sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Fotografia

--- Diga-me o que queres.
--- Você.
--- Já não tem tudo que poderia?
--- Falta-me o principal.
--- Levaste minha dignidade, meu respeito. Ah, e claro, meu coração. O que ainda tenho que queres?
--- Teu corpo, teus gestos, tuas manias, teus porquês.
--- Não te basta minha alma?
--- Quero toda tua essência.
--- E se eu não quiser lhe dar?
--- Terei que lhe tomar.
--- Poderia?
--- Faria.
--- Ah, me deixe seguir. Siga você!
--- Não conseguiria.
--- Que lhe impede?
--- O fato de que não me atrai um mundo em que você não esteja presente.
--- Estás a brincar!
--- Pudera. Quer ver só?
--- Que vais fazer?
--- Cantar uma canção, recitar versos, comprar flores e bombons de chocolate, dar-lhe um anel. Basta-lhe?
--- E o carinho, onde ficou? E o amor, onde jogaste?
--- E isso importa também? Como se dessa parte já não soubesse!
--- Pois não!
--- Então que seja. Prometo-lhe todo o amor que há em mim.
--- Seria o bastante?
--- Pois digo eu, o que ainda tenho que queres?
--- Não preciso.
--- Diga-me! Sou teu por inteiro, de pessoa, espectro e vida. Tudo por ti.
--- Nada por ti.
--- Que ingratidão! Que egoísmo! Que posse de algo! Não dizias que me amavas?
--- Pois te amo. Sou ingrata, sou egoísta, sou possessiva. Que seria isso, senão o retrato do mais legítimo amor?
--- Eu te amo!
--- Para sempre.
--- É só o que lhe peço.

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