor é simplesmente levado a concordar com esse ponto de vista - não porque o Oskar é manipulador, mas porque suas ingênuas opiniões são também carregadas de tanta convicção que é impossível não se render.
Não me cabe aqui narrar como a história se sucede, falar sobre os personagens ou então descrever qualquer outro evento; Foer constrói tudo isso de forma tão bem estruturada que chega a ser repetitivo elogiar sua narrativa ou a construção magnífica do seu enredo. Oskar não é o único narrador e os demais não deixam nada a desejar. Tudo ao longo de "Extremamente alto & Incrivelmente perto" é excelente. Esse texto não é uma resenha porque, uma vez que alguém se propõe a resenhar um livro, está se sujeitando a avaliar positiva e negativamente o objeto e, meus amigos, eu não tenho condição alguma de pousar um olhar negativo sobre esta obra. Mais do que um texto sobre um livro, essas palavras são sobre o Oskar e como um personagem pode ser tão minimamente construído para ser humano e se sentir como um, em toda a sua complexidade e imensidão.



Ai, meu Deus. Por que você fez essa resenha maravilhosa, dona Deyse Batista? Agora eu preciso absurdamente desse livro. Justo agora que estou lindamente falida! Ele está na minha lista de desejados há anos! Foi indicado por um vlogueiro que hoje em dia nem faz mais vídeos. O vlogueiro que me fez conhecer John Green lá em 2008, veja bem. E desde então eu sempre quis, mas o preço nunca ajudou. Esse seu texto foi o que faltava pra me deixar desesperada por ele. Amei a descrição do Oscar e, se esses são meros detalhes, vou me encantar demais por ele!
ResponderExcluirE mais uma vez: resenha incrível <3
Te amo!
Oskar*
ExcluirÉ que eu tô baixando os filmes do OSCAR aqui. HAHAHA!
Dedê, eu fiquei extremamente apaixonada pela história quando vi o filme, e depois absurdamente in love com o livro quando peguei ele na livraria, assim, sem querer nada de mais. O Oskar me irritou um pouco no filme, mas na verdade, eu nunca havia parado pra pensar sob seu ponto de vista: "(...) Pra ele, toda agonia se repete ao longo dos dias e essa angústia precisa ser honrada, porque o seu pai morreu e isso é um motivo justificável para ser triste.".
ResponderExcluirNão sei mais se estou realmente preparada para uma leitura assim, porque provavelmente vou me sentir meio vazia. Ontem mesmo eu fiquei meio culpada, porque sinto como se o fato de não chorar mais pelo Kikinho fosse uma espécie de traição. Fico dizendo que tenho que superar e seguir em frente, sabe, mas acho que pode ser maldade com o que ele representou e representa pra mim. Não sei por quê, mas esse seu texto me fez lembrar disso.
Enfim, tratarei de comprar o livro o mais rápido possível, estando ou não preparada.
Beijos! <3
Que resenha maravilhosa, Deyse!
ResponderExcluirFico até sem jeito de comentar algo porque ainda não li o livro, mas vou fazer questão de ler depois dessa resenha! Se seu objetivo foi fazer crescer a vontade de conhecer Oskar e sua história e já dar um jeito da gente gostar do personagem, você conseguiu com louvor!
Só estou um pouco insegura, acho que farei a leitura em momentos angustiantes do meu ano, pois sou bastante emotiva e uma história dessas poderia esmagar meu coração. Melhor ler quando ele já está esmagado e sofrer tudo de uma vez, não é? haha
Obrigada pela indicação!
Beijos :*
Esse livro está na minha wishlist tem tantos anos que é uma vergonha eu ainda não tê-lo comprado. Uma vergonha, acho que eu tava com um bicho na cabeça, hahahah... Depois que você descreveu, então, ainda estou com mais vontade de ler!
ResponderExcluirNão tenho nada melhor para dizer além de: eu quero.
Beijo!
E ISSO SIM É UMA RESENHA.
Isso é uma resenha sim, e brilhantemente apaixonada, do jeito que eu amo! E gente, eu queria ler esse livro por causa do título, mas não imaginava que ele falava de uma coisa tão.. sofrida e bonita. Esse trecho que fala que o menino fazia marcas roxas no corpo pra tornar a dor visível é muito intenso e maravilhoso. Preciso muito ler. (Se você realmente for me dar de aniversário, em PORTUGUÊS, por favor, que eu morro na preguiça de ler em inglês..)
ResponderExcluirBeijos, te amo!
Dê, escrever sobre histórias que remexem nosso interior é uma das coisas mais difíceis do mundo. Mas é claro que você fez isso brilhantemente! Queria que as pessoas escrevessem sobre livros sempre com essa paixão e esse envolvimento.
ResponderExcluirE como é bom ser levado por livros assim! Estou com esse livro na estante há uns meses, eu nem sabia sobre o que era a história quando comprei, mas não vai ficar lá parado por muito tempo. Prometo ler e tratar o Oskar com carinho.
Beijo! <3
Genteeeeee, adorei! Mas, tem um filme sobre esse livro, não tem? Posso quase jurar que me lembrou muito algo que já assisti! Desculpe-me pela minha ignorância haha.
ResponderExcluirOlha, seu blog está incrível! Você escreve de um jeito que chama qualquer um para dentro de seus textos! Parabéns!
Estou seguindo! Adoraria receber sua visita lá no meu e ficaria mega feliz se seguisse também!
Beijiinhos!
Faz um tempinho que li uma resenha sobre esse livro, mas não fazia ideia de que ele era tão profundo assim. Quer dizer, pelo título meio que dava pra dizer - há títulos que simplesmente fazem nosso coração bater mais forte, que foi o que me ocorreu com A insustentável leveza do ser, por exemplo.
ResponderExcluirCom certeza vou querer lê-lo. Amo livros desse tipo.
Beijo!
Eu tinha colocado esse livro como umas das metas de leitura desse ano exatamente porque já tinha lido coisas maravilhosas a respeito. A forma como você falou sobre o Oskar e sobre o livro em si foi tão doce e apaixonante que eu não vejo a hora de largar o Kevin - que confesso estar sendo quase um tormento - e catar todas as moedas do porquinho pra trazer essa história pra minha casa (e pra minha vida!).
ResponderExcluirUm beijo, Dê <3!
Não vejo a hora de ler esse livro, Dê. Eu já gostava dele antes mesmo de saber do que se tratava, porque eu AMO esse título. Fui ver o filme bem desanimada, mas me surpreendi muito e foram ~tantas emoções~ que quando eu abri a torneirinha o filme chegou ao fim e eu não conseguia parar de chorar.
ResponderExcluirSeu texto só me deixou com mais vontade de conhecer o Oskar em profundidade, o que o filme muitas vezes não proporciona.
"Com Oskar não existe essa possibilidade; ele não entende porque as pessoas têm essa necessidade de superar a dor como se ela fosse um incômodo que dá e passa. Pra ele, toda agonia se repete ao longo dos dias e essa angústia precisa ser honrada, porque o seu pai morreu e isso é um motivo justificável para ser triste. "
Isso me lembra que a dor precisa ser sentida, e OUCH!
beijos
Estou há muito tempo de olho em "Extremamente alto & Incrivelmente perto" mas sempre acabo comprando outro livro no lugar dele. Não sei bem o motivo de fazer isso, visto que só li textos positivos para ele. Ou, quem sabe, por não estar bem preparada para encarar a história de Oskar. Acho que o que acontece é mais ou menos a mesma coisa que passei com "A Culpa é das Estrelas": estava curiosíssima pra ler mas ficava passando outros livros na frente por não querer sofrer com a história. Vai entender, rs. Mas "Extremamente alto & Incrivelmente perto" já está na minha meta de leitura esse ano, então não há escapatória dessa vez! Espero amar a história de Oskar tanto quanto você. =]
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